Tudo o que custou a elas
3 As duas rainhas
A visão da escocesa causou em Elizabeth um grande espanto. Mary já não se parecia tanto com seus famosos retratos. Estava envelhecida e muito magra, com rugas em torno dos olhos e uma abundância de fios brancos no meio do cabelo negro. Ao fitá-la, a rainha inglesa viu em seu rosto a dor da prisão, do exílio e da certeza da morte. Sou responsável por parte disso, pensou com amargura.
Por sua vez, a rainha Mary assustou-se com a imponência de Elizabeth. Era verdade que sua prima também envelhecera, porém, mesmo coberta pela capa esfarrapada, ainda assim havia beleza em seu rosto. Estava coberto de pó — existiam rumores de que a governante dos ingleses sofria de varíola, por isso se maquiava com certo excesso — mas exibia ainda os últimos vestígios da juventude, como a vivacidade no olhar e o ruivo intacto no cabelo. Vê-la à sua frente, poucas horas antes da morte, despertou em Mary uma profunda raiva.
— O que você faz aqui? — Ela quebrou o demorado silêncio. — Veio zombar de mim uma última vez?
Elizabeth recebeu as palavras como um forte golpe, o que foi o suficiente para fazer as lágrimas rolarem.
— Mary, jamais seria capaz de uma coisa dessas! — Ela disse. — Vim porque sua morte me dói muito, e me culpo todos os dias desde que assinei a carta de execução. Vim lhe pedir perdão.
Jamais passara pela cabeça de Mary Stuart que sua prima e eterna rival se sentisse mal por ver-se, finalmente, livre dela, ainda mais depois de sua participação na conspiração católica. Por isso, embora as palavras da rainha tivessem despertado um pequeno sentimento de afeto em sua alma, Mary não se convenceu facilmente:
— Se verdadeiramente sente culpa, porque então permite que eu seja morta? E como deseja que eu lhe dê meu perdão, se é pela sua mão que estou condenada? — Mary elevou o tom da voz, angustiada com o futuro próximo. — É certo que morrerei pelo braço do carrasco, mas saiba que suas mãos também estão sujas com meu sangue, Elizabeth, e é o seu rosto que verei quando o machado tocar minha pele.
Aquilo soou para a inglesa como uma maldição. No entanto, tentou se colocar no lugar de Mary. Ela sabia que morreria por ordem da prima, o que fazia dela, ao menos em partes, sua assassina. A culpa remoía seu coração, por isso sua resposta veio em meio aos prantos:
— Acha mesmo que eu desejo sua morte, irmã?! — À menção da palavra, os olhos de Mary marejaram. — Por meses tentei adiar esse momento. Argumentei com o conselho, na medida do possível, em sua defesa. Consultei amigos de confiança, orei, busquei nas leis deste reino qualquer coisa que intercedesse em seu favor. Mas, no fim, estou enlaçada pelo meu cargo. Sou uma rainha cercada por lordes, conflitos políticos e deveres. Todos eles me levaram ao que eu não desejava, Mary, e foi com pesar que permiti sua execução.
A rainha escocesa viu a luz da verdade nas palavras da prima. A dor no olhar de Elizabeth e a angústia entalada em sua voz não eram falsas. Ali, Mary foi capaz de ver o quanto o peso da coroa esmagava a outra rainha. Governar uma nação era uma tarefa árdua — ela mesma fracassara nisso — e Elizabeth não só estava no comando do país mais poderoso do mundo, como ousava desafiar todos os valores antigos, sendo uma mulher reinando sem um marido. Ela acreditou que a prima fizera tudo em seu alcance para proteger sua vida, mas seu crime era pesado demais para ser ignorado pelos homens do conselho. Então, a inglesa não foi mais a única a carregar o fardo do remorso, pois Mary se deu conta do quão grave foi seu delito. Ela havia conspirado com os católicos que desejavam matar sua governante, a mulher que agora estava diante de si, chorando e implorando perdão por mandá-la para a morte.
— Eu acredito em você, Elizabeth. — Mary confessou, esquecendo-se momentaneamente de sua execução e lembrando-se do dia longínquo em que desembarcou na Inglaterra, certa de que a prima lhe ajudaria, o que de fato fez por muitos anos. — Creio que fez o que podia por mim, e lhe sou muito grata.Mas sinto que também preciso me redimir. Peço perdão por me unir aos conspiradores que almejavam sua morte. Na época, me deixei levar pela ilusão do poder, me esquecendo do laço maior que nos une como irmãs.
Elizabeth, nesse momento, sorriu. Um sorriso triste em meio a lágrimas, mas, ainda assim, um sinal de alívio. Em meio a tantas dores, a rainha inglesa soube que, embora por vezes parecesse, não estava sozinha no mundo. Ali, à sua frente, Mary Stuart abria-lhe um pouco do espírito, expondo seu arrependimento e, o mais importante, afirmando que ambas partilhavam não só o sangue, mas a vivência de mulheres e rainhas.
— Somos como peças num jogo muito maior que nós, não é mesmo? — disse Elizabeth, enxugando o rosto. — Se eu realmente tivesse tanto poder como o que os poetas e artistas me dão, rasgaria agora mesmo o maldito documento, Mary, e faria de tudo para lhe restabelecer no trono escocês. Eu te perdoo pelo que fez, e suplico mais uma vez que faça o mesmo por mim, para que minha alma encontre algum consolo nessa noite sombria.
Mary sentiu o conforto de ser perdoada, e era preciso que respondesse sua prima. Ela sabia que devia fazer o mesmo, mas não era tão fácil perdoá-la, sabendo que por sua mão estaria morta na manhã seguinte. No entanto, lembrou-se de Lola, que na última carta não guardava ressentimento contra Elizabeth. Nas palavras da amiga, mais do que uma rainha, ela era uma mulher, com suas fraquezas, forças e sonhos. Em breve, Mary não teria mais a bênção da vida e sentiu que não podia partir deixando uma irmã imersa na dor.
— Eu também te perdoo, Elizabeth. — Ela respondeu, com lágrimas, e sentiu o peito mais leve. — Não se culpe por minha morte, não foi uma escolha tomada livremente.
A rainha suspirou, como se um enorme peso tivesse sido retirado de suas costas. Ela curvou brevemente a cabeça em agradecimento, então disse:
— Não sabe quanto bem faz para mim ouvir essas palavras, Mary. Rezarei por você até o fim dos meus dias, tenha certeza disso. — Em seguida, ela dirigiu o olhar para a janela, na direção da lua. — Me sinto feliz em te ver pessoalmente, mas lamento não termos o tempo, e mesmo a situação, mais agradáveis para nos conhecermos melhor. Preciso voltar ao palácio antes que deem por minha falta. Por isso, arrisco me aproveitar da sua bondade, pedindo-lhe um último favor.
— Diga — respondeu Mary, sentindo-se estranhamente triste com o fim da visita de Elizabeth.
— Não conte a ninguém que estive aqui. O conhecimento desse fato poderia me prejudicar frente aos lordes e ao povo inglês.
Mary não tinha motivos para mencionar a visita da prima a ninguém, por isso assentiu, jurando que jamais sairia de sua boca qualquer palavra acerca daquele encontro.
— Mas também desejo fazer-lhe uma súplica — emendou a escocesa. — Meu filho, James… Seria possível que eu o visse antes de…
A rainha inglesa se compadeceu. Mary não via o filho há vinte anos, desde que era um bebê. E há um ano o rapaz habitava a Inglaterra, intercedendo pela mãe e, nos últimos dias, entrando em discussões acaloradas com Elizabeth sobre o destino de Mary. Naquela mesma noite, ele a havia procurado, culpando-lhe pela morte da mãe. Ela, como em tantas outras vezes, sugeriu a James que fosse ver Mary, pois era o futuro rei da Escócia, capaz de tomar as próprias decisões. Porém, como de costume, ele negou-se a vê-la, o que parecia a Elizabeth uma forma que ele encontrara de alimentar o remorso nela. Além disso, ela havia lhe dado uma escolha: salvar a mãe ou tornar-se seu herdeiro, unindo Escócia e Inglaterra quando ela própria morresse. Então, James, dada sua natureza ambiciosa, optou pela segunda alternativa. De certo modo, aquela era uma forma de se redimir com Mary, permitindo que o filho dela governasse os dois países, que há anos sofriam com uma perseguição mútua.
— Falarei com ele — prometeu Elizabeth, embora soubesse que James dificilmente aceitaria. Por meses, ele jamais havia demonstrado um real interesse de conhecer a mãe, o que entristecia a rainha inglesa. Ao ver o brilho no olhar de James ao ouvir que poderia herdar a Inglaterra, Elizabeth desconfiou que a morte de Mary era um preço que ele não se importava em pagar. Pobre Mary, não merece o filho que tem, ela pensou, enquanto via a prima assentir com a cabeça em agradecimento.
— Há uma coisa que você precisa saber. — Ela continuou. Desejando dar à infeliz rainha uma última alegria, contou sobre o destino que seu filho teria. — Nomearei James meu sucessor e, após minha morte, ele herdará tanto o seu país quanto o meu. Sob o comando da sua descendência, irmã, nossas nações estarão unidas.
Ao ouvir aquelas palavras, Mary sentiu o coração dilatar-se com uma alegria indizível. Seus olhos se encheram mais uma vez de lágrimas, mas dessa vez, elas eram fruto de um sentimento bom.
— Inglaterra e Escócia, finalmente juntas! — exclamou Mary, comovida. — Sem divisões ou disputas. Unidas sob a mesma coroa, de mãos dadas como as irmãs que sempre deviam ter sido.
Foi a vez de Elizabeth se emocionar. Ela assentiu a cabeça com vigor, enquanto seus olhos marejaram. Então, movidas pelo mesmo espírito de concórdia, as duas rainhas se abraçaram. Já não havia entre elas qualquer rancor, disputa ou inimizade. Em meio àquele abraço, elas se sentiram, mais do que nunca, amadas, protegidas e ligadas por algo maior que qualquer título: eram mulheres, e por isso, irmãs. Nenhum documento ou dever real seria capaz de abalar a conexão de suas almas.
Após alguns instantes, Mary e Elizabeth se afastaram. Esta se dirigiu até a porta, pronta para partir. Antes de sair, porém, curvou-se numa profunda reverência.
— Deus salve a Rainha da Escócia — disse Elizabeth, num gesto de grande respeito, que foi recebido por Mary com elevada emoção.
— E Deus salve a Rainha da Inglaterra. — Ela respondeu, também se curvando. Em seguida, emendou: — Que seja longo o seu reinado!
Elizabeth sorriu e, sensibilizada, fechou a porta atrás de si. Ela retornou ao palácio, triste, mas também agradecida pelo encontro com sua prima.
Quanto a Mary, ela finalmente sentiu paz em meio à noite turbulenta. Contra suas próprias expectativas, conseguiu dormir. Um sono leve e repleto de imagens das pessoas que amava, mas ainda assim, um último repouso antes de dormir a noite eterna.
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