Uhen - Um Humano Entre Nós
22 21 (Tracy)
Corri para meu quarto assim que cheguei em casa. Meus pais nem notaram e eu não queria ser notada. Bati a porta do quarto e fiquei de costas nela, escorregando até me sentar no chão. Coloquei as mãos na cabeça e agarrei meus cabelos com toda força, querendo arrancá-los. Parecia que só uma dor física poderia tirar a dor emocional. Era o que eu precisava, uma dor física, mas não conseguia arrancar meu cabelo. Então cravei as unhas em meu braço e esperei as lágrimas rolarem.
Caleb sempre fora um completo idiota. Eu sempre o odiara, desde que ele conquistou todas as garotas com seu jeito despreocupado e seu sorriso sedutor. Mas eu nunca pensei que talvez eu tivesse odiado Caleb porque ele era irresistível. Eu amo Aaron, realmente o amo, e odiei Caleb com todas as minhas forças quando Aaron terminou comigo. Mas acho que foi bom ele ter brigado, quero dizer, foi bom ele ter descoberto a verdade. Se ele não a tivesse descoberto, talvez eu nunca contasse e assim teríamos muitos segredos entre nós.
O fato é que eu odiava Caleb – ou pensava que odiava – até que ele se afastou para tentar me atacar e aí ficamos amigos. Mas eu aprendi a amar Caleb, como um irmão – ou era o que eu pensava.
Eu pensava que lobos só se apaixonam verdadeiramente uma vez na vida, e talvez seja verdade, mas me enganei. Eu amo Aaron, mais do que amo a mim mesma, e daria minha vida por ele, mas talvez seja só uma paixão adolescente.
E eu não amaria Caleb se ele fosse o mesmo cara de quatro meses atrás.
O fato é que eu fiquei vulnerável, vulnerável demais, quando Aaron me deixou. Eu me dedicara tanto a ele que esqueci de mim mesma e assim fui como uma garota idiota que sofre quando o namorado popular a deixa, tornando-a uma ninguém.
Mas Caleb estava lá, ele sempre esteve. Mesmo quando tentava me impressionar ou me atacar, ele estava lá. Sua obsessão também, sempre esteve. E como fiquei vulnerável e precisava de alguém, eu me aproximei de Caleb. Ficamos tão amigos que eu e ele nos tornamos um só, sem segredos. E acabei me apaixonando por ele, mas demorei a descobrir.
Era isso que significava se entregar de corpo e alma: Aaron tinha meu coração e já nos entregamos uma vez. Caleb conhecia minha alma, conhecia tudo sobre mim – algo que Aaron demoraria anos para saber.
Talvez por isso eu estivesse tão dividida entre eles.
Talvez por isso eu me odiasse tanto.
Talvez por isso eu não possa ficar com Aaron.
E nem com Caleb.
– Então você e o Aaron terminaram de novo?
Peggy parecia realmente preocupada e, embora eu não quisesse contar, eu devia isso a ela. Mas só acenei com a cabeça e ela parou de perguntar. Talvez Aaron procurasse uma pessoa normal depois que me deu o fora. Talvez eu pudesse viver sem ele.
Mas eu sabia que não. Não conseguiria viver sem ele depois de tudo que passamos.
Depois de todas as promessas.
Depois de todos os encontros românticos.
Depois de termos nos entregado completamente.
– Se serve de consolo, tem outra pessoa mais legal, mais educada, mais bonita e até mais popular te olhando agora.
Eu nem precisei olhar para saber quem era – Caleb, é claro. Ele estava há menos de dois metros de mim, começara a se aproximar calmamente, e já ia me puxar para um abraço e dizer qualquer coisa para me tirar dali e conversarmos.
Ou talvez não.
– Peggy, eu posso falar com a Tracy por um momento? Eu já devolvo ela e vocês podem continuar o papo de meninas.
– É claro. Vão em frente.
Ele deu a ela seu sorriso de sempre – aquele de arrancar suspiros – e passou um braço ao meu redor, me puxando para fora da escola. Abaixei a cabeça, tentando evitar o olhar dos outros. Não queria ouvir o que eles diziam. Não queria ouvir nada.
– Eu queria só conversar sobre... Nós.
Se fosse o antigo Caleb, com certeza ele estaria fazendo provocações, tentando me convencer que ficar com ele era o melhor, como ele era muito mais sedutor e com certeza me faria mais feliz que qualquer humano idiota.
Mas esse Caleb só pediu desculpas. Ele disse que não queria me confundir e sabia que eu amava Aaron, então não iria me obrigar a nada. Nem iria dizer suas qualidades e seus defeitos.
– Sei o quanto você ama Aaron. – repetiu ele. – E sei que eu sofreria com você. Não é nada pessoal, Tracie, mas você nunca vai me amar como ama ele. Mesmo que tenha tido uma recaída e me beijado. Eu te amo, mas eu não quero arriscar, Tracie. Só ficar perto de você pra mim é o suficiente. Dê um tempo ao Aaron, ele vai se adaptar. Eu vou encontrar alguém certo pra mim. Alguém que não preste, assim como eu. – ele sorriu. – Talvez eu até viaje por aí...
– Eu não tive uma recaída.
– Ela só ouviu essa parte, o que devo fazer? – ele bufou, revirando os olhos. – É claro que teve! Você estava vulnerável, então recorreu ao único objeto masculino que conhece: eu. Aí você me beijou e pronto, ferrou tudo! Mas enfim, você estava vulnerável, como eu disse. Eu entendo.
– Cal, eu acho melhor a gente conversar longe daqui.
Segurei sua mão e corri com ele, mas ele logo me soltou. Era quase mais veloz que eu e não precisava que eu segurasse sua mão para correr.
Chegamos a floresta, onde tivemos nossas brigas. Ele parou e se recostou numa pedra, analisando o lugar, como se nunca tivesse estado ali. Eu sabia que ele só estava pensando em qualquer coisa.
– Cal, eu seria tão má se dissesse que quero vocês dois ao mesmo tempo?
– Tipo, você quer um ménage, é isso?
– Não, seu bobo! – dei um riso triste. – Quero dizer que amo vocês dois. Não consigo parar de pensar em Aaron e não posso deixar de desejá-lo, mas ao mesmo tempo eu quero você.
– Se chama charme, gata. – ele sorriu. – Sério, eu vou parar com as brincadeiras.
– O fato é que eu não mereço vocês dois, nenhum de vocês. Eu sou tão ruim que quero os dois!
– Você pode me usar para fazer ciúmes, se quiser, é só pedir.
– Dá pra parar de ser engraçado? É sério!
Ele fechou os olhos e respirou fundo. Em dois segundos já estava com os lábios nos meus e eu não resisti: me agarrei a ele, passei a mão por seu pescoço e mordi seu lábio, arfando. Eu gostava da sensação de beijar Caleb, mas nunca admitira isso.
Ele começou a tirar minha camiseta. Não sei por que, mas não tentei impedi-lo. Eu queria aquilo – ah, e como eu queria! –, então tentei ajuda-lo. Joguei-o no chão e comecei a despi-lo, ao mesmo tempo que ele me despia. Nossa sincronia era quase perfeita e logo estávamos nus e era difícil saber onde ele terminava e eu começava.
Em que ponto eu cheguei? Estou transando com um cara que odiei por parte de minha vida, uma boa parte.
– Tracy... – ele murmurou, arfando.
Eu te amo...
Demorei um tempo para entender que ele não tinha pronunciado as palavras em voz alta, mas quando percebi o afastei e olhei para ele. Não estávamos sob a forma lupina e eu... Eu conseguira...
Eu consegui ler os pensamentos dele.
– Caleb... Você... Você também sentiu isso?
Então um brilho estranho nos envolveu e ele sumiu.
– Tracy? Acorde, criança.
Abri meus olhos e percebi que a luz tinha desaparecido. Minha vó estava sorrindo para mim e na hora fiquei tão surpresa em vê-la que não me perguntei como ela aparecera ali de repente e nem liguei pelo fato de ainda estar nua.
– Vovó! – sorri, abraçando-a. De repente percebi que estava despida e me cobri. – Pode me trazer algo para... A senhora sabe.
Ela riu – uma gargalhada gostosa – e rapidamente pegou um roupão. Não em velocidade sobrenatural, mas uma velocidade normal de humanos.
– Eu não estou entendendo nada. Onde está Caleb?
– Ele está lá embaixo. Todos eles estão.
– Todos eles quem?
– A sua antiga matilha, criança.
– Como assim antiga? Vó, explique tudo, por favor.
– Durante gerações, os lobisomens eram atraídos por humanos, assim eles procriavam e geravam novos lobisomens. Era uma sina, uma maldição. Só quando dois lobisomens se amassem e se relacionassem, a maldição seria quebrada. Mas era raramente que dois lobos se sentissem atraídos e se apaixonassem; era meio que só carnal. Até que Caleb te conheceu. Foi amor a primeira vista e a atração foi inevitável. Vocês demoraram, mas conseguiram. – ela estendeu o sorriso. – Tracy, querida, você quebrou a maldição.
Eu estava boquiaberta. Eu só transara com Caleb, ora essa! Como assim eu quebrara a maldição? Ele e Nina já tinham se envolvido antes e nunca...
Apaixonados e atraídos. Nina amava Caleb, mas ele só sentira luxúria por ela. Comigo não.
Então foi por isso que eu estava atraída por ele. Eu deveria quebrar a maldição. Só isso. Então eu veria Caleb agora e não sentiria nada. Eu poderia voltar com Aaron, poderíamos ser felizes juntos.
– Vó, será que eu posso me vestir? – corei, ainda constrangida. – Eu preciso resolver umas coisas.
Ela assentiu e me deixou sozinha. Tirei o roupão e estremeci com o toque do vento em minha pele nua. Me vesti rapidamente – pela primeira vez na vida, não tão rápido quando desejava – e abri a porta.
Mais de cem pessoas estavam me esperando, sorrindo pra mim.
Eles sorriam, agradecidos, e me cumprimentaram rapidamente. Depois começaram uma conversa dessas do tipo “você se lembra de quando nós...” que eu não entenderia nada, então me retirei.
Caleb estava lá fora, usando uma bermuda e uma camiseta velha. Ele nem percebeu que eu chegara – pela primeira vez na vida. Assim que olhei para ele, percebi que estava enganada: eu não seria feliz com Aaron. Ele era só a maldição me tentando a procriar. Talvez a atração entre nós sumisse. Talvez tudo mudasse agora.
Começando com minha relação com Caleb.
– Oi. – falei, sorrindo. Ele se virou e sorriu ao me ver. Depois veio me abraçar fortemente, beijando meu rosto e meu cabelo.
– Eu fiquei tão preocupado quando você sumiu. Nunca vi nada do tipo, achei que tinha te perdido. Então acordei num quarto de sua avó e te vi dormindo. Ela me deu roupas e pediu que eu me retirasse. Disse que eu entenderia depois. – ele fungou. Só então percebi as lágrimas. – Tracy, nós dois... Nós realmente quebramos a maldição?
– Sim. – murmurei, fechando os olhos. Meu corpo estava jorrando adrenalina. – É o que parece.
– Então... agora você pode ter o que sempre quis, não é? Você e Aaron poderão ficar juntos.
– Caleb...
– Eu conversei com Nina. – ele interrompeu, se afastando de mim. – Ela me disse que sua atração por mim desapareceu! Dá pra acreditar nisso? Ela disse que era só parte da maldição, que ela só estava tentada a quebrá-la. Ela me trocou por um barman. Eu me sinto usado.
– Você vai me ouvir ou não?
– Desculpe.
– Cal, olha, sobre nós...
– Você se arrepende, não é? Não queria ter feito aquilo. Se pudesse voltar no tempo, você não faria...
– Cala a boca, Caleb Watson! – falei, rindo. – Eu só quero que saiba que...
...eu te amo. Completei mentalmente. Me desculpe por demorar a perceber. Mas eu te amo. E é com você que quero estar.
– Eu acabei de ouvir seus pensamentos? – ele segurou-me pelos ombros e riu, gritando um WHOO HOO! – Tracy, sabe o que isso quer dizer?
– Sei. – sorri. – Quer dizer que pertencemos um ao outro.
Ele enxugou as lágrimas – que dessa vez eram de alegria – e me abraçou novamente. Depois ele me beijou, apaixonadamente, como sempre deveria ter feito.
Eu sabia que tinha que resolver mais problemas (tipo Aaron, pais, escola), mas, quem liga? Eu me preocupo com eles depois.
Afinal, eu sou uma loba!
FIM.
Notas finais
espero que tenham gostado :x
Fale com o autor