Tyson Bones e a Caixa de Pandora

3 Capítulo 3 – Dias ensolarados.


Certo, meu apelido era um lixo, sinceramente um lixo, mas se era para ter um, não conseguia pensar em nada melhor. Meus dias no colégio Jorgely passaram tranqüilos, parece que ninguém mais reconhecia meu verdadeiro nome e muito menos quem eu era somente me chamavam de “O Garoto do Lixo” ou “O Rapaz Isqueiro”, não que isso me incomode muito, mas a minha imagem poderia estar em sérios apuros, quer dizer, poderia ser algo mais legal como “Incinerador”, ou “Lança-Chamas”, mas tinha que ser esse ridículo que estão me chamando agora?

Tem mais, sempre que faço algum show pirotécnico com as mãos ou até mesmo faço uma pequena chama no meu indicador, alguém vira para mim e me pergunta como que eu conseguia trazer isqueiros para dentro da escola sem ser pego, aquilo já estava bastando, por que só eu e Gray tínhamos noção daquilo? Aliás, o número de ambulâncias foi realmente estranho, poderia ter mais uma pessoa igual a mim, outra a quem em pudesse recorrer talvez um parente ou irmão desaparecido, nem mesmo parente tinha que ser só ter mesmo o dom que eu tenho já está suficientemente bom.

Fora isso, tudo ocorria bem, nunca mais precisava me preocupar em jogar lixo nos cestos, eu simplesmente queimava-os com minha própria mão, nunca mais precisei me preocupar em fazer pipoca e esperar muito tempo no microondas, comer comida congelada e entre outras coisas, eu simplesmente tinha tudo que eu precisava para tratar esses assuntos, eu mesmo.

No noticiário da TV só mostrava casos e mais casos de pessoas desaparecidas, mortes, ferimentos, estupros, o índice de criminalidade estava crescendo consideravelmente, talvez eu devesse mostrar para eles o menino fogo, assim eu esquentava um pouco as coisas e tudo isso parasse. Mas tinha um problema, um problema grande, eu não era a prova de balas, poderia facilmente perder essas coisas, então deixei essa idéia para lá, pelo menos até eu descobrir como evitar tiros.

Mesmo que eu tentasse controlar meus poderes ao máximo às vezes aconteciam pequenos incidentes, uma vez na rua, Gray estava tentando empinar uma pipa para seu irmãozinho de dois anos de idade, ele me pediu para segurar a linha enquanto foi pegar uns refrescos, bem, vocês já sabem o que veio depois, certo? Acabei espirrando, com isso a linha da pipa acabou pegando fogo e foi subindo, incendiou-o e quando Gray voltou, cinzas estavam caindo em uma rua distante.

Outra vez eu fui à churrascaria com o povo da classe, um homem alto e corpulento estava fazendo a comida na churrasqueira, mas quando ele foi ao banheiro fazer coisas que homens não podem evitar, eu cheguei perto da churrasqueira, simplesmente fiquei vendo o fogo dançar de baixo da carne, quando toquei na churrasqueira, as chamas aumentaram e incendiaram o objeto todo, depois ela já virou cinzas o fogo se dissipou, nem vou lhes contar a reação do cozinheiro.

Outra coisa que me deixa bastante empolgado, dias ensolarados, desde que ocorreu o incidente comigo na montanha-russa não ouve um pingo de chuva sequer, as nuvens estavam se escondendo e o sol raiava mais forte que nunca, sempre que eu olhava para o sol me sentia super animado, talvez eu fosse mais forte quando fazia sol.

A suspensão foi outra história, fiquei um dia fora da escola e ainda me sentia super feliz, exceto por minha mãe me por de castigo e me forçar a ir para escola no dia seguinte aos berros, fora isso, tudo bem. Agora vou narrar um incidente que ocorreu umas duas semanas depois da suspensão.

Eu já tinha feito todas as coisas que citei antes, estava voltando da escola e chegaria a minha casa após caminhar por uma ou duas avenidas. Gray, meu melhor amigo, estava me acompanhando, mas é estranho que ele sempre parava para conversar com uma mulher bonita quando visse uma, ele estava agindo estranhamente.

Nossa rotina continuou normal até virmos um caminhão de bombeiros passar em disparada ao nosso lado, garanto que se eu estivesse perto do incidente com certeza me culpariam ou me chamariam de aberração, mas essa é a vida, perde-se tudo, ganha-se quase nada.

Eu e Gray estávamos extremamente curiosos com aquilo, atravessamos a avenida e fomo até uma pracinha local, aonde tudo que tinha ao redor eram lojas de bairro e pequenas moradias, depois de pouco tempo avistando o céu azulado, encontramos uma linha de fumaça não muito longe dali, decidimos ir ver, só para descontrair um pouco.

Caminhamos por várias ruas até chegar lá, a fumaça negra subia no ar com mais freqüência, colunas de mormaço pairavam no céu azulado, seja lá o que os bombeiros estavam fazendo não era uma boa coisa, ouvíamos gritos e pessoas correndo conforme chegávamos perto.

Um prédio bem no meio de Brooklin estava em chamas, uma onda de fuligem cercava tudo e vários bombeiros entravam no prédio com mais freqüência, jatos de água eram disparados em vários locais, repórteres surgiam e helicópteros rondavam o local, a cena era desesperadora.

Tomei dianteira, andei alguns passos antes de tentar algo e por fim, fiquei de frente ao prédio, o fogo parecia fazer cócegas e era confortante, parecia mais um gato doméstico ao invés de um leão pronto para matar, tal calor me fez sentir em casa. Gray gritou para eu sair, não dei bola alguma, apenas fui andando mais depressa em direção ao prédio, eu parecia mais confiante, com certeza das minhas ações, mas de repente, fui queimado.

Uma brasa acabou queimando de leve meu braço, nada extremamente grave, mas queimou, me perguntei o motivo de tal reação, mas o ar em minha volta pareceu pesar a fumaça me sufocava, eu estava prestes a morrer, cada vez mais perdia o fôlego, fiquei desesperado, minhas esperanças sumiram, mas do nada, minha salvação foi um bombeiro bastante atlético que me puxou pela camisa e me levou em segurança ao lado de Gray, o fogo me feriu, seria uma faca de dois gumes?

Você está legal? — Perguntou Gray

Fiquei um tempo atordoado no chão, pensando, refletindo, quando me coloquei de pé e fitei minha frente, o prédio ainda ardia em chamas avermelhadas, eu estava ficando preocupado com meu dom, ele me abandonou? Estiquei os braços e tentei sugar um pouco o fogo para eles, apenas pequenas chamas vieram para ele e fizeram cócegas, o número aumentou rapidamente e eu não agüentei, estava vindo fogo de mais, minhas mãos arderam imediatamente, quando estava prestes a gritar, o fogo parou de vir, eu admiti estar derrotado.

Então o fogo não era um aliado, era uma faca de dois gumes, por que ele me atacou? Não sou seu dono? Pois bem, me levantei com as mãos fumegando e quis ir embora sozinho, quis deixar os bombeiros lá, meu amigo lá, o fogo lá, pois se eu não posso controlá-lo, por que adquiri esse poder até agora? Saí andando calmamente, Gray entendeu que eu não estava em uma boa hora no momento, eu tinha perdido um bom aliado, algo que me deixava anormal, meus poderes.

Fiquei vagando sem rumo até chegar a um ponto de ônibus próximo do local, a essa altura o corpo de bombeiros devia estar com a missão realizada e meu amigo indo embora para casa, esperei por minutos, refletindo, pensando, sonhando, eu queria controlar colunas de fogo, algo mais quente, talvez até mesmo lava. Foi quando meus pensamentos aprofundaram que um ônibus totalmente vazio chegou ao ponto, o ponto estava lotado e ninguém pareceu agir como se o veículo existisse, olhavam para qualquer lado fora ele, e olhe que tal ônibus é muito esperado! Resolvi subir sozinho, retirei uns trocados do bolso e paguei a passagem, queria ir embora cedo.

No meio do caminho, o humilde motorista de cabelos brancos me pediu para sentar em um banco próximo, naquela hora eu estava muito decepcionado para pensar em qualquer coisa, roubo, assalto, seqüestro, nem sequer me preocupei com isso, apenas sentei em um banco dourado próximo do motorista, mas a conversa não aconteceu.

As ruas se moveram como feixes de luz, o ônibus estava rápido de mais, os bancos vazios e limpos, parecia estar recém-comprado, mas os detalhes não eram nem um pouco novos tinham aparência de quando os deuses ainda existiam, os bancos eram todos revestidos com ouros, o teto com prata e o piso tinha camadas de bronze, até mesmo as catracas possuíam alguns rubis presos.

Aquilo era um assalto, só podia, mas pensando melhor, que tipos de ladrão assaltariam alguém com tanta riqueza assim? Fiquei imaginando tudo isso enquanto o cenário passava com velocidade ao meu redor, o motorista parecia olhar para mim e ao mesmo tempo para a estrada, não sabia ao certo aonde ver, só sabia que estava sendo vigiado.

Depois de meia hora vagando no veículo alado, conseguimos em fim nos aproximar do meu destino final, ninguém subiu no caminho para lá, o motorista nem sequer parou em um ponto, ele apenas vagou, com um rumo definido e sem pressa, mas vagou.

Quando estávamos menos de vinte metros de distância, o velho barbudo virou para mim e disse.

Está com problemas não é? Vejo seu rosto triste. – Disse ele

Apenas má sorte – Eu respondi.

Má sorte? Uma tremenda má sorte, ganhar algo precioso e perder era o mesmo que jogar seu bem mais precioso fora agora mesmo! Experimente fazer isso para ver se não é doloroso. O motorista ficou quieto por um bom tempo, apenas quando eu desci do ônibus ele me falou certas palavras.

Espere Tyson, logo tudo fará sentido. – Ele me avisou.

Bom, acabei de sair de um caminhão revestido com metais e pedras preciosas, ele soube meu nome e até então... Espere! Como ele soube meu nome? Tyson? Eu nunca lhe contei que eu me chamava assim, nossa conversa foi apenas de duas frases, será que ele podia ler a mente das pessoas? Algo bom não era, pois pouca gente que eu conheço em dois segundos memorizam meu nome, ou melhor, advinham.

Virei-me para ver o ônibus, mas ele não estava lá, uma coluna de fumaça dourada – parecendo ouro gasoso – espalhou-se pelo ar, talvez fosse delírio não, eu estava sonhando, não acordei ainda e logo minha mãe vai me chamar para ir para escola, ou não.

Bom, adivinhem o resto rapazes e mulheres, fiquei estupefato, parado, sem reação alguma, um ricaço de Hollywood acabou de passar por mim, adivinhou meu nome e fez surgirem fumaças douradas, meu dia está ficando cada vez mais confuso.

Fui para casa rapidamente, minha mãe não estava lá, ela tinha acabado de ser promovida no trabalho e por isso ficava lá até um pouco mais tarde, mas ainda eram duas e cinqüenta talvez uma olhada na televisão não me fizesse mal, quem sabe o jornal local não me informaria algo útil? Como o incêndio por exemplo.

Liguei a televisão e fui virando os canais, esporte, notícias inúteis, novela, esporte, mais esporte, nada parecia me agradar o suficiente, fiquei rondando os canais por um bom tempo, até que finalmente encontrei um noticiário, ele falava da Chuva de Meteoros.

“Incidentes estranhos ocorreram desde a chuva de meteoros, como vemos nas imagens a seguir uma cratera enorme surgiu próxima da Ponte do Brooklin, tempestades de areias grotescas apareceram em outros países e no Brasil, um país na América do Sul, teve relatos de algo voando misteriosamente pelos céus, a última chuva de meteoros foi há muito tempo atrás e...”

Desliguei a televisão e deitei no sofá da sala, não agüentava raciocinar uma coisa com a outra, a chuva tinha algo a ver com meus poderes? Talvez ela tivesse dado para mim algo e pensou que eu sou egoísta de mais, claro, eu ainda controlava o fogo, mas ele mesmo me queimou, talvez eu fosse perder meu dom pouco a pouco, até me sobrar mais nada, até eu ser mais um João-ninguém.

Fiquei no sofá roxo de minha casa pensando por um bom tempo, por várias vezes olhei para os quadros dos membros de minha família – que ficavam pendurados em cima da televisão, mania da mamãe, ela adorava muito minha família, especialmente meu pai, que tinha um quadro pouco maior que os outros bem no centro com um retrato dele de quando ainda era estudante -, notei o teto do recinto, cheio de detalhes em azul – não gosto muito de ficar detalhando cores, acho que só existem dois tipos de azul, azul e azul-escuro, só falo as variações se for realmente necessário -, fiquei lá, fechando os olhos de vagar, aprofundando em meus pensamentos, fiquei por um bom tempo deitado, até que finalmente, adormeci.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.