Two Worlds
1 Capítulo I
Notas iniciais
Ela se lembrava exatamente como havia acontecido. Como tudo isso havia começado. Algumas noites até sonhava. De uma forma tão vívida, que era como se estivesse passando por aquilo pela primeira vez. Era difícil distinguir o sonho da realidade. Era como sonhar com uma lembrança. Exatamente assim. Uma lembrança doce, pura... E angustiante. Mas que delícia de angústia! Ela não trocaria isso por nada. Apesar do sono agitado, da insônia, das lágrimas e de todo o resto. Ela sabia que não trocaria.
(Flashback On): Sexta-feira, primeira semana de aula do Segundo Ano (Sophomore).
– Quantas vezes eu vou ter que dizer Santana? NÃO! Eu não posso!
– Quinn, você é tão careta... – Disse uma latina entediada.
– O que? Careta porque eu não posso ir numa festa com vocês? Eu não POSSO ir nessa sexta! Meu Deus, quantas vezes eu vou ter que explicar pra você? – Quinn estava nervosa. Santana tinha essa mania de teimosia, de insistir em qualquer coisa só para desafiar a loira, que já começava a acreditar que a amiga sentia um prazer equivalente a um orgasmo com esse tipo de coisa. – Sinceramente, você sempre faz isso! Só pra me tirar do sério, S. – Ela fechou a porta do armário de forma delicada demais para quem estava impaciente.
– Eu faço mesmo! Pra ver se consigo convencer você Fabray, o que é impossível! Você é muito teimosa... E chata!
– Chata? Quantos anos você tem? – A loira ergueu as duas sobrancelhas, num gesto debochado e quase desafiador. Santana deu um passo em sua direção e respondeu à altura da amiga.
– Diz a garota que nunca fala um palavrão! Sério Q., sua boca é tão limpa que tem cheiro de desinfetante! – Quinn revirou os olhos e virando as costas para Santana, continuou andando. A latina se apressou em segui-la. – Chata é a palavra que melhor se encaixa na situação. Você nem quer que a gente converse com seu pai Quinn! – A loira se virou e encarou a latina.
– Olha S., eu iria na festa se não tivesse planos com a minha família... Mas esse fim de semana é importante pra mim também. A Frannie vai chegar hoje à noite e eu já estou ansiosa. Você sabe como eu sinto saudades dela. – Quinn sorriu suplicante. Santana revirou os olhos, mas acabou sorrindo também.
– Ok Quinn! Odeio dizer que você venceu... Vamos deixar pra próxima! – O sorriso da loira triplicou de tamanho. Era tão bom quando Santana cedia.
– Eu nem sei pra que você quer tanto que eu vá... Vocês duas não esperam nem meia hora antes de sumirem juntas e esquecerem que eu e Puck existimos!
Brittany, que até então estava concentrada num joguinho, ergueu os olhos do celular e lançou um sorriso irresistível na direção de Santana. Aproximou-se da latina e carinhosamente deixou um beijo em seu rosto. Quinn sorriu para as duas.
– Me desculpa por isso Q, mas a Sant é difícil de resistir. – O sorriso da loira aumentou com o comentário da amiga e ela dirigiu sua atenção à latina para ver o que esta diria. Santana apenas sorriu um pouco envergonhada, mas se aproximou de Brittany e acariciando sua bochecha, uniu seus lábios em um selinho demorado. Quinn sorriu levemente e abaixou a cabeça, mordendo o lábio inferior. Ela admirava tanto as duas amigas e em alguns momentos, apenas observando-as, se perguntava quando finalmente encontraria um companheiro. Quando finalmente sentiria todas essas coisas por alguém e olharia para essa pessoa da mesma forma que Brittany e Santana se olhavam. Quinn queria tanto que esse dia chegasse... Mas seus pensamentos se desviaram de repente para outro lugar.
– Ai, droga! – Ela balançou a cabeça negativamente.
– O que foi? – Perguntou Brittany se afastando da namorada.
– Eu esqueci uma atividade dentro do caderno, preciso voltar até o armário.
– Oh, e você lembrou disso agora? – Santana perguntou venenosa.
– Olha Santana, se não fosse por você-.
– Hey! – Brittany fez um gesto com as duas mãos, chamando a atenção das amigas e interrompendo Quinn. – Não, não e não! Vocês não vão começar com isso de novo. –Santana deu um sorriso vitorioso para Quinn, que revirou os olhos. – Q., você quer que a gente volte pra lá com você?
– Não precisa Britt! Podem ir, nos falamos mais tarde. – A loira respondeu sorrindo para a amiga, por seu jeito doce e carinhoso.
Quinn se despediu do casal desejando um bom final de semana e juízo. Santana, ao abraçar a amiga, aproveitou para sussurrar em seu ouvido uma piadinha inconveniente. Só para não perder o costume. Quinn nada disse, apenas levantou uma sobrancelha e encarou a latina desafiadoramente. Em seguida, sorriu com afeto para Brittany. Ao ver as duas sumirem pela porta da frente do colégio, em direção ao estacionamento, Quinn suspirou. Depois de um treino exaustivo e violento de uma tal Sue Sylvester, que faz qualquer um implorar vergonhosamente por uma cama, andar três corredores para buscar uma lição de cálculo era realmente... Um saco. “Oh, meu Deus, por que eu fui concordar com isso?”, Quinn se perguntava. “Ah é, porque eu sou uma amiga CHATA!”. Ela revirou os olhos para si mesma, lembrando-se do momento em que Santana a havia convencido a entrar nas cheerios porque era o que Brittany queria. Essa era a filosofia de vida de Santana, “O que Britt-Britt quer, Britt-Britt consegue!”. Aparentemente, deveria ser a filosofia de qualquer um e de todos, se você sabe o que é bom pra si mesmo. Como se o olhar pidão de Brittany não fosse convincente o bastante, lá estava Satã usando seu linguajar espanhol e sua postura Lima Heights e bla bla bla.
“Eu sou linda e atlética, eu sei. Mas esses treinos acabam comigo, eu não preciso disso pra ficar em forma! Urgh!”. Quinn às vezes era cheia de si. “Tudo por causa daquela loira maluca, viciada em proporcionar a desgraça alheia! Essa bolsa é muito pesada... Meu ombro!”, a líder de torcida pensou, contorcendo o rosto numa expressão de dor. “Deus, meu ombro!”, ela murmurou irritada. E com isso, se deu conta de que a tal bolsa muito pesada poderia ter sido guardada dentro do carro, já que ela se lembrou do tal dever de cálculo quando estava a meia dúzia de passos do estacionamento. A loira bufou, acreditando cegamente que não havia nada nesse dia que poderia irritá-la ainda mais. “Ah, agora eu vou nessa festa! Só para garantir que a Santana não tenha um pingo de diversão e ao invés disso, uma morte lenta e dolorosa! Aquela latina idiota...”.
A garota parou em frente ao armário e deixou a bolsa vermelha e grande, repleta de roupas e acessórios, cair com um estrondo no chão. Ela pouco se importava. O corredor estava vazio. A escola estava vazia! Exceto pelos nerds na biblioteca, pelos “badasses” na detenção e pela capitã das líderes de torcida BURRA! que precisou voltar até o armário para buscar uma DROGA de exercício! Quinn movimentou os ombros pra frente e pra trás e apertou os olhos. Ela estava realmente dolorida. É claro que ela sabia que no dia seguinte, os hematomas e a dor já teriam passado e seria como se nada disso tivesse acontecido. Mas bom mesmo seria se realmente nada disso tivesse acontecido. Isso é outra coisa sobre Quinn, ela sabe ser negativa quando quer. E puxa vida, naquele dia ela estava querendo! Quantas pessoas possuem a habilidade de se curar rapidamente de machucados e anestesiar a própria dor de forma natural? Quinn possuía e era grata por isso, mas naquele momento, a loira só conseguia pensar que seria um saco ter que aguentar seus ombros latejando até a hora de dormir. Ela não tomava remédios e como essa situação era comum, a dor, os hematomas, o cansaço físico por causa dos treinos pesados, ela apenas esperava pelo dia seguinte.
Quinn continuava de olhos fechados quando escutou um som de música se iniciando. Outra habilidade pela qual ela era grata. Ter os sentidos aguçados. Ouvir coisas a quilômetros de distância é realmente muito útil. Algumas vezes é também agradável, Quinn sempre adorou música. Ela esboçou um sorriso, aquele som estava lhe acalmando. Até que escutou uma voz e seus olhos se abriram instantaneamente. Ficou séria e olhou na direção do som. Era uma voz linda. Suave, doce, leve. E ela se deixou seduzir. Quinn se deixou levar porque ela nunca tinha ouvido nada igual. Ela estava hipnotizada e começou a andar na direção da voz. Séria e com os olhos fixos em alguma coisa que ela nem sabia o que era. Seguiu pelo corredor até chegar a uma porta que abriu sem sequer prestar atenção em seus movimentos. Aproximou-se da grade, acima de todas as cadeiras do auditório, e foi quando avistou a dona da voz, que se transformara de suave para forte, era uma voz poderosa. E naquele momento, tudo, tudo em sua vida fez sentido. Ela sentiu com a alma todos aqueles clichês que as pessoas descrevem. As borboletas no estômago, os fogos de artifício, a eletricidade e o arrepio percorrendo cada célula de seu corpo. Seu peito doía de angústia, de felicidade e de alguma coisa muito, muito melhor que Quinn nunca havia sentido antes. Era tão bom e tão exaustivo. Era como se ela estivesse sendo rasgada de dentro pra fora e como se alguém tivesse arrancado seu coração e amassado com força entre os dedos. Ela estava sangrando internamente e agora era seu corpo inteiro que doía. Doía como se algo dentro dela estivesse se transformando para nunca mais voltar a ser o que era antes. Talvez tudo em sua vida a tenha levado até esse momento e cada experiência servia para um único propósito. Chegar exatamente onde ela estava agora. A ferida que o sentimento abrira parava de doer e começava a queimar seu peito e em seguida se espalhou por todo o seu corpo. Como fogo que consome o papel até transformá-lo em cinzas. Por um momento a loira acreditou que fosse virar pó. Ela podia ser destruída ali mesmo, desaparecer para sempre e nem sequer sentiria, porque nada poderia ser maior do que o que ela já estava sentindo. E como se tudo isso não fosse o suficiente, uma última sensação percorria cada pedaço de sua parte humana e cada fibra da sua criatura. E apesar de nunca ter sentido nada disso, Quinn sabia o que era. Ela estava ardendo. Ardendo de desejo. Um desejo puro e doce, carnal e... Selvagem. Todas as sensações que aquele momento estava lhe proporcionando eram demais para Quinn. Ela não sabia se poderia aguentar. E foi isso que a fez fechar a mão direita com tanta força que quase machucou sua palma com as unhas. E então ela repousou a mão ao lado esquerdo de seu peito e apertou, como se isso pudesse lhe trazer algum tipo de alívio e diminuir a dor em seu coração. Com a mão esquerda, Quinn capturou uma lágrima que caía sem permissão. Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu. De qualquer forma, o que ela seria capaz de dizer? Quinn não sabia mais o que eram palavras. Só havia duas que ecoavam sem cessar em sua cabeça: Rachel Berry. E todos os momentos em que ela tinha visto aquela garota passaram como um filme diante de seus olhos. A primeira aula que elas dividiram juntas, quando Rachel se apresentou sem a menor timidez e Quinn apenas respondeu com um pequeno sorriso. A primeira semana dela e todos os slushies que Rachel tomou, devido à tradição idiota dos babacas do time de futebol. E como eles compraram um slushie de uva pra ela tomar no último dia da semana. Quinn se lembrava de ver a garota fechar os olhos com força, esperando pelo líquido gelado que nunca chegou. Ao invés disso, Finn Hudson lhe entregou o copo com um sorriso de lado e falou simplesmente: “Bem vinda ao McKinley High”! Ela se lembra de ver Rachel andando pelo corredor de cabeça baixa, agarrada aos livros, mas abrindo um sorriso enorme cada vez que cumprimentava um professor. E se lembra de vê-la conversando animadamente com sua única amiga, Tina Cohen-Chang. E da forma como Rachel sempre levantava a mão nas aulas para responder alguma coisa. Diante de todos esses momentos, Quinn se perguntou como pode ter sido tão cega... Por que ela não havia sentido algo antes? Rachel estava sempre ali. Ela esteve ali o tempo todo e Quinn não havia sequer imaginado que isso poderia acontecer. Mas aconteceu e era real e era... Assustador! Ela não era capaz de piscar, não poderia fechar os olhos. Ela não queria perder um segundo daquela cena que gritava perfeição, naquele palco que parecia ter sido feito para Rachel Berry, que por sua vez, cantava de braços abertos e com lágrimas nos olhos. E com uma emoção que a loira nunca tinha visto antes. Que a fez derrubar mais uma lágrima, que só foi percebida quando atingiu os lábios carnudos e ela então a capturou com a língua, sentindo um gosto salgado que ela imaginava que sentiria muitas outras vezes a partir desse dia. Um leve sorriso brincou em seus lábios e agora apenas uma palavra ecoava em sua mente: Minha! Minha, minha, minha!
Mas só que ela não era. Rachel era uma garota, e provavelmente hétero. Ela mal sabia da existência da loira e pouco se importava com ela. Ela era uma garota linda e talentosa e com certeza tinha muitas pessoas aos seus pés, por que ela se importaria com Quinn? Com uma garota que não tem nada para oferecer além de medo e insegurança? Rachel com certeza, a veria como um monstro depois de saber da verdade. E como a loira poderia culpa-la? Ela era um monstro e seria sempre, esse era o seu destino. E o destino da morena? Não era com ela... E Quinn, percebendo isso, contorceu seu rosto numa expressão de angústia completamente diferente. A dor em seu coração se transformou em uma dor ruim e insuportável e ela queria gritar. Ela uivou desesperadamente por dentro. Fechou os olhos com força por alguns segundos, evitando que mais lágrimas escapassem. E depois correu. Correu para fora do auditório em direção ao estacionamento. Ao passar pelo armário, fez um movimento rápido para pegar a bolsa do treino pela alça e continuou correndo. Ela já nem se lembrava de lição alguma e isso não importava de qualquer maneira. Quinn só queria sair daquele lugar o mais rápido possível. Então ela continuou correndo, como se não houvesse nada ao seu redor. E ao passar pela porta de entrada do McKinley High, nem se deu conta que chovia um pouco forte lá fora. Ela correu na direção de seu carro, abriu a porta de trás e jogou a bolsa de qualquer jeito no banco. Abriu a porta da frente bruscamente e sentou com força no banco do motorista. Foi então que se tornou impossível segurar as lágrimas. A loira deixou que elas caíssem livremente por seu rosto, já molhado pela água da chuva. Ela encostou a testa no volante e chorou como uma criança. Mas não querendo ser vista naquele estado por ninguém, respirou fundo e ligou o carro. Continuou chorando durante todo o caminho até sua casa. E quando finalmente chegou, agradeceu mentalmente por não ter ninguém ali naquele horário. Estacionou o carro na garagem e entrou em casa de forma completamente mecânica. Se lhe perguntassem, Quinn nem saberia dizer o que estava fazendo. Ela subiu para o quarto, se trocou rapidamente e se jogou na cama, onde chorou mais um pouco, até finalmente pegar no sono.
(Flashback Off)
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Sexta-feira, segunda semana de aula.
Cansada de ficar na cama pensando em Rachel e em tudo o que a morena lhe fazia sentir, Quinn se levantou e foi direto para o banheiro. Retirou as roupas vagarosamente, ela queria e precisava relaxar. Entrou no boxe, ligou o chuveiro e deixou-se levar pela sensação da água caindo em seu corpo... Como seria bom se ela levasse tudo embora. Todo o medo, toda a dúvida, toda a angústia e toda a preocupação. A loira suspirou, fechou os olhos e encostou a testa na cerâmica gelada da parede. Derrubou mais algumas lágrimas, que estavam ficando tão frequentes quando as batidas de seu coração. Ela ergueu a cabeça para cima e deixou que a água caísse em seu rosto. Passou as mãos pelos cabelos, jogando-os completamente para trás. Mordeu o lábio inferior e fechou os olhos com força, numa expressão de dor. Deus, ela não podia aguentar. Ela não suportava mais isso. Quinn novamente encostou a testa na parede fria e não se preocupou em tentar diminuir ou abafar o choro. Dessa vez, ela chorou como uma criança, alto, deixando o sofrimento transbordar. Fechou a mão direita e deu um soco na parede, gritando de angústia e dor. Mais um soco, mais lágrimas e ela se virou de costas e foi escorregando aos poucos até o chão, onde chorou e chorou e chorou.
Depois do que julgou ter sido um banho de quarenta minutos, a loira desligou o chuveiro e se enxugou. Ainda nua, encarou seu reflexo no espelho e suspirou. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Mas ela não conseguia se olhar por muito tempo, estava envergonhada pelos momentos de fraqueza e pela frequente sensação de vulnerabilidade que lhe perturbava. Desviou os olhos e apanhou a muda de roupas que havia escolhido. Optou por uma calça e um agasalho de moletom. Secou o cabelo rapidamente com a toalha e foi saindo do quarto com os olhos fechados, a cabeça inclinada para baixo e fazendo movimentos circulares na nuca. Seu pescoço doía por causa da posição na cama. Ela levantou a cabeça e no momento em que abriu os olhos, eles se arregalaram em surpresa e ela parou instantaneamente no meio do quarto. Franziu as sobrancelhas antes de questionar:
– O que vocês estão fazendo aqui?
Os dois se entreolharam. Judy estava sentada na cama, com as mãos unidas em seu colo. Russell, por sua vez, se apoiava na mesa de estudos, com os braços cruzados. Foi ele quem respondeu:
– Nós precisamos conversar Quinn!
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Notas finais
Peço desculpas por qualquer erro.
Xoxo
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