Turma 301
2 Capítulo 2 - O Colégio Santa Clara
Notas iniciais
06 de Fevereiro de 2006 — Rio de Janeiro
“Hoje faz uma semana que estou aqui nessa cidade. E posso afirmar com todas as letras: é um mundo COMPLETAMENTE diferente de tudo o que eu já tinha visto lá em Taquara. É uma barulheira sem fim, um calor infernal e, acredite se quiser, caro diário, no meu primeiro dia aqui, eu, que nunca havia sido assaltada em toda a minha curta vida de 18 anos, tive que entregar a minha carteira pra dois assaltantes. Meu pai continua otimista, aliás, acho que não teve um dia sequer em toda a vida dele em que ele não fora otimista. Eu só espero que esse ano não seja tão terrível quanto todos os outros anteriores a ele foram.”
Max fechou seu diário e continuou a escutar música, deitada em sua nova cama. A casa onde, agora, ela e seu pai moravam não era muito maior do que onde viviam no Rio Grande do Sul. A garota estava mais calma, mas ainda não havia se acostumado com a ideia de morar em uma cidade grande. — Max, tá aí? — Áureo havia acabado de chegar em casa, e procurava pela filha. — Só pra avisar que eu acabei de vir do teu novo colégio e tá tudo certo, já fiz sua matrícula. Não é muito longe daqui, só uns dois quarteirões. Vou deixar os envelopes com as informações aqui, depois você dá uma olhada, ok? — A garota olhou para o pai, ainda um pouco apática, e forçou um sorriso.
Ele saiu do quarto e a garota levantou-se. Na papelada, ela pôde ver o nome de seu novo colégio: Colégio Santa Clara. Dentro de um envelope, vinha todas as informações necessárias: o horário das aulas, a data do começo do ano letivo e um livreto com várias regras sobre uniforme e explicações sobre como funciona o sistema de avaliações dos alunos. Max passou o olho pelas informações na maior rapidez possível. Ela não estava nem um pouco interessada naquilo. A única coisa que a alegrou um pouco é que ainda teria mais alguns dias de descanso, visto que suas aulas só começariam no dia 13. Após a rápida leitura, a garota voltou para a cama e continuou a ouvir música.
13 de Fevereiro, uma semana depois.
O despertador de Max tocou às 05:30, o que só serviu para fazer barulho, já que ela estava acordada desde as cinco da manhã. A garota sempre gostou de acordar cedo, mas, como era o primeiro dia de aula e ela estava bem tensa, acordou mais cedo do que de costume. Ela se levantou, foi até o banheiro e encarou o seu reflexo no espelho por alguns minutos. Escovou os dentes e tomou um banho. Ao sair do banheiro, a garota tomou um pequeno copo de café e se despediu do pai.
A nova escola de Max ficava na Siqueira Campos, uma rua perto do endereço deles, fazendo com que o trajeto a pé não durasse nem dez minutos. Ao chegar no local indicado por seu pai, Max viu um portão azul ao lado de um pequeno muro, que servia de assento para as pessoas que passavam. Ela respirou fundo e apertou a campainha. Não demorou muito para que o porteiro viesse e abrisse a porta. Max cumprimentou o rapaz e entrou. Ela se sentou em um pequeno murinho azul que ficava encostado na parede, quando foi chamada pela secretária. — Oi, querida, bom dia. Meu nome é Vanessa e eu sou a secretária daqui do CSC. Então, você é a Maxine Alves, não é? — Max balançou positivamente a cabeça. — Eu tô com a sua ficha na minha mesa. Você é aluna nova, certo? Vem comigo, vou te mostrar o colégio. — Max e Vanessa começaram a andar por todo o colégio. Não era muito grande, tinha dois andares e 8 salas de aula, com uma ao lado da secretaria, que ficava em frente à porta de entrada, e outras três em um largo corredor. No final desse corredor, era possível encontrar um pátio quadrado bastante largo, com uma sala onde ficava a biblioteca e um refeitório para os funcionários, uma cantina e os banheiros. A escada que levava para o segundo andar da escola também ficava ali. No segundo andar, ficava a coordenação e um corredor que continha três salas, duas de aula e uma de informática. No final desse pequeno corredor, uma área externa levava para as últimas duas salas de aula e para a sala de reuniões.
Ao voltar para o muro, Max se despediu de Vanessa e viu que mais alunos haviam chegado. A garota sentou-se no murinho e ficou observando as pessoas. À medida que os minutos se passavam, mais e mais alunos iam chegando. O sinal tocou somente às 07 horas e todos dirigiram-se para suas salas. Max se levantou e começou a caminhar. Sua sala era a última do corredor no primeiro andar. Ao ficar de frente pra porta, ela pôde ver o número de sua turma: 301. Ela respirou fundo e girou a maçaneta. Ao entrar na sala, viu que alguns alunos já estavam ali dentro. Um garoto e uma garota. O garoto era alto, devia ter um metro e noventa. Seus cabelos eram negros e curtos. A garota era maior do que Max, mas, batia no ombro do rapaz. Ela tinha um rosto bonito, era bem magra, e um cabelo curto, ruivo, com uma franjinha cobrindo a parte direita de sua testa. — Ei, você é nova, não é? Nunca vi você por aqui... Meu nome é Victoria. Esse aqui é meu namorado, João. E você, quem é? — João sorria, já Victoria, tinha um olhar provocante e um sorriso meio intimidador. — M-Max.... Meu nome é Maxine, mas eu prefiro que me chamem de Max. — João se aproximou da garota e entendeu a mão para ela. — Seja bem-vinda, então, Max! — Disse o rapaz, com um sorriso no rosto. Victoria, que estava no canto da sala, também sorria, mas Max podia perceber que a garota a encarava e a analisava minunciosamente com seus olhos castanhos. — Você não é daqui do Rio, não é? — Disse Victoria, com um sorriso provocador no rosto. — N-Não... Eu nasci na Taquara, no Rio Grande do Sul. Eu me mudei pra cá porque meu pai foi transferido no trabalho. — Victoria sorriu. — Bom, eu vou no banheiro. Não se empolga, João. Eu não estarei aqui, mas estou de olho em você, mesmo à distância. — A garota saiu da sala, mas sua fala deixou Max bastante corada e sem graça. — Não liga pro jeito da Victoria. Ela pode parecer meio arrogante e bastante observadora, mas ela é um amor de pessoa. Mas, me conta, Max.... O que você quer fazer no vestibular? — Sem Victoria na sala, Max sentiu-se muito mais à vontade para conversar com João. — Eu amo fotografias. Eu sempre ando com minha máquina fotográfica, não importa aonde eu esteja. E eu amo cinema. Meu sonho é unir minhas duas paixões numa só. — João olhava para Max como nenhuma outra pessoa da mesma faixa etária já havia olhado para ela. Ele prestava atenção em todas as coisas que ela falava. — Uma cineasta, então... Que foda! Tenho certeza de que dará tudo certo pra você. — A garota sorriu e ficou corada.
A porta da sala abriu novamente, e dessa vez entraram mais dois alunos. Novamente, um garoto e uma garota. Os dois eram da mesma altura. Ela tinha um longo cabelo loiro e olhos azuis e ele tinha um cabelo um pouco maior do que João, e bem mais bagunçado. — Fala, moleque! Max, esse aqui é o Thales, meu melhor amigo. E essa é a Bruna, a namorada dele e melhor amiga da Victoria. Thales, Bruna, essa aqui é a Max. — A garota sorriu, tímida, e cumprimentou os dois. — Ela veio do Rio Grande do Sul e vai ser uma cineasta fodástica! — Max ficou ainda mais corada. — Minhas fotos nem são tão boas assim e.... — João interrompeu a garota. — Falando nisso, você tá com sua máquina aí? Eu tô bem curioso pra ver suas fotos! — Bruna riu. — Vai com calma, João. — Disse a garota, ironicamente. — Cala a boca, Bruna. Liga não, Max. A Bruna e a Vic têm essa mania chata, mas... Enfim... Posso ver suas fotos? — Max, que havia ficado desconfortável com a brincadeira de Bruna, tirou sua máquina da mochila e mostrou algumas fotos para João, que ficou impressionado. — Caralho, cara. Você é muito foda! Thales, Bruna, vêm ver! — Thales se aproximou e começou a ver as fotos, Bruna, por sua vez, ficou aonde estava, e não parava de encarar Max. Victoria voltou para a sala e começou a gritar quando viu a melhor amiga. — Sua vaca, finalmente! Viaja e nem responde minhas mensagens... — As duas se abraçaram. — Eu sabia que você ia me xingar, Vic. Mas a culpa não foi minha, a casa da minha vó é no meio do mato, nem internet lá tem. — Victoria revirou os olhos e riu. — Posso ver o que os dois estão vendo? Já tão em cima da novata?! Meu Deus... — Disse Victoria, se aproximando. — Olha essas fotos, Vic. É uma mais incrível que a outra! — Victoria deu uma olhada e levantou as sobrancelhas. — Realmente, bem impressionantes! — Disse ela, encarando Max, que ficou desconfortável. Victoria sentou-se em uma cadeira e Bruna a seguiu. As duas, então, ficaram conversando entre si. Após verem as fotos de Max, Thales e João, mais uma vez, parabenizaram a garota e começaram a conversar entre si, deixando-a sozinha. Ao perceber que mais ninguém ali naquela sala prestava atenção nela, Max pegou seus fones de ouvido e ligou seu iPod. A garota estava tranquila em sua cadeira, ouvindo sua música, e acabou se desligando daquele espaço. Ela tava tão distraída que nem a chegada de um aluno fez com que ela voltasse àquela realidade. — CARALHO, TU VEIO HOJE! — Gritou João. O aluno que havia chegado começou a rir tão alto quanto o berro de João. Só a gritaria fez com que Max acordasse do transe em que estava. Ela observou o rapaz recém-chegado. Ele era tão alto quanto João, mas era bem mais malhado que o rapaz. O cabelo dele era raspado e ele tinha uma barba cerrada, assim como Thales. — Pedro, eu não creio que você acordou e veio no primeiro dia de aula. Isso é o quê? Milagre?! — Disse Thales, em um tom irônico. Os três amigos ficaram rindo e falando alto.
A porta abriu novamente. Um garoto baixo e com cabelo curto, com uma coloração que se misturava entre castanho claro e mel, sentou-se ao lado de Max. Ele olhou pra garota e ficou curioso ao ver que uma aluna nova, que ele nunca havia visto, estava ali, do seu lado. Ele sorriu e a cumprimentou. — Você é nova, não é? Meu nome é Lucas! — Max sorriu também, mas não pôde deixar de notar que, apesar do sorriso simples no rosto do rapaz, ele parecia um pouco tenso e melancólico. — Maxine, mas eu gosto mais de Max. — — Que nome legal e.... — Lucas deu uma pausada e soltou uma pequena risada. — Desculpa falar isso, mas eu acho seu sotaque muito fofo. É do sul? — Max riu também. — É... Rio Grande do Sul. — Lucas sorriu novamente. — Puxa, que legal! Meu pai nasceu em Santa Catarina, por isso reconheci tão fácil o sotaque. — Os dois ficaram conversando.
Depois de Lucas, mais algumas pessoas entraram na sala. Um rapaz da mesma altura de Victoria, com cabelos cacheados, bem magro e com óculos, sentou-se logo na frente. Ele não cumprimentou ninguém e mantinha um olhar sério no rosto. Não muito tempo depois, duas pessoas entraram na sala. Uma garota baixinha e com características asiáticas e um rapaz negro, que, ao lado dela, parecia um gigante, mas ele era bem mais baixo que João. — Carol, eu vi aquele vídeo que você me mandou ontem, aquele cara é muito foda. Eu já tirei aquela música no meu saxofone. Não sei se ficou muito legal, mas eu achei do caralho! — — Eu te falei, Otávio. Quando eu ouvi, logo lembrei de você! — Os dois estavam conversando, e, distraídos, nem viram Max. Logo em seguida, três garotas entraram, conversando alto. Só de ouvir a voz delas, Victoria, que estava conversando com Bruna, logo as encarou, com um olhar intimidador. — Caralho, Simone, que merda. E o que você fez?! — Perguntou uma delas. Simone era um pouco mais alta que Max, mas bem mais gorda que ela. Seu cabelo era cacheado e chegava à altura dos ombros. — Eu mandei ele se fuder, falei que macaca é o caralho e que ele era um racistinha de bosta! — As duas outras garotas riram. — Você é maravilhosa, viado! -. Marcela, uma das garotas era alta e tinha um cabelo loiro bem volumoso e olhos castanhos bem marcados. A outra, Tânia, tinha um cabelo preto longo e usava óculos. Junto com o professor, uma última aluna entrou, em silêncio e de cabeça baixa. Também com traços asiáticos, mas com um cabelo bem curto, a garota sentou-se perto de Pedro, seu único amigo.
— Bom dia, turma 301. Espero que todos vocês tenham tido excelentes férias, porquê esse ano vai ser bastante corrido e intenso. É o último ano de vocês aqui, ano de vestibular. Então vai ser porrada atrás de porrada, e vocês têm de estar bem descansados e prontos para se dedicarem o máximo que puderem para terem a chance de realizarem seus sonhos. A Vanessa me avisou que teríamos uma aluna nova nessa sala. Bom, pessoal, aquela ali é a Maxine Alves, ela veio do Rio Grande do Sul e se juntou à gente. Sejam legais com a novata. — Todos a encararam. João sorriu, enquanto Victoria e Bruna a encararam com um olhar extremamente intimidador. Os que não haviam falado com ela, a cumprimentaram e se apresentaram, com exceção de André, o rapaz de óculos que havia entrado em silêncio. Até Samara, a última a ter entrado na sala, cumprimentou Max, mas com uma voz baixa.
Durante todo o recreio, Max e Lucas ficaram conversando sobre os mais variados assuntos. Fotos, músicas, filmes, programas de TV.... Os dois tinham tudo pra se tornar grandes amigos.
De noite, quando seu pai chegou em casa do trabalho, Max e ele se sentaram na mesa para jantar. — E então, Max?! Como foi seu primeiro dia? — Max deu uma garfada e olhou para o pai. — Foi legal, eu acho. Minha sala não tem tanta gente assim, e o pessoal parece ser legal. Mas sei lá, foi só o primeiro dia... — Disse a garota, que voltou a comer. Áureo, que encarava a filha, forçou um sorriso. — Vai dar tudo certo, meu amor. Eu tenho certeza! Você vai ver! — Max também forçou um sorriso e os dois continuaram o jantar sem dar nenhuma palavra a mais.
Após o jantar, Max deitou em sua cama e começou a escrever em seu diário.
“É... Primeiro dia de aula. Não foi o filme de terror que eu tinha certeza que seria, daqueles onde a pessoa corre e grita desesperadamente, tentando fugir de um assassino em série, mas acaba morrendo de qualquer forma... Aliás, de qualquer forma, não. Da forma mais sangrenta e sádica possível. Enfim... Não foi um merda, mas foi muito longe de ser incrível. Aquela Victoria e a amiga dela... O jeito que elas me encaravam... Até agora sinto um arrepio quando lembro daquilo. Mas o Lucas é um amor... Só fico preocupada, e espero ter sido só impressão minha, mas ele tem uma melancolia na voz e no jeito... E quanto ao João... Bom, caro diário... Eu não queria dizer, porquê foi só o primeiro dia de aula e tal, mas, ele me transmitia uma paz... Algo que eu nunca senti. E a forma como ele prestava atenção e me tratava de uma maneira tão doce... Enfim... Não quero tirar conclusões precipitadas.... Mas algo me diz que, talvez, minha má vontade para com essa turma 301 foi injusta. Era só isso mesmo, caro diário. Agora, tá na minha hora! Boa noite e até amanhã!”.
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