Tudo por Um Olhar
2 1. Paraíso
Notas iniciais
O presente capitulo é dedicado a ela.
Obrigado!!!!
Tinha dezesseis anos quando venci uma grande batalha contra Saladino. No pico de minha comemorativa embriagues, cavalguei pelas dunas próximas aos muros que bravamente defendi. Nessa época eu era um belo jovem, com ondulados e longos cabelos castanhos claros e de olhos azuis, meu rosto juvenil ainda não possuía nem a mais leve sombra de barba. Mas eu ainda tinha nariz e lábios.
Hoje, tudo que me restou foi o belo porte, que sempre tive. Isso a lepra, ainda, não me tomou.
Não muito longe do muro oeste de Jerusalém existe um lindo oásis, com palmeiras, pequenas plantas que insistem em ali nascer, uma lagoa temporária, que surgia após a chuva. Havia chovido muito durante a semana que se seguira à minha vitória, então estava convencido de que estaria lá. Eu poderia sentar-me encostado em uma palmeira e observar as águas paradas, apreciando o silêncio, a paz. Sozinho no meu lugar especial, relembrando meus momentos de glória.
O sol impiedoso do deserto já começava a secar a areia, minha armadura estava muito abafada, eu suava muito, começando a me sentir tonto. Já podia avistar o oásis, mas parecia que alguém tinha chegado antes de mim.
O suor caía em meus olhos dificultando a visão. À medida que me aproximava, o contorno da misteriosa figura ficava mais nítido. “Seria uma jovem árabe?”. Pelas riquíssimas minudências de seu alaranjado traje, o véu negro que lhe cobria o nariz e a boca, tinha bordados dourado, que deveriam ter sido feitos com fios de ouro. O fino tecido da mesma cor que lhe cobriam os cabelos, possuíam os mesmo detalhes. Não devia ser uma sarracena qualquer. Devia ter sangue nobre. Ou, então, o calor era tão intenso que me fazia ver uma miragem.
Mas não podia ser uma miragem, quanto mais eu me aproximava em meu cavalo, mais podia enxergá-la em todo o seu esplendor. Ela se dera conta de minha presença, havia virado sua face semi-encoberta em minha direção, seu intenso olhar negro me estudava. “Será que eu a assustara?”. Seus olhos não demonstravam medo. Talvez curiosidade. Por outro lado, o encanto que aquela figura feminina lançou sobre mim superara o torpor do vinho.
Desmontei há alguns metros do oásis, e caminhei em direção a ela, sentada com as costas apoiadas numa palmeira, podia agora ver e ouvir seu cavalo branco beber água na pequena lagoa. Meu coração estava disparado, nesse momento pouco me importava o calor insuportável. “Quem era Ela?”
Cheguei às primeiras palmeiras, estava a alguns metros dela. Deixei o cavalo à vontade para pastar as raras plantas que ali nasciam. Dirigi-me a água, ainda me era difícil acreditar que ela fosse real. Lavei o rosto, olhei para trás. Ela ainda estava lá, olhando-me com aqueles divinos olhos escuros. Decidi mergulhar a cabeça toda, molhando o cabelo, joguei água na nuca sentindo o líquido fresco escorrer pela pele de minhas costas, por baixo da armadura. Engatinhei de olhos fechados até a palmeira mais próxima, encostei-me, afastei o cabelo molhado do rosto e respirei fundo deixando o ar escapar devagar por minha boca. Olhei para o cavalo branco que, sem dúvida alguma continuava ali, fechei os olhos de novo. Os abri lentamente, ela continuava imóvel.
Estudei-a mais uma vez. Suas pequenas mãos morenas, apoiadas de forma tão informal em seu colo, possuíam tatuagens elaboradas feitas a hena. Percebi um brilho amarelo metálico no meio das dobras de suas vestes, pareceu-me ser o cabo de um punhal. Sua cintura parecia ser tão fina que me peguei imaginando como seria segurá-la. Ouvia sua respiração pesada por trás do véu. Admirava a pequenina gota de suor se formar em sua testa.
– Salla Maleicon – falei tentando quebrar o clima tenso que havia se instalado. – Desculpe se assustei a senhorita – ela olhava para mim e percebi que seu olhar havia se detido na cruz em alto relevo na proteção do peito de minha armadura. Apressei-me em dizer. – Não tenha medo. Não vou feri-la.
Ela me olhou nos olhos mais uma vez. Não havia medo neles.
Desejei ardentemente ouvir sua voz, então comecei a falar sem parar. Elogiei-lhe a montaria, falei do calor do deserto, de minha irmã, de Jerusalém e de outras coisas que não possuíam sentido para mim no momento. Ela nada dizia. Depois de um tempo, quando eu não conseguia mais pensar em nada que pudesse provocar-lhe a fala, calei-me.
Ficamos simplesmente em silêncio, nos olhando. Perguntei-me qual deveria ser seu nome? De uma coisa eu estava convencido, ela era muito jovem. Não deveria ser mais velha do que eu.
Perdido em meus pensamentos acerca de quem poderia ser ela. Não notei quando ela se levantou e foi em direção a seu cavalo. Quando me dei conta, ela já havia montado, e não como uma mulher, montava como um homem, uma perna de cada lado. Desesperado, lhe perguntei o nome.
Vi um sorriso se formar por baixo do véu e uma delicada voz feminina respondeu.
– Safira. – e foi embora, deixando-me sozinho e apaixonado.
Voltei para o castelo. Juro não lembrar ter montado no cavalo, de cavalgar, de ter tirado a armadura, de sequer ter chegado ao meu quarto. Não lembro nada da semana que se seguiu. Mas sei que voltei todos os dias ao oásis. Ela não estava ali.
Safira... Ela não me saía da cabeça.
Seu hipnótico olhar negro. Desejava me perder nele mais uma vez.
Meus sonhos foram invadidos por sua misteriosa figura, sua voz, seus olhos. Às vezes, de suas costas pendiam asas, via a sombra de um sorriso se formar em seus lábios encobertos. “Um anjo!”. Eu acordava suado, procurando-a, levava alguns segundos para me dar conta de que estava em meu quarto e Safira não estava ali.
Não havia uma única vez em que fechasse meus olhos e não a visse sentada no oásis.
Minha irmã, Sibylla, me perguntava insistentemente se eu estava bem. A jovem criada dela que me servia de amante também me fazia a mesma pergunta, eu não a procurara mais.
Atormentado, busquei um espião para descobrir sobre “Ela”, ele deveria vagar entre o inimigo e só retornar quando pudesse me responder quem era “Ela”. Enquanto isso, eu continuaria a sonhar com Safira.
Mais uma semana se passou. Voltei ao oásis, nada dela.
Nada do espião. Desesperado, já começava a crer que a tinha imaginado. Que ela só fosse uma miragem. Depois respirava fundo, acalmava-me e repetia para mim mesmo que logo, logo, o homem estaria de volta trazendo maiores informações sobre “Ela”.
E assim foi.
No início da segunda semana, exatamente nove dias depois, pela manhã ele retornou.
Disse-me que não havia sido tão difícil levantar informações sobre “Ela”. Que a única Safira que encaixava dentro das características que eu lhe dera tinha quinze anos e era a menina dos olhos de Saladino, uma de suas irmãs, a caçula. Conhecida entre os mulçumanos como “A Jóia de Damasco”. E que nesse exato momento se encontrava em um acampamento no meio do deserto, a menos de meio dia de Jerusalém, em companhia do irmão.
Paguei ao homem mais do que ele pedira e lhe perguntei se seria capaz de levar para “Ela” um recado meu. Diante da afirmativa dele, falei o que ele devia dizer-lhe. Palavras muito simples, só que me encontrasse no oásis no dia seguinte, que eu a estaria esperando quando o sol estivesse alto no céu, e que ele deveria me comunicar quando conseguisse transmitir a ela o recado.
Passei o dia inteiro ansioso e não consegui dormir a noite.
Ele voltou de manhã assegurando-me de que havia dado o recado. Ela não mandara resposta, mas em meu íntimo senti que ela estaria lá. Eu a veria de novo.
O dia passou por mim e eu não o senti, só pensava: “Amanhã verei Safira”. A noite surgiu, ainda cedo me recolhi aos meus aposentos.
Sonhei com Safira e seus olhos negros.
No dia seguinte, logo após o almoço, lembro de encher uma cesta de palha com uvas, romãs, damascos e outras frutas e sair cavalgando em direção ao oásis.
Esperei.
Não demorou muito para avistar duas figuras no meio do deserto. A de um homem e a outra, definitivamente, pertencia a ela.
O homem parou quando chegou à primeira palmeira. Ela desmontou e veio andando em direção a mim, que estava sentado no centro do oásis. Estava mais linda do que a última vez que a vi. Ela viera toda em branco e prata, a única coisa de cor diferente era o punhal, uma bela arma, com cabo de ouro cravejado de pequenos rubis. Podia ver sua delicada mão o apertando.
Ela se dirigiu a mesma palmeira, sentou-se e ficou me olhando. Seus olhos negros me pareciam curiosos, mas ao mesmo tempo, percebia que ela também estava desconfiada, pois suas mãos não deixavam o punhal, estava preparada para usá-lo ao menor sinal de problemas.
Então a mesma voz feminina, que dissera “Safira”, voltou a falar:
– O que Vossa Excelência deseja? – ela olhava direto dentro de meus olhos.
Por um minuto perdi a fala. Perdi-me dentro daqueles olhos, eles estavam, especialmente, mais encantadores do que eu me lembrava. Os contornos realçados de preto, os grandes cílios. Uma criança maquiada e vestida como uma mulher. A pele morena de suas mãos e testa contratava com o branco dando-lhes um tom que me lembrava canela.
– Precisava... – hesitei. – Tinha de ver a senhorita outra vez. Queria conversar.
– Então? – disse aquela voz feminina.
– O que agrada a senhorita? – perguntei só depois me dando conta da tolice da pergunta. Percebi seus lábios se movimentarem formando um sorriso debaixo do véu. Ouvi-lhe o riso. É impossível por em palavra o que ouvi, simplesmente, era... Lindo. Tão lindo.
– O que agrada a mim? Porque não começa falando de você?– disse por fim.
Comecei a falar do livro que estava lendo, “Política” de Platão. Percebi que ela ficou interessada. Perguntando-me sobre o autor, sobre as idéias que ele outrora defendia.
Expliquei-lhe Platão, Aristóteles e Sócrates, mudamos de assunto e falei sobre minha grande amizade com o Barão de Ibelin. Então, começamos a falar de Arte, História, Literatura, Filosofia, Arquitetura. Descrevi para ela o as igrejas católicas, expliquei-lhe o que significava o Papa e assim, começamos a falar de religião.
Sua curiosidade pela cultura ocidental, pelo catolicismo e seus costumes, me eram encantadoras, quanto mais conversávamos, mais apaixonado eu ficava.
O sol já começava a se pôr, quando ela se levantou, imitei-a — a cesta estava vazia — comunicou-me que precisava ir.
– Obrigado por vir – eu disse. Forçava minha mente para pensar em uma desculpa que a fizesse vir me encontrar de novo. Ela já montara quando ouvi sua voz mais uma vez.
– Poderia... – parou. Meu coração parecia que queria saltar fora da caixa do peito. – Poderíamos no encontrar aqui semana que vem... – hesitou de novo. – O senhor traria sua Bíblia e eu traria o Alcorão. E poderíamos compará-los?
– Claro! – “Era um anjo!”. Lera meus pensamentos, havia percebido minha agonia e me deu o remédio. – No quarto dia da semana.
Captei o sorriso por baixo do véu e foi embora.
Assim que retornei soube que o Barão de Ibelin estava na cidade. Desviei meu caminho e, ao invés de ir para casa, fui vê-lo, precisava contar para alguém que estava apaixonado.
O velho barão de expressivos olhos azuis sorria enquanto lhe falava dela. Mas foi só dizer que ela era “A Jóia de Damasco”, irmã de Saladino, para sua expressão mudar e ele ficar preocupado. Preveniu-me sobre emboscadas, disse para eu tomar cuidado.
– Acalma-te, meu amigo – disse sorrindo. – Nada de ruim vai acontecer. Eu a amo – meus olhos estavam marejados.
– Tome cuidado, meu príncipe – falou e beijou minha testa como a um filho.
No quarto dia da semana, nos encontramos novamente.
Ela estava linda. Em seus trajes vermelhos. Conversamos entusiasmadamente, comemos as frutas que eu trouxera e, desde então, combinamos de nos encontrar todo o dia quarto da semana, quando o sol estivesse alto no céu.
E assim, passou dois meses.
Até que um dia ela não apareceu. Esperei por ela até anoitecer.
Nada dela.
Na semana seguinte, a mesma coisa.
Eu começava a me desesperar. Não dormia nem comia direito. E o Barão de Ibelin havia voltado para suas terras, não havia ninguém com quem eu pudesse conversar.
Mais uma semana passou. E outra. Duas semanas de dias preenchidos pelo medo, aflição, desespero. Eu já não saía mais do quarto e não queria ver ninguém. Onde estaria meu anjo?
Na escuridão que eram meus dias sem notícias dela surgiu uma fresta de luz, um anúncio de que Godfrey estava no palácio e que precisava me ver com urgência. Ordenei que o mandassem entrar.
O quarto era uma bagunça de almofadas espalhadas pelo chão, minha cama não era feita há dias, as cadeiras estavam viradas e a mesa também, as cortinas fechadas. Arrumei-me o melhor que pude. Minhas roupas estavam amarrotadas e meus cabelos dourados estavam em total desalinho, olhos vermelhos. Minha face estava pálida, sem falar das olheiras.
Assim que ele entrou, eu o abracei forte e comecei a chorar.
– Godfrey... Faz mais de um mês que não a vejo – eu soluçava.
– Meu príncipe, se esse é o motivo de sua agonia, então vos trago o alívio – possuía amor em seus olhos.
– O que quer dizer meu amigo? – o olhei sem entender. – Sabe algo dela?
Ele foi até a porta.
– Entre. – ela surgiu. Entrou em meu quarto, Safira dirigiu a ele um olhar agradecido, só então olhou para mim. Por um momento não acreditei nos meus olhos. Eu hiperventilava. Ela estava diante de mim.
– Deixe-nos a sós – disse. Ouvi o Barão sair e fechar a porta. Agora estávamos sozinhos, eu e minha miragem.
A tomei em meus braços, abraçando-a forte. Senti seu calor de encontro a meu corpo, o perfume exótico que vinha dela. Eu chorava e minhas lágrimas umedeciam o tecido que lhe cobria os cabelos.
Percebi que ela também chorava, seu rosto contra meu peito, senti suas lágrimas em minha camisa branca. A respiração descompassada.
Minha mão deslizou pelo tecido que lhe cobria os cabelos, o puxando, libertando assim sua cabeleira cacheada, tão negra, enquanto a outra lhe tirava o véu. Sua cabeça continuava abaixada. Brinquei com seus cachos entre meus dedos. Estava extasiado, hipnotizado, por seus cabelos luminosos.
Senti seus lábios serem pressionados contra mim. Ela beijava meu peito.
Com delicadeza segurei e ergui seu rosto, precisava ver sua fisionomia. Estudei lentamente cada detalhe de sua face oval, a maquiagem de seus olhos negros estava borrada pelas lágrimas que ainda rolavam; o nariz era pequeno, o queixo delicado, e, finalmente, os lábios carnudos e rubros, estavam entre abertos.
“Linda”. Não havia outra palavra. Puxei-a colando seus lábios nos meus. Suas mãos seguraram minha nuca e, diante da ação dela, pressionei com mais força, forçando-a a abrir a boca.
Nossos lábios se moviam com urgência, num quase desespero. Meus dedos afundavam no mar negro de seus cabelos enquanto ela acariciava meus braços.
Desci meus beijos para seu pescoço, apertando-a contra mim, envolvendo-lhe a cintura fina. Ela suspirava. Senti suas mãos percorrerem minhas costas e puxarem minha camisa para cima.
Afastei-me permitindo que me tirasse à vestimenta, deixando meu peito exposto diante de seus curiosos olhos negros. Voltei a beijar-lhe os lábios com sofreguidão enquanto minhas mãos ganharam vida ocupando-se em livrar Safira de seus trajes dourados.
Quando a tive nua diante de mim, tive que parar, afastar me dela foi quase uma dor física, mas tinha de admirá-la. Seus pequenos e juvenis seios, toda sua pele exposta diante de meus olhos. Cai de joelhos e beijei-lhe a barriga, o ventre — abençoado ventre que futuramente carregaria nossos filhos. Suas mãos acariciavam meu cabelo.
– Eu te amo. – levantei e a tomei nos braços, a levando para minha bagunçada cama. Sua pele cor de canela ficava ainda mais linda em meio ao branco dos lençóis.
A sensação de possuir seu corpo é indescritível, simplesmente ele me aceitava e me envolvia, como se eu fizesse parte dele. Nossos gemidos confundiam-se, nossos movimentos sincronizados provocando ondas de prazer. O suor se misturando, as línguas se encontrando, ora dentro de minha boca, ora na dela.
Meu corpo, involuntariamente, começou a aumentar a ritmo intensificando nossos gemidos.
Mais rápido. Mais rápido.
Suas unhas machucavam minhas costas, enquanto suas pernas envolviam com mais força meu quadril até que a pequena morte nos alcançou, abraçados, gritamos de tanto prazer.
Não há palavras para descrever a noite que passamos juntos, nem todas as noites em que ela fora minha.
Eu estava no paraíso...
Fale com o autor