Turma de Malhação - 1ª Temporada
1 Capítulo 1
Notas iniciais
POV Sophy
Mais uma segunda-feira está começando e essa não podia estar mais feia. Choveu durante a noite inteira e agora, quase sete horas da manhã, ainda não passou. Não é aquela chuva densa, que molha tudo e normalmente passa rápido, nem aquela garoa que é fácil de ignorar, é aquele tipo de chuva extremamente chata. Eu odeio coisas que ficam no meio termo. Meu pai diz que é porque eu sou intensa até demais, mas vai saber.
Faz cinco minutos que eu cheguei para mais uma semana no colégio. Para falar a verdade eu adoro estar aqui, mas como é segunda-feira, eu me contento em mostrar a mesma cara de desanimo de todos. No alto dos meus quinze, quase dezesseis anos, não é difícil fazer isso mesmo, ainda mais se eu pensar que a minha primeira aula é com a Vatrícia, quer dizer, professora Patrícia Bastos. Acho que eu não preciso nem dizer que a odeio.
Eu não vejo a hora de chegar ao meu quarto para deixar as minhas coisas. Eu não entendo, sempre saio daqui com apenas uma mochila para passar o final de semana com os meus pais, mas a minha mãe me faz voltar com coisas suficientes para manter um batalhão. Ela literalmente passa a semana pensando em coisas que eu possa precisar no caso de uma picada de mosquito, um corte com uma faca, uma visita da rainha da Inglaterra na escola ou até um ataque de zumbis ou alienígenas. Só isso para explicar as duas mochilas e cinco ecobags lotadas que eu estou carregando. Sim, eu poderia ter usado uma mala, mas eu já tenho outras três no meu dormitório por causa da minha mãe e não acho que caberia mais uma por aqui. Mesmo os dormitórios do Colégio Interno Santa Clara, em Santos, não são tão grandes.
Sim, estudar em Santos, ao lado da praia não é uma coisa muito agradável, mas em um dia tão feio quanto hoje eu não me importo, de verdade. Eu já estou correndo porque não posso chegar atrasada na aula da vaca, não de novo. Eu realmente não vou conseguir ficar calada se ela ficar me provocando por ter chegado tarde novamente, muito menos se ela não me deixar entrar na sala. Matemática já é uma coisa horrível, a aula dela uma verdadeira porcaria, mas combinando tudo isso, ficar sem a aula ainda era a pior opção para o meu boletim.
– Sophy! Tinha certeza que te encontraria no meio do corredor parecendo uma vendedora ambulante com todas essas sacolas.
– Nem começa Julia! Preciso colocar tudo isso no quarto e ainda chegar a tempo para a nossa querida primeira aula.
Eu não podia e nem conseguia ficar brava com a Julia, mesmo quando ela estava sendo um tanto quanto irritante. Nesses três meses ela se tornou a minha melhor amiga aqui e às vezes parece que ela me conhece até demais.
– Dãaan, é por isso que eu estou aqui. – rindo – Vou te ajudar estressadinha, mas a gente ainda vai precisar correr.
Ela nem precisou falar duas vezes e as sacolas já estavam divididas enquanto andávamos apressadas para o quarto. Jogamos tudo em cima da minha cama e saímos correndo, literalmente, para a aula. Teria que cuidar disso mais tarde.
Entramos na sala exatamente 7h10 e a Patrícia já estava fechando a porta. Ela parou quando viu a Julia e deu um sorriso que poderia até ser considerado bonito, afinal, ela adorava a minha melhor amiga, mas quando me viu fechou a cara e só faltou bater a porta para que eu não entrasse. Ela se limitou a ficar quieta e eu estranhei. Só fui entender isso quando a aula começou, a professora estava completamente sem voz e para o meu total desespero, já que ela não podia falar, resolveu dar um teste surpresa.
A Julia normalmente sentava na minha frente, mas tivemos que mudar de lugar. Sério, esses professores falavam para nós agirmos como adultos mas na primeira oportunidade nos colocavam de volta no jardim de infância. Eu odeio isso.
Realmente não quero descrever o meu teste porque a palavra desastroso não chegaria nem perto do que ele foi. Eu ainda não estou correndo o risco de reprovar, nem nada parecido, mas eu realmente preciso me cuidar para que isso não aconteça. Tá, eu estou exagerando, mas mesmo assim, exatas nunca foi o meu forte.
Eu sempre me dei bem com as matérias de humanas. Algumas delas até demais, coisa que não combinaria muito com a minha reputação – arduamente construída, inclusive – de durona e não impressionável. Durona porque eu pratico jiu-jítsu e, modéstia a parte, sou muito boa. Chutar a bunda de garanhões baratos é a minha especialidade. Mesmo sendo loira, alta e tendo olhos claros, ninguém ousava pensar em mim como um anjinho, exceto o Yuri, que me chama por esse apelido impossível – Anjinha – mas apenas para me irritar.
A Julia não poderia ser mais diferente nesse ponto, ela é morena, baixinha e super simpática com todos. É muito raro ela não estar sorrindo por ai. É toda romântica, escuta músicas melosas e coleciona fotos do Murilo que ela tirou escondido com o celular. Murilo é o melhor amigo do Yuri e sinceramente a minha amiga ainda vai me deixar doida com essa paixão platônica que ela tem por ele. Mas, fazer o que, o romance faz as pessoas fazerem coisas idiotas. Ah, para ajudar, o Yuri pratica jiu-jítsu comigo, e usa esse apelido em nossas aulas também. Eu vou apenas dizer que eu finalizei ele várias vezes por conta disso.
Quando eu terminei a prova, a Julia e a nossa galera já estavam em uma das mesas do refeitório. A cara do Murilo, que também está na nossa sala e fez o teste era pior do que a minha. Realmente ele estava acabado. Não era de se estranhar que ele estivesse assim, afinal a prova durou até a hora do almoço e a situação dele com matemática e química era pior do que a minha, mas eu posso apostar que tem mais coisa ai.
– E ai família? – gritei batendo na cabeça do Murilo
– Pô, Sofia!! Eu estou com uma p$%& dor de cabeça e você ainda me bate! Que saco!
– Fica quietinho ai, moço! O que eu já te disse sobre falar palavrões à mesa? Eu vou ter que chutar a sua bunda um dia desses para você aprender.
A gargalhada estrondosa mostrou que a Bia estava chegando. Ela realmente é a mais doida do nosso grupo, a coisa esquisita que mantém todos nós juntos. Ela está sempre de vestido, apesar de não fazer o tipo “menininha”, e não sabe sentar em cadeiras. Ela sempre tem que sentar em cima da mesa ou de qualquer coisa que ela encontra pela frente que não seja nem remotamente parecida com uma cadeira. Como ela consegue fazer isso sem dar um verdadeiro show proibido para menores é um mistério que nem Freud explica. Quando ela abre a boca...
– Nem vem, Bia, porque eu só comecei a interrogar o pirralho! Essa cara não é só de dor de cabeça por causa da prova. O que você estava fazendo ontem, Muzinho?!
Só a Julia não caiu na gargalhada com essa, mas ela tentou disfarçar dando uma risadinha para não ficar de fora.
– Eu já falei para você não me chamar assim, mas quem consegue discutir com você Sofia? Parece que nasceu já mordendo o dedo do médico!
– Pode responder, Muzinho! Você não vai me distrair. E lembre-se que nessa família você é o caçula e me deve respeito.
– Por um dia! Mais que saco! Você nunca vai parar de me encher com isso.
– Nem ela nem nós, baby – disse a Bia rindo.
O Murilo bufou, enrolou, mas finalmente respondeu.
– Eu estava jogando videogame. O que mais? Mas será que nem isso mais eu posso fazer?
– Se isso significa que eu vou ter que ficar olhando para essa sua cara feia o dia inteiro, não, você não pode passar a noite jogando – eu disse.
– Chega crianças. – interferiu a Bia – Será que vocês não conseguem passar um dia sem discutir?
Eu e o Murilo nos olhamos e eu vi, de canto de olho, a Julia derreter. Foi quando ele deu aquele sorriso sarcástico dele, típico.
– Sim mamãe. – Respondemos em coro.
A Bia bufou, mas a gargalhada estranha do Yuri cortou qualquer reação que ela poderia ter. Era realmente impossível não rir quando ele começava a gargalhar então logo todos nós estávamos rindo sem saber ao certo do que.
Quando tudo ficou quieto e voltamos a comer o nosso almoço a Bia começou a falar. Como ela sempre falou demais, desde quando fomos apresentadas numa reunião de “boas vindas” por um amigo em comum – na qual ela ocupou todo o tempo falando — eu aprendi a me desligar rápido, de uma forma que ela não percebesse, é claro. Mas eu realmente não queria ouvir sobre mais um dos seus encontros com aquele idiota do terceiro ano, vulgo Henrique Guedes. Ela não se diz apaixonada, nem nada do gênero, mas simplesmente ouvir aquele nome já me irritava. Ninguém, exceto a Julia sabia disso. Isso porque a minha antipatia por ele era apenas devida ao meu “sexto sentido”, algo que eu não podia explicar, mas que me dizia que ele não é flor que se cheire. Então foi realmente uma surpresa o Murilo, que quando não falam diretamente com ele, permanece quieto, dizer que também estava louco para ir à praia.
– Então que não seja por isso – respondeu a Bia – eu consigo tirar a gente daqui no próximo feriado. A gente pode acampar na praia, creio que o Yuri teria muito prazer em cuidar dessa parte, e eu dou um jeito de fazer todos nós voltarmos a tempo para a nossa aula de segunda. Como a “patrulha” na escola é menor nos finais de semana, creio que é mais fácil voltarmos no domingo à noite, assim ninguém vai reparar especificamente em nós e em qual carro estamos chegando.
– Eu também estou louca para ver o mar – disse a Julia sonhadora. Eu posso apostar que ela está pensando em passar mais tempo olhando para o Murilo do que para o mar, mas quem sou eu para falar. Virei os olhos, sabia que ela entenderia.
– Então fechou! – disse o Yuri todo empolgado – Eu vou adorar fazer os lanches e preparar todo o esquema para a praia. Espero que vocês curtam um luau e dormir em barracas na areia.
– Vocês só esqueceram de uma coisa gênios. Como nós vamos sair daqui em pleno feriado, que já é nessa sexta-feira, inclusive, sem sermos notados e voltar sem problemas? Eu realmente não posso pagar o pato por mais um dos seus planos malucos Bia. – Como essa foi a voz da razão, é claro que quem falou foi eu.
– Confia em mim, baby. Vai dar tudo certo dessa vez. Eu consigo fazer alguns boletins de saída e entrada com assinaturas falsas e, como eu já disse, durante os finais de semana a patrulha é menor porque são poucos os alunos que permanecem na escola. Eu vou arrumar uma desculpa para todos nós darmos aos nossos pais, que vocês vão ter que se virar para fazê-los acreditar, e depois nós saímos daqui e eu coloco todos nós de volta em segurança. Vai dar tudo certo.
– Não sei não. – falei – Isso não é tão simples quanto uma sessão de cinema no quarto dos meninos, e mesmo isso já nos botou em encrenca várias vezes.
– Eu já disse para confiar em mim. Esse vai ser um plano de mestre.
– É, Sophy. Dê algum crédito à Bia, ela pode fazer isso e vai ser divertido passar um feriado e final de semana com vocês. – falou a Julia. Isso me surpreendeu. Ela nunca se metia em uma discussão minha com a Bia.
– Eu já olhei aqui no meu celular e todo esse tempo deprê vai embora na quarta. Sexta, sábado e domingo é só Sol e muitas ondas daquelas, Murilo! Vai dar para curtir muito! – disse o Yuri empolgado demais para o meu gosto.
– E então, tudo certo? – perguntou a Bia e quatro pares de olhos me olhavam. Aparentemente eu era a única com um pouco de juízo nesse povo, mas quem disse que eu não me arrisco quando a diversão está em jogo? Sem contar que algo nos olhos da Julia e do Yuri me disse que eu precisava aceitar isso.
– Ok. – Eu disse.
– Uhuuuu!! Então eu tenho poucos dias para preparar tudo. Mais tarde eu passo no seu quarto para definirmos os detalhes, Yuri, meu parceiro de planos malévolos! – disse a Bia com uma risada estrondosa, saindo da mesa e indo em direção aos quartos.
Foi ela se levantar e quase todos os olhos masculinos da escola foram para o seu corpo. Ela dizia que não estava nem ai, mas eu vi que ela fazia charme com toda essa atenção. Realmente não é normal que uma garota do primeiro ano fosse tão desejada assim, e ela claramente se aproveitava disso. Se ela conseguisse fazer com que todos nós saíssemos e voltássemos sem problemas para a escola eu não teria nenhum problema com isso.
Fale com o autor