Tudo Começou em Letras

8 Capítulo 8 — Presença Magnética


Adam havia tomado uma decisão clara: evitar completamente Vincent e sua turma. Nada de olhares furtivos quando eles passassem, nada de coincidências que o deixassem vulnerável. Era a única maneira de se proteger da confusão que Vincent provocava e de qualquer situação da qual pudesse se arrepender depois.

Semanas se passaram. Adam se concentrou nos estudos, nos trabalhos e nos amigos, evitando qualquer canto do campus onde a turma pudesse aparecer. Tentava manter a vida “normal”, mas a lembrança de Vincent continuava presente em pequenos detalhes: o seminário, o toque inesperado, o beijo que insistia em voltar à mente.

Numa noite, ele e seus amigos decidiram ir ao pub onde Min-su trabalhava. O lugar estava cheio, a música alta, as mesas ocupadas, o cheiro de cerveja e frituras misturado com o burburinho animado dos clientes. Eles conseguiram uma mesa grande próxima ao balcão, de onde podiam observar Min-su se movimentando com rapidez, preparando drinks e atendendo clientes.

— Não acredito que nem podemos falar com o Min-su — reclamou Tyler, jogando os braços para o alto. — A gente vem até aqui e ele tá ocupado o tempo todo!

Finn soltou uma risada baixa, mal contida, se divertindo com o drama do amigo.

— Uau… eu acho que você tem um crush no Min-su, hein? — provocou, piscando para Tyler.

Tyler se revirou na cadeira, indignado e teatral:

— Não! Eu nunca ficaria com ninguém do grupo! Eu já falei e repito. — exclamou, fazendo um gesto dramático. — Só tô dizendo que é absurdo não conseguir nem trocar duas palavras com ele!

Isabelle, sentada na mesa ao lado, cruzou os braços e deu um sorriso divertido:

— Você parece estar mais indignado do que o próprio Min-su, e olha que ele está lá tranquilo, concentrado no trabalho dele — disse, apontando discretamente para o balcão, onde Min-su mexia nos drinks com o rosto calmo e sereno.

Tyler bufou, cruzando os braços, o peito estufado como se tentasse afirmar sua indignação:

— Isso não importa! Ele tá ocupado demais pra gente. Não é justo!

Finn soltou outra risada, apoiando o queixo na mão:

— Tá bom, drama queen.

Adam observava tudo em silêncio, com um meio sorriso nos lábios, tentando se concentrar nos amigos e não nos pensamentos que insistiam em permear sua mente.

Ele estava prestes a virar o olhar para o cardápio na mesa quando percebeu, pelo canto do olho, duas figuras entrando pelo pub. Vincent e Laurent. Os dois caminhavam juntos, descontraídos, rindo de algo que Vincent dizia, a postura segura e natural de sempre. Eles se dirigiram ao balcão, falando animadamente com um dos bartenders, sem notar ninguém em especial.

O coração de Adam disparou, uma mistura de alerta e tensão percorrendo seu corpo. Ele respirou fundo, tentando manter a postura calma, e inclinou-se levemente sobre a mesa, fingindo interesse em algo nos papéis à sua frente. Os amigos estavam entretidos em conversas e risadas, ocupados demais para notar a entrada dos dois, e Adam se sentiu grato por isso.

Ele tomou cuidado para não encarar Vincent diretamente, mas cada movimento do outro parecia carregar um magnetismo impossível de ignorar. Laurent, ao lado, parecia igualmente à vontade, e Adam percebeu que os dois se conheciam bem, como se aquela interação casual fosse completamente natural.

Adam ainda estava preso à visão de Vincent e Laurent no balcão quando percebeu Finn mexendo as mãos e sorrindo, falando algo animadamente:

— Então… e aí, Adam, o que você acha? — perguntou Finn, inclinando-se levemente para esperar uma resposta.

Adam piscou algumas vezes, saindo do transe que o prendia, e percebeu que não fazia a menor ideia do que Finn estava falando. Por alguns segundos, ficou sem palavras, perdido entre os pensamentos e a presença dos outros dois no pub.

— Hein? — respondeu, confuso, a voz baixa e distraída.

Tyler, percebendo a situação, não perdeu tempo:

— Olha só, Adam… completamente desligado, hein? Deve estar ocupado admirando alguma obra de arte abstrata aí na sua cabeça. — zombou, gesticulando exageradamente e fazendo Finn rir ainda mais.

Isabelle riu da confusão de Adam e sacudiu a cabeça, dizendo:

— A gente estava falando de sair daqui e ir comer algo numa pizzaria. Estamos com fome — explicou, com um sorriso divertido, inclinando-se sobre a mesa.

Adam piscou algumas vezes, afastando os pensamentos de Vincent e Laurent, e respondeu:

— Ah, beleza. Topo ir agora — disse, tentando soar casual, embora ainda sentisse o coração acelerado.

— Espera aí! — disse Tyler, cruzando os braços e bufando teatralmente, apontando para o copo na mão. — Ainda tô bebendo, não posso largar no meio! A pizza pode esperar uns minutinhos.

Adam apenas suspirou, inclinando-se sobre a mesa, tentando controlar o nervosismo e se concentrar na companhia dos amigos, enquanto os pensamentos sobre Vincent e Laurent insistiam em aparecer, mesmo que ele tentasse ignorá-los.


***


Adam, tentando se concentrar nos amigos, não conseguiu evitar o que viu de canto de olho: uma das garotas no bar passando a mão no braço de Vincent de maneira explícita, praticamente se jogando sobre ele. O calor subiu em seu peito e uma mistura de desconforto e ciúmes o dominou. Sem conseguir conter o incômodo, ele se inclinou para os amigos e disse com pressa:

— Gente… vamos logo.

Tyler levantou a sobrancelha, seguindo o olhar de Adam. Quando viu quem estava ali, franziu o cenho:

— Sério? Até aqui onde o Min-su trabalha eles têm que vir? — murmurou, a irritação evidente.

Finn suspirou, balançando a cabeça negativamente:

— Nunca ficaremos livres… — disse, balançando a cabeça, como se aquilo fosse uma constante inevitável.

Isabelle, cruzando os braços e suspirando, concordou:

— Melhor a gente sair daqui mesmo. E, convenhamos, a fome já tá demais pra esperar.

Tyler bufou, dando um último gole em seu drink antes de largá-lo na mesa com um estalo, como se aquilo resolvesse toda a frustração.

— Tá, tá… vamos embora — disse, cruzando os braços, ainda resmungando, mas se levantando junto com os outros.

Adam respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado, enquanto se levantava da mesa e se preparava para deixar o pub, junto dos amigos, longe do bar e do magnetismo que Vincent exercia sobre ele.

O grupo caminhou até o balcão, tentando não atrapalhar Min-su enquanto ele atendia um cliente.

— Valeu pelo atendimento, Min-su! — chamou Tyler, com aquele tom exageradamente animado, fazendo uma mistura de brincadeira e elogio. — Bom trabalho!

Min-su lançou um sorriso rápido, educado, sem desgrudar os olhos do cliente que ainda estava sendo atendido, e respondeu com um aceno discreto:

— Obrigado, pessoal. Até mais!

Adam fez um leve aceno, mais contido, quase como se estivesse tentando desaparecer por alguns segundos, e Finn e Isabelle seguiram o exemplo, mantendo a cordialidade.

Quando Adam se virou para sair, num impulso quase impossível de controlar, ele não resistiu e lançou mais um olhar rápido em direção a Vincent. Seu coração disparou ao ver que a mulher ainda estava se encostando nele, rindo de maneira provocativa, mas então os olhos verdes de Vincent se encontraram com os de Adam.

Por um instante, Adam sentiu o mundo congelar: o magnetismo, a intensidade daquele olhar, tudo parecia puxá-lo de volta para algo que ele não queria enfrentar. Um calor desconfortável subiu pelo seu peito, e ele soube que precisava romper o contato imediatamente.

Sem dizer nada, desviou o olhar, respirou fundo e continuou seu caminho para a porta, junto com os outros.

O ar fresco da noite os recebeu, e Adam sentiu um pequeno alívio: finalmente, podiam deixar para trás o calor, o barulho e, principalmente, a presença magnética de Vincent.


***


Na pizzaria, Adam se recostou na cadeira, tentando controlar a respiração e não demonstrar demais, mas os olhos marejados denunciavam o turbilhão interno. Tyler, percebendo, franziu o cenho e inclinou-se um pouco mais:

— Adam… aconteceu alguma coisa? — perguntou, a voz carregada de preocupação e curiosidade.

Finn também lançou um olhar atento, inclinando-se sobre a mesa:

— Tá tudo bem? O que aconteceu?

Isabelle apenas colocou uma mão em seu ombro.

Adam se amaldiçoou silenciosamente por não conseguir esconder o que sentia. Para Vincent, provavelmente, aquilo que tiveram — os beijos, a proximidade — não significava nada. Talvez tenha sido só uma provocação, uma brincadeira, algo passageiro. Mas para ele era algo insuportável. A simples lembrança do toque, o olhar intenso, a mulher que se encostava nele no pub… tudo isso o deixava fora de si.

— Não… não é nada — disse, com a voz baixa e firme, tentando soar convincente, mas nem ele mesmo acreditava nisso.

Enquanto seus amigos voltavam à conversa, Adam se perdeu por alguns segundos no próprio pensamento. Ele não queria sentir-se vulnerável, como Finn havia se sentido com Miles; humilhado, impotente, sem controle sobre os próprios sentimentos. Cada lembrança de Vincent, cada gesto, parecia empurrá-lo mais para esse perigo emocional que ele tanto temia.

Ele apertou levemente os dedos contra a borda da mesa, tentando trazer-se de volta à realidade. Fechou os olhos por um momento, respirou fundo e se prometeu, novamente, que precisava encontrar uma maneira de se proteger.