Notas iniciais
Oi. Super animada com o projeto e espero ganhar essa budega de concurso.



K olhava pela janela com pesar.

O céu lilás da manhã sempre fora seu favorito, mas sem Yu tudo perdera um pouco da graça. Ele sabia que em alguns quartis o Pai viria acordá-lo, mas não conseguiu se mover. Provavelmente apanharia se pego acordado fora do horário pela terceira vez na semana, mas não ligava muito. Olhou o quarto vazio. As camas arrumadas. Sentou no chão voltando a observar o céu. Tentou imaginar onde o irmão estaria. Na cozinha real? Sendo treinado para servir alguém? Limpando qualquer chão do castelo?

Há algumas semanas uma Comitiva Real passara pela Casa de Orfãos 13.600, na próspera região 32. A Rainha e Príncipe conversaram alguns minutos com o Pai. K não foi permitido entre os poucos que estiveram na presença dos monarcas, mas ouviu pelos corredores que ninguém pode mirar os governantes. Em pouco tempo eles saíram do escritório e alguns internos foram levados.

K e Yu se conheciam desde sempre. Não eram irmãos de verdade, mas eram colegas de quarto há tanto tempo que K já tinha esquecido como era dormir sem os roncos do outro. Tinha esquecido como era comer sem alguém o impedindo de usar a mão esquerda. Tinha esquecido como era estar sozinho.

O cheiro do irmão começava a desaparecer do quarto e menos gente perguntava sobre ele. Era como se tudo estivesse igual, mas não estava.

— Vamos nos ver de novo? — perguntou ao inabalável Y-08 enquanto este arrumava a mala.

— Possivelmente não. — Enquanto o outro respondia K pode ver as orelhas do irmão mexerem. Ele sempre fazia tal gesto quando estava irritado.

— Eu vou sentir tanto... — K tinha os olhos marejados.

— K-23! — O irmão começou a falar muito sério e irrequieto. — Eu vou embora, não vou poder cuidar mais de você. Pare de dizer que vai “sentir” ou contar coisas

que não são reais. Você é quase adulto, pode acabar sendo acusado e eu não sou seu irmão. Não chore por mim.



O Planeta 75-658 era funcional como uma máquina viva. Os habitantes eram educados de berço para serem todos iguais. Usavam as mesmas roupas de cor creme. Comiam a mesma comida (havia um cardápio liberado mensalmente pelo governo). Todas as escolas ensinavam pelo mesmo conjunto de vídeos para que ninguém soubesse à mais. As casas, e as ruas eram todas divididas da mesmas maneira e assim

como as pessoas, se diferenciavam por números. Tudo era milimetricamente calculado para ser o mesmo. Homens usavam o mesmo corte de cabelo e as mulheres recentemente tinham adquirido o direito de escolherem entre dois tipos de corte.

Os habitantes tinham regras rígidas de convivência. Chorar, por exemplo, era considerada a mais profunda falta de educação. O ideal do planeta era não sentir dor, nem tristeza, não levantar o tom. Viver sem nenhuma perturbação, por mais que o mundo te tentasse.



E isso nos leva aos monarcas: acima de todos por serem absolutamente desprovidos de dor ou emoção. Mas eles podiam cortar o cabelo como quisessem e podiam dizer o que bem entendessem.

K tinha uma teoria de que todos fossem canhotos, ninguém os via comer para dizer o contrário. Na verdade, K duvidava que os Monarcas fossem frios e destemidos como contavam as histórias, afinal é fácil ser infalível quando quase ninguém pode olhar para você. O menino acreditava que dentro dos muros do Castelo 1 coisas fantásticas aconteciam.

Era uma esperança. A esperança de que não fosse o único. Talvez os membros da família Real tivesse olhos como os seus e chorassem quando sentiam tristeza. Yu costumava rir de suas teorias e K amava o som de qualquer risada. Outra expressão do corpo tão subjugada. Sorrir no planeta 75-658 era infração menor e ia para sua ficha. Rir em público era tão horrendo que era quase inimaginável.

A Justiça era severa, mas quase não haviam crimes. Há quantos círculos lunares não acontecia um julgamento. O último tinha sido o de um homem que se recusava a usar as vestes comuns. Andava nu pela rua em protesto. K torceu para que não decidisse matá-lo. Em frente ao televisor do seu quadrante, onde os julgamentos eram transmitidos ele torceu e torceu. Os três juízes se inclinaram sobre a prisão perpétua desde que ele concordasse em usar a roupa de detento, mas o homem não quis.

Prefiro morrer a obedecer a mais alguma ordem de vocês!” ele gritou na corte, onde não era permitido falar. H-78-95-33 foi condenado a morte naquela noite. Muito se especulou sobre a sanidade do homem, mas K guardou para si as palavras amargas do preso. O sentimento de raiva pelo status-quo que K sentia estava também naquela criatura atormentada, e por pouco tempo ele não foi o único com um opinião.

Ter Yu por perto fora o que mantivera K tanto tempo na linha. Calado, na medida do possível. Falava com o irmão sobre tudo, quase sempre sendo repreendido ou ignorado, mas a presença de uma figura moderadora fora uma âncora para si. Não sabia o porquê de ser tão diferente, as ideias fluíam de si.

Ao fundo o toque de dispersão que acordava todos os habitantes do quadrante 32 soava. Rapidamente correu para a cama estreita onde dormia há 20 círculos solares e esperou pelo toque do Pai.

Sentiu os olhos um pouco pesados e se arrependeu de não ter dormido nem que fosse por alguns quartis. Permaneceu firme esperando sua deixa, mas ela não veio. Saiu da cama profundamente assustado. 20 ciclos e o Pai nunca estivera atrasado!

Andou com cautela pelo corredor, não queria acordar ninguém. A última porta a esquerda, saberia o caminho até vendado. E foi ali que notou o sinal de um verdadeiro problema: A porta estava aberta.

Levou uma mão ao nariz e entrou num modo ainda mais silencioso do que já estava antes. Quem era doido o suficiente para entrar no quarto do Pai sem permissão? Quem quer que fosse seria seu amigo dali em diante querendo ou não.

Com muito cuidado dirigiu o olhar para pequena brecha aberta da porta e gritou com o que viu. Urrou com tamanha visão horripilante. Escancarou a porta e acabou assustando a outra pessoa ainda estava dentro do quarto. Ensanguentado como o resto da cena o outro homem não hesitou em sair correndo pela janela quebrando-a no caminho. Houve um segundo de diferença enquanto K pulava todo o sangue do quarto e saia atrás do assassino.

O vidro da janela tinha cortado suas pernas na saída rápida,mas agora não podia deixar de correr. Como estavam no térreo não houve tempo de queda algum e logo estavam correndo pelo meio fio sobre muitos olhares de interrogação. A corrida desenfreada incluía desviar dos objetos que o criminoso jogava em si. Vasos, galhos, pessoas, tudo que podia ser agarrado era arremessado para trás pelo assassino. K desviou de tudo sem problema. Sempre fora bem ágil embora isso nunca tivesse tido nenhum impacto positivo para si.

Alguns flashs do cadáver do Pai passaram por sua mente. Era um homem rígido mas bondoso. Diversos desabilitados eram aceitos por ele, mesmo que ele não precisasse aceitar nenhum deles. Vários deles conseguiam empregos e as paredes da Casa eram cobertas de fotos dos antigos moradores. Ele tinha orgulho deles. Podia falar por horas de suas conquistas…

O moreno que começava a sentir o coração muito acelerado decidiu dar o impulso final. Estava tão perto. Tirou das pernas uma força que já acreditava não ter e se jogou em cima do criminoso.

Houve um embolado de gente e enquanto um tentava acertar o outro um som quase desconhecido entrou pelos ouvidos dos que observavam perplexos.

O único carro de Polícia do quadrante chegava em uma velocidade ultrajante. Os homens que se engalfinharam não foram incomodados. K tentava se agarrar ao outro, mas este estava usando pés e mãos para agredir o menor.

—Você vai morrer! K gritava sem pudor, várias e várias vezes.

Finalmente o carro da polícia se aproximou e uma dupla saltou do carro em velocidade tão alta quanto a do carro. Em segundos os homens que pareciam uma massa conjunta estavam separados.

— Ele é um assassino! K gritava, completamente em choque.

O homem de rosto magro, olhos azuis brilhantes e roupa completamente vermelha permaneceu impassível. Esticou as mãos para frente, sabia que seria algemado. K chorava e tremia, os corpo ardia inteiro.

O policial mais velho e parrudo que tinha ido até o assassino pegou as algemas no bolso do sobretudo, mas antes que pudesse fechar o artefato sobre os pulsos do criminoso este arrancou a arma do coldre que estava no interior do casaco e atirou.

A cabeça do policial foi o primeiro alvo atingido com precisão. K foi o próximo atingido no tórax. O outro policial também foi baleado, porém no ombro. O criminoso não se absteve de sair correndo mais uma vez. Nenhuma das testemunhas sequer se mexeu.

O menino olhou o policial acertado no ombro que rolava no chão de dor. Ele mesmo não sentindo nada. Pegou a arma na cintura do homem e saiu correndo atrás do criminoso. Alguma coisa quente parecia prensar seu peito mas ele simplesmente não podia deixar aquele homem escapar.

Corria rápido como alguém baleado conseguiria correr, mas ainda sim ele só precisava de uma boa visão. Assim que as costas do assassino estavam visíveis ele atirou, contudo não pode conferir se tinha acertado, tudo escureceu de repente.



— K-03-54-32, 20 ciclos solares, cabelos pretos, estatura média, 61 kg, porte atlético. Orfão de nascimento, Casa 13.600, várias anotações por desobediência na escola, médias normais, sem pretensões empregatícias. Uma bala perfurou o seu pulmão e você teve muitos outros corte e hematomas da briga corporal. Precisa que eu repita? — a máquina hospitalar tinha um tom gentil porém frio.

K só balançou a cabeça, desviando o olhar da luz forte do teto. Ele não queria ouvir nada daquilo, fora um péssimo jeito de acordar.

A máquina que era pequena, um formato humanoide cor creme piscou os grandes olhos falsos e se foi. K observou enquanto o ser caminhava, nunca tinha visto um de perto, nas vezes em que estivera no hospital um humano o atendera.

O quarto em que estava era bem diferente dos que tinha visto no hospital, cheirava e parecia com um, mas bem mais equipado e pomposo. Até suas roupas de cama eram de um branco desafiador e macio que lembrava as nuvens. As paredes eram de um cinza-claro azulado que não parecia com nada que K já tivesse visto. Queria notar cada canto do cômodo, mas seus olhos bateram em um rosto mais famíliar que o próprio.

— Androide legal,né? — comentou uma voz muito conhecida por K.

Yu lhe abriu um pequeno sorriso enquanto caminhava até sua cama. K saltou imediatamente. Agarrou o irmão tão forte que sentiu os braços doerem. Yu também o abraçou firme. O paciente passou a mão pelo cabelo azul e pela pele negra tão conhecida por si, notou com felicidade que os fios estavam maiores que o permitido. Sentiu o cheiro do irmão. Segurou o rosto de Y e olhou, olhou mesmo, cada curva dele.

— Eu saio só uma semana e você já resolve ser baleado — O irmão tinha lágrimas nos olhos.

— Me desculpe — K limpou algumas lágrimas que escaparam da face do mais velho.

Eles se encararam por alguns minutos até que alguém quebrou o silêncio abrindo a porta. K se assustou tirando as mãos do rosto do irmão. O homem que tinha entrado no quarto era em uma palavra: lindo.

Os cabelos eram dourados e encaracolados como K nunca tinha visto na vida,e de um comprimento ultrajante. Era incrivelmente alto. As feições um deleite de simetria, o nariz retilíneo, os dentes brancos, as bochechas delicadamente rosadas. Sua roupa toda gritava nobreza, com uma camiseta de gola e manga de um cetim azul que fazia os olhos se destacarem ainda mais. A calça e os calçados eram pretos e tinham uma aparência igualmente cara. Em sua casa qualquer cidadão era permitido uma série de roupas de uso por “conforto”, mas eles estavam num hospital nenhum cidadão normal conseguiria andar ali sem as vestes comuns.

— Não precisam se separar, eu tinha que vir conhecê-lo. Seu irmão me contou tudo sobre você — O homem que parecia… Não parecia com ninguém que K conhecesse fechou a porta atrás de si com um sorriso gentil.

O moreno olhou para o irmão procurando por respostas.

— Este é o príncipe Aidus. — o menino de tez negra andou até o outro homem com certa pompa e limpou as migalhas no peitoral dele.

Lado a lado ambos não pareciam tão diferentes, K ponderou. O irmão usava uma camiseta similar de cor verde, que caia muito bem nele (nunca tinha visto alguém usando verde ou azul até então), e estava ainda mais bonito do que se lembrava. Os olhos castanho-claro que eram sua lembrança mais antiga e a mais marcante permaneciam os mesmo, porém estavam visivelmente mais relaxados. A seriedade da conversa o tirou do devaneio.

— Príncipe? — levou a mão ao peito como mandava a tradição mas foi se aproximando e olhando de cima a baixo o homem, coisa que a tradição não aprovava.

— Você pode me chamar de Ai, meus amigos me chamam assim, e não precisa fazer isso aqui, estamos a sós — O loiro não tirava os olhos dos seus.

Em pouco tempo K e Aidus se encaravam profundamente sem pudor.

— Eu estou indo ao toalete — Yu informou deixando aquelas duas criaturas tão similares à sós.

O moreno e o loiro começaram uma estranha movimentação em círculos que foi aumentando gradativamente até que estivessem quase correndo. Riram da situação por longos minutos. K resolveu voltar a sua cama se sentindo cansado daquela pouca agitação.

— Há quanto tempo estou aqui?

— Três meses.

— E eu… O que aconteceu? Pegaram aquele homem? — O plebeu estava receoso de fazer aquela pergunta, mas a dúvida o consumia.

— Você levantou com uma bala alojada no pulmão e atirou na perna esquerda daquele insano. Ele foi preso e executado. Ele já tinha matado outras duas pessoas daquela mesma forma — contou o príncipe que parecia muito familiarizado com a história.

— Mas porque o Pai?

— Segundo especialistas... Ele era doente.

— E a que devo a honra da sua visita?

— Seu ato de coragem desmedida. Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas. Você estava atrás dele como se sua vida dependesse daquilo. Eram emoções tão brutas e puras. E também ao seu irmão que me contou absolutamente tudo sobre a sua pessoa.

— Estou confuso. O que eu fiz foi uma coisa boa? — O menor puxou as cobertas sobre si novamente, sentira um frio de repente.

Era estranho demais que alguém da Familia Real soubesse suas teorias e desacatos ao sistema. Ficou muitíssimo apreensivo.

O príncipe arrumou as cobertas sobre ele com gentileza, despreocupadamente.

— Você salvou vidas. Nem sabia o que estava fazendo? — Os olhos azuis pareciam impenetráveis, ou talvez K só não soubesse reconhecer emoções sutis com facilidade.

— Eu sabia que aquele desgraçado tinha matado a única pessoa dispostas a me dar comida e teto no mundo. — K sentiu toda a perda de repente.

Tinha perdido Yu por alguns dias, mas não era nada igual àquela certeza horrível de que nunca mais ia ver alguém que via tanto. O Pai era rígido e não se furtava a violência para punir, mas ao mesmo tempo era um homem bom, K sabia. Era muito justo e tinha sempre um conselho que usava peças de xadrez como exemplo para dar.

— Então você sabia o que estava fazendo.

O futuro rei parecia satisfeito, aquela emoção K reconhecia com facilidade…

— K, você deve saber que foi alçado a herói e que amanhã ou depois receberá uma medalha por serviços prestados e um desejo real.

— Desejo real?

— Os conselheiros do meu pai acharam que seria uma boa ideia já que você é o novo herói da população que você tenha o direito de pedir o que quiser. E eu sugiro que peça a minha mão.

— Como assim? — K tinha não tinha compreendido exatamente do que o outro estava falando.

— Case comigo! — O olhar do príncipe era pura determinação.

Notas finais
Espero que tenham gostadooo