Tyson Bones e a Caixa de Pandora
2 Capítulo 2 - O Nascimento do Rapaz Isqueiro.
Bom, tudo ocorreu razoavelmente depois do incidente, exceto pelo fato de todas as pessoas apontarem para mim com um olhar incrível, quer dizer, não é todo dia que te chamam de “O sobrevivente da Montanha-Russa”, minha fama durou pouco, muito pouco mesmo, em menos de uma hora todos os integrantes de minha escola já souberam do incidente – até mesmo quem não havia comparecido, o número de e-mails aumentou rapidamente em apenas uma hora -, fiquei me perguntando se Jack estava nervoso ou frustrado, por não ter visto a cena e por eu não ter morrido. A nossa vice-diretora, Senhora Laura Green, assustou-se demais com o evento e imediatamente ordenou para todos entrarem no ônibus, para irmos para casa. Gray não parou de me encher o saco enquanto esperávamos na fila do ônibus, ele dizia sempre como foi espetacular o jeito que eu fiz a montanha-russa pegar fogo, parecendo aqueles filmes antigos de ação. O ônibus lotou e novamente, não consegui nem sequer chegar perto de Lucy, muito menos receber um elogio ou até mesmo ver ela, o número de pessoas barulhentas e irritantes cresciam muito rápido, pessoas que eu nunca vi na vida apareceram e me perguntaram como os buracos se abriram, outras me perguntaram se deu medo, e um nanico da sexta série pediu um autógrafo. Depois de meia-hora conferindo a lista de alunos, a senhora J. ordenou para o motorista e fomos embora, voltando para o ponto de partida.
O trânsito estava cada vez maior, demoramos o dobro do tempo para voltar do que para ir, a maioria dos alunos estavam com raiva e alguns, me fazendo perguntas feito doidos e idiotas. Quando finalmente avistei Lucy para puxar um assunto, um monitor do ônibus nos informou que estávamos chegando, ele era alto, tinha cabelos azuis – algo extremamente bizarro para um monitor de ônibus, o pior que o azul dele era extremamente berrante – e tinha cerca de vinte anos, um rapaz novo. Descemos conforme nossa turma e pela ordem de chamada, como eu estou na letra “T” fui um dos últimos. Depois de certo tempo, finalmente foi minha vez de descer do veículo, ignorei todos rapidamente e fui imediatamente para o banheiro retirar a água do joelho, sabem como é, quando a natureza chama, não tem como ignorar, a escola estava cheia de alunos fazendo curiosos e descontraídos, tentando arranjar uma desculpa para voltar no parque um dia desses, pena que a nossa vice-diretora prometeu que nunca íamos retornar. Adentrei o box e fiz minhas necessidades básicas, acho que não tenho que lhes informar mais detalhe sobre essa coisa íntima.
Assim que saí de lá, fui lavar minhas mãos em uma pia velha e enferrujada que havia no banheiro – talvez, a única que funcionasse. -, queria muito ir para casa e dormir, talvez esquecer esse papo todo de carrinhos lança-chamas, mas eu não conseguia, sempre que eu inventava uma desculpa esfarrapada, um problema maior ainda aparecia, pensei em estar sonhando, mas certamente um dia o povo vai me lembrar disso, pensei em estar louco e ver coisas, mas como meu amigo, Gray, estaria tendo a mesma loucura que eu? Fiquei refletindo enquanto lavei minhas mãos, eu queria fazer o fogo sair de novo, tentei por vários minutos, mas não saiu nada, talvez realmente tivesse pensado asneiras. Saí com meus pensamentos fixos e confusos, procurei ao redor por alguém conhecido e não achei ninguém, nem Lucy, nem Gray, nem nada, só pessoas chatas e barulhentas, fiquei com fome. Coloquei minha mão no bolso esquerdo do meu jeans – não tive tempo de trocar minha roupa para o uniforme antes de chegar, e eu não seria louco a ponto de fazer isso no ônibus, com várias pessoas olhando – e achei alguns trocados, o suficiente para comer alguma coisa, talvez um hambúrguer.
Fui para a cantina comer algo enquanto não recebi a bandeira verde para ir embora, ainda olhando atentamente para os lados procurando meus amigos, eu resolvi experimentar novamente uma antiga sensação, uma sensação de orgulho, peguei um frasco de pimenta no refeitório e bebi. Minhas forças foram imediatamente recuperadas, ganhei energia, muita energia, poderia dar dez voltas ao redor da escola e nem sequer derramar um pingo de suor, poderia levantar cem caminhões – ou pensar que poderia, a sensação era realmente incrível, o melhor energético que já tomei -, poderia até mesmo ficar anos sem dormir, terminei de beber o frasco, joguei ele fora e fui sentar em uma mesa de carvalho próxima. Após um longo tempo sentado sem fazer nada, a nossa coordenadora permitiu para irmos embora, ainda com certas indecisões e interrogando certos alunos, consegui escapar sem uma única irritação.
No caminho eu percebi um numero elevado de ambulâncias, algumas pessoas estavam sendo levadas em macas, outras mortas e um tanto de gente sendo acolhido em cobertores e tremendo, pensei-me naquela situação, seria terrível. Até eu completar o percurso para minha moradia não notei diferença alguma, o trânsito estava realmente grande e várias pessoas preocupadas, acho que poderia ser a situação perfeita para o Armageddon. Chegando a minha casa e percebi que a porta estava aberta, adentrei com rapidez, não tinha ninguém, só minha mãe andando pra lá e pra cá preocupada, quando ela finalmente notou minha presença veio me abraçar e chorar sobre meus ombros.
Pensei que você estava morto, quer dizer, olhe essas ambulâncias! – Disse ela.
Estou vivo né? Porque veio cedo? – Respondi
Suspenderam o trabalho mais cedo, houve muitos acidentes.
Aceitei essa idéia numa boa, para ter tantos mortos assim ou seria um ataque terrorista ou acharam um suprimento de urânio e saíram distribuindo para os moradores.Minha barriga roncou.
Ligue o fogão enquanto eu me troco, vou preparar algo para comer. – Disse minha mãe.
Eu obedeci, fui calmamente até a pequena e tranqüila cozinha recém-limpada – mania de minha mãe, quando tem algo que dê motivo de preocupação ela começa a limpar -, andei até o velho fogão de família e tentei ligar, mas o problema é que antes de eu apertar o botão, acabei colocando meu indicador esquerdo – sim, eu sou canhoto – no mesmo, fiquei horas observando a cena, eu tocando o fogão. Mas algo realmente surpreendente aconteceu, saiu uma pequena brasa avermelhada da ponta do meu indicador, ela foi até uma das seis bocas do meu fogão e o ascendeu, sem necessitar apertar um dos botões. Realmente, não dava pra esquecer isso, eu ganhei uma espécie de super-poder ou sofri uma radiação grande, era bom, realmente bom.
No dia seguinte fiz a mesma rotina chata de sempre, me troquei, comi algo e fui embora para o colégio com Gray, contei para ele o ocorrido da tarde-passada e ele se surpreendeu.
Precisamos te dar um apelido, algo que possam te chamar sabe? – disse Gray.
Não preciso disso, ninguém nem sequer sabe da minha habilidade. – eu respondi.
O caminho foi o mesmo, passamos por umas quatro ou cinco avenidas, paramos em uma loja de eletrônicos – existia um vídeo-game novo que eu queria comprar, mas não tinha dinheiro – e ficamos circulando um pouco a cidade antes de ir para a escola.
Lá também mudou nada, tivemos matemática nos dois primeiros períodos, depois no terceiro português e por fim, o intervalo. Eu estava começando a ficar totalmente entediado com meu dia, sem nada legal, sem queimar nada, eu não conseguia fazer nenhum tipo de fogo surgir novamente, porém houve uma coisa um tanto divertida.
No intervalo eu comprei um Hambúrguer simples que estava no cardápio, passei bastante pimenta e abocanhei, a pimenta me fazia muito bem. Até ai tudo bem, mas nos exatos quinze minutos do intervalo o tédio veio a tona, procurei alguma coisa para fazer e passar o tempo, até que vi um grupo de estudantes da oitava série tentando acertar uma cesta de lixo com papeis amassados – que pareciam provas. Falei para Gray me acompanhar, conversei com os garotos de lá e entrei na brincadeira.
Não consegui acertar nada, nada mesmo, sempre a bolinha de papel batia em uma das bordas do lixo e caía pra fora, estava começando a ficar irritante isso, uma coisa é não ter coordenação ou uma mira que seja pelo menos boa, agora outra coisa é tu ser azarado mesmo a ponto de acertar nenhuma coisa.
Comecei a acumular raiva, mas não uma raiva normal, e sim uma raiva grande, como eu não podia acertar um alvo fácil e simples como aquele? Foi nas três jogadas depois que sem querer, acendi uma das bolinhas de papel com fogo, chamas azuis saíram de minha mão – que nem aquelas que ficam no fogão, são azuis certo? – queimaram a bolinha de papel e sem eu perceber, taquei-a no lixo. Só depois que a prova amassada caiu no lixo eu percebi a idiotice que eu fiz, o cesto de lixo inteiro começou a lançar uma fumaça acinzentada no ar, uma fumaça densa e forte, ele começou a soltar brasas e antes de um minuto, estava pegando fogo.
O zelador disparou pelos corredores e com uma agilidade grande, retirou um extintor de um dos pilares que sustentavam o teto do refeitório, arrancou o lacre, apontou o extintor para o lixo e usou o mesmo, um grande jato branco foi no fogo e depois de vários minutos tentando-o fazer cessar, finalmente as chamas se extinguiram. Com um suspiro satisfeito, o zelador soltou o extintor no chão e olhou para mim e Gray com uma expressão raivosa.
Já para a diretoria, vocês dois, AGORA!- Gritou ele.
Espere, por que só nós dois? Virei para trás para procurar todos os outros garotos e não havia ninguém, é engraçado como todos desaparecem misteriosamente quando existe encrenca no ar. Fomos para a diretoria e lá esperei a nossa coordenadora, eu estava preocupado se o povo tinha me visto lançando uma bola de fogo no lixo, preocupado em obter uma suspensão ou algo do gênero. Depois de meia hora sem fazer absolutamente nada, só ficar esperando a abençoada da moça, ela finalmente chegou. O primeiro a entrar foi Gray, o esperei enquanto contava a versão da história, rezei para a minha e a dele serem parecidas. O tempo passou enquanto fiquei sentado, mas passou de vagar, o relógio acima de minha cabeça fazia um Tic-Tac extremamente irritante, a tábua do local fazia barulho quando pisávamos em cima e as paredes não eram feita de cimento, era uma mistura de gesso com alguma outra coisa qualquer. Finalmente Gray saiu com um ar espantado, como se não esperasse de jeito algum as falas da nossa coordenadora, ele me fez um sinal de que está tudo bem com a mão, mas eu sabia que era exatamente o oposto, tínhamos no metido em uma encrenca, e das grandes.
Entrei na salinha da coordenadora com calma, era extremamente pequena e só cabia três ou quatro pessoas, tinha uma mesa do tamanho da sala separando os alunos da superior, no teto tinha um ventilador quebrado e uma lâmpada que iluminava pouco. Sentei na cadeira vermelha de frente para a mesa e ela começou.
Acho que sabe por que está aqui, não? – Perguntou ela
Senhora, realmente foi sem querer – Eu respondi, estava com medo que ela soubesse da bola de fogo e das coisas que eu conseguia fazer.
Então trazer um isqueiro para a escola, colocar fogo em uma bolinha de papel com ele e depois jogar no lixo foi sem querer? – Ela retrucou zangada.
Isqueiro? Realmente não esperava por essa, fui confirmando a história menos prejudicial a minha ficha escolar, o tempo passava e mais perguntas surgiam, ficou decidido que eu comprei um Isqueiro enquanto vinha pra escola, estava com ele na mão e quando joguei a bolinha de papel, sem querer a queimei e joguei no lixo.
Bom, como o senhor não tem nenhuma reclamação ainda, terá suspensão de um dia. – Ela deu o veredicto.
E o meu amigo Gray? – perguntei.
Ele ficará sem nada, foi você que ateou fogo no lixo, você que trouxa um isqueiro para a escola e você que vai pagar o castigo.
Eu confirmei zangado, fui até a sala de aula, vários olhares curiosos me observaram enquanto eu caminhava, o zelador passou por mim com um ar satisfeito – talvez só para me irritar mesmo, eu e ele tínhamos uma briga antiga -, cheguei na sala, expliquei para o professor que iria ser suspenso por um dia, arrumei minhas coisas na mochila branco-pérola e desci com rapidez, já poderia imaginar a sessão de perguntas que viria logo em seguida. Assim que cheguei próximo a coordenação, um garoto ruivo – que por sinal, era do grupo que encontrei no cesto de lixo – me parou, e logo disse.
Olá rapaz isqueiro, quer queimar alguma coisa?
Tentei ignorar o garoto, talvez se eu ficasse com raiva novamente o local inteiro iria pegar fogo, entrei na sala de espera com rancor, larguei minha mochila em uma cadeira próxima, cheguei perto de Gray – que ainda estava lá, iria voltar para a sala só no próximo turno – e disse em uma voz baixa, que só ele conseguisse ouvir.
Lembra aquilo de apelido que você sugeriu?
Ele olhou para mim surpreso, não esperava que eu se lembrasse disso, muito menos que eu aceitasse um apelido, então fez me fez uma pergunta.
Qual é?
Que tal, rapaz isqueiro? – Eu respondi, Gray fez um gesto de afirmação com a cabeça e disse que o apelido era legal, mas eu não achava, imagine sair no telejornal qualquer dia desses com um codinome desses? Os bandidos iam rir, mas acho muito melhor do que o outro apelido que Gray tinha me dado outra hora, cabeça de fósforo.
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