Bang Chan começou a procurar Hanna automaticamente nos corredores da agência.

Os olhos encontravam ela antes mesmo que ele percebesse.

Na sala de dança.

Na fila da máquina de bebidas.

Dormindo sobre apostilas no canto da sala de prática.

Prendendo o cabelo às pressas antes do treino.

E aos poucos Chan começou a notar coisas perigosas.

O jeito que ela mordia a parte interna da bochecha quando estava nervosa.

Como ficava balançando o pé durante avaliações.

O costume de esconder as mãos dentro das mangas do moletom.

A forma como sorria pros outros mesmo estando claramente exausta.

Ele percebia tudo.

Porque olhava demais.

E isso começou a assustá-lo.

Chan já tinha aprendido, naqueles cinco anos de trainee, que apego podia virar fraqueza rápido naquele ambiente.

Mas Hanna…

Hanna atravessava as defesas dele sem esforço.

Talvez porque ela conhecia a pior versão dele:

cansado,

fracassado,

quase quebrando.

E mesmo assim ficou.

Enquanto isso Hanna nem entendia o que estava acontecendo dentro dela.

Só sabia que:

procurava Chan nos dias ruins;

sentia alívio quando ele aparecia;

queria ouvir a opinião dele antes dos outros;

e ficava absurdamente ansiosa quando ele sumia por muito tempo.

Mas Hanna já vivia emocionalmente cansada demais pra organizar sentimentos.

A ansiedade nela crescia silenciosa.

Como água enchendo um copo devagar.

Os treinos ficaram mais pesados.

As avaliações mais exigentes.

A cobrança com peso e aparência piorou.

E Hanna começou a sentir que nunca conseguia relaxar de verdade.

Nem dormindo.

Às vezes acordava assustada no dormitório achando que estava atrasada.

Outras vezes praticava vocal até sentir a garganta arder porque tinha medo de “não evoluir rápido o suficiente”.

E Chan percebia.

Claro que percebia.

Numa madrugada ele encontrou Hanna sozinha na sala de treino outra vez.

Sentada no chão abraçando os joelhos.

A música nem estava tocando.

Ela só encarava o espelho desligada.

Chan entrou devagar.

— Você ainda tá aqui?

Hanna piscou como quem tinha voltado pro próprio corpo.

— Hm? Ah…

Ela tentou sorrir automaticamente.

Ele odiava aquele sorriso.

Porque era o sorriso que ela usava quando não queria preocupar ninguém.

Chan sentou ao lado dela sem falar nada no começo.

Depois perguntou baixo:

— Quanto tempo você dormiu essa semana?

— Drama.

— Hanna.

Ela desviou os olhos.

Resposta suficiente.

Chan suspirou apoiando os braços nos joelhos.

— Você tá se destruindo aos poucos.

A frase saiu mais dura do que ele pretendia.

Ela ficou quieta alguns segundos antes de responder:

— Se eu parar, alguém passa na minha frente.

Aquilo bateu nele forte.

Porque era exatamente como aquele lugar funcionava.

Só que ouvir Hanna dizendo aquilo…

parecia errado.

Ela tinha começado a pensar igual ao sistema.

Chan virou o rosto pra ela.

Os olhos dela pareciam cansados mesmo com maquiagem.

Mais maduros.

Menos leves do que antes.

E aquilo deu uma dor estranha nele.

Uma vontade absurda de proteger alguém que nem sabia mais descansar.

— Você não precisa carregar tudo sozinha.

Hanna soltou uma risada pequena.

Triste.

— Todo mundo aqui carrega.

— Eu tô falando de você.

Silêncio.

Ela abaixou a cabeça lentamente.

E Chan percebeu.

Hanna não sabia receber cuidado.

Sabia cuidar.

Sabia suportar.

Sabia sorrir.

Mas não sabia o que fazer quando alguém enxergava as rachaduras dela de verdade.

Então, sem pensar muito, ele puxou de leve a manga do moletom dela.

Pequeno gesto.

Quase infantil.

Só pra garantir:

“Eu tô aqui.”

E o pior?

Funcionou.

Porque Hanna sentiu o coração acelerar de um jeito que não parecia ansiedade daquela vez.

O que era ainda mais assustador.

Hanna ficou em silêncio depois da pergunta dele.

Os olhos presos no reflexo do espelho à frente.

A sala de treino estava quase escura, iluminada só pelas luzes frias do corredor entrando pela porta mal fechada.

Então, devagar…

ela encostou a cabeça no ombro de Bang Chan.

E começou a chorar.

Sem soluço alto.

Sem drama.

Só lágrimas silenciosas escorrendo enquanto ela tentava respirar normalmente.

Aquilo destruiu Chan por dentro muito mais do que se ela tivesse gritado.

Porque Hanna sempre segurava tudo.

Sempre.

Ele não falou nada.

Nem tentou mandar ela parar de chorar.

Apenas ficou ali.

Imóvel.

Deixando ela usar o ombro dele como abrigo enquanto a dor finalmente escapava depois de meses presa.

O som baixo da respiração dela tremendo preenchia a sala.

Chan apertou devagar a manga do moletom dela entre os dedos.

Como se dissesse:

“Pode ficar.”

Demorou bastante até Hanna conseguir falar.

Quando falou, a voz saiu rouca.

Quebrada.

— Hoje… um dos diretores me chamou.

Chan continuou quieto.

— Ele disse que eu evoluí muito no vocal.

Uma risada fraca escapou dela.

Sem alegria nenhuma.

— Na hora eu pensei… “meu Deus… chegou minha vez.”

O peito dele apertou imediatamente.

Porque conhecia aquele sentimento.

A esperança pequena e desesperada que trainee aprende a alimentar.

Hanna respirou fundo tentando continuar.

— Mas aí ele disse que apesar dos meus esforços… eu provavelmente não vou debutar tão cedo.

Ela engoliu seco.

Os dedos apertando a própria manga nervosamente.

— E talvez nunca debute.

Silêncio.

Pesado.

Chan sentiu o corpo inteiro endurecer.

Mas Hanna ainda não tinha terminado.

E a próxima parte saiu tão baixa que quase pareceu vergonha.

— Ele disse que minha aparência “exótica” não era bem vista.

Os olhos dela se fecharam forte.

Como se repetir aquilo machucasse outra vez.

— Que a presidência tinha medo do público não me aceitar.

Chan sentiu algo escuro subir pelo peito.

Raiva.

Raiva pura.

Porque ele sabia exatamente como ela tinha chegado naquela empresa:

insegura,

tentando se encaixar,

aprendendo a diminuir partes de si mesma pra agradar.

E mesmo assim ainda não era suficiente.

Hanna soltou uma risada pequena e dolorida.

— Engraçado né?

Ela limpou o rosto rapidamente tentando parar de chorar.

— Quando eu cheguei aqui diziam que eu chamava atenção demais… agora isso virou problema.

Chan finalmente virou o rosto pra olhar ela direito.

Os olhos dela estavam vermelhos.

As sardas apareciam suaves sob a maquiagem já desgastada.

O cabelo caía bagunçado pelos ombros depois de horas de treino.

E naquele instante ele achou absurda a ideia de alguém olhar pra Hanna e enxergar defeito.

— Eles têm medo porque você é diferente.

Ela abaixou os olhos imediatamente.

— Diferente cansa.

A frase saiu tão sincera que quase partiu ele no meio.

Porque não era só sobre aparência.

Era sobre passar quase três anos ouvindo, silenciosamente:

“você não encaixa.”

Chan ficou alguns segundos em silêncio tentando controlar a própria raiva antes de falar.

— Você sabe o que eu acho?

Hanna balançou a cabeça de leve.

Ele respirou fundo.

— Acho que esse lugar tem medo de coisas que não consegue copiar.

Ela levantou os olhos lentamente pra ele.

E Chan sustentou o olhar sem hesitar.

— Tem centenas de trainees tentando virar a mesma pessoa, Hanna.

A voz dele suavizou.

— Mas só existe você.

Aquilo fez os olhos dela encherem de novo imediatamente.

Porque depois de tanto tempo ouvindo o que precisava esconder…

alguém finalmente olhava pras partes “erradas” dela sem querer apagá-las.

Hanna ficou olhando pra ele em silêncio.

De verdade dessa vez.

Não pro líder trainee respeitado.

Não pro garoto cansado dos corredores.

Não pro amigo que sempre aparecia quando ela estava quebrando.

Olhou pra Christopher.

Bang Chan sustentou o olhar dela sem desviar.

E aquilo era raro.

Porque naquele mundo as pessoas quase nunca se mostravam completamente. Todo mundo escondia medo, fraqueza, insegurança.

Mas ali, naquela sala vazia de Seoul, os dois estavam cansados demais pra fingir.

Hanna viu tristeza nos olhos dele.

Cansaço.

Carinho.

Muito carinho.

Um sorriso pequeno e tímido apareceu no canto da boca dele.

Então Chan levantou a mão devagar.

Como se tivesse medo de assustá-la.

Os dedos tocaram o rosto dela com cuidado absurdo, limpando os vestígios de lágrimas abaixo dos olhos.

Tão leve.

Tão gentil.

Hanna fechou os olhos por alguns segundos.

Porque ninguém tocava ela daquele jeito fazia muito tempo.

Sem cobrança.

Sem expectativa.

Sem querer moldá-la em outra coisa.

Só carinho.

E talvez tenha sido exatamente aí que ela percebeu.

Não de forma racional.

Não organizada.

Só sentiu.

Sentiu o coração disparando diferente.

Sentiu o peito quente.

Sentiu que queria ficar naquele momento pra sempre.

Quando abriu os olhos outra vez…

o rosto dele estava perto.

Muito perto.

Chan parecia hesitar agora.

Como se lutasse contra o próprio impulso.

Os olhos dele desceram rapidamente pros lábios dela…

e voltaram.

Hanna percebeu.

E pela primeira vez em meses…

não pensou demais.

Não teve medo.

Não tentou se diminuir.

Não tentou parecer perfeita.

Só avançou um pouquinho.

E o beijou.

Foi desajeitado.

Lento.

Incerto.

Tímido.

Os lábios se tocaram primeiro numa hesitação quase inocente, como se os dois ainda estivessem tentando entender o que estava acontecendo.

O coração dela batia tão forte que parecia impossível Chan não ouvir.

E então ele correspondeu.

Devagar.

A mão ainda segurando o rosto dela com delicadeza enquanto Hanna se aproximava um pouco mais sem perceber.

Primeiro beijo.

O primeiro de verdade.

Não um beijo perfeito de drama coreano.

Não cinematográfico.

Melhor.

Real.

Cheio de nervosismo, carinho e sentimento guardado tempo demais.

Quando se afastaram, os dois demoraram alguns segundos pra abrir os olhos completamente.

Hanna ficou imóvel.

As bochechas quentes.

A respiração curta.

O cérebro claramente tentando acompanhar o que tinha acabado de fazer.

Chan parecia quase tão perdido quanto ela.

Então Hanna soltou uma risadinha nervosa completamente sem controle.

— Meu Deus…

Chan acabou rindo baixo também, ainda perto dela.

— Isso foi…

— Atrapalhado?

— Um pouco.

Ela cobriu o rosto imediatamente, morrendo de vergonha.

— Ah não…

Chan segurou os pulsos dela devagar antes que ela escondesse o rosto inteiro.

Os olhos dele estavam sorrindo agora.

De verdade.

Talvez pela primeira vez em semanas.

— Foi perfeito.

E pronto.

Hanna sentiu o coração se perder de vez.

Dois adolescentes.

Só isso.

Dois jovens sonhadores tentando sobreviver dentro de uma máquina enorme que mastigava gente talentosa todos os dias.

Bang Chan carregava cinco anos de rejeições nas costas.

Hanna quase três anos tentando provar que merecia existir naquele lugar sem precisar apagar quem era.

O mundo não facilitava pra nenhum dos dois.

A empresa cobrava.

Os diretores julgavam.

O público ainda era uma incógnita cruel.

E mesmo assim…

naquela sala de treino silenciosa em Seoul, tudo isso ficou distante por alguns minutos.

Depois do beijo veio aquela vergonha leve e feliz impossível de esconder.

Hanna ainda estava com as bochechas vermelhas enquanto Chan sorria daquele jeito pequeno, desacreditado.

Como se nem ele entendesse direito como tinham chegado ali.

— Então… — Hanna começou nervosa. — Tecnicamente você foi meu primeiro beijo.

Chan ergueu as sobrancelhas fingindo surpresa.

— Tecnicamente?

— Não estraga o momento.

— Desculpa. É que agora eu sinto muita responsabilidade.

Ela riu abafado.

— Idiota.

— Você gostou.

— Talvez.

O sorriso dele cresceu um pouco.

E aquilo fez alguma coisa perigosa acontecer dentro do peito dela.

Porque Chan ficava bonito quando sorria de verdade.

Bonito de um jeito cansado e gentil.

Eles começaram a falar de coisas bobas depois disso:

comidas que sentiam falta;

músicas antigas;

histórias de infância;

professores irritantes;

trainees estranhos da empresa.

Assuntos simples.

Normais.

Quase como se fossem só dois estudantes comuns e não jovens pressionados até o limite emocional todos os dias.

Em algum momento Hanna percebeu que fazia meses desde a última vez que tinha rido daquele jeito.

Sem peso.

Sem medo.

Só leve.

Mas o relógio não perdoava ninguém naquele lugar.

O toque de recolher acabou puxando os dois de volta pra realidade outra vez.

Os dormitórios ficavam longe um do outro.

Amanhã haveria treino cedo.

Avaliação.

Escola.

Mais cobrança.

Mais luta.

Quando chegaram na entrada do dormitório feminino, nenhum dos dois parecia com vontade de se despedir ainda.

Hanna segurava as mangas do moletom nervosamente enquanto Chan mantinha as mãos nos bolsos tentando parecer calmo.

Falhando completamente.

Então ela deu um passo à frente primeiro.

E o abraçou.

Forte.

Chan demorou menos de um segundo pra envolver ela de volta.

O abraço apertado.

Quente.

Necessário.

Hanna fechou os olhos automaticamente ao sentir o rosto dele encostar de leve no topo da cabeça dela.

E naquele instante os dois entenderam silenciosamente uma coisa:

o mundo podia continuar difícil amanhã…

mas agora eles não estavam mais sozinhos nele.

Chan se afastou devagar primeiro.

Os olhos ainda presos nela.

— Vai dormir um pouco, Hanna.

— Você também.

— Vou tentar.

Ela sorriu pequeno.

— Boa noite, Christopher.

Aquilo pegou ele desprevenido.

Porque quase ninguém usava o nome verdadeiro dele ali.

O olhar dele suavizou imediatamente.

— Boa noite… Hanna.

Ela entrou no dormitório com o coração tão acelerado que parecia impossível dormir.

E Chan ficou parado do lado de fora alguns segundos antes de finalmente virar as costas e seguir pela rua fria de Seoul.

Amanhã a batalha continuaria.

Os treinos.

As cobranças.

O medo.

Os sonhos.

Mas agora existia alguém esperando no fim do dia.

E isso muda tudo.