Notas iniciais
Seoul, anos atrás Eles se conheceram no mesmo chão duro dos trainees. Mesma rotina cruel. Mesma cobrança. Mesma frustração de quase conseguir… e nunca ser escolhidos. Assim como Hanna, ele era sempre “quase perfeito”. E o “quase” machuca mais do que o “não”. No começo, foi amizade. Mas tem coisa que cresce no silêncio. Olhar que demora meio segundo a mais. Mão que encosta e não afasta rápido. Saudade antes mesmo de ir embora. Quando perceberam… já não era só amizade. Era abrigo. Era casa. Só que sonho cobra preço. E Hanna pagou caro. Quando a proposta veio — Estados Unidos, grupo novo, uma chance real — ela não pensou duas vezes. Pensou sim. Mas escolheu o sonho. E fugiu da consequência. Porque falar com Chris… encarar aqueles olhos… ia fazer ela ficar. E ela sabia disso. Na última noite, eles se encontraram. Sem saber que era despedida. Sem coragem pra dizer adeus. Fizeram promessas que só jovens apaixonados fazem — eternas, ingênuas… bonitas. Disseram que sempre estariam ali um pelo outro. Que nada mudaria. Mentira doce. Naquela noite, se entregaram um ao outro como se o mundo fosse acabar. E, pra eles, acabou mesmo. Na manhã seguinte… Hanna já não estava mais lá. Só um bilhete. Covarde. Dizendo que estava indo embora atrás do sonho. E é por isso que esse reencontro não é bonito. É necessário. É pesado. Porque ela virou tudo o que sonhou… E ele virou forte… Mas ainda é o garoto que ficou segurando um bilhete na mão.

Seoul não esquece. Pode passar dez anos, pode mudar o mundo — aquela cidade guarda nome, cheiro, ferida.

Hanna pisa de volta como quem pisa num campo antigo de batalha. Não é mais a menina de 14 anos que veio cheia de sonho e saiu de mãos vazias. Agora ela carrega estrada nos ombros, palco na voz e cicatriz no olhar.

Depois de dez anos, Hanna estava de volta a Seoul.

Assim que saiu do aeroporto, o ar frio tocou seu rosto como um velho conhecido que não sabe se abraça ou pede desculpa. A cidade estava ali — viva, pulsando, indiferente. Como sempre foi.

Ela parou por um instante.

Fechou os olhos.

E respirou fundo.

Agora, aos 27 anos, não era mais a garota perdida tentando caber em um molde que nunca foi feito para ela. Era uma mulher formada na marra — lapidada pela indústria fonográfica, endurecida pelas recusas, reconhecida pelo mundo.

Durante uma década, foi parte do LUVIA — um grupo de cinco integrantes que conquistou o impossível: sucesso global. Palcos lotados, fãs em todos os continentes, músicas que atravessaram fronteiras. E ainda assim… nada daquilo apagou o gosto amargo que Seoul deixou na sua história.

Hanna sempre foi impossível de ignorar.

Um presente.

E uma maldição.

Aos 14 anos, deixou a família com um sonho simples e antigo: ser uma estrela do K-pop.

E ela tinha tudo.

Dança afiada. Presença de palco.

Mas não bastava.

Nunca bastava.

A Califórnia veio como terra seca esperando chuva — e ali, junto com outras quatro meninas, nasceu o "LUVIA".

E o mundo, finalmente, ouviu o nome dela.

Hanna não voltou só pra Seoul.

Ela voltou pra encarar o único lugar onde ela falhou como pessoa — não como artista.

E esse lugar tinha nome.

Christopher.

Ou melhor… Bang Chan.

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O dia amanheceu frio em Seoul.

Hanna quase não dormiu.

Mas ninguém saberia.

No espelho do hotel, não havia vestígio da garota que fugiu anos atrás — só a mulher que aprendeu a nunca demonstrar fraqueza.

Cabelos presos com precisão. Maquiagem impecável. Joias discretas, mas caras o suficiente para dizer, sem palavras, quem ela era agora. O tipo de elegância que não pede atenção… mas domina o ambiente.

Ela não estava ali para provar nada.

Ela estava ali porque já tinha provado tudo.

O prédio da JYP não intimidava.

Não mais.

Mas a memória… essa sim, insistia.

Cada corredor parecia sussurrar o nome dela de um jeito antigo, quase zombando.

“Você voltou.”

A sala de reunião era ampla, vidro por todos os lados, executivos já posicionados como aves de rapina — atentos, calculistas, prontos para medir cada gesto, cada palavra.

Hanna entrou.

Postura reta.

Passo firme.

Olhar frio.

A máscara perfeita.

Ela cumprimentou com leve inclinação de cabeça, profissional, contida. Nada de sorrisos largos. Nada de nostalgia.

Ali, ela era um ativo.

E sabia jogar esse jogo melhor do que qualquer um naquela sala.

Até que…

ela sentiu.

Antes mesmo de ver.

Aquele tipo de presença que o corpo reconhece antes da razão aceitar.

E então, ela olhou.

Bang Chan.

O tempo não passou.

Ou passou rápido demais.

Ele estava diferente — mais maduro, mais sólido… mas os olhos…

Os olhos eram os mesmos.

E estavam nela.

Direto.

Sem desviar.

Sem suavizar.

O mundo ao redor continuou — vozes, cadeiras, papéis — mas entre os dois… silêncio.

Pesado.

Antigo.

Vivo.

Hanna parou.

Uma fração de segundo.

Quase imperceptível.

Mas ali… ali foi a falha.

O coração traiu primeiro.

Depois veio o ar — ela puxou devagar, controlando, domando tudo que ameaçava escapar.

E então…

vestiu o gelo.

O queixo ergueu levemente.

Os ombros alinharam.

O olhar… endureceu.

Profissional.

Distante.

Como se ele fosse só mais um.

Mas não era.

Nunca foi.

Ela deu o próximo passo.

Entrou de vez na sala.

E quando passou por ele…

não parou.

Não hesitou.

Não disse nada.

Mas o perfume ficou.

E a lembrança também.

Bang Chan não se moveu.

Por fora.

Porque por dentro…

aquela velha ferida, que ele enterrou tão fundo…

acabava de ser arrancada de volta à superfície.

Sem aviso.

Sem piedade.

A reunião começou como tinha que ser.

Controle.

Formalidade.

Poder.

O presidente da JYP Entertainment,CCO Park Jin-young, apoiou os dedos sobre a mesa, olhando diretamente para Hanna com aquele sorriso calculado de quem já enxergava lucro antes mesmo do projeto existir.

— Hanna… é um prazer finalmente ter você de volta.

A voz era calma. Polida.

Mas carregada de intenção.

— A indústria mudou. Mas você… — inclinou levemente a cabeça — virou exatamente o tipo de artista que essa nova fase exige.

Hanna apenas assentiu.

Elegante.

Contida.

— Obrigada. Estou aqui para somar.

Curto. Limpo. Sem emoção.

Ele sorriu mais.

Gostava disso.

Gostava de gente que sabia jogar.

Mas então veio o golpe.

— E é exatamente por isso que eu não quero perder tempo.

Uma pausa estratégica.

— Quero uma colaboração sua com o 3RACHA.

Silêncio.

Não o da sala.

O outro.

O deles.

Hanna não olhou imediatamente.

Mas sentiu.

A tensão mudou de lugar.

— Quero fusão — continuou ele. — O que você aprendeu no ocidente… Estados Unidos, Europa… essa visão global misturada com a identidade que eles construíram aqui.

Então virou o olhar diretamente para Bang Chan.

— Especialmente você.

Agora não tinha como fugir.

Hanna olhou.

E encontrou ele já olhando de volta.

Sem surpresa.

Como se já esperasse.

Como se aquilo fosse inevitável desde o momento em que ela pisou naquela empresa outra vez.

Por dentro? Tempestade. Por fora? Gelo.

Ela cruzou as mãos sobre a mesa, postura impecável.— Eu entendo a proposta — disse com a voz firme. — Mas acabei de chegar. Preciso de um tempo para me adaptar novamente ao ambiente… entender o direcionamento da empresa, o mercado atual daqui…

Educada. Racional. Distante.

— Acredito que seria mais produtivo começar esse tipo de projeto um pouco mais à frente.

Era a resposta certa.

Segura.

Profissional.

E, no fundo…

uma fuga.

Mas Chan não deixou.

Claro que não deixou.

Ele se inclinou levemente para frente, apoiando os braços sobre a mesa. O tom veio calmo, quase casual.

Mas tinha peso.

— Por mim, quanto antes melhor.

Sem pressa.

Sem elevar a voz.

Sem quebrar o protocolo.

Mas também… sem dar espaço.

— A gente trabalha bem sob pressão.

Um canto quase invisível de ironia atravessou o olhar dele. Rápido. Afiado.

Aquilo não era para a sala. Era para ela. Só para ela.

Hanna sentiu. O golpe veio limpo.

Sem sangue visível. Mas doeu.

Ela sustentou o olhar. Não desviou.

Não dessa vez. Se ele queria jogo…ia ter jogo.

Pela primeira vez desde o início da reunião, os dedos dele pararam de bater lentamente sobre a mesa.

Quase nada. Mas ela percebeu. Ainda sabia ler ele bem demais.

O presidente observava tudo em silêncio.

E, por dentro…satisfeito.

Não interferiu. Não precisava.

Anos trabalhando com artistas ensinaram uma coisa: talento chamava atenção.

Mas tensão? Tensão fazia o público enlouquecer.

E ele reconhecia uma ferida aberta no instante em que via uma.

Principalmente quando ainda existia sentimento sangrando embaixo dela.

O presidente não era homem de hesitar. Ouviu os dois.

Analisou. E decidiu. Rápido. Frio.

Como sempre fazia.

— Ótimo — disse, cruzando as mãos com satisfação contida. — Então não vamos complicar o que já está claro.

Olhou primeiro para Hanna.

Depois para Bang Chan.

E então selou:

— Hanna, seu primeiro álbum solo será inteiramente produzido pelo 3RACHA.

Dessa vez…o silêncio foi real.

Pesado.

Sem espaço para disfarce.

Alguns executivos trocaram olhares discretos entre si — curiosidade, interesse. Os mais antigos lembravam vagamente que os dois vinham da mesma geração de trainees.

“Eles se conhecem.”

Só isso. Nada além disso.

Ninguém naquela sala fazia ideia do que realmente estava sendo colocado sobre a mesa.

Hanna não se moveu.

Nem um músculo.

Só os dedos, que se pressionaram lentamente um contra o outro debaixo da mesa.

Controle. Puro controle.

Mas, por dentro… foi como ser arrancada do presente e jogada dez anos no passado sem aviso.

— Entendido. A voz saiu limpa. Sem resistência. Sem discussão.

Porque ela conhecia aquele jogo.

E sabia que, quando uma decisão vinha daquele homem…

ela já tinha sido tomada muito antes da reunião começar.

Mas então os olhos dela encontraram os dele.

Direto.

Sem máscara por um único segundo.

Só um.

E naquela fração de tempo existia tudo:

incredulidade, cansaço, memória, medo.

“É sério isso?”

Chan sustentou o olhar sem vacilar.

Sem suavizar.

Sem oferecer saída.

E a resposta veio ali. Silenciosa. Fria. Inevitável.

“Agora você fica.”

Ele assentiu levemente para o presidente.

— Vamos entregar um álbum forte.

Profissional. Estável. Controlado.

Mas tinha alguma coisa errada por baixo da calma dele.

Algo antigo.

Mal enterrado.

O presidente sorriu discretamente.

Satisfeito como um homem que acabava de mover a peça certa no tabuleiro.

— É disso que eu gosto. Resultado.

E a reunião continuou. Datas. Cronogramas. Conceitos. Marketing.

Tudo seguindo normalmente.

Como se nada estivesse fora do lugar.

Mas estava.

Porque aquilo já não era mais um reencontro.

Era convivência.

Obrigatória. Diária. Intensa.

E existe uma verdade cruel sobre sentimentos mal resolvidos: você consegue fugir de alguém por dez anos.

Mas não sobrevive muito tempo dividindo madrugada, música e silêncio no mesmo estúdio… quando ainda existe amor apodrecendo debaixo da mágoa.

E os dois sabiam disso.

Só ainda não tinham coragem de dizer em voz alta.


Assim que os compromissos do dia terminaram ela corre para o hotel.

O quarto estava em silêncio.

Grande demais. Frio demais. Impecável. E vazio.

Assim que a porta se fechou, Hanna finalmente soltou o ar que segurou o dia inteiro.

Os ombros cederam primeiro.

Depois veio o salto, abandonado no canto do quarto como uma parte dela que já não conseguia mais sustentar personagem.

As joias vieram em seguida.

Uma por uma. Lentas. Quase ritualísticas.

Como se estivesse desmontando a mulher que o mundo conhecia.

No banho, a água quente caiu pesada sobre a pele.

Mas não levou nada embora.

Memória não sai com água. Muito menos culpa.

Quando saiu, o espelho ainda estava coberto pelo vapor.

Ela parou diante dele. E ficou.

Sem pressa.

Sem coragem de olhar de verdade.

Por alguns segundos, apenas respirou.

Existiu.

Então levantou a mão devagar e abriu um caminho torto no vidro embaçado.

E finalmente se viu.

Os cabelos molhados caindo pelos ombros. A pele ainda quente. Os olhos…cansados.

Fundos.

Antigos demais para alguém da idade dela.

Ali não existia a artista internacional.

Nem a mulher elegante das entrevistas.

Nem a profissional impecável que sabia exatamente o que dizer.

Só Hanna.

Só a garota que um dia escolheu ir embora antes que amar alguém a fizesse ficar.

E então veio. Sem aviso. O olhar dele. Frio. Direto.

Controlado demais para não machucar.

Sem acolhimento. Sem saudade visível.

Mas cheio de coisas enterradas vivas.

Hanna fechou os olhos por um instante.

Curto.

Perigoso.

Porque sentir demais agora seria como abrir uma porta emperrada há dez anos.

— Você mereceu isso — murmurou para si mesma.

Baixo. Rouco. Sem auto piedade. Só verdade.

O celular vibrou sobre a bancada.

O som cortou o silêncio do quarto como realidade sempre faz.

Ela pegou o aparelho devagar.

Mensagem.

Objetiva.

Profissional.

“Primeira reunião com o 3RACHA confirmada. Amanhã, 10h. Sala de produção B.”

Hanna ficou olhando a tela por alguns segundos.

Imóvel. Amanhã. Sem intervalo.

Sem fuga.

Um riso curto escapou pelo nariz.

Sem humor algum.

— Claro… quanto antes melhor, né?

A frase dele mais cedo voltou imediatamente.

E agora parecia menos provocação…e mais aviso.

Ela largou o celular.

As duas mãos se apoiaram na pia de mármore.

Cabeça baixa.

Respiração funda.

Pesada.

Então ergueu os olhos outra vez para o espelho.

Dessa vez, sem fugir.

— Você quis isso — disse, firme. — Então aguenta.

Porque existe uma parte cruel nos sonhos realizados que ninguém conta quando você ainda é jovem: eles cobram.

E às vezes cobram exatamente aquilo que você não podia perder.

E amanhã…não era uma reunião.

Era um acerto de contas.