Twins
1 Capítulo único
Notas iniciais
Espero que gostem.
Por ser uma casa pequena e modesta para uma família grande, eu dividia o quarto com George.
Com outra toalha que peguei no móvel do banheiro, comecei a secar meu cabelo, que estava demasiadamente grande, já que George e eu decidimos deixar minha mãe um pouco doida com isso.
Sai do banheiro e fui para minha cama, que ficava do lado esquerdo do quarto, o canto mais iluminado por assim dizer. George ocupava o outro lado.
Estiquei-me o máximo que pude e liguei o rádio. “Little Boxes” do grupo Walk off the Earth começou a tocar e eu fechei os olhos enquanto batucava lentamente a melodia no batente da cama.
Quando a voz suave da Sara começou a acompanhar a melodia senti que alguém me observava, porem permaneci do modo que estava.
Durante o dia estava com essa sensação estranha a todo o tempo, era como ser vigiado eternamente e isso não era bom, paranóia e Fred não combinam.
A música estava nos acordes finais quando a sensação ficou pesada demais e eu tive que abrir os olhos. Até porque, George não era nenhum santo.
Porem não havia ninguém a minha frente. Disfarçadamente sentei-me na cama e olhei em volta.
— Que porra! – Passei a mão no cabelo devido tamanho susto que levei quando Angelina saiu detrás do armário pulando ao meu lado e sorrindo brincalhona.
— Isso tudo é felicidade em me ver?! – Agora a garota gargalhava.
— Que droga Ang, você não deveria fazer isso. – Tentei controlar ao máximo a respiração enquanto falava.
— E perder o gostinho de te assustar dessa forma? De jeito nenhum. – Sentou-se no acolchoado que ficava aos pés da cama e me encarou. – Você demora no banho heim?!
— Há quanto tempo esta aqui? – Uni as sobrancelhas.
— Tempo o suficiente.
— Suficiente quanto?
— Bom; aparentemente você treinou bastante, tem as pernas muito brancas, precisa tomar um pouco um pouco mais de sol. – Observou. – E aprender a trancar as portas. – Piscou pra mim. – Demorou mais que minha avó em um banho simples. – Começou a contar nos dedos. – Aparentemente não canta no chuveiro, o que é muito estranho e não se dá ao trabalho de se vestir depois do banho. – Terminou com leve aceno de cabeça indicando minha toalha mal amarrada na cintura.
— E nem pra avisar que estava aqui todo esse tempo! – Bufei segurando a toalha para assegurar que ela não iria cair. – Fiquei com a merda da sensação que tinha alguém me vigiando o dia todo pra ser você Ang. – Revirei os olhos.
— Agora vai se fazer de bravinho?! – Aproximou-se rindo.
Sinal vermelho.
Sinal vermelho bem forte, no meio de um cruzamento com dois caminhões vindo em sua direção.
Angelina, sorriso, casa vazia, dia quente, toalha... Não vai sair coisa boa daí.
— Ang, você espera só um pouco que eu vou me vestir. – Desvencilhei-me antes que ela se aproximasse demais.
Caminhei rapidamente até o banheiro e sentei na bancada.
Apoiei o rosto nas mãos e o dia me pareceu ainda mais quente.
Balancei a cabeça tentando afastar todos os pensamentos que estava tendo naquele momento e vesti a bermuda que peguei na pressa de me ver sozinho.
Tentei fazer com que meu olhar não parecesse tão vidrado e sai do banheiro respirando pesadamente.
Angelina ainda estava sentada, mas folheava uma revista que estava anteriormente na minha estante.
Pigarreei para chamar sua atenção.
— E o que veio fazer aqui? – Perguntei assim que ela direcionou sua atenção pra mim.
— Vim te ver é claro. – Piscou. – Mas não esperava encontrar a casa vazia. Quando vi que só você estava aqui decidi aproveitar um pouco.
“É claro”. – Pensei.
Passei as mãos pelo rosto seguindo para o cabelo ainda molhado e suspirei.
— Eu pensei que nós poderíamos... – Angelina se aproximou insinuando-se.
— Não. – Apressei-me a dizer. – Não poderíamos nada. – Dei dois passos para trás e arregalei os olhos.
— O que há com você afinal? – A garota colocou as mãos na cintura e jogou o longo cabelo negro para trás. – Eu venho aqui, estou a sua inteira disposição e me dispensa dessa forma. – O tom de raiva era evidente em sua voz.
Respirei fundo.
“É uma resposta simples”. – Dizia a mim mesmo.
— Me responda. – Caminhou até que ficasse frente a frente e cruzou os braços me encarando.
Fechei os olhos e respirei o mais profundamente que pude.
— Ang... – Comecei.
— Apelidos não vão te ajudar agora. – Sorriu de canto, desafiadora.
— E não quero que ajude. – Desvencilhei meu olhar do dela. – Não há nada de errado comigo. Só estou cansado, você mesma viu que eu treinei demais. – Fiquei de costas e tentei me concentrar em algo que não fosse ela.
— Estar cansado não te impede de estar comigo. – Abraçou-me por trás. – Nós podemos conversar então, ver um filme, ou até ouvir umas musicas. – Rodeou-me de forma que ficasse a minha frente. – Só quero aproveitar um pouco o tempo com você.
Engoli em seco.
Ela estava tão perto, tão perto. Podia sentir sua respiração suave batendo em meu pescoço, e lamentei quando ela tentou aproximar-se mais.
Uni todas as poucas forças que ainda tinha e me afastei devagar.
— Tenho ótimos filmes aqui. – Sorri tentando disfarçar o nervosismo aparente. – Pode escolher qualquer um daquela prateleira. – Apontei. – Os da esquerda são os melhores.
Angelina me pareceu um pouco decepcionada. É claro, esperava outro tipo de reação e com razão.
Sentei na cama e fiquei observando o quão perfeito era seu corpo enquanto erguia os pés para alcançar mais alto. O longo cabelo balançando suavemente pelas costas, delineando ainda mais as curvas ali presentes.
Fui tirado de meus pensamentos assim que ela me jogou um dos filmes com um infantil “Pensa rápido”. O objeto acertou em cheio minha cabeça e não que a dor fosse grande, mas o susto foi.
Levei rapidamente a mão até o local atingido e em menos de um segundo Angelina estava ao meu lado se desculpando de todas as formas que podia.
— Esta sangrando! – Sua expressão era de pura preocupação.
— Não é nada Ang. É só lavar e pronto. – Tentei sorrir para acalmá-la.
— Vem. – Estendeu a mão para que eu a acompanhasse até o banheiro. – Onde têm curativos aqui?
— Segunda gaveta à direita. – Apontei para o armário fora do quarto.
Fui até o banheiro e lavei o local com bastante água.
— Não. Não mesmo, só um curativo e estamos resolvidos. – Apressei-me a dizer quando vi sua imagem refletida no espelho e junto com ela um remédio para machucados.
— Deixe de ser medroso. – Advertiu.
— Não é medo, é amor à vida. – Tentei tirar o vidro de sua mão.
— Não dói. – Girou os olhos.
— Porque não é em você. – Retruquei.
— Vire homem meninão.
— Se ser meninão é não ter que passar isso, serei o resto da minha vida. – Disse em tom zombeteiro e sai do banheiro com Angelina a meu encalço.
— Ficaremos nesse jogo o dia todo? – Parou a minha frente.
— Você que esta jogando, me dê o curativo e estamos resolvidos. Já disse. – Cruzei os braços como uma criança mimada.
— Não acredito nisso. – Sorriu. – Tem medo de um remédio que nem dói.
— Não é medo. – Cerrei os olhos. – É questão de inteligência, se eu posso evitar sentir dor, pra que sentir?
— Inteligência ao contrario, só se for. Você fica sem passar um remédio que nem doer dói, ai pega uma infecção, vai pro hospital, fica internado e – Encarou-me com a expressão mais seria que possuía. – morre.
Não consegui, desabei numa eterna gargalhada.
— Não é motivo de riso. – Cruzou os braços, irritada.
— Ah claro, imagina se você tivesse exagerado um pouco mais. – Respondi ainda gargalhando.
— Sente-se e me deixe cuidar disso. – O tom era tedioso, mas os olhos diziam o quão serio ela estava falando.
Sentei-me a contra gosto e deixei que ela “examinasse” o estrago.
— Não foi nada demais.
— Não, não foi; por isso me dê esse curativo e pronto.
— Fique quieto. – Advertiu.
Foi até o banheiro e voltou com uma toalha molhada, limpando o pequeno machucado que havia ali. Fez tudo com muito cuidado e concentração. Senti seu sopro leve em meu rosto e sorri inconscientemente. Os lábios contraídos em um bico tão angelical quanto sexy.
— E ainda tem a cara de pau de dizer que dói. – Seus dedos pregaram o curativo em minha testa e ela se afastou o suficiente para que pudesse me encarar. – Nem sentiu quando passei.
E realmente não havia sentido, não poderia sentir nada alem daquelas mãos tão delicadas, aquele ar tão doce, aqueles olhos...
— É tão bom estar assim com você de novo Ang. – Deixei escapar enquanto pegava suas mãos para fazer com que seus braços rodeassem meu pescoço.
— Assim como?! – Mordeu o lábio. – Estamos sempre assim. Ou não se lembra?!
Aproximou-se mais e eu quase sucumbi, mas recobrei o pouco de auto controle que ainda possuía virando o rosto a tempo.
Angelina beijou minha bochecha e me olhou desconfiada.
— Assim. – Raspei a garganta porque a voz parecia não querer sair. – Como amigos que sempre fomos. – Segurei-a pela cintura e afastei-a um pouco.
— Eu não estou entendendo George... – Tentou tocar meu rosto, mas a interrompi segurando sua mão.
— Fred. – Disse num longo suspiro angustiado. – Eu sou o Fred.
Angelina deu um meio sorriso, mais por nervosismo do que qualquer outra coisa.
— Fred?! – Afastou-se vagarosamente. – Como assim Fred? Você?... – Levou as mãos à boca em sinal de entendimento.
— Angelina eu... – Tentei.
— Não chegue perto. Eu... – Balançou a cabeça. – Você sabia que eu estava achando ser o George e não me disse nada. Você...
— Queria passar um tempo com você, não pode me crucificar por isso.
— Sim eu posso. – Aumentou o tom. – Posso a partir do momento em que você... – Respirou fundo. – Eu vou embora. – Deu as costas e começou a andar em direção a porta.
— Você não precisa fugir de mim. – Não sabia distinguir o que estava sentindo.
Queria que ela ficasse, queria que ela entendesse, queria... Mas eu sei que o melhor era que ela fosse mesmo, sem olhar pra trás. Mas eu simplesmente não conseguia aceitar essa possibilidade.
— Eu não estou fugindo. – Parou de andar quando sua mão tocou a maçaneta, mas não se virou. – Estou simplesmente te dando às costas e indo embora como você fez naquele maldito baile ano passado. Ou não se lembra?!
As palavras eram duras, e eu sentia a amargura em sua voz. Queria poder dizer o porquê de tudo aquilo, mas eu não podia, simplesmente não ia fazer isso.
— Eu nunca te dei as costas. – Disse baixo.
— Repita olhando nos meus olhos Fred. – Virou-se e me segurei o máximo que pude para não abraça-la e conforta-la nos meus braços quando vi seus olhos cheios de lagrimas.
Calei-me. Não tinha outra saída. Ou me calava ou acabava contando o real motivo de tudo.
— Eu não entendi o motivo de tudo aquilo e sinceramente – Secou uma lagrima que descia do olho direito – não me interesso mais em saber. Se você não tiver mais nada estúpido para dizer, estou indo.
— Eu não queria que fosse assim Ang. – Tentei. – Mas é inevitável.
Ela passou as mãos pelo cabelo como quem pede calma, mas vindo dela, sabia que era um sinal de que ela estava se contendo para não dizer algo. Confirmei isso quando ela enfiou as mãos nos bolsos do short que usava. Claro sinal de tentar obter auto controle.
— Você pode falar o que quiser comigo. – Encorajei. – Não precisa se controlar. – Apontei com a cabeça as mãos nos bolsos.
Me olhou confusa.
— Quando você coloca as mãos nos bolsos quer dizer que esta tentando não dizer algo. – Fui direto. – Seja o que for você pode dizer. Tem o direito.
— Não finja me conhecer tão bem. – Pareceu-me abalada com o fato. – Eu não tenho nada a dizer, ao menos nada bom. – Completou.
— Não me importo em ouvir coisas ruins. – Tentava manter minha voz o mais calma possível.
— Pois deveria. – Aproximou-se a ponto de me fazer sentir sua respiração quente novamente. – Se eu começar a falar tudo que queria; você se sentiria um lixo Fred.
— Eu já me sinto assim. – Não conseguia encara-la. – Eu não queria ter me afastado. – Fui sincero demais. Não deveria. – Ang eu...
— Fred, você perdeu o Dino... – George entrou no quarto como um canhão, gritando e rindo de orelha a orelha.
Olhou para nos dois tão próximos e uniu as sobrancelhas em claro sinal de confusão.
— Ele chegou Angelina. – Afastei-me. – Não precisa mais me aturar. – Sorri cínico e tentei parecer o mais convincente possível.
Vi quando ela limpou rapidamente as lágrimas e arrumou o cabelo para que parecesse que tudo estava bem.
— Depois você me conta George, agora Angelina precisa da sua atenção. Mulheres na TPM são imprevisíveis. – Completei tentando dar uma desculpa para as marcas de choro recente que ele obviamente notaria.
Angelina me lançou um olhar confuso e eu não dei tempo para nenhum tipo de reação. Sai do quarto rapidamente e sentei no primeiro degrau da escada tentando colocar os pensamentos em ordem.
Esse era o fim que eu havia escolhido.
Escolhido há um ano atrás quando George me dissera que estava realmente apaixonado por Angelina. Não sei por que, mas por algum motivo eu sei que ela esta melhor com ele.
Odiei ter que me afastar, odiei ver os dois juntos, mas foi uma escolha minha, pelo bem deles, e quem sabe pro meu também.
Ao menos ser tão parecido com George me deu alguma vantagem e eu pude desfrutar mesmo que por pouco tempo a presença dela novamente.
Foi tão difícil ignora-la, tão difícil fingir que não me importava com sua magoa, tão difícil fingir estar bem, mas não há volta não é?!
Sequei uma lágrima solitária que teimou em descer pelo olho esquerdo e me contentei com o fim que havia escolhido para minha história.
Quem sabe um dia toda aquela dor iria embora.
Notas finais
Fiquei com muita vontade de escrever sobre eles de novo, mas a dor de ter perdido o Fred me assombra.
Parece engraçado, mas ele era um dos meus personagens favoritos.
Espero que tenham gostado.
Fale com o autor