Tão longe do sol

1 Capitulo 1: Bem-vindo a Drakhty!


Mais um dia comum, acordei no meu beco, no meio de alguns trapos do que um dia foram edredons, algumas ratazanas correram assustadas com os movimentos, as pessoas passavam sobre o sol, sem nem olhar para o lado ou sentir a insignificante presença de um garoto de rua, eu era invisível, e nem precisava de mágica para isso.

As coisas iam bem, o melhor possível considerando os fatos, mas ao menos nesta manhã nenhuma das minhas coisas sumiram misteriosamente ou algo parecido, levantei, arrumeis meus trapos e fui até a lixeira procurar o café da manhã. Este era meu beco preferido, no centro da cidade, entre uma loja de doces e uma loja de roupas, as chances eram grandes de conseguir comida, ou até alguma roupa nova. Quando cheguei até a lixeira alguém apareceu na porta dos fundos da loja de doces.

-- Bom dia Mewt! – Disse Godric, ele era um velho muito alto, se abaixava para passar em qualquer porta normal, era careca, e devia pesar algumas toneladas, seu grande orgulho era a loja de doces e seu lustroso bigode de cowboy. – Ainda nessa situação garoto?

-- Pois é, Godric, estou esperando algum velho rico, dono de uma imensa loja de doces me adotar. – Falei.

-- Você é sempre muito engraçado. Vamos, pegue aqui! – Falou me entregando uma caixa com meia dúzia de suas rosquinhas de chocolate, as melhores rosquinhas de Tun! – Já disse varias vezes, eu não posso simplesmente te colocar pra dentro. Por que você não se torna um Sun?

-- Você é sempre engraçado, Godric. Eu não posso simplesmente me colocar pra dentro! – Falei e sai rindo.

Tun é uma cidade comercial, no litoral de Drakhty, milhares de pessoas passam por aqui todos os dias, apressadas com seus serviços, reuniões, caçadas, missões. Drakhty não é uma terra comum, a muito tempo atrás, seres dos mais diversos tipos começaram a andar sobre nossas terras, e então as pessoas não se viram mais seguras, todas as noites, podemos escutar ao longe o uivo solitário de um lobisomem, as praias são habitadas apenas por alguns aventureiros, corajosos o suficiente para encarar o encantos de sereias, alguns até atribuem clarões repentinos no topo de uma montanha ao ódio flamejante de um dragão, mas todos sabemos que dragões não chegam tão perto de cidades, eles odeiam humanos.

E foi diante desses novos habitantes que muitos humanos se viram de mãos atadas, segundo as histórias antigas, quando tudo começou, a população humana foi reduzida a um quarto do que era, e foi ai que surgiram nossos grandes heróis e salvadores, os Sun’s, guerreiros dos mais variados tipos, gênios em batalhas, os responsáveis pela humanidade manter seu posto no topo da cadeia alimentar. Hoje são muitos, as crianças nascem com o sonho de se tornar um Sun, eles vivem nos centros das cidades, em luxuosas mansões, todos juntos, dizem que faz parte da profissão.

-- Senhor Mewt, eu já lhe disse que não podemos aceita-lo na ordem. – O velho porta-voz da ordem dos guerreiros de Tun era sempre muito cordial, ele era magro e tinha no máximo tamanho para entrar em uma roda gigante sem acompanhante.

-- Cara! Qual é! Eu não consigo fazer mais nada nessa cidade, me deixa entrar, nem que seja para eu morrer no primeiro dia! – Essa era, provavelmente, a décima vez que eu estava ali está semana.

-- Desculpe, não queremos nos responsabilizar pela morte de um incapaz dentro de nossa ordem. – Virou as costas e saiu, meu único desejo no momento era agarrar aquele paletó cinza e bater no velho até ele me deixar entrar, mas acho que isso não resolveria meu problema.

E aqui estou eu novamente, na rua, sem perspectiva alguma de vida, o sol me fazia suar, tanto quanto a noite me congelava, eu estava no meio de uma multidão de pessoas, mas era como se eu estivesse sozinho, ninguém se quer olhava para mim, ocupadas demais em suas vidas, o centro da cidade é o lugar onde as pessoas menos vivem, todas estavam ali apenas ocupando espaço.

Eu moro na rua desde meus 12 anos, desde a noite em que meus pais foram estraçalhados por um ogro selvagem, isso era comum, o mais impressionante é o fato de eu estar vivo, 6 anos depois, contando está história. Conheci poucas pessoas que me estenderam a mão, mas muitas que me olhavam como se eu fosse o pior monstro existente, Godric da loja de doces era um bom homem, mas foi aqui, nas fazendas ao sul de Tun, que eu reencontrei algo parecido com afeto.

-- Oi menino. – A velha Clotz era a dona de uma pequena fazenda, quase no fim do território de Tun, era baixinha e gordinha, sempre usava um turbante na cabeça, embora, alguns garotos brincavam, ela quase não tinha mais cabelos. – Conseguiu algo hoje?

-- Godric me deu uma caixa de rosquinhas, trouxe algumas pra senhora.

-- Mas está caixa está fechada, você não vai comer?

-- Já comi, ele me deu duas caixas hoje. – Menti. – Como anda a plantação? Aqueles duendes ainda estão por aqui?

-- Como sempre, eles são uma verdadeira praga! Pequenos demônios! – Ela abriu um sorriso. – Você podia cuidar deles para mim, não acha?

-- Bem, minha agenda está vazia no momento, então acho que sim.

-- Ótimo! Quando acabar te darei alguns trocados. – Ela falou e voltou para dentro de sua casinha. Ela um lugar bem humilde, quase nada se comparado aos seus vizinhos extravagantes, uma casinha de um cômodo, alguns metros de plantações simples, a velha cuidava de tudo sozinha.

Não era a primeira vez que eu cuidava dos duendes para Clotz, eram pequenos homenzinhos, o maior que eu já vi tinha 30 centímetros, usavam roupinhas coloridas, uma vez me contaram que existe uma cidade de duendes logo abaixo de Tun. Mas se livrar deles era complicado. Eram velozes e espertos, mas não perdiam a oportunidade de pegar uma moeda. A armadilha era bem simples, uma gaiola cheia de moedas, e uma corda para eu puxar e estava feito.

O plano era inocente, mas sempre funcionava, depois de armada não demorou muito para eles aparecerem, de todas as partes, corriam furiosos em direção a gaiola e trocavam socos quando chegavam juntos, era uma cena muito engraçada, um puxão e estavam presos. Cerca de uma dúzia de homenzinhos, centenas de xingamentos por minuto, arrastei a gaiola até uma plantação bem grande de um vizinho qualquer e os soltei. Trabalho feito, voltei para a casa da dona Clotz.

Agora estava tudo bem silencioso, o barulho da cidade não chegava ali, chamei ela algumas vezes e ninguém respondeu, então entrei na casa. Era a primeira vez em todos os anos que a conheço que eu entrava ali, era uma casa bem pobrezinha, a poeira dava a tudo um tom cinza, e o cheiro de coisas velhas pairava no ar, estava tudo apagado, nenhuma luz ou vela acesa.

-- Você tem que ir embora! – Era a voz de Clotz, ela parecia preocupada.

-- Acalme-se minha velha, o menino já está aqui. – Falou uma segunda voz, era masculina e parecia muito velha e cansada.

-- Aqui dentro?! – Clotz pareceu zangada. – Ele nunca entrou, por que entraria hoje? – Escutei passos e pulei para trás de um sofá velho. – Viu, ninguém aqui. – A velha apareceu por uma cortina no fim da sala.

-- Vamos garoto, saia daí, não sei como ela não te viu. Pelo sol Clotz! – A segunda voz era um senhor muito elegante, usava um chapéu coco e paletó preto, sem barba ou bigode, aparentava ter no máximo 50 anos, mas sua voz trazia uma estranha frieza.

Sai de trás do sofá, Clotz ficou muito surpresa, escutei por alguns minutos uma bronca sobre invadir a casa dos outros enquanto o homem gargalhava. Mostrei a gaiola vazia para ela depois disso e ela me entregou alguns trocados.

-- Onde pensa que vai? – Falou o homem enquanto eu saia pela porta. – Essa conversa acabou de começar, eu vim assim que fiquei sabendo de você.

-- De mim? – Falei surpreso. “Um exímio caçador de duendes” comentou Clotz.

-- Senhor Mewt, seu nome aparece no registro de varias ordens de Sun’s por toda Drakhty, nunca foi aceita por nenhuma, por que a insistência? – Perguntou.

-- Eu não tenho nada melhor pra fazer, então gasto meu tempo livre enchendo aqueles pobres velhos que atendem os visitantes. Aliás, quem é você? – Tomei um tapa na nuca de Clotz pela falta de modos, ela insistia na necessidade deles.

-- Creio que esse não seja seu real motivo. – Falou o homem, e então ele estalou os dedos e a casa se iluminou, a poeira foi varrida de tudo, e os sofás se moveram fazendo os três se sentarem.

-- Você é um bruxo? – Perguntei estupefato.

-- Acho que alguns chamam assim, eu sou Mogut, mago da ordem real de Drakhty, segundo conselheiro do rei, e ministro das ordens magicas.

-- Parece importante. – Falei, e mais um tapa.

-- Estou buscando novos talentos, queremos formar uma nova ordem de Sun’s, algo que eleve o nível dos caçadores, um novo parâmetro. – O homem abriu um sorriso ao dizer as últimas palavras.

-- Bem... Comigo provavelmente estará desperdiçando seu tempo. – Falei, me levantei e sai. Pude ver a tentativa de Clotz de me segurar, e o gesto com o dedo na boca de Mogut pedindo silencio.

Quando sai, fui surpreendido, parado bem ali no meio da plantação, um monstro enorme, era impossível ninguém telo parado ou o escutado até ele chegar ali, ele parecia tão confuso quanto eu, mas era real. Parado diante de mim, um Minotauro, com quase 3 metros de altura e chifres que provavelmente eram maiores que eu.

-- Pegue-o. – Falou Mogut para mim, mas parecia mais uma ordem para o monstro, que no mesmo momento me atacou com toda sua fúria.

Rolei para o lado, consegui apenas ver o velho bruxo conjurar uma proteção na casa da velha Clotz, e então uma grande nuvem de poeira subiu com o impacto do monstro no chão. Meu coração estava acelerado, eu estava suando demais, o monstro rugia e partia para cima de mim, eu conseguia apenas desviar, quase que por milagre eu não fui acertado nas primeiras tentativas.

Mogut gritava dicas parado na porta da casa, mas eu não entendia nada, até que pulei para um lado e finalmente o monstro me acertou uma patada no meio do peito, cai de costas no chão, sem ar nos pulmões, tudo ficou escuro e antes de apagar escutei “Talvez ele não tenha o jeito mesmo.”