Turbação

2 Resolução.


Notas iniciais
Obviamente n está muito completo pq n tive o tempo que gostaria mas foi um fim legal.

— Case comigo! — O olhar do príncipe era pura determinação.

— Você está doido!... — o moreno procurou alguma brecha nos olhos do príncipe mas só achou determinação.

— Você não acha que tem alguma coisa errada aqui? As pessoas viram um homem ser baleado na cabeça e nem se mexeram... Elas agem como se estivesse vazias, mas de tanto fingir talvez elas estejam se esvaziando. Você tinha razão. Sua teoria sobre a Família Real. Não temos nada demais, somos ainda mais emotivos que a maioria. Eu não acredito na sociedade que construímos. Acho que todos têm direito de rir e chorar. Eu e você, podemos fazer isso! O novo herói das pessoas, alguém que mostrou que sentimentos não são para se temer e eu que terei as rédeas disso tudo em breve. — Aidus levou uma mão à testa do mais novo, verificava a temperatura e pedia atenção total ao mesmo tempo — Se você pedir minha mão, o povo está à um passo da liberdade.

— Eu estou dentro. — K tinha acabado de ouvir tudo que já quisera escutar na vida, mesmo não sabendo como verbalizar, era aquilo. Ele queria aquilo.

— Fácil assim?

— Eu disse que ele concordaria de cara. — Yu entrava no quarto com um copinho em mãos.

— Não vou te decepcionar! — O loiro comemorou enquanto saia do quarto sem tirar os olhos de K — Nos vemos amanhã.

Abriu a porta e se foi praticamente brilhando. Yu sentou a beira da cama do irmão.

— Yu… Eu… Não quero entrar no meio de nada que vocês…

— Pode parar aí. — O rapaz interrompeu levantando — Eu sou meramente um empregado.

— Mas ele parece gostar de você.

— E eu gosto dele, mas não assim.



Fizeram silêncio até K começar a se mexer.

— Me ajuda a levantar? — pediu, levantando um fio que se ligava ao seu antebraço e se assustando com o quão profundo ele estava enfiado lá.

Yu se adiantou impedindo o irmão de sair da cama e apertou um botão chamando o robô para recolocar o fio.

— Não! Descanse — pediu, passando uma mão pelos cabelos do menor.

Quando crianças K era viciado naquele contato. Tinha que passar horas esfregando e penteando os fios do cabelo do irmão até que ele dormisse. Nunca admitiria mas era um gesto que o inexpressivo Yu tinha passado a apreciar muito.

A coragem e força que tinha ganho para levantar morreu completamente quando sentiu o toque familiar no couro cabeludo. Não demorou nem 5 minutos para voltar a ressonar.

O robô chegou e terminou de retirar o fio do adormecido menino.

— Ele não precisará mais — explicou ao rapaz numa voz tão humana que chocou-o.

Yu ficou observando o irmão. Aquela figura que o preocupava mais que tudo na vida. Quando mais novo tentava fechar aquela porta o tempo todo. Não podia sentir coisas tão intensas por alguém tão randômico quanto seu colega de quarto, mas K o conquistou com facilidade.

Quando olhou as filmagens do ocorrido sentiu o coração falhar uma batida. Soltou um grave som de medo que veio de lugares desconhecidos dentro de si. Aidus, que lhe mostrava o vídeo pareceu fascinado com aquela demonstração de emoção.

— Esse é o seu colega de quarto? — perguntou depois de passar o vídeo algumas vezes e focar no rosto de K.

Yu só teve como concordar com os olhos. Nem mexer a cabeça ele conseguia.

— Não querem que isso passe nos Televisores, mas vai passar! — O príncipe parecia decidido naquilo.

Digitava furiosamente no seu teclado visual. O cabelo despenteado, os olhos determinados, e as ideias sem sentido faziam Aidus parecer muito com K.

— E por que as pessoas têm que ver isso? — perguntou depois de reunir toda coragem e força em si.

Aidus virou para Yu e olhando firme em seus olhos disse algo que ele não entendia plenamente:

— As pessoas têm que se identificar com isso, Yu. Elas têm que se identificar!

E ficou em silêncio pelo resto da noite.



Na manhã seguinte quando o empregado entrou no quarto do príncipe para servir a refeição matinal Aidus não tinha se movido sequer um dedo. Ele não parecia cansando, não tinha olheiras e estoicamente tinha uma mão embaixo do queijo.

— Eu trouxe os seus preferidos Majesta- — parou no meio recebendo um olhar repreendedor. — Eu trouxe ghoulks Ai. Bom Raiar!

— Bom Raiar Yu. — O príncipe deu palmadinhas no lugar ao seu lado na cama gigantesca.

O rapaz deixou a bandeja que carregava no criado mudo e sentou onde fora requisitado.

— Eu preciso que me conte tudo do seu colega de quarto. — O loiro pediu com muita clareza.



E agora estava ali. Aliviado e até mesmo sorridente. Tinha que se lembrar constantemente de voltar ao normal. E se algum médico entrasse no quarto?

Sentou-se no pequeno sofá pensando no que aconteceria dali em diante. Seria tudo diferente…

Lembrou da conversa que tivera com o príncipe.

— Eu não entendo. — comentou francamente, no momento depois de ter sido deixado sozinho com o príncipe.

O Rei tinha acabado de esbravejar estrondosamente com o filho. Segunda grande briga daquela semana.

— Meu pai entendeu. Ele nunca teve que lidar com nada assim. Ele manda como foi ensinado a mandar, mas ele entende. E tem medo, mas eu não. — Ai sorriu para o amigo. — Fiz aquele vídeo passar em todos televisores de todos os quadrantes e as pessoas choraram. Algumas gritaram. Muitas não foram ao trabalho. Não sei se tem uma palavra para o que eles fizeram, mas foi lindo. Queriam uma resposta.

Yu não se imagina fazendo nenhuma dar umas coisas mas tomou consciência da gravidade das coisas. Não ir trabalhar? Agora sabia por que o Rei estava tão transtornado. O Conselho então… Aidus era completamente doido.

— Uma resposta a que? — Perguntou, queria muito saber.

— Muitos acharam que K seria morto. O que faríamos com ele? Os olheiros dos quadrantes tiveram medo das pessoas. Yu, as pessoas só voltaram a trabalhar quando contamos o plano do Desejo Real e tudo mais.

O empregado estava mais do que impressionado, mas se outras pessoas tivessem uma reação similar a sua ao assistir o vídeo… K tinha de fato algo especial.



No burburinho do estúdio os irmãos não podiam estar mais perdidos. As pessoas da classe alta falavam todas juntas e o tempo todo, era um pouco irritante.

— Em breve será um deles. — Yu constatou. — Como a Rainha.

O mais novo ficou pasmo. A rainha?

— Nossa. Não imaginava… Como será que isso aconteceu? E eu nunca serei um deles. Nunca.

Yu fez seu famoso olhar desconfiado que fez K se sentir em casa. Queria poder segurar a mão do irmão.

De repente ouviu a porta enorme do lugar ser aberta e o lugar ficou só silêncio. Não se ouviu um único barulho. O Rei entrou no cômodo ao lado do filho.

K não sabia nem o seu nome, mas ele era estranhamente diferente do que ele imaginava. Lembrava do Pai contando da vez que o Rei apareceu nos televisores. Sua posse. “O homem é uma placa de margok” ele dizia, orgulhoso.

E ele não mentiu. O rosto do Rei era completamente limpo de emoção. Poucas rugas, olheiras fundas, e cabelos integralmente brancos. Ele todo era impecável. Os olhos verdes quase brilhavam, escaneando, perscrutando. O homem de rosto longo e grave não se assemelhava em nada ao filho.

Todas as pessoas na sala em silêncio acompanharam o Rei andar até seu assento. K igualmente, queria um indício de emoção do homem.

— Não vai achar. — Ai respondeu sua mente, sua voz completamente desprovida de emoção. — Nós tomamos gargolizante para aparecer em público.

— Gargolizante os impede de demonstrar qualquer coisa. Os empregados diretos do Rei são obrigados a tomar também. — Yu explicou.

Um pequeno olhar para o rosto de Aidus confirmou tudo. Ele estava parecido com o pai, não havia nada.

Aidus pós uma mão em seu ombro.

— Eles vão te dar isso também. Para a gravação. Tentar te associar a nós da melhor maneira possível. Peço que não se oponha, só essa pequena dificuldade antes conseguirmos de fato.

K estivera pensando nas últimas horas… E se Aidus não estivesse do seu lado? Se ele tivesse visto o vídeo é ficado assustado com a população? E se estivesse tentando dar uma lição em todos? Não conhecia o cara afinal. O irmão parecia confiar nele, mas…

— Tudo bem. Farei isso.

— Eu estou sorrindo para você. — O príncipe falou quebrando o clima pesado.

Alguns minutos depois um homem se aproximou com uma seringa e sem falar nada injetou um líquido preto no braço do mais novo.

— Muito bem, quero agradecer a colaboração de todos. E espero que possamos reverter essa situação.

Um homem de cabelos vermelhos veio falar com K. Usava um adorno na cabeça que o jovem não reconheceu e tinha o rosto paralisado como os outros.

— Escrevemos um texto para você. Acha que consegue ler?

— Claro.

O tom do homem tinha sido tão desprovido de emoção que K nem ficou ofendido.

K foi puxado para o centro da sala. O lugar onde eles obviamente gravariam. O Rei sentado ao fundo conectou os olhos ao seus e mesmo que ele não sentiu absolutamente nenhum julgamento vindo dele. Aquela droga era mesmo assustadora, gostaria de saber se estava daquele jeito também, afinal não queria que as pessoas vissem o medo que ele estava.

— Vou passar as falas naquela tela e você vai repeti-las da forma mais natural possível. Tudo bem? — perguntou o homem de cabelos vermelhos estava sentado atrás do captador e olhar para ele por cima das luzes era difícil, ainda mais com o Rei que sentado ao lado do homem não tirou os olhos um minuto do moreno.

— Gostaria de dizer há todos que se preocuparam comigo que estou sendo mais que bem cuidado nos hospitais do centro administrativo e em breve estarei de volta ao trabalho. Não… — o jovem parou de ler.



“Não apoiei de jeito nenhum as manifestações de rebeldia em meu favor e gostaria de lembrar a todos o meu mais profundo respeito pelas normas e padrões dessa terra tão perfeita”, mas que texto mentiroso! Estava indignado.

K olhou para a tela e parou.

— Algum problema? — O jovem não saberia dizer quem perguntou.

Aidus se aproximou do mais novo.

— Eu sei que parece ruim, mas eu tive que aceitar os termos deles para conseguirmos. Só leia.

E embalado pela voz inalterado do parceiro, K leu. Na hora de se dirigir ao Rei e ao Conselho foi mais complicado. Não sabia para onde olhar e naquela altura seu tom monótono doendo nos ouvidos. Desconfortável.

Houveram longos momentos de silêncio até que o homem finalmente falou:

— Se jurar aqui que nunca fará nada contra a Coroa e contra a população. Vocês têm minha permissão.

K sentiu um peso absurdo sair dos ombros. Jurava que seria capturado e morto naquele momento.

— Juro aqui jamais ferir a Coroa e a População. — repetiu, nem olhou para o painel que tinha lido antes.

O rei fez um sinal quase insignificante com o cabeça e Aidus entrou no ângulo do captador.

— Eu sou o príncipe Aidus III, e eu aceito este compromisso. — o loiro segurou a mão de K com calidez e sorriu.

— Vocês não podem sorrir. Não tomaram o gargolizante? H-56 eu dei instruções bem específicas! — O diretor começou a falar com todas as pessoas no set, o mais próximo de gritos que a droga o deixaria demonstrar.

— Sabe o que dizem sobre gargolizante. — o Rei interrompeu os gritos. — Não funciona muito bem quando estamos com alguém que gostamos.

Os príncipe e o consorte se olharam mais uma vez. Nenhum dos dois parecia em desacordo com a frase.

E de fato em alguns anos o remédio passou a funcionar cada vez menos no casal. Até que parou completamente, mas pelo ano em que o gargolizante parou de funcionar, eles já tinham resolvido as questões há muito tempo.

A princesa Yartan nunca precisou conter um sorriso e os órfãos do quadrante 32 muito menos. Podiam sentir sem ser julgados.





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