– Espere um pouco, Aaron, eu já volto. – murmurei, enquanto corria para fora do restaurante atrás de Caleb. Uma voz racional sussurrava para mim você não devia fazer isso, você não o ama – Cal! – gritei, esperando que ele se virasse para mim.

Consegui.

– O que você quer? – pela primeira vez, seu tom debochado era triste.

– Cal, eu... – engoli em seco. Como diria isso? – Você... Não quero que... – parei. Não sabia como continuar e, por fim, acabei dizendo – Aonde você pensa que vai?

Ele riu; um som triste, mas riu.

– E você se importa comigo?

– Achei que diria “você não é a minha mãe!” – ri brevemente. Aí percebi que eu dissera mesmo isso – Me desculpe, eu...

– Tudo bem – ele ergueu a mão, tipo “deixa pra lá” – Tracie. – ninguém nunca me chamara assim antes – Eu... Quero saber uma coisa.

– O que foi? – murmurei, trêmula. Por algum motivo, a presença dele me deixava nervosa.

– Você me quer por perto?

Não eu quis dizer, mas o que saiu foi um sim meio hesitante.

– Quer dizer – tentei me corrigir –, eu até gosto de você, mas... Você tentou matar meu namorado! – revirei os olhos. Era tão óbvio! – E é arrogante. Persistente. Chato. Irritante. Mas... Eu gosto da sua presença, Cal. Isto é, quando não está irritado. – quase mordi minha língua ao dizer isso. Seria mesmo verdade? Ou seria só para ele ficar mais calmo comigo e não fazer besteira?

Ele sorriu. Um sorriso tão sincero e comovido que quase chorei.

– Tracie – outra vez ele me chamou assim –, eu te amo. Você sabe disso.

– Não sei não. – cortei, trêmula. Mordi o lábio para não falar mais nada.

– Não? – ele sorriu, segurando um riso melódico. Parecia mesmo duvidar de mim (o que não seria surpresa) – Mas... Ah, tá, esquece. Tracie, eu te amo. Eu sempre te amei, mas... Você só teve olhos para o imbecil do Aaron. E eu lamento muito ter feito tudo aquilo com ele.

Aquele era mesmo Caleb Watson que eu conhecia e odiava? Não parecia com ele!

– Cal... – tentei ignorar a parte de mim que achou o sorriso dele totalmente triste e lindo, ao mesmo tempo – Eu...

– Espere, eu quero falar. – ele pigarreou – Tracy, eu vou embora. Não precisa chorar – ele sorriu, e era o Caleb arrogante ao dizer isso – eu voltarei logo. Quero te dar um tempo para pensar, Tracy.

– Pensar? Sobre o que?

– Sobre quem você quer ficar.

– Mas eu... Eu não preciso pensar! – coloquei as mãos na cintura, tentando parecer firme. Mas uma voz na minha cabeça dizia certeza? – Eu sei quem eu quero!

– Então, está me dizendo que, quando eu te toco, isso não acontece? – ele aproximou-se de mim e tocou meu rosto, afagando-o, e abaixou o rosto para o meu. Seus lábios tocaram os meus de leve e ele se afastou – Quando eu te beijo, seu coração não pula do peito? – seu sorriso fez meu coração acelerar, como acelera toda vez que ele está perto.

– Sim, mas... Quero dizer, não! Não acelera!

– Foi o que pensei. – ele sorriu, não acreditando em mim – Até mais, Tracy Sky!

E foi a última vez que o vi pelas próximas seis semanas.

Com a ausência de Cal, meu relacionamento com Aaron ficou mais seguro. Eu podia sair com ele, ir até sua casa, tocá-lo sem ser ameaçada e, se um milagre acontecesse, ele até ia me levar na porta de casa, mas não sem espiar pelo retrovisor de seu Porsche vermelho conversível se tinha perigo por lá. Traduzindo: minha vida voltou ao normal.

Mas a de Peggy não.

Ela praticamente ficou depressiva quando Cal deixou a cidade. Ela achou que tinha errado muito no encontro – apesar de eu garantir que não – e não falou mais com ninguém – além de mim, claro.

Por um tempo, Peggy tentou namorar um cara, mas não deu muito certo. Ele a magoou mais ainda e ela decidiu nunca mais namorar alguém – isso depois de ir pra cama com um dos jogadores da escola e dizer estar loucamente apaixonada por ele um ano atrás, mas isso é outra história.

Peggy não saiu comigo mais. Nem foi à minha casa se arrumar para nada. Sem festas de pijama. Sem encontros combinados – como fazíamos na sexta série quando ela estava gostando de um cara e tentava me arrumar para o amigo dele. E sem melhor amiga também. Peggy não se abria comigo mais, nem com sua própria mãe. Chegaram a interná-la para ver se estava enlouquecendo ou marcaram várias consultas com terapeutas. Mas Peggy não tinha jeito.

Por dias, culpei Caleb por tudo, mas sabia de quem era a verdadeira culpa.

Minha.

Se não fosse por mim, Cal jamais teria ido com Peggy ao restaurante, jamais teria magoado-a e jamais teria se enfurecido e ido embora – para meu bem e mal de Peggy.

Se há alguém a quem culpar, a pessoa se chama Tracy Sky.

Por isso estou fazendo isso agora: pedi um tempo a meus pais – estamos nas férias de inverno agora – e disse a Aaron e a todos que vou passar o inverno na casa de uma tia. Mas é mentira. Vou procurar Caleb. E sei como achá-lo.

Me transformou na floresta após sair de casa. Não preciso de malas nem nada; tudo levará um dia. Uivo por entre as árvores; é o sinal do alfa, assim ele saberá que estou procurando por ele. Ouço milhares de uivos em resposta, mas não é o que eu mais quero – o que mais preciso ouvir.

Caleb Watson as palavras brotam em minha mente lupina. Ouço várias respostas de onde ele foi visto pela última vez.

Norte – não sei onde, especificamente.

Califórnia.

Oeste – também não sei onde.

Seattle.

México.

Cancun. Essa foi dada por uma garota.

Vancouver. O vi lá esses dias mesmo.

Obrigada uivo em resposta. Aumento a velocidade, esmagando o solo sob minhas patas velozes. Achei meu destino.

Disponha, alfa murmuram todos, uivando de volta. Posso saber exatamente onde cada um deles está. Eu sou a alfa, afinal, e sei dessas coisas. Mas eu quero saber onde Caleb está e é só o que importa. Pelo bem de Peggy.

Continuo correndo loucamente até Vancouver. Tenho duas horas de caminhada – isso se usar minha velocidade máxima. Preciso que Caleb saiba que estou procurando por ele, mas se fizer isso, ele fugirá. E sei que ele está em forma humana agora – sou a alfa, lembra?

Chego a Vancouver com dez minutos de atraso. Me transformo em humana novamente e ando cautelosamente até o apartamento onde ele foi visto pela última vez. Posso sentir seu cheiro, ouvir sua voz e seus movimentos, posso vê-lo.

Entro pela janela. Ele está sentado numa cama, olhando algo que tem nas mãos. Um celular, percebo. Meu coração acelera ao vê-lo, vitorioso. Eu consegui.

Ele olha para mim ao me sentir ali também. É óbvio que temos uma ligação e já não é hora para discordar disso. Quando ele olha para mim, assustado, sei que não vai fugir de mim – e para ser franca é isso que eu quero.

– Tracie. – murmura, sem sorrir. Isso não é a cara dele – O que faz aqui?

– Cal. – murmuro, respirando fundo – temos que conversar.