Notas iniciais
Cronologicamente anterior ao último capítulo: só um aviso. xD Tema: a palavra "borbulhante".

Nada enobrece mais um homem que a responsabilidade do primeiro trabalho. Joseph havia sido criado com esse mantra sendo evocado por seu pai a cada oportunidade, o que nunca entendeu de fato, senão por achar que a habilidade com que ele forjava qualidades ao seu ilusionismo era digna de um cavalheiro.

Passar a tarde cuidando de animais não soa borbulhante para muitas pessoas: para o garoto, entretanto, significava ter o que comer e beber no final do dia. Viviam no subúrbio de uma cidade já considerada periférica, pois o centro dela, onde comerciavam a pouca mercadoria que lhes restava, ficava a quilômetros dali.

“Não é um sonho, mas a melhor realidade”, costumava dizer às pessoas que ao menos o conheciam.

A fazenda possuía um coelho usado em algumas mágicas, galinhas que serviam ovos e penas para leques extravagantes, um galo que tentava cacarejar e a Mimosa: escusando-se o nome comum, o animal era quem lhe dava mais companhia — e trabalho, sem dúvidas.

Ao contrário do processo visto como comum de tornar-se homem, em que o corpo se enrijece e o olhar se torna bruto, Joseph era obrigado a aprender a linguagem da mansidão, fosse para acalmar as galinhas ou garantir que a Mimosa produziria cada vez mais.

Não obstante os bons frutos que nasciam da calmaria da voz de seu filho, o pai de Joseph começou a se preocupar com a forma como o filho agia, e não à toa. Dialogar com animais exige que você seja um animal: porém, para entender suas necessidades, o garoto ocupou-se tamanhas vezes sob o empenho de adaptar-se aos animais para que eles crescessem que ele mesmo se esqueceu de crescer. Era uma criança no corpo de um homem, para seu pai.

Para o garoto, no entanto, a situação era outra: dizia que estava apenas sendo responsável. Não só com seu serviço, como com tudo relacionado ao trabalho. Fazia o possível para não ser movido pelos borbulhantes a que seu pai “vezenquando” sucumbia, achando-se chique: bebida transparente, para Joseph, só água.

Foi na transparência de um aguardente que a visão de seu pai se turvou: irado, com uma garrafa vazia em mãos e movido pela falta de resposta de Joseph em buscar mais bebidas, imaginou que os cacos de um choque na parede seriam suficientes para que seu filho aprendesse que a calmaria só serve para os animais — um homem de verdade não teme nem a própria morte.

A cegueira da bebida impedia-o de enxergar mais de um palmo de distância nitidamente, o que era nítido para Joseph, que estava no cômodo ao lado e ouvia-o esbarrar em cadeiras, móveis pequenos e até na mesa em que jantaram havia algumas horas. Frustrado e decepcionado com sua ineficiência, acabou se deixando repousar sobre uma cadeira em que esbarrara, ofegante. Acudido pelo garoto, surpreendeu-o com um tapa forte no rosto e o aviso: “da próxima vez, nasça menina.”

Incrivelmente, apenas o segundo tapa deixou marca... em Joseph, já que seu pai sequer lembrava do ocorrido após a ressaca da manhã seguinte.

Joseph aparentava manter-se o mesmo, para o desespero de seu pai, mas aquela noite lhe deu outro estalo mais cruel: Mimosa não era uma futura esposa e o coelho só servia para truques de mágica.

“A vida real está lá fora e minha mansidão só me tornava menos independente… menos homem.”

A decisão foi difícil, mas necessária, pois precisaria apenas da maioridade para fugir da pacata fazenda e ter uma vida na cidade. Enquanto não fosse bruto, seria ao menos rijo: exibia a saúde de um corpo sadio para os animais ao correr quilômetros e levantar centenas de vezes alguns sacos de arroz de um lado a outro.

No fim, homem não se tornou — mas pelo menos era a higidez que lhe importava. Naquele momento.