Uhen - Um Humano Entre Nós
12 11 (Tracy)
Notas iniciais
– Posso muito bem viver minha vida sem Caleb Watson! – retruquei, saindo furiosamente da mesa de jantar e indo para meu quarto. Pisei nos degraus com muita força, fazendo-os ranger. Me joguei na cama e afundei a cara no travesseiro.
Era o terceiro dia desde que Graham Watson me avisara do desaparecimento de seu filho e eu já estava ficando frustrada com meu pai dizendo que o melhor para mim é ir atrás dele e conquistá-lo blábláblá. Puxa vida, eu tenho um namorado perfeito e não preciso da porcaria de pessoa que é Caleb Watson! – apesar de um jato de adrenalina jorrar em mim toda vez que o vejo.
Peggy continuava arrasada, mas eu estava feliz da vida! Aaron e eu finalmente tínhamos nos entregado e eu não ouvia mais ameaças de ninguém! E sempre que as coisas estão boas, Cal vem estragar, mas dessa vez ele não pode fazer nada! E isso é tão bom que nem dá pra acreditar!
– Tracy, você precisa ver isso! – Peggy disse, trêmula. Senti sua mão apertar meu braço com força enquanto eu guardava os livros no armário. – Olhe logo!
– O que foi agora, Peg? – me virei para onde ela olhava e senti o chão sumir.
Caleb Watson. Na escola. Com uma garota totalmente esquisita – magricela, rosto em forma de coração, olhos azuis, cabelos claros e longos.
– Ele voltou! Ele voltou! – ela disse, choramingando – E tem uma namorada! Ai, meu Deus! E agora, Tracy?
– Calma, Peg. Você prometeu seguir em frente, lembra? Esqueça esse filho da mãe e seja feliz. – falei, piscando repetidas vezes, não acreditando no que via.
– Tracy! – Cal sorriu, segurando a mão da garota – Você está tão magnífica! Ah, como senti saudades! – ele passou a mão em meu rosto, mas eu me esquivei – E olá para você também, Peggy! Deixe-me apresentá-las à minha querida amiga. Pessoal, essa é Nina.
Nina? Uma garota do tipo dela não merecia um nome assim. Guardei essa conclusão para mim e apenas sorri, desconfortável. Peggy encolheu os ombros e resolveu sair de perto, correndo para o banheiro – onde eu sabia que ela ia chorar, mas não pude segui-la porque Nina fez um comentário sobre mim.
– Pensei que ela fosse apenas uma humana. Você não me disse que ela era a alfa!
– Como é? – perguntei, encarando-a com as mãos na cintura.
– Sou da sua matilha. Mas não sabia que você era a alfa. O Cal aqui não me disse nada sobre você ser uma loba.
– Não pensei que precisasse. – ele fez um carinho no rosto dela e beijou-a de leve – Afinal, nós dois...
– Ah! Você está aí! – uma voz que eu conhecia bem demais os interrompeu. Aaron aproximou-se de nós e me envolveu com os braços, ficando imóvel ao ver Caleb – Você voltou. E de namorada nova. Legal.
– Bom te ver também, Aaron. Essa é Nina. – Caleb sorriu, os olhos flamejantes.
– Apresentações à parte, Aaron e eu precisamos ir. Vejo vocês por aí. – peguei a mão de meu namorado e arrastei-o para fora do colégio. Ainda tínhamos mais uma aula, mas eu estava disposta a matá-la se fosse para ficar longe de Caleb.
– O que foi isso, gata? – ele perguntou, olhando para trás – Algum problema?
– Sim! Caleb Watson, eis o problema! – rosnei, apertando os olhos – Ele voltou para nos infernizar.
– Pensei que você não ligasse muito para a presença dele.
– Não ligo. Desde que ele fique longe de mim.
Aaron riu, claramente não percebendo o perigo em que estava. Ele não podia saber, é claro, mas se Cal continuasse por aqui, poderia ameaçar e até matar meu namorado – e eu juro que se ele fizer isso eu o mato!
– Olha, gata, eu preciso voltar para minha aula. Eu te vejo por aí?
– Claro. – tentei sorrir – Amo você.
– Amo você também, gata. – ele me beijou rapidamente e voltou para a escola.
Passei as duas semanas seguintes recebendo ameaças visuais de Caleb. Quando nos transformávamos para caçar, ele me enchia de pensamentos sobre o que faria com Aaron caso eu vacilasse com ele – o que significa que se eu não saísse com ele para estudar depois da aula quando ele bem entendesse, Aaron morria. As mesmas ameaças... Mas dessa vez ele tinha Nina para ajudar. Ela parecia não levar muita fé em minhas ações, mas jurava atacar Aaron se eu magoasse Caleb – aposto que ele estava por trás disso, mas não pude comprovar nada.
Até que eu finalmente explodi.
Era noite de sexta-feira, e eu estaria com Aaron se Caleb não me mandasse mensagens de texto loucamente para encontrá-lo e conversarmos como duas pessoas civilizadas – um eufemismo para discutir, claro. Temendo pela segurança do homem que eu amo, aceitei a proposta e saí de casa mais cedo, inventando uma desculpa para Aaron para não sair com ele nesta noite – algo que eu recompensaria depois, claro.
Encontrei-o em frente à casa de Aaron, perto de uma árvore que “guardava” a garagem. Ele estava terrivelmente lindo num jeans e camiseta e tênis velho, mas resolvi ignorar isso. Percebi que ele não estava com Nina em seus flancos como sempre e isso foi bom.
– Sua guarda-costas está de férias? – ironizei, cruzando os braços. Tentei assumir uma pose de líder que eu era, mas não consegui.
– Resolvi dar uma folguinha à ela. Mas hoje à noite eu recompenso sua ausência. – ele deu um sorriso malicioso – Você será bem-vinda se quiser se juntar à nós. Soube que não é mais virgem.
– Cale a porcaria da sua boca e diga o que você quer comigo. – ordenei, furiosa. O sorriso cínico dele me dava nos nervos.
– Terei que repetir outra vez que se você extrapolar comigo, seu namorado morre?
Fiquei calada. Não podia dizer nada – não porque não quisesse, pois eu queria, mas não consegui; o medo percorreu meu corpo, me dando calafrios. As imagens da noite do ataque me assombravam dia e noite. Não podia permitir que algo acontecesse à Aaron de novo, assim como não podia contar à ele a verdade sobre mim. Se ele descobrir que eu sou a líder do lobo que o atacou... Não posso nem imaginar o que aconteceria.
– Pelo visto, não. Bom. Você aprende rápido.
– Se você encostar um só dedo num fio de cabelo dele, eu juro que acabo com você! E seu papai e sua querida amante guarda-costas não estarão lá para te defender! Seremos só você e eu.
– Adoro quando você quer ficar à sós comigo, Tracie. Mas seus planos parecem diferentes do meu, que envolvem uma cama.
A fúria estava transbordando em mim. Mais um deslize e eu o ataco. Só mais um deslize... pensei, tentando me controlar.
– Você até parece enciumada com a Nina. Sabe que eu só tenho olhos para você, não é? Até sua amiga Peggy sabe disso. Ela é bem... Como posso dizer? Provocante parece a palavra certa. Mas ela não chega aos seus pés, querida loba branca.
Mais um deslize. Só mais um.
– Você devia ter visto a cara dela quando a deixei sozinha no restaurante. Tão... Digna de pena! Ah, Tracy, pobre garota!
– Cale a boca, seu inútil! Ou eu mato você!
– Quero ver você tentar. – sorriu, desafiando-me – Venha, Tracy. Tente me atacar.
Minha fúria por Caleb naquele momento era tanta que não parei para pensar e nem verifiquei se tinha alguém me vendo ali, embaixo da árvore gigantesca em frente à casa de Aaron, e me transformei. Cal começou a rir, descontroladamente e eu fiquei sem entender. Afinal, qual era a graça?
– Tracy, Tracy. Toda vez que fica bravinha, se transforma. E dessa vez, você cavou sua própria cova. – ele fez um gesto em direção à janela do quarto de meu namorado.
Curiosa, eu olhei.
E senti um soco no estômago ao ver Aaron boquiaberto, chocado, me fitando. Sua expressão de fúria misturada com pânico e choque foi o que bastou para me deixar arrasada. Porque ele sabia, ele sabia!
Caleb saiu de perto, rindo, e eu, ainda sob a forma lupina, corri.
Aaron me odeia, me odeia!, pensei, correndo mais ainda. Corri de volta à minha casa e me transformei em humana de novo. Pulei a janela do quarto e me joguei na cama, chorando. Então é isso: o segredo que lutei a vida toda para esconder, foi revelado. E para a pessoa que eu mais amo, aquela que mais temia o que sou...
Me afogando em lágrimas, corri até minha escrivaninha e tirei de lá um papel de carta e uma caneta. Rabisquei as palavras – que saíram num borrão – rapidamente.
Se ainda quiser falar comigo, sabe onde me encontrar – e sabe o número. Desculpe. Eu te amo. Tracy.
Sequei minhas lágrimas, coloquei o bilhete num envelope, botei o envelope na boca e pulei a janela. Outra explosão de calor – sou uma loba agora.
Corro meio sem destino no início; sei que não serei bem-vinda na casa onde já foi meu refúgio, mas preciso correr e chegar até lá; chegar até ele. Minhas patas esmagavam o chão, triturando pedrinhas no caminho. Eu sabia como chegar lá, estava sendo guiada por meu coração – que estava despedaçado.
Cheguei à sua casa rapidamente, mais rápido do que esperei. Fiquei apoiada apenas nas patas traseiras e andei até a janela – fechada. Com a pata dianteira, bati na janela – certo, arranhei – e deixei o envelope lá. Me escondi atrás das árvores com ajuda da escuridão e observei.
Aaron abriu a janela e olhou em volta da casa. Pegou o envelope e abriu-o para ler. Enquanto isso, observei seu rosto. Os olhos estavam cheios de água, com círculos vermelhos em volta. A linha dura dos lábios queria dizer que estava bravo ainda. Mas isso apenas o deixou mais lindo enquanto partia meu coração.
– Tracy? – chamou ele, trêmulo. – É você? Você tá aí?
Saí das sombras e me aproximei lentamente. Podia ver cada detalhe de seu rosto com perfeição, mas ele não podia me ver, ainda não. Sorrateiramente, fiquei embaixo de sua janela e ergui a cabeça. Ele se afastou um pouco, chocado, provavelmente não acostumado com minha forma lupina, e colocou a mão no coração. Apoiei as patas na janela enquanto ele olhava dos lados, verificando se mais alguém nos via. Se aproximou lenta e cautelosamente. Hesitante, colocou as mãos em minha cabeça, sentindo meus pelos e segurando-se neles. Ele demorou-se no toque e aproximou minha cabeça de seu peito – como fazia quando éramos humanos (quando eu era, no caso, porque ele é normal) –, apertando-me com força.
– Eu prefiro que esteja sob a forma humana para conversarmos. – murmurou.
Assenti, saindo de perto e me transformando. Entrei em seu quarto e ele fechou a janela em seguida. Nos sentamos em sua cama para termos a conversa que mudaria nossas vidas – mas eu ainda não sabia disso.
– Então... Você é uma deles.
– Não, eu não sou... – parei, respirando fundo – Eu nasci assim, Aaron. Herdei essa... Maldição de minha avó. E serei assim até morrer.
– Caleb sabe. Por que contou para ele e não para mim? – ele perguntou, tentando manter a voz firme. Mas eu sabia que estava decepcionado.
– Eu não contei. Caleb é um lobo, foi ele quem te atacou. – falei, nem me importando se Aaron mataria Caleb. Eu acho que desejei isso por um momento. – E eu sou a alfa, a líder. Então, os lobos me acham.
– Quer dizer que... Esse tempo todo... Você sabia. Sabia quem era e nunca fez nada? Tracy, por que você nunca me disse? Por que nunca se abriu comigo?
– Eu... Eu só quis proteger você. – gaguejei, trêmula. – Se você soubesse, estaria em perigo e eu... Eu nunca quis isso.
– Não é isso! Você nunca confiou em mim! Nunca! Todos esses anos, eu sempre contei tudo pra você! Eu contava tudo! E você não confiou em mim! – agora ele estava totalmente furioso – E que se dane essa droga de alfa!
– Aaron, não era isso! Você não entende? Se você soubesse, você correria risco porque quem quisesse me atingir, iria atrás de você!
– Pare com esse papo de super herói porque você e eu sabemos que não é isso! Você tinha medo. Medo de que eu abandonasse você. Tá feliz? Conseguiu! Sai daqui, Tracy! Me deixa em paz! Tá tudo acabado! E a culpa é sua!
Saí pela janela, em lágrimas. Me transformei e comecei a correr de volta para casa, sem saber o que fazer agora.
E a culpa é sua!
Isso ecoou em minha mente por horas.
Notas finais
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