— Acorde seu molenga! – dizia uma voz agradável e conhecida – Vamos garoto! Não temos tempo a perder! Temos que chegar ao outro lado da cachoeira antes que esses balões estourem.

Meio atordoado Russel abriu os olhos e viu a figura de Carl Fredericsen parado bem diante dos seus olhos puxando uma casa voadora presa por uma mangueira de jardinagem amarrada em seu peito como uma mochila, era uma figura curiosa.

— Sr Fredericsen? – perguntou atônito – é o senhor mesmo?

Carl sorriu e ajudando o garoto a se levantar respondeu:

— Claro que sou eu! Quem pensou que fosse? Uma narceja? Agora vamos, há muito chão para andar e muito o que fazer.

— Espere! Só pode ser um sonho! – disse Russel afastando Carl – o senhor está morto! Um homem, o Sr Higher me telefonou hoje...

O cenário escureceu e mudou, estava dentro de uma igreja, à sua frente perto do altar havia um caixão aberto e em volta dele não havia ninguém, Doug, o velho Doug estava sentado olhando para o alto com uma expressão entristecida.

— Mestre... por favor... diga alguma coisa? – sussurrava em sua voz mecânica – mestre...

Russel se aproxima para ver dentro do caixão, o peito apertado, o coração acelerado e a respiração profunda, quem estaria dentro do caixão?

A imagem foi se aproximando lentamente até que foi possível ver um rosto, não era Carl Fredericsen que jazia naquele caixão, era...

— Como ousou me deixar lá para morrer? – disse uma foz forte se erguendo do caixão – Eu, Chales Muntz! O maior de todos os aventureiros! Você Deixou a aventura morrer Russel, por isso irá morrer também!

Russel acordou assustado com a sensação de que estava sendo agarrado pelo pescoço, o alarme do celular ressoava alertando que alguém estava ligando, olhou para a tela do aparelho e se deparou com uma mensagem de texto.

Lhe espero em meu escritório às 11:00 a.m – Phill Higher

Já eram 10:00 da manha, Russel espreguiçou, e se lembrou que não havia avisado ao pai que não iria trabalhar naquela manhã, já havia começado o expediente, se não ligasse para avisar com certeza a bronca seria bem pior.

— Alô? Pai? – perguntou esperando por gritos e represálias – Aqui é o Russel.

— Você está atrasado – disse sem demonstrar emoção alguma – irei descontar do seu salário, mais alguma coisa?

Russel respirou fundo, e segurou o impulso de gritar tudo aquilo que estava segurando já há muitos anos, depois de um longo suspiro completou.

— Não irei pro trabalho hoje, o Sr Fredericsen faleceu ontem de manhã e o advogado dele me procurou para que eu resolvesse os preparativos.

— ... (silencio) tudo bem, mas segunda feira quero que chegue mais cedo na empresa – o telefone fica mudo e Russel desliga.

Seu pai seria insensível assim para sempre? Pelo menos uma vez na vida ele não podia esquecer um pouco o trabalho e se importar com outras coisas como quando ele era mais novo?

Carl Fredericsen havia sido como um pai para ele nos últimos anos, sempre que podiam, se sentavam na calcada em frente a uma sorveteria para tomar sorvete e apostar quantos carros vermelhos ou azuis passariam, era uma brincadeira infantil e sem sentido, mas era sem duvida os melhores momentos dos dias.

— Sabe Russel, acho que devemos tirar a poeira do “espírito de aventura” e colocá-lo para voar novamente – se lembrou de Carl comentando na ultima vez que foram tomar sorvete – Você está bem diferente daqueles tempos, está mais magro e mais alto também, usa essas camisas brancas e está sempre engravatado, mas sinto que ainda é o mesmo garotinho aventureiro que conheci há alguns anos, sabe, as vezes sinto falta daqueles tempos...

— É... – respondeu enquanto encarava para seu sorvete que derretia naquele dia quente – Sr Fredericsen...

— Me chame de Carl! – disse enquanto apontava para três carros azuis que passaram pela rua – contei três azuis nesse tempo que você pareceu cochilar encarando o sorvete, está ficando enferrujado heim garoto.

— Carl... Meu pai me procurou esta semana...

— O velho finalmente percebeu que você existe? Já não era tempo! O que ele disse? – apontou mais dois carros azuis que passaram pela avenida que nos últimos anos se tornou movimentada – ahá mais dois azuis! Acho que estou ganhando! Está tudo bem com você Russel? Por que está chorando?

Russel limpou o rosto com as costas das mãos e explicou a situação, disse que o trabalho era cansativo e ocuparia toda a sua semana, não havendo mais tempo para aventuras, não haveria tempo sequer para que tomassem sorvete como costumavam fazer, na verdade o Sr. Hamada havia proibido Russel de se encontrar com Carl, dizia que era perda de tempo e que esta amizade o estava afastando das prioridades: o trabalho

— Vamos garoto! – disse Carl se sentando do meio fio já com um pouco de dificuldade – você era doido pra passar um tempo a mais com o seu pai, quem sabe esta não é a oportunidade que estava esperando?

Russel tentou se animar, mas há muito tempo não conseguia ficar feliz como antes, há alguns anos, se candidatou para ser um monitor do grupo de escoteiros do qual fazia parte, aquilo era algo que o fazia feliz e lhe dava motivos para estar sempre alegre, porem ao saber disso o seu pai começou a levá-lo para a empresa com ele todos os dias, mesmo para deixá-lo sem fazer nada a não ser imprimir e separar papéis, em uma mesa que em breve se tornaria sua oficina de trabalho.

— O que quero dizer Sr. Fredericsen... – tomou ar para dizer uma das piores coisas que diria na vida – é que tenho que crescer! Assumir responsabilidades! Não posso mais ficar por ai com a cabeça nas nuvens pensando em aventuras! Isso já passou! Eu tenho que cuidar da minha vida, e o senhor também precisa cuidar do que resta da sua.

Tinha que ser duro, seu pai havia ameaçado de internar Carl em uma instituição psiquiátrica caso ele não se afastasse, depois que sua esposa Mary Hamada faleceu, o pai de Russel ficou ainda mais afastado, Russel não queria ficar longe de Carl, mas seria melhor assim.

— Sabe, acho que você tem razão... – disse Carl se levantando e tirando poeira das calças – você esta crescendo, e eu já estou muito velho para “sair em aventuras” – um longo e constrangido suspiro se seguiu – na verdade te chamei aqui hoje para dizer que estou me mudando para o asilo Oak Lakes, não tenho mais condições de morar no dirigível, quero que providencie um lar para os cães que restaram, a maioria foram adotados ou estão recrutados pela policia ou pelos bombeiros, quase todos acharam um lar, mas eu queria que você ficasse com um filhote em particular – Carl assobiou e um filhote de labrador saiu de dentro da sorveteria ao seu encontro – esse aqui é o Doug II, filhote do Doug que acompanhou a gente no paraíso das cachoeiras lembra? Quero que fique com ele.

— Oi mestre! – disse Doug II, com a mesma voz mecânica de Doug – Prometo estar sempre ao seu lado!

Russel se emocionou enquanto abraçava o filhote.

— Obrigado Sr. Fredericsen... – disse tentando conter as lagrimas que teimavam em cair – Muito obrigado mesmo, o senhor não sabe o quanto é importante para mim...

— Está tudo bem filho, se quiser fazer como eu fiz e se livrar desse troço barulhento – disse apontando para a coleira – fique a vontade, mas imaginei que fosse preferir deixar assim, para se lembrar do velho Doug... E pare de me chamar de Sr. Fredericsen, já disse para me chamar de Carl.

Carl estava sorrindo, aquilo só fez com que o coração de Russel doesse ainda mais, depois daquele dia, Russel buscou os cães que haviam ficado com Carl e providenciou lares para eles, nenhum deles com exceção de Doug II usava as coleiras de fala, Carl achava que aquilo tirava a essência de ser cachorro, depois de algumas semanas Carl se mudou para o asilo Oak Lakes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.