Notas iniciais
essa é a 28ª fanfic da série. A anterior se chama "Cassandra"

Era muito cedo quando o avião pousou no aeroporto e eu podia sentir levemente as correntes de calor que me diziam que eu realmente não estava mais no inverno japonês...

— Ny? – sussurrei pra garota sentada ao meu lado, adormecida na poltrona, que logo despertou. Ela só tinha conseguido dormir de cansada mesmo...

— Nós chegamos? – ela perguntou sonolenta, esfregando os olhos e eu afastei uma mecha de seu cabelo que lhe caía nos olhos, sorrindo.

— Chegamos! – eu lhe sorri, afagando-lhe a face. Ela bufou, me fazendo rir. – Isso que é entusiasmo por voltar pra casa...

— Sabe que não estou entusiasmada... – a aeromoça sinalizou para que os passageiros se retirassem e vi não muito distante de onde estávamos, Takanori e Camila despertavam lentamente e saiam caminhando ao nosso lado, sonolentos, assim como Marcelo, que parecia ter levado uma porrada na nuca.

Pegamos nossas bagagens e nos encaminhamos para o hotel que Takanori e eu ficaríamos durante nossa estadia no Brasil. Com todas as histórias que escutamos sobre o pai deles, era melhor não começar testando a paciência do homem e mantendo uma distância saudável. Fizemos o check in e seguimos para a cidade natal dos três, em um carro alugado que Sereny dirigia do lado contrário ao que era no Japão, me deixando bastante aflito e fazendo Marcelo rir muito.

— Então... Eles estão nos esperando? – Takanori perguntou, mas pra manter uma conversa do que por curiosidade.

— Estão... – Camila respondeu, bufando como a irmã. – Mas eu realmente acredito que o elemento surpresa poderia nos ajudar...

— Ou poderia ser muito pior... – Marcelo pressagiou agourento e eu senti um frio subir por minha espinha.

— Não estão exagerando só um pouquinho? – perguntei e Sereny deu uma risada seca ao meu lado, me fazendo olhá-la. Ela negava veemente com a cabeça.

— Quem dera fosse exagero... Marcelo tem razão... Seria muito pior se ele não soubesse... Sabendo, ele acha que está ganhando... Acha que está no controle da situação...

— Ganhando? É um jogo por acaso? – Takanori perguntou, tentando não parecer aflito. Eu sabia que ele só queria ser forte porque sua situação com Camila era extremamente delicada de entender e aceitar...

— Com meu pai, é sempre um jogo... Que nunca tem fim... – a mais nova respondeu, cruzando os braços.

— Eu sei que a situação é crítica... – tentei dizer. – Não é nada... Convencional...

— Ah... Você não precisa se preocupar, Kouyou... – Marcelo me respondeu. – O problema não é ser ou não convencional... Nem vocês serem japoneses... Ou serem mais velhos... O problema é que essa situação não seria diferente, não importa quão diferente ela fosse...

Não dissemos mais nada... O caminho não era tão longo e mal tinha trânsito naquele horário, cada um se fechou pra dentro de si na expectativa do que viria a seguir. Marcelo se acomodou no canto do carro e voltou a dormir, Camila e Takanori se abraçaram e ficaram focados apenas neles mesmos. Fiquei olhando Sereny dirigir e sua expressão parecia pensativa demais.

— Você não devia se concentrar quando está dirigindo? – eu brinquei e finalmente o vinco sobre seus olhos se desfez.

— E o que o faz pensar que não estou? – ela também brincou.

— Essa ruga entre suas sobrancelhas... – ela assentiu. – É assim tão preocupante?

— Não... Bom... Não sei... Acho que não... Ele sempre me surpreende... Quando estou mais apreensiva, ele é receptivo... Quando eu acho que ele não vai criar caso, ele acaba se mostrando bastante... Inflexível... Eu nunca consegui entender como a mente dele realmente funciona...

— Então, ele não me parece muito diferente de você... Que gosta tanto de fazer exatamente o oposto do que estão esperando...

— Não... Nós não somos mesmo diferentes nesse aspecto... Acredito que você não terá problemas em lidar com ele, já que consegue lidar comigo... O único problema realmente... – ela suspirou profundamente. – Acho que eu posso explicar dizendo que ele é bastante frio...

— Frio e calculista... – tentei relaxá-la. – Continua parecido com você... E agora tem todas as características de um sogro... – ela deu risada.

— Acredito que sim...

— É mesmo uma pena... Queria que ele fosse como o pai da Hachi...

— E pensasse que você era cantor de karaokê? – até mesmo Camila e Takanori gargalharam.

— O que eu até sou... – brinquei.

— É mesmo uma pena que ele não seja parecido com o pai da Hachi... – ela tornou a franzir o cenho e, por mais que eu gostasse quando ela fazia isso, naquele dia não parecia um bom presságio.

— Ainda estamos longe? – mudei de assunto, olhando a paisagem.

— Só um pouquinho... – ela respondeu, rindo.

— Quer que eu dirija um pouco? Você mal dormiu essa noite...

— Vai conseguir dirigir desse lado aqui, músico japonês? – ela brincou.

— Isso é preconceito, sabia?

— Gomenasai... – ela respondeu pausadamente. – Mas eu não estou cansada não... Só estou com fome mesmo... É melhor esse café da manhã ser imbatível! Trocamos um café da manhã de hotel por ele! – foi a minha vez de gargalhar.

— Você e sua louca obsessão por cafés da manhã!

— Ainda estou pensando com o estômago... – ela deu de ombros.

— Somos dois, Ny-chan – Takanori deu risada.

— Mamãe deve estar preparando isso desde ontem – Camila gargalhou.

— Sozinha... – Sereny abaixou o tom de voz e tornou a ficar séria. Por mais que ela não soubesse explicar qual era o motivo que tornava seu pai tão assustador, não parecia ser qualquer motivo...

Eles moravam no mesmo lugar em que se criaram, um condomínio de prédios amarelos que parecia muito simpático. Sereny estacionou o carro na garagem e nós descemos.

— Então, vocês brincavam aqui? – Takanori agarrou a cintura de Camila e ela deu risada.

— Era sim! Continua tudo praticamente como sempre foi...

— Isso é muito bom! – ele beijou sua face. – É muito bom poder ver o que seus olhinhos de criança viam!

— Não sejam tão melosos no território inimigo... – Marcelo pegou sua mala e jogou sobre o ombro, subindo as escadas.

— Não tem elevador? – eu perguntei.

— É no primeiro andar mesmo – Sereny entrelaçou nossas mãos e eu peguei sua mala para subirmos também.

Paramos diante da porta e os três se entreolharam dramaticamente. Eu tinha a impressão de que era um exagero...

— Chegamos... – Camila falou numa voz hesitante, olhando pros lados e eu senti a mão de Sereny apertado a minha e me puxou pra dentro.

Uma senhora de baixa estatura (menor que as filhas) apareceu com os olhos cheios de lágrimas e um enorme sorriso diante de nós e correu para os três filhos, puxando-os num só abraço apertado. No fundo da cena, pude ver, sentado no sofá, diante da televisão um senhor que tinha cabelos brancos tanto quanto os pretos sobre sua cabeça e igualmente era a barba em seu rosto, nos encarando seriamente, antes de se levantar.

— Então, tiveram de voltar escoltados do Japão? – ele brincou, mas sua voz era realmente severa e ele beijou o topo da cabeça das duas garotas e apertou o filho num abraço.

— Takanori, Kouyou, meu pai e minha mãe – Camila indicou os dois e Takanori e eu fizemos uma reverência ao mesmo tempo.

— Sejam muito bem vindos! – a mãe deles também nos apertou num abraço (eu tinha me esquecido que no Brasil gostavam tanto de abraçar...).

— Arigato – respondemos em coro e o pai deles nos apertou a mão.

— Entrem – disse num tom convidativo que lembrava também uma ordem. – Já tomaram café?

— Não – Sereny respondeu e eu estranhei o tom de voz que ela usara. Não era feroz, não era sério ou seco, mas não era o tom de voz que eu me acostumara. – Viemos tomar café com vocês...

Sentamos todos à mesa, que tinha de tudo, leite, café, chocolate solúvel, suco, pães, bolo... Sentei ao lado de Takanori e Sereny e a Chibi sentou-se do outro lado do meu amigo... Pareciam querer nos proteger como um forte... O silêncio logo foi quebrado pela mãe deles que perguntou entusiasmada sobre a viagem, não apenas que eles tinham feito para o Japão, mas a de antes, para os EUA, antes de nos encontrarmos e o mundo virar de pernas pro ar.

Eu tentava me concentrar na conversa, que eu pouco entendia e me divertia bastante, mas minha curiosidade estava grudada no homem que se sentara ao lado de Marcelo e pouco falava. Ele não parecia interessado em conversar, ou em nós... Parecia sério e reservado, parecia distante dali...

— Quanto tempo eles vão ficar? – ele disse quando houve uma interrupção na conversa.

— Vão ficar o mês – Sereny respondeu novamente, no tom de voz que eu não gostei de ouvir, peguei sua mão por baixo da mesa e a acariciei lentamente.

— E eles vão ficar onde?

— Já estão hospedados num hotel – Camila respondeu, um pouco menos controlada que a irmã.

— Certo... – ele voltou a fica em silêncio.

Terminamos o café da mesma maneira que começamos e eu ainda tentava entender que é que poderia haver de errado naquele homem... A mãe deles começou a tirar a mesa e nós ajudamos, exceto ele, que voltou a se sentar no sofá.

— Kouyou, não é? – ela segurou meu braço quando estávamos na cozinha, antes que eu fosse buscar mais alguma coisa.

— Hai – lhe sorri... Era tão fácil sorrir pra ela...

— Muito obrigada! – eu a encarei sem entender. – Sei que não deve ter sido fácil convencê-la a voltar... – seus olhos foram até a porta e voltaram a me encarar. – Muito obrigada!

Eu queria perguntar como ela sabia que Sereny não queria voltar, mas minha namorada entrou naquele momento na cozinha e estranhou nos ver daquele jeito. Eu apenas sorri e abracei minha garota quando ela se aproximou.

— Ele não sabe ser mais fácil não, né? – ela bufou para a mãe, que por algum motivo não pareceu ligar.

— Algum dia isso foi diferente? Acho que foi melhor do que esperava, não? Espero que não tenha assustado os meninos... – eu dei risada. Quanto tempo fazia que eu não era chamado de “menino”?

— Iie – respondi, tranquilizando-a. – Também tínhamos sido preparados pra algo muito pior... Eu fiquei até um pouco decepcionado – Sereny riu e sua mãe a acompanhou. Tinham sorrisos parecidos...

Takanori e Camila entraram na cozinha e eu achei engraçado que estavam calados demais, diferente do normal.

— Papai quer conversar com os dois... – a mais nova sentenciou e eu senti um arrepio.

— Nós temos de sair?

— Não! – a resposta veio da sala, da voz grave do homem sentado no sofá.

Seguimos para a sala novamente e nos sentamos ao seu lado.

— Acho que agora nós podemos conversar... – ele disse calmamente. – Eu duvido que algum de vocês quatro tenha vindo aqui sem pensar a respeito dessa conversa... E o que eu poderia ter feito a respeito, não é mesmo? – severamente ele olhou Camila e ela se empertigou sem se retrair ao olhar do pai.

— Não foi o certo levá-los para o Japão – Takanori se pronunciou, falando com mais coragem do que realmente deveria sentir. – Queremos consertar as coisas... Não queremos que pareça que estamos sendo impulsivos...

— Não... Não foi o que pareceu – ele respondeu, irônico. – Só o que eu quero dizer é que vocês agiram como adultos e é assim que eu espero que continuem... Se foi uma decisão leviana ou não, só o que me cabe é remediar mais tarde...

— Não há o que ser remediado – respondi, tentando não parecer grosseiro. – Sei que não pode parecer maduro o que fizemos, mas isso não quer dizer absolutamente nada... Estamos todos cientes das consequências de nossas escolhas...

— Sei... – ele não pareceu se convencer ou intimidar por mim. – Eu pouco sei sobre vocês dois... Elas sabem bem mais, é claro... E insistiram nisso... Mas eu sei que os dois são mais velhos... E não é pouco, pelo que ouvi dizer – ele encarou Takanori severamente como tinha feito com Camila. – E se esperava ou não que tivessem a cabeça no lugar, é um erro meu... Afinal, vocês são artistas, não é mesmo? A idade não influencia muito em suas decisões nesse caso...

— Não é porque somos músicos que somos irresponsáveis – Takanori rebateu. – Sim, nosso trabalho é ligado à música, mas não termina apenas quando estamos no palco... É preciso muita seriedade pra compor, pra gravar, pra filmar, pra vender... É preciso a maturidade que insinuou que não temos pra lidar com fãs, imprensa, pra lidar com a gravadora... Nós cuidamos nós mesmos de nosso público e de nossos álbuns... Toda a parte técnica... Então, não é porque somos músicos que não temos responsabilidades.

— Não disse isso – ele rebateu, sem se abalar. – Só quero dizer que, além da cultura, nossas visões são bastante diferentes devido ao fato de que vocês são artistas – percebi que ele não dizia “músicos”.

— Nossa cultura é bastante rígida quanto a isso... Quanto a imagem, quanto a dedicação, ao profissionalismo... Quanto à responsabilidade... – Takanori rebateu novamente, parecendo começar a se zangar e perder o medo.

— Certo... A cultura de vocês é bastante rígida quanto a isso sim... E é nela que estão minhas esperanças... Afinal... São minhas duas filhas...

Sereny ia se pronunciar, mas eu apertei-lhe a mão, para que nada dissesse.

— Só o tempo dirá, não é mesmo, senhor?

— Ah, sim... Infelizmente, é o tempo que temos de esperar...

— Podemos sair? – Camila perguntou, desafiadora e ele concedeu com a cabeça.

Nós quatro nos levantamos e as duas nos guiaram até o pequeno quarto. Não sei se era sensato, mas ele não pareceu se mover no sofá.

— Não foi muito ruim... – ela disse amargurada, apertando Taka nos braços.

— Não? – ele perguntou, incrédulo e ela sacudiu a cabeça, sem conseguir rir.

— Agora entende? – Sereny se aproximou de mim, com um sorriso culpado.

— Entendo... – segurei-a pela cintura. – Entendo que seu pai é uma verdadeira turbulência... Mas vamos sobreviver...

— Turbulências nem sempre derrubam um avião...

— Isso depende da capacidade do piloto! Tem sorte que eu não tenho medo de turbulências!

Notas finais
mereço reviews???

a próxima fanfic se chama "My Dear"
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!