Uhen - Um Humano Entre Nós
16 15 (Tracy)
Notas iniciais
Se passaram três meses.
Três meses desde que Cal e eu brigamos. Três meses desde que Peggy e seu novo namorado estão saindo – confesso que nunca a vi tão apaixonada; ela definitivamente superou o lance com Caleb e agora pode ser feliz.
Mas não posso dizer o mesmo de mim.
Durante as últimas semanas, consegui me aproximar de Aaron sem ele me ver – embora ele esteja cauteloso quanto minha presença, uma vez que eu posso ser sorrateira –, mas ainda não somos amigos. Nem sei se um dia seremos. E provavelmente eu nunca irei amar alguém como o amo. Pareço uma sentimental, mas é verdade. Aaron é o amor de minha vida desde que percebi as pernas tremendo quando ele dirigiu a palavra a mim. Para Peggy e os outros, eu irei esquecê-lo, mas sei que é impossível.
Uma vez minha avó me contou que lobos são mais ou menos assim. Quero dizer, se apaixonam verdadeiramente uma vez na vida. E eu me apaixonei por Aaron, por isso sei que ele é tudo pra mim. Sei também que Cal acha que me ama, mas a verdade é que ele não suporta a ideia de eu ter escolhido outra pessoa. Um dia, sei que ele encontrará sua cara-metade. Assim espero, porque no fundo eu gosto dele. Percebi isso quando ele se afastou. Cal é como um irmão para mim. Só isso. E eu espero que um dia ele perceba o mesmo de mim.
Por enquanto, não sei o que fazer de minha vida. Peggy me leva para sair com nossas colegas de turma praticamente todos os fins de semana. Eu sempre disse que Peggy era minha melhor amiga, mas agora vejo que ela é a única. Sim, tenho colegas de sala e garotas que eu costumava chamar de amigas, enquanto assistia a filmes de terror nas noites de sexta – principalmente quando chovia – e fazia festas do pijama. Mas elas me abandonaram quando rompi com Aaron e fiquei meio... Estranha.
Mas voltando ao assunto de sair, cancelei com Peggy hoje. Cal prometeu vir aqui ver uns filmes sobre lobisomens. Nos tornamos mais próximos depois que eu quebrei o nariz dele, por incrível que pareça. Cal queria me atacar, mas a verdade é que acabamos pedindo desculpas pelo mal entendido. Ele jurou nunca mais fazer nada que eu não queira e eu jurei o mesmo. O engraçado é que jamais pensei que olharia para Cal e diria que ele é meu novo melhor amigo. E jamais pensei que eu o perdoaria e ele me perdoaria. Mas a verdade é que Cal e eu fizemos as pazes apenas alguns dias depois de nossa briga terrível.
Ouço os passos dele antes mesmo que ele chegue à porta. Com um meio sorriso, desço para abri-la e permitir que ele entre. Ele está – admito – bonito vestindo apenas um jeans surrado e camiseta, mas isso sempre foi assim com ele. Ah, claro, e o cabelo está penteado, o que deve ser um milagre.
– Oi, gata! – ele sorri, nunca deixando de me chamar assim. Ele ergue o DVD que tem nas mãos e passa por mim – Me atrasei?
– Não, eu estava... – suspirei – Eu nem tomei banho, Cal.
– Tudo bem, você parece ótima! Onde estão seus pais?
– Quando descobriram que você estava a caminho, eles meio que fugiram. Querem que nós fiquemos à sós. – revirei os olhos e ele riu. Fechei a porta e tranquei, embora não fosse necessário. Ninguém ousaria entrar aqui com Cal e eu (dois lobos fortes) na casa.
– Como se nós fôssemos ficar de pegação. – ele balançou a cabeça – Vamos para a sala.
Passei o braço por seu pescoço e andamos até o sofá. Senti o coração dele acelerar com o toque, mas ignorei. Eu sabia que o que ele mais queria era um momento romântico, mas não era por isso que eu cederia.
Nos sentamos lado a lado no sofá logo após Cal colocar o filme no aparelho. Ele tomou o controle de minhas mãos para selecionar a cena, logo após os créditos iniciais.
– Cal?
Ele ergueu as sobrancelhas, sem tirar os olhos do filme.
– Você me perdoou mesmo, né?
– Se você perguntar de novo, será a centésima primeira. – ele sorriu, coçando o queixo. Sua barba, notei, estava visível, mas era porque meus olhos são muito bons. – Tracy, já faz três meses. É claro que perdôo! Eu gosto de sermos amigos novamente.
– Tá certo. – sorri, pousando o rosto em seu ombro – Eu senti saudade de você.
– Eu também. – ele esfregou minha bochecha e roçou os lábios lá – Mais do que imagina. Agora quero ver o filme.
– Tudo bem, Peg, eu vou na sua casa depois da aula. – falei, olhando para meus próprios pés, indo para casa. Peggy tagarelava sem parar numa inútil tentativa de me animar.
– Tá bom e... – ela parou de andar e eu parei também. Acompanhei seu olhar até a porta de minha casa perto da floresta...
E vi Aaron recostado nela com as mãos no bolso.
– Eu te ligo depois. – falei e andei até ele. Ver seu sorriso fez meu coração acelerar de novo, as mãos transpirarem e as pernas tremerem – Oi.
– Hey! – ele passou a mão pelos cabelos castanhos que eu tanto amo – Por acaso você tá me evitando?
– Eu é quem devia perguntar isso, né? – suspirei – Desculpa. Você tem todo direito de me evitar depois... Do que aconteceu entre a gente.
– Eu não estava evitando você. – falou calmamente, recolhendo o sorriso.
– Ah, claro! – revirei os olhos – Claro que não estava.
– Não estava, não. Só estava... Confuso.
– Sobre o quê? – cruzei os braços, tentando não fazer a voz falhar. Se ele dissesse que me odiava, eu morreria.
– Sobre... Nós dois. E sobre isso.
Aí ele me puxou pelo braço e colou sua boca na minha, envolvendo-me com os braços fortes. Hesitante, agarrei-me a seus cabelos, prendendo-me a ele.
– Aaron. – ofeguei – O quê foi isso?
– Acho que foi um beijo, né? – ele riu, me abraçando fortemente. Soquei seu ombro, mordendo o lábio – Senti saudade.
– Eu também.
– Vem cá. – ele abriu a porta de minha casa – Temos muito a conversar.
– Mas... E Peggy?
– Acho que ela se assustou com o beijo.
Me virei para trás e vi que ela sumira. Com medo de ser um sonho, acompanhei Aaron até a sala, fechando a porta quando entramos.
– Olha... – comecei, hesitante. Meu coração estava a mil por hora – Eu só quero me desculpar por...
– Tracy. – ele murmurou, me fazendo parar. Só o tom de sua voz, doce e macia, fez com que eu sentisse adrenalina pelo corpo. – Eu sou o culpado por tudo. Tá? Eu não agi com você como deveria. Eu fui um cretino. Nunca devia ter magoado você. Na verdade, nós dois erramos, mas eu errei mais. Você estava certa. Escondeu para me proteger e eu, em troca, te tratei mal. Mas percebi que não posso viver sem você e quero que...
– Tracie, tem alguém aí? – Cal, que descia as escadas, perguntou. Ele dormira em casa depois da noite de filmes, então eu tive que sair para comprar nosso café-da-manhã, pois estávamos sozinhas, e aí encontrei Peggy e ficamos conversando. Ela implorou para eu sair com ela depois da aula de terça-feira.
Mas é claro que Aaron não sabia disso. Quero dizer, sobre Cal estar em casa. De modo que ele alternou os olhos entre Cal e eu e disse, confuso:
– Muito bem, o que Caleb Watson faz aqui?
Fale com o autor