Turma 301

1 Capítulo 1 - A Mudança


Notas iniciais
Vamos lá... Que comece a história =D

Taquara, Rio Grande do Sul (21/01/2006)

“O dia hoje amanheceu frio aqui em Taquara. Os termômetros chegam aos 15º e há previsão de chuva para mais tarde”, anunciava a previsão do tempo em uma pequena TV de 20 polegadas no bar do seu Edmundo. Eram 8 da manhã, mas o céu estava tão nublado, que parecia ser mais cedo. — Se o verão está assim, imagina o inverno! — Disse o dono do bar, com um sorriso no rosto. Áureo deu uma risada, mas sua filha, Maxine, mantinha um semblante sério no rosto. A jovem garota encarava a janela, seus cabelos castanhos, que mal chegavam à altura dos ombros, balançavam por causa do vento. Com sua câmera fotográfica pendurada no pescoço e os fones de ouvido ligados em seu iPod, a garota de 18 anos nem prestava atenção na conversa do pai com o dono do bar, apenas encarava o horizonte. — Max, minha filha, tira esse fone. O seu Edmundo tá falando com você! — Disse Áureo, enquanto puxava os fones do ouvido da filha, que resmungou. — Tudo bem, seu Áureo. Esses ‘aborrecentes’, hoje em dia, são todos ligados nesses eletrônicos. Meu filho também é assim. Mal abre a boca, fica o dia inteiro com esse troço no ouvido. Depois, fica surdo e reclama! — Os dois riram. — Bom, seu Edmundo, tá na nossa hora. Obrigado pelo café! — — Nada, seu Áureo, tenha um bom dia! Tchau, Max! — Max forçou um sorriso e saiu pela porta junto ao seu pai. Os dois entraram no carro e Áureo começou a dirigir. Max encostou a cabeça na janela e continuou a ouvir música. Um silêncio sepulcral imperou no carro, até que Áureo decidiu quebra-lo. — Max.... — Ele disse, mas a garota não havia escutado. Ele respirou fundo e puxou um dos fones. — Max, presta atenção! — A garota bufou e olhou para o pai. — Que é?! — Áureo respirou fundo novamente. — Max... A gente precisa conversar... — A garota continuou encarando o pai. — Eu... Bom, eu tô pensando a alguns dias em como te dizer isso e não tem uma maneira fácil de fazer, então vai ter que ser assim. Max, a gente vai se mudar! — — O quê?! — Max estava em choque. — É isso que você ouviu. Eu aceitei uma transferência no meu trabalho e a gente vai se mudar. — Max começou a gaguejar. — Pai... V-Você não podia ter aceitado isso... É meu ano de vestibular, pai... Eu estudei na mesma escola toda a minha vida... Isso... Isso não faz sentido nenhum! — — Max, já está decidido. Eu não renovei a matrícula, justamente por isso. — — Pera... A data pra renovação era até 10 de Janeiro... Pai... V-Você... — Áureo interrompeu a filha. — Sim... Eu conversei com o meu chefe em Dezembro, mas só dei minha resposta no começo do ano. Max... Eu vou ganhar mais, vai ser melhor pra gente. — Max derrubou algumas lágrimas. — Você escondeu isso de mim esse tempo todo... Pai... Eu passei todos os últimos anos aqui, indo na mesma escola, vendo as mesmas pessoas. Não é justo isso, mudar assim, do nada. A mamãe tá aqui, enterrada no cemitério daqui. Você vai deixar tudo isso pra trás? A nossa casa, a nossa vida?! A mamãe?! — — Max, a sua mãe morreu há 10 anos atrás. E eu tenho certeza que aonde quer que ela esteja, ela está contente com a minha decisão. Não torna uma coisa difícil ainda mais complicada. — Max enxugou as lágrimas e soltou uma risada irônica. — É isso que eu faço, não é? Eu complico as coisas... Desculpa, seu Áureo, por complicar tanto a sua vida! — Max aproveitou que o carro estava parado em um semáforo vermelho e abriu a porta do carro. — Max?! Mac, volta aqui! Volta pra esse carro agora! Max! — A garota saiu do carro e fechou a porta na cara do pai, deixando ele ali dentro do veículo, sozinho. Ele abriu a janela e gritou o nome da garota mais algumas vezes, mas ela o ignorou.

Max corria. De seus olhos castanhos, escorriam várias e várias lágrimas. Qualquer outro adolescente amaria a possibilidade de sair de Taquara, mas não Max. Ela amava a tranquilidade de sua cidade natal. Mesmo que fosse pequena demais, ou fria demais, ela amava aquele lugar. Ela se sentou em um banco de praça e afundou seu rosto em suas mãos. Max só parou quando sentiu uma mão em seu ombro e escutou uma voz familiar. — Max... Eu sei que é difícil pra você. Quando eu tinha a sua idade, eu dizia pra mim mesmo que nunca sairia daqui. Aí acabei conhecendo a sua mãe, nós nos casamos, você nasceu... Ficou cômodo continuar aqui, mas... Agora... Agora não tem porquê. Vem... Vamos pra casa. — Max seguiu o pai, sem dizer nenhuma palavra.

Ao chegarem em casa, ela correu para seu quarto, bateu a porta com força e se trancou. Áureo sentou-se no sofá e ficou pensativo. Horas e horas se passaram e, de noite, finalmente a garota destrancou a porta e foi até a sala. Com o rosto inchado e olhos vermelhos, depois de tantas lágrimas, a garota sentou-se ao lado do pai e o encarou. — Max, eu... — Ela interrompeu o pai. — Pra onde você foi transferido? — Áureo respirou fundo. — Rio de Janeiro. — Max não reagiu, apenas continuou encarando o pai. — Quando nós vamos? — — A viagem tá marcada pra semana que vem. Nós vamos sair do aeroporto e vamos direto pro apartamento que a agência alugou pra gente. É um pouco menor do que esse que nós estamos, mas o salário que eu vou ganhar é maior, então, vai compensar. — A garota desviou o olhar do pai e balançou a cabeça para cima e para baixo de forma apática. Enquanto voltava para seu quarto, ela falou para ele: — Eu vou visitar o túmulo da mamãe antes de irmos embora. Se quiser ir, tudo bem. Se não quiser também, tanto faz. — Áureo estava péssimo. Ele sabia que a indisposição da filha com a mudança não era frescura, pelo contrário. A garota já havia sido diagnosticada com depressão, alguns meses após a morte de sua mãe, e os antidepressivos eram pesados. Ela tinha muita dificuldade em fazer amigos e os poucos que ela tinha ali em Taquara deram todo o apoio e suporte possível à ela. Por isso, ela era apegada ao lugar, mesmo sendo uma cidade pequena.

Uma semana se passou. Áureo e Max já estavam no aeroporto. Ele estava confiante e animado, enquanto ela estava apática. Graças a seus fones de ouvido, Max estava desligada do mundo e só voltaria a ligar quando já estivesse no Rio de Janeiro, mesmo que contra sua vontade.

Notas finais
Preferi não deixar esse capítulo tão grande assim! Amanhã sai o capítulo 2! Espero que gostem, de verdade. Bjão