Tudo o que não superamos
26 Presença
Quando o showcase terminou, os bastidores ainda estavam agitados.
Produtores andando de um lado pro outro.
Funcionários comemorando.
Celulares tocando sem parar por causa da repercussão.
Hanna mal tinha conseguido respirar direito desde que saiu do palco.
Ainda segurava a adrenalina no peito quando ouviu alguém chamar o nome dela.
Ela virou.
E encontrou Cha Eun-woo encostado perto da entrada dos bastidores segurando um buquê enorme de flores.
Lindo.
Delicado.
Do tipo claramente escolhido com cuidado.
Hanna arregalou os olhos no mesmo instante.
— Você trouxe flores?
Eun-woo deu de ombros, sorrindo leve.
— Achei que a ocasião merecia.
Ela riu baixo antes de pegar o buquê.
O cheiro das flores invadiu o espaço imediatamente.
Hanna abraçou o arranjo com cuidado, olhando os detalhes por alguns segundos.
— São lindas.
O sorriso dela saiu sincero dessa vez. Daqueles raros que aparecem sem esforço.
— Obrigada.
Eun-woo observou ela em silêncio por um instante.
Claramente satisfeito por ver aquele sorriso.
— Então… — ele enfiou as mãos no bolso do casaco. — Você tá com fome?
Hanna levantou os olhos.
— Muita.
— Ótimo. Porque eu conheço um lugar discreto.
Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Discreto quanto?
— Discreto o suficiente pra gente conseguir jantar sem cinquenta câmeras escondidas em arbustos.
Ela soltou uma risada verdadeira dessa vez.
Fazia tempo que não ria daquele jeito simples.
— Tentador.
Eun-woo inclinou levemente a cabeça.
— Vamos?
Hanna olhou mais uma vez pro buquê nos braços.
Bonito. Cuidadoso. Presente.
Presença.
E por um segundo… o pensamento veio sozinho.
Ela imaginou como seria se fosse Bang Chan ali.
Se fosse ele esperando nos bastidores.
Se fosse ele trazendo flores.
Se fosse ele olhando pra ela daquele jeito orgulhoso.
Mas não era.
Chan estava longe.
Distante fazia tempo.
Preso nas próprias dúvidas, nos próprios medos, nas próprias pausas intermináveis.
Enquanto isso, Eun-woo estava ali.
Presente.
Disposto.
Sem fazer jogos.
E naquele momento… isso fazia toda diferença.
Hanna respirou fundo antes de sorrir pequeno.
— Vamos jantar.
O restaurante era discreto.
Luzes baixas.
Mesas afastadas.
Música suave tocando ao fundo.
Nada chamativo.
Perfeito pra quem queria paz.
Hanna percebeu isso no instante em que entrou.
Nenhum fotógrafo escondido.
Nenhum olhar curioso acompanhando os dois.
Só tranquilidade.
Eles sentaram perto da janela mais afastada do salão.
E, pela primeira vez em muito tempo, Hanna simplesmente relaxou.
A conversa fluiu fácil.
Sem tensão.
Sem jogos.
Sem aquele cuidado constante de medir cada palavra.
Cha Eun-woo fazia perguntas genuínas. Escutava de verdade. Ria fácil.
E aquilo deixava tudo mais leve.
— Você sempre quis fazer algo acústico assim? — ele perguntou enquanto girava distraidamente a taça entre os dedos.
Hanna assentiu.
— Sempre.
Ela apoiou o queixo na mão por um instante antes de continuar.
— Mas nunca tive espaço pra mostrar esse lado.
Eun-woo observou ela em silêncio por alguns segundos.
Como se estivesse tentando encaixar aquela versão dela com a imagem que o público conhecia.
— E agora?
Hanna sorriu pequeno.
Um sorriso mais calmo. Mais seguro.
— Agora eu não pretendo parar.
Ele devolveu o sorriso imediatamente.
Admiração clara no olhar.
— Ainda bem.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável.
Muito pelo contrário.
Era leve.
E aquilo mexia com Hanna mais do que deveria.
Porque ela estava acostumada com intensidade.
Com confusão.
Com sentimentos difíceis.
Mas ali…
tudo parecia simples.
Sem esforço.
Sem dor.
Sem aquele nó constante apertando o peito.
E isso assustava um pouco.
Mas também aconchegava.
Quando saíram do restaurante, a noite em Seoul já estava silenciosa.
O carro seguiu pelas ruas iluminadas enquanto conversavam sobre coisas bobas.
Música.
Filmes ruins.
Memórias de trainee.
Sem perceber, Hanna ria mais do que vinha rindo nos últimos meses.
Quando chegaram ao condomínio, Eun-woo desligou o carro devagar.
— Obrigado por hoje.
Ela olhou pra ele.
— Eu que agradeço.
Silêncio curto.
Então Hanna falou antes de pensar demais:
— Quer subir?
Os olhos dele encontraram os dela imediatamente.
Não surpresos.
Mas atentos.
Como se quisesse ter certeza de que ela realmente queria aquilo.
Hanna sustentou o olhar.
Ainda insegura sobre o que exatamente esperava daquela noite.
Mas uma coisa ela sabia:
se sentia confortável com ele.
Confortável o suficiente pra deixar ele entrar.
Eun-woo sorriu pequeno.
— Claro.
O apartamento de Hanna era exatamente como ela.
Elegante sem exagero.
Clean.
Organizado.
Confortável.
Poucos objetos.
Poucas cores.
Muito espaço.
Ela nunca gostou de ambientes carregados.
Precisava respirar dentro da própria casa.
Eun-woo observou tudo discretamente enquanto tirava o casaco.
— Tem a sua cara.
Hanna deixou a bolsa no sofá.
— Isso é bom ou ruim?
— Bom.
Ele sorriu de lado.
— Parece tranquilo.
Ela gostou da resposta mais do que deveria.
— Quer beber alguma coisa?
— Aceito.
Ela caminhou até a cozinha americana e preparou dois drinks simples.
Nada forte demais.
As mãos dela ainda estavam levemente tensas.
Talvez pelo nervosismo.
Talvez pela consciência de que aquela noite podia significar alguma mudança.
Quando voltou e entregou o copo pra ele, os dedos dos dois se tocaram.
Eun-woo segurou a mão dela suavemente por um instante a mais do que precisava.
O olhar dos dois se encontrou.
Silencioso.
Próximo.
Hanna não puxou a mão.
Não conseguiu.
Ele sustentou o olhar dela calmamente enquanto a outra mão subia devagar até os cabelos soltos sobre o ombro dela.
Os dedos deslizaram leves pelos fios.
Carinhosos.
Sem pressa.
Hanna abaixou os olhos automaticamente.
O coração acelerando num ritmo irritantemente perceptível.
Eun-woo percebeu.
Claro que percebeu.
Então soltou a mão dela devagar e levou o copo até os lábios, tomando um gole como quem tentava aliviar um pouco da tensão que também começava a crescer nele.
Porque apesar da calma…
aquilo ainda era novo pros dois.
Hanna pegou o próprio copo logo depois.
Ela raramente bebia.
Quase nunca, na verdade.
Mas naquela noite…
sentiu que precisava de alguma coisa pra diminuir a própria apreensão.
Então tomou um gole pequeno.
E respirou fundo.
A conversa continuou fluindo sem esforço.
Hanna estava mais solta do que vinha sendo há dias.
Sentada no sofá, uma perna dobrada sob o corpo, o copo apoiado entre os dedos enquanto falava sobre o álbum com um brilho diferente nos olhos.
— Eu quero continuar nesse caminho… algo mais íntimo. Mais meu. Sem tanta regra.
Cha Eun-woo escutava com atenção verdadeira.
Sem interromper.
Sem tentar impressionar.
Só presente.
— E você acha que o público vai aceitar? — ele perguntou.
Hanna soltou um sorriso pequeno.
— Eu não sei.
Ela deu de ombros.
— Mas dessa vez… acho que isso não importa tanto.
Ele assentiu devagar, observando ela por alguns segundos antes de responder:
— Então você já decidiu.
— Já.
O silêncio que veio depois não foi estranho.
Foi cheio.
Confortável.
E talvez justamente por isso perigoso.
Porque havia alguma coisa no jeito dele…
constante.
Calma.
Sem pressão.
Algo que puxava ela devagar sem que percebesse.
Eun-woo se aproximou aos poucos.
Sem invadir espaço.
Sem transformar aquilo num momento grande demais.
Hanna sentiu imediatamente.
A respiração ficou mais curta.
Mais consciente.
Ela sabia o que vinha.
E, pela primeira vez em muito tempo, não havia confusão.
Não havia impulsividade.
Só escolha.
Ela fechou os olhos lentamente.
E deixou acontecer.
O beijo veio suave.
Quase cuidadoso.
Como uma pergunta silenciosa.
E Hanna respondeu da mesma forma.
Sem pressa.
O braço dele envolveu sua cintura devagar, puxando ela um pouco mais pra perto.
Sem força.
Só presença.
O calor dele.
O perfume leve.
A mão firme nas costas dela.
Tudo tranquilo.
Seguro.
Diferente de tudo que ela vinha vivendo nos últimos meses.
E por alguns segundos…
ela realmente tentou ficar ali.
Inteira.
Mas então aconteceu.
Rápido demais.
Num instante, a mente dela puxou outra imagem.
Outro olhar.
Outro toque.
Chris.
A lembrança atravessou ela sem aviso.
Pesada.
Familiar demais.
E aquilo quebrou o momento imediatamente.
Hanna recuou de repente, como se tivesse acordado.
O ar pareceu faltar por um segundo.
Eun-woo percebeu na hora.
Se afastou o suficiente pra olhar pra ela direito.
Confuso, mas calmo.
— Ei…
A voz saiu baixa.
Cuidadosa.
— Tá tudo bem?
Hanna desviou o olhar imediatamente.
— Tá.
Resposta rápida demais.
Ela respirou fundo.
Passou a mão pelos cabelos.
Tentando se reorganizar por dentro.
— Eu te machuquei? — ele perguntou.
— Não. Claro que não.
Mas a frase morreu no meio.
Porque nem ela sabia explicar direito o que tinha acabado de acontecer.
Hanna se levantou devagar e caminhou alguns passos pela sala.
Abraçou o próprio braço.
Tentando controlar a confusão crescendo no peito.
— Só que…
Ela parou.
Não tinha como dizer aquilo em voz alta.
Não daquele jeito.
Não agora.
O silêncio se espalhou entre os dois.
Pesado.
E então ela escolheu o caminho mais fácil.
Ou talvez o menos doloroso naquele momento.
— Já tá tarde.
Virou um pouco o rosto, sem encarar ele diretamente.
— Melhor você ir.
A voz saiu firme.
Mas cansada.
Eun-woo observou ela em silêncio por alguns segundos.
Tentando entender.
Mas não insistiu.
Não pressionou.
Só assentiu devagar.
— Tá.
Simples.
Maduro.
Ele pegou o casaco no sofá e caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou pra ela mais uma vez.
— Boa noite, Hanna.
Ela forçou um pequeno aceno.
— Boa noite.
A porta fechou.
E o apartamento ficou silencioso outra vez.
Mas agora o silêncio era pesado.
Hanna levou a mão ao rosto devagar.
Os olhos fechando enquanto soltava o ar preso.
Frustrada.
Confusa.
Cansada.
— Por que agora…?
Baixo.
Quase um sussurro.
Porque ela estava tentando seguir.
De verdade.
Tentando abrir espaço pra alguém que fazia tudo certo.
Mas no fundo… uma parte dela ainda não tinha conseguido deixar Bang Chan ir.
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