Turbilhão
1 Do caos à lágrima.
As árvores movimentavam-se com o vento assim como a longa saia preta da garota de cabelos louros platinados que estava a observá-las. A mesma começou a caminhar, percorrendo o curso de um rio que ali passava, chutando pedrinhas e ramagens em sua caminhada, ouvindo conversas sendo jogadas ao ar longinquamente, até que esbarrou em um pequeno ser.
- Peça desculpas a moça! – disse uma mulher baixa de vestido surrado segurando um cesto cheio de roupas encharcadas.
- Me desculpe! – disse o garotinho distraído, saindo correndo em seguida.
Logo, a garota loura se deparou com a movimentação da cidade de Tóquio nos tempos atuais. Os carros passando a todo tempo. Homens de negócio olhando para seus relógios temendo perder seus horários. Correria. Correria.
Mishimo, como era chamada, era uma moça esguia, pele clara feito porcelana, lábios aveludados e vermelhos, olhos profundos, sem brilho e perdidos em seu próprio mundo.
Perdida em meio a tanto barulho, pousou a mão ossuda na placa de “não estacione aqui” que se encontrava ao seu lado e tentou entender o que acontecia. Como podia ter passado de um vilarejo antigo para a agitação de uma cidade grande atual?
Fechou os olhos. Não se sentia bem. Suas ideias estavam bagunçadas.
Até que um flash de sua vida passou bem diante de seus olhos. SUSTO. Sua respiração ficou descompassada. Colocou as duas mãos sobre o peito e abriu os olhos rapidamente.
Era noite.
Arregalou seus olhos e trêmula começou a andar, olhando para os lados atônita. Havia poucas pessoas nas ruas. Umas com seus namorados, outras exercendo suas profissões nada glamourosas, outras dormindo e outras, como ela, caminhando, pensando e refletindo sobre seus problemas. Mexeu em seus bolsos e achou um cigarro solto e junto com ele um isqueiro. Acendeu. Dando longas tragadas forçou-se a recordar algo que sabia estar esquecendo.
Vermelho, corpos no chão e uma adaga. Foram as únicas coisas que vieram à tona. Por que isso tudo tinha que estar acontecendo com ela? Podia ser com qualquer outra pessoa no mundo.
Procurou um banco qualquer em algum canto, sentou-se e tentou descansar. Parecia que aquelas “viagens” haviam a cansado de alguma forma.
Mishimo sentiu raios quentes baterem suas feições de boneca, se contorceu um pouco e finalmente espreguiçou-se. Levantou e se deparou com o cenário antes visto: árvores, rios, pedras, ramagens e pureza.
Correu em busca de informação.
Em sua jornada, encontrou um homem colhendo frutos. Cabelos longos e brancos assim como a barba, um kimono azul marinho contrastado com um tom mais claro, chinelos de palha e olhar triste.
- Com licença, mas que lugar é este? – perguntou a garota desesperada e sem fôlego.
- Um bosque. – disse o velho, olhando-a rapidamente e voltando a colher os frutos.
- Sim... Mas digo... Sua localização... – disse ela insistente.
- Província de Hasegawa. – disse o velho se retirando lentamente com a cabeça baixa.
Os ventos aumentaram sua intensidade e em um piscar de olhos o velho havia desaparecido, assim como o antigo vilarejo e o ar puro.
A barulheira dos carros havia retornado. Mishimo caminhou por entre o formigueiro, como era chamado o centro pelos próprios moradores da cidade de Tóquio, até uma estação de metrô. No caminho acabou tropeçando em jornal amassado onde continha o que parecia ser a sua foto na primeira página. Procurou um banco para sentar-se e poder ler a matéria ali relata.
Assim que abriu o papel, pode reparar que pessoas passavam por ela com olhar de desprezo e descontentamento. Outras somente desviavam o olhar assustadas e seguiam seus caminhos.
“Mishimo Rei a jovem louca e psicopata a solta nas ruas — Vamos salvar nossas famílias!!!!
A moça de apenas 22 dois anos de idade fugiu do manicômio Morio e assassinou até agora cinco famílias inteiras a sangue frio. Seu egoísmo e apatia não irão a impedir de prosseguir. “Temos que salvar nossas famílias!” diz Seichiko Maisuke, nosso governante. Tranquem bem suas casas durante a noite, pois a assassina prefere este horário.”
- Por favor... Deixe pelo menos ele ir... – dizia a mãe completamente desesperada, chorando e agarrando-se nas pernas finas da loura à sua frente – É só uma criança!
O que pôde ser ouvido foi o eco do grito da mãe, um choro de criança sendo abafado pelas mãos de Mishimo e a garganta da mesma sendo aberta, sangue espirrando pelas paredes e uma adaga caindo no chão. Estes eram os sons do último assassinato cometido pela jovem.
As memórias. Tudo havia voltado. Tudo havia voltado de uma só vez. Atingindo de forma violenta e dolorida, como uma lança atravessando a couraça de um guerreiro em batalha. A cabeça da menina começou a dar voltas. Uma. Duas. Até cinco. Uma lágrima tocou-lhe as feições delicadas.
Por quê? Por que havia feito tudo aquilo? O que aquelas famílias haviam feito de errado?
Correu em direção ao seu destino anterior. Atropelando todas as pessoas que encontrava pela frente, a garota estranha de cabelos louros e platinados, saia longa e preta, coturnos desgastados marrons, regata preta e jaqueta de couro vermelha, desceu as escadas o mais depressa possível ouvindo em seu encalço a polícia dizendo “MISHIMO REI! VOCÊ ESTÁ PRESA!” e ignorando todos os avisos.
Chegando à área subterrânea, perto de uma multidão, que foi abrindo espaço.
- Agora... Eu estou... L — I — V- R — E! – dizendo isso a jovem pulou em frente ao trem que vinha com sua força total.
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