Tudo acontece por uma razão

27 Centavo pelos teus pensamentos


Meia hora depois, Constance, estava em frente ao volante do carro, um Buick Lacrosse de prata, Maura a seu lado, e Jane no banco de trás, primeiro foram para a Universidade da Califórnia, onde Constance pegaria os documentos que ela esqueceu de levar para casa. No caminho, ela disse a Jane, enquanto olhava para ela no espelho retrovisor:

CONSTANCE: Maura disse-me que tu cozinhas como os deuses e, na verdade, estou ansiosa para provar a tua comida, eu preparei uma lista de compras, gostaria que tu a examinasses para saber se algo está a faltar.

JANE: Claro Constance, eu também fiz uma enquanto estávamos no avião, se tu quiseres, dá-me para ver.

Constance entregou-lhe a lista e disse:

CONSTANCE: Tu serás o chef deste ano, graças ao Céu, mas podemos ajudar-te, certo?

JANE: Claro — Jane respondeu sorrindo.

CONSTANCE: Ótimo! E diz-me, o que pretendes preparar?

JANE: Além do peru assado recheado com broa de milho e sálvia, eu quero preparar alguns aperitivos típicos e acompanhamentos, como molho de cranberry, purê de batatas com molho, feijão verde, milho. Quanto às sobremesas, eu gosto de variedade, então vou preparar mais de uma:torta de abóbora, claro, torta de noz e ... uma surpresa.

CONSTANCE: Oh meu Deus, isso será um verdadeiro banquete! A minha boca chora apenas por ouvir, e essa surpresa, o que vai ser? -Constance perguntou.

MAURA: Mãe, não perguntes, a Jane ama surpresas, ela nunca dirá; mas posso garantir que estás absolutamente certa vamos provar um banquete — disse Maura, sorrindo.

CONSTANCE: Absolutamente. Agora eu entendo porque tu abandonaste os alimentos congelados. Era a única coisa que tinhas em casa. Mas eu não perguntei, estão com fome?

MAURA: Um pouco, embora tenhamos comido no avião — respondeu Maura, e depois acrescentou -Talvez pudéssemos comer algo leve antes de ir às compras, para não chegarmos tarde. O que achas meu amor?

JANE: Eu acho que está tudo bem. Depois de fazer compras, devo marinar o peru e macerar os mirtilos, para que eles possam tomar gosto durante a noite. Além disso, devo preparar uma das sobremesas, que será uma surpresa, para deixar esfriar a noite também.

CONSTANCE: Marinar o peru uma noite antes? Filha, nós nunca fizemos nada disso! É por isso que sempre ficou tão sem graça?

Maura riu e disse:

MAURA: Não mãe, não ficou sem graça só por isso, mas por um pequeno detalhe, uma insignificância, nada mais.

CONSTANCE E JANE: Qual ? — Jane e Constance perguntaram em coro.

MAURA: Que nós não sabemos cozinhar.

As três mulheres riram no momento em que Constance estacionou o carro em frente à escola de direito. Ela disse, antes de sair do carro, apontando para um lugar na rua em frente:

CONSTANCE: Ao atravessar, verão na próxima esquina uma cafeteria com mesas e cadeiras ao ar livre, embora hoje não seja dia de escola, certamente haverá alguns alunos conversando e se divertindo. "Caffe Strada", é como se chama. Se vocês quiserem, vão na frente para encontrar uma mesa, eu volto em um momento, não me atraso.

Quando saíram do carro, Constance entrou na faculdade de direito, enquanto Jane e Maura caminhavam na direção da lanchonete. O lugar era bastante movimentado, apesar de ser a véspera de Ação de Graças; no entanto, elas tiveram sorte, e encontraram algumas mesas livres.

Poucos minutos depois, Constance retornou e encontrou-se com Jane e Maura, que lhe acenaram com as mãos quando a viram se aproximando. Enquanto se sentava, Constance perguntou:

CONSTANCE: Vocês já pediram alguma coisa?

MAURA: Não — respondeu Maura. — Nós estávamos esperando por ti, para ouvir a tua recomendação.

CONSTANCE: Tudo é delicioso aqui. Para comer, podem escolher entre croissant de chocolate, muffin de farelo de trigo ou o meu favorito, o croissant de amêndoa e bebida, obviamente, um café, há uma variedade estonteante de misturas, mas entre eles eu gosto do cappuccino, ou uma das exclusividades da casa, o Strada Blanco, uma deliciosa combinação de café e chocolate branco.

Maura disse:

MAURA: Vou escolher o croissant de amêndoas e o Strada Blanco. E tu meu amor, o que vais pedir?

Jane não respondeu, o seu olhar estava fixo em algum lugar no horizonte, pensativo. — Ei! — Maura disse, tocando o braço de Jane gentilmente para chamar a sua atenção. Jane reagiu e respondeu:

JANE: Desculpa, meu amor, eu não estava a ouvir. O que me dizias?

MAURA: O que vais pedir?

JANE: O mesmo que tu, meu amor.

Maura gentilmente apertou o braço de Jane novamente e disse:

MAURA: Um centavo pelos teus pensamentos, meu amor, noto que tu estas distraída. Algo aconteceu?

JANE: Sinto muito, é que vir aqui, para esta universidade, me trouxe lembranças, isso me fez pensar — Jane fez uma pausa por um momento, respirou e acrescentou. — Como resultado do ataque, tive que abandonar os meus estudos, eu não sei, eu estava a pensar que talvez eu deveria voltar.

Maura não conseguiu esconder o medo e a surpresa ao ouvir aquelas palavras e disse exaltada:

MAURA: Vais voltar para a França? — Pela expressão de Maura, Jane percebeu que ela não havia se explicado bem. Tomando a sua mão na dela, ela respondeu:

JANE: Não meu amor, eu não quis dizer a França, a minha vida está aqui, contigo, eu pretendia voltar aos meus estudos, sim, mas talvez eu possa solicitar a transferência da Universidade de Paris e me registrar aqui, em uma universidade em Miami.

Constance interveio na conversa, dizendo com entusiasmo:

CONSTANCE: Isso seria maravilhoso, Jane. Eu acho que tu deverias fazer isso.

JANE: Bem, é algo que vou pensar com cuidado. Estou prestes a começar a terapia, mas sim, acho que é uma boa ideia.

CONSTANCE: É — Constance disse sorrindo. Retomando a sua habitual compostura, Jane levantou-se da cadeira e disse, direccionando o olhar para Constance:

JANE: Se me permitir, eu convido. O que vais pedir?

CONSTANCE: O mesmo que vocês.

JANE: E o que é isso? Na verdade, eu não ouvi. — Sorrindo com a expressão de Jane, Constance respondeu:

CONSTANCE: Croissant de amêndoa e Strada Blanco.

JANE: Ok, eu volto já — Jane disse, enquanto se afastava da mesa e ia até o balcão da cafeteria para fazer o pedido. O silêncio de Maura durante a parte final daquela conversa não passou despercebido para a sua mãe, nem o olhar perdido que ela tinha agora. Portanto, ela disse:

CONSTANCE: Agora sou eu quem daria um centavo pelos teus pensamentos.

Maura suspirou, ela sempre foi muito sincera com a mãe, e essa não seria a excepção:

MAURA: Eu acho que é egoísta da minha parte, mas acho que não gosto dessa ideia, da Jane retornar à universidade.

CONSTANCE: Eu não entendo minha filha, porque dizes isso?

Maura olhou para Jane, examinou o seu corpo de cima a baixo, admirando como ela era linda, com a sua camisa preta e aqueles jeans que realçavam a sua figura requintada. Então ela olhou para o rosto bonito, agora sem atadura, ela ainda tinha aquela cicatriz, mas era mais tênue, e parecia importar para Jane, cada vez menos. Maura respondeu:

MAURA: Olhe para ela mãe, ela é tão jovem, tão bonita. Uma parte de mim sabe que isso é uma boa ideia e que eu não posso e não devo me opor, mas a outra parte tem medo de que algo assim possa explodir a bolha.

CONSTANCE: De que bolha tu estás a falar, Maur? Eu ainda não entendo.