Tudo Começou em Letras
27 Capítulo 27 — Passado em Família
Notas iniciais
O tempo começou a passar de um jeito diferente.
Não mais arrastado como nos dias do hospital, quando cada manhã parecia igual à anterior, nem pesado como nas últimas semanas.
Vincent melhorava a cada dia.
No começo, eram apenas caminhadas curtas pelo campus, sempre devagar, sempre com cuidado, o corpo ainda rígido depois do acidente. Adam costumava andar ao lado dele sem dizer nada, atento demais a qualquer sinal de cansaço, como se ainda esperasse que tudo pudesse desmoronar de novo a qualquer instante.
Vincent reclamava disso.
— Eu não sou feito de vidro — disse uma vez, parando no meio do caminho.
Adam não respondeu, só diminuiu o passo.
Com o tempo, as coisas foram ficando mais fáceis. As costelas pararam de doer o tempo todo, os cortes viraram cicatrizes, e Vincent voltou a frequentar as aulas, primeiro só algumas, depois quase todas. Ainda se cansava mais rápido do que antes, mas já não parecia alguém que tinha passado duas semanas entre a vida e a morte.
Adam continuava aparecendo.
Às vezes só para ficar sentado no quarto dele, lendo enquanto Vincent fazia alguma coisa qualquer.
Às vezes sem motivo nenhum.
Havia algo novo entre eles.
Não era mais aquele silêncio cheio de medo, nem aquela tensão constante de quem não sabe se pode ou não atravessar uma linha invisível. Agora o toque vinha naturalmente; uma mão no braço, um beijo rápido antes de sair, um olhar que demorava um segundo a mais do que deveria.
Nada era dito em voz alta, mas os dois sabiam.
Estavam bem.
Adam também voltou ao normal na sua rotina no sebo.
Laura não comentava muito, mas sempre perguntava de Vincent com um sorriso discreto, como quem acompanha uma história à distância. O trabalho voltava a ser o que sempre tinha sido: pilhas de livros, clientes silenciosos, tardes tranquilas que pareciam existir fora do tempo.
Era um lugar onde Adam conseguia respirar.
Com Tyler, Min-su e Isabelle, as coisas também tinham voltado ao normal.
Eles voltaram a se encontrar no dormitório de Adam, a reclamar das aulas, a rir de coisas idiotas que só faziam sentido para eles. Tyler continuava exagerado como sempre, Isabelle continuava observando tudo com aquele ar atento, e Min-su aparecia quando conseguia, quase sempre cansado, mas sempre presente.
Era bom estar com eles de novo.
Era quase como antes.
Quase.
Porque havia um espaço que continuava vazio.
Finn.
Adam o tinha visto algumas vezes pelo campus nas últimas semanas.
No corredor da faculdade.
Na fila do café.
Uma vez, atravessando o pátio enquanto Adam saía da biblioteca.
Na primeira vez, Adam tentou sorrir, mas Finn não sorriu de volta.
Na segunda, tentou dizer oi, porém Finn fingiu não ouvir.
Na terceira, eles passaram um pelo outro tão perto que Adam teve certeza de que conseguiria falar com ele. No entanto, Finn nem o olhou.
Aquilo doía mais do que Adam queria admitir. Ele dizia para si mesmo que entendia. Que tinha errado com ele. Que talvez Finn precisasse de tempo. Mas, mesmo assim, cada vez que aquilo acontecia, ficava um peso estranho no peito, como se alguma coisa que antes parecia sólida agora tivesse rachado de um jeito que não dava para consertar.
O semestre foi terminando assim, devagar, sem grandes acontecimentos.
As árvores do campus perderam as folhas.
O vento ficou mais frio.
As tardes começaram a escurecer mais cedo.
E, quando Adam percebeu, já tinham se passado três meses desde o acidente.
As luzes começaram a aparecer nas janelas dos prédios.
Decorações surgiram no refeitório, nos corredores, na entrada da universidade. Guirlandas improvisadas, fios de luz piscando, músicas de Natal tocando baixo em algum lugar distante.
O inverno tinha chegado de vez.
E com ele, o Natal.
***
O quarto de Vincent já tinha se tornado quase tão familiar para Adam quanto o próprio dormitório. O casaco dele estava jogado na cadeira como se sempre tivesse pertencido ali, e um dos livros que ele estava lendo naquela semana descansava aberto sobre a mesa de cabeceira, marcado com um papel qualquer. Nos últimos tempos, ele passava mais noites ali do que no próprio quarto.
Naquela tarde, os dois estavam deitados lado a lado, em silêncio, ouvindo o barulho distante do corredor e o vento batendo de leve na janela. Vincent estava de barriga para cima, com um braço atrás da cabeça. Adam estava de lado, apoiado no cotovelo, olhando para ele sem fazer muita coisa além disso.
Foi Vincent quem quebrou o silêncio.
— Você vai ficar aqui no Natal?
Adam piscou, como se tivesse demorado a entender a pergunta.
— Hm?
— No Natal — Vincent repetiu, virando um pouco o rosto para ele. — Você vai ficar no campus ou vai pra casa?
Adam pensou por um segundo, embora a resposta fosse meio óbvia.
— Acho que vou pra Ennistymon. Como sempre.
Vincent sorriu de leve.
— Sua cidade, né?
— É. — Adam deu um meio sorriso também. — Todo ano é a mesma coisa… meus tios, meus primos, comida demais, todo mundo falando alto ao mesmo tempo.
Vincent soltou uma pequena risada pelo nariz.
— Parece… barulhento.
— É — Adam disse, divertido. — Mas é bom.
Ele ficou olhando Vincent por mais um instante, depois devolveu a pergunta sem pensar muito.
— E você? Vai passar aonde?
O sorriso de Vincent não desapareceu de imediato, mas ficou mais fraco. Ele desviou o olhar para o teto antes de responder.
— Eu vou pra Clermont-Ferrand.
Adam franziu a testa.
— Vai passar com a sua família?
Vincent soltou o ar devagar, como se aquela resposta viesse com mais peso do que deveria.
— Sim.
O tom não combinava com a palavra.
Adam percebeu na hora. Ele se apoiou melhor no cotovelo, observando o rosto de Vincent com mais atenção.
— Você falou isso como se não quisesse ir.
Vincent virou os olhos para ele, neutro demais.
— Não é isso.
— É que não pareceu muito animado.
Vincent ficou em silêncio por um instante, depois passou a mão pelo rosto, esfregando os olhos como se estivesse cansado.
— Meu irmão vai se casar.
Adam abriu um sorriso pequeno.
— Sério? Isso é ótimo.
Vincent deu de ombros, sem muita convicção.
— É sim… ele basicamente me intimou a ir — Vincent completou, com um canto de ironia na voz.
Adam ergueu as sobrancelhas.
— Intimou?
— Uhum.
— Mas… — Adam se ajeitou na cama, virando o corpo para ficar mais de frente para ele. — Não seria bom passar com a sua família? Ainda mais com ele se casando… parece uma coisa importante, não?
Vincent soltou um sopro curto, olhando para o teto outra vez.
— É importante.
— Então por que você tá com essa cara?
Ele não respondeu de imediato. O silêncio se alongou alguns segundos, daquele jeito que não era desconfortável, mas também não era leve. Adam ficou observando, percebendo que havia alguma coisa ali que Vincent não costumava contar.
— Ei… — Adam disse, mais baixo.
Vincent virou o rosto para olhá-lo. Adam já estava sentado na cama agora, as pernas dobradas, o corpo inclinado na direção dele.
— Você não precisa falar se não quiser, mas… eu quero saber… se você quiser contar. O que aconteceu entre você e seu irmão.
Vincent ficou olhando para ele por mais um segundo, como se estivesse decidindo se confiava naquela pergunta ou não. Depois soltou o ar, devagar, e deixou a cabeça cair de novo no travesseiro.
— É… — murmurou. — Não é tão simples.
— Mas… o que houve?
Vincent não respondeu de imediato.
Ele ficou olhando para o teto por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir por onde começar, ou se realmente queria começar. A mão dele passou pelo rosto devagar, depois parou sobre a própria boca, pensativo.
Adam não falou nada, só esperou.
Depois de um tempo, Vincent soltou um suspiro mais longo e deixou o braço cair ao lado do corpo.
— Meus pais morreram quando eu tinha sete anos.
Adam piscou, surpreso.
O impacto da frase foi tão direto que ele nem tentou esconder a reação. O corpo dele se inclinou um pouco para frente, e a mão foi quase automática até o braço de Vincent.
— Meu Deus…
Os dedos dele pousaram de leve sobre o antebraço de Vincent, sem apertar, só encostando, como se quisesse dizer alguma coisa sem interromper.
Vincent manteve o olhar no teto. A voz dele saiu mais baixa.
— Foi um acidente de carro.
Ele engoliu seco antes de continuar.
— Eles viajavam muito a trabalho… sempre viajavam. Eu estava acostumado. Ficava com o Victor ou algum vizinho… nada muito estranho.
Ele deu um sorriso pequeno, sem alegria.
— Até que um dia… eles não voltaram.
O silêncio que veio depois foi pesado. Adam apertou um pouco o braço dele, sem perceber.
Vincent continuou, ainda olhando para cima.
— O Victor tinha dezesseis anos na época.
Adam franziu a testa.
— E vocês… ficaram sozinhos?
Vincent assentiu de leve.
— A gente não tinha muitos parentes próximos. E os que tinham… não tinham condição de ficar com a gente. Ainda mais comigo sendo uma criança. Então basicamente ficou por isso mesmo.
Ele soltou um ar pelo nariz.
Adam ficou em silêncio, esperando. Ele continuou:
— O Victor começou a trabalhar. Parou de estudar por um tempo… depois voltou, mas sempre atrasado, sempre correndo atrás. Ele fazia tudo. Pagava as coisas, resolvia papelada, falava com a escola, com médico… tudo.
Adam balançou a cabeça, impressionado.
— Isso é muita responsabilidade para um adolescente.
Vincent deu um sorriso curto, cansado.
— É.
Ele virou o rosto de lado, olhando finalmente para Adam.
— Eu só fui entender isso muito depois.
Adam manteve a mão no braço dele, agora mais firme. O silêncio ficou ali por um instante, cheio de coisas que não precisavam ser ditas.
Adam hesitou antes de perguntar:
— Então… se ele fez tudo isso por você… por que você fala como se a relação de vocês fosse… complicada?
Vincent ficou quieto. O olhar dele voltou para o teto, e dessa vez demorou mais para responder. Quando falou, a voz saiu mais baixa.
— Porque é.
Adam não disse nada.
Vincent respirou fundo.
— Hoje eu vejo que… quase tudo é culpa minha.
Adam franziu a testa.
— Culpa sua? Mas por quê?
— O Victor sempre foi… muito protetor. Muito mesmo. Depois que meus pais morreram, eu virei basicamente a única família que ele tinha. E ele… — Vincent deu de ombros. — Parece que ele tinha medo de me perder também.
Ele passou a mão pelos cabelos, meio nervoso.
— Então ele controlava tudo. Onde eu ia, com quem eu andava, que horas eu voltava… tudo.
Adam ouviu sem interromper. Vincent continuou:
— Quando eu era criança, eu não ligava. Eu achava normal. Ele era meu irmão mais velho, ele cuidava de mim… então tudo ok.
Ele soltou um ar mais pesado.
— Mas quando eu comecei a ficar mais velho… eu comecei a odiar isso.
Adam assentiu de leve, entendendo.
— Você queria liberdade.
— Eu queria qualquer coisa que não fosse alguém mandando em mim o tempo todo.
A voz de Vincent ficou um pouco mais dura, como se estivesse revivendo aquilo.
— A gente começou a brigar muito. Muito mesmo.
Ele fechou os olhos por um instante antes de continuar.
— Eu comecei a andar com gente que ele odiava. Gente que ele dizia que não prestava. Eu saía escondido, mentia, voltava tarde… fazia de propósito, só pra provar que ele não mandava em mim.
Adam não tirava a mão do braço dele.
Vincent soltou uma pequena risada sem humor.
— Comecei a fumar com… sei lá, quinze anos. Talvez antes. Nem lembro direito.
Ele passou a língua pelos lábios, pensativo.
— E até hoje eu não consegui largar completamente.
Adam abaixou o olhar por um segundo, depois voltou para ele.
Vincent ponderou, como se tivesse ido longe demais e agora estivesse decidindo se devia continuar. A mão livre dele ficou brincando com a dobra do lençol, puxando e soltando sem perceber.
Adam não tirou a mão do braço dele. Ficou ali, quieto, esperando.
Até que Vincent respirou fundo outra vez.
— O pior… — ele murmurou — é que ele sempre ia atrás de mim.
Adam inclinou a cabeça, atento.
— Como assim?
— Eu fugia, mentia, sumia… e o Victor aparecia.
Ele soltou o ar pelo nariz, lembrando.
— Teve uma vez… eu devia ter uns dezesseis anos, eu acho. Eu tinha saído com uns caras mais velhos, a gente tava numa praça, bebendo, fumando… e eu me achando o máximo.
Ele balançou a cabeça, envergonhado só de lembrar.
— E do nada ele apareceu. Alguém tinha visto, contou pra ele… sei lá. Ele sempre dava um jeito de descobrir onde eu tava.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Ele me puxou pelo braço na frente de todo mundo. Começou a perguntar quem eram aqueles caras, o que a gente tava fazendo, por que eu não tinha avisado que ia sair… e os caras riram daquilo.
Adam apertou levemente o braço dele, que parecia sentir a vergonha ainda viva na memória. Ele continuou:
— Eu fiquei com tanta raiva… tanta vergonha… que comecei a gritar com ele no meio da rua. Mandar ele me deixar em paz, falar que ele não era meu pai, que não mandava em mim… hoje eu sei que ele só tava com medo de eu me meter numa fria.
Houve um silêncio curto.
— Mas na hora… eu só queria que ele sumisse.
Adam não disse nada. Vincent passou a mão pelo rosto, cansado.
— Ele também não gostava que eu levasse ninguém pra casa. Nunca.
Adam franziu a testa.
— Nunca?
— Nunca. — Vincent deu de ombros. — Se eu levava alguém, qualquer pessoa, ele ficava fazendo perguntas. Quem é, de onde você conhece, quantos anos tem, o que faz… parecia um interrogatório.
Ele soltou uma risada curta.
— Eu odiava isso. Achava que ele queria controlar até quem eu podia conhecer ou fazer amizade.
Ele ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar, a voz mais baixa ainda.
— E eu também não ajudava.
Adam esperou. Vincent passou a língua pelos lábios, hesitando, mas decidiu falar mesmo assim.
— Eu comecei a… sair com muita gente. Cedo.
Adam não mudou a expressão, mas prestou ainda mais atenção.
— Garotas… garotos… tanto faz. Eu só queria fazer o que eu quisesse. Provar pra mim mesmo que ninguém mandava em mim.
Ele deu um sorriso triste.
— Perdi a virgindade muito cedo. Nem lembro direito com quem foi, acho que eu tava bêbado.
O silêncio ficou mais pesado. Vincent respirou fundo, e dessa vez a voz falhou um pouco.
— Eu me arrependo tanto de ter sido assim.
Adam sentiu o braço dele tensionar debaixo da sua mão. Vincent continuou, quase num desabafo:
— Eu era arrogante, irresponsável… achava que o mundo inteiro tava contra mim, quando na verdade tinha só um cara tentando segurar tudo sozinho.
Ele fechou os olhos, e quando falou de novo, a voz estava mais fraca.
— Eu não quero que você me condene por isso, Adam. Eu fui um idiota e reconheço.
Adam se mexeu na hora. Vincent abriu os olhos, ainda sem olhar para ele.
— Eu tô te contando porque… — ele respirou fundo. — Porque eu não quero fingir que eu sempre fui esse cara aqui. Eu não fui. Eu fiz muita coisa idiota. Machuquei pessoas… fiz coisas que hoje eu tenho vergonha.
A voz dele falhou de leve.
— Eu só… quero ser honesto com você.
Adam não respondeu com palavras.
Ele se inclinou devagar, segurou o rosto de Vincent com uma das mãos e o beijou. Foi um beijo calmo, firme, sem pressa, como se quisesse cortar aquele pensamento no meio antes que ele fosse longe demais.
Quando se afastou, ficou com a testa encostada na dele.
— Ei… — murmurou.
Vincent abriu os olhos, ainda meio perdido.
Adam passou o polegar de leve pela bochecha dele.
— Tá tudo bem.
Vincent respirou fundo, como se não acreditasse muito. Adam continuou, a voz baixa, mas segura:
— Você era um adolescente, Vincent. Um adolescente.
Ele deu um meio sorriso.
— Todo mundo é idiota quando é adolescente. Alguns só têm menos consequências que outros.
Vincent soltou um sopro fraco, quase um riso.
Adam continuou:
— Você era imaturo. Rebelde. Tava com raiva do mundo. Isso não te faz uma pessoa ruim. Só te faz humano.
Vincent ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo. O olhar dele se perdeu no nada antes de voltar para Adam.
— Às vezes eu fico pensando… — murmurou. — Que se eu não tivesse sido assim… talvez a minha relação com ele hoje fosse diferente.
Adam não respondeu, só ouviu. Vincent continuou:
— Eu sei que o Victor também errou. Ele exagerava, controlava demais… mas… — ele deu de ombros, cansado. — Eu fui fora da curva. Mesmo.
Ele soltou o ar devagar.
— Ele tentou ser pai, irmão, tudo ao mesmo tempo… e eu só queria provar que não precisava dele.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era pesado.
Vincent virou o rosto um pouco, encostando a testa no ombro de Adam.
— E agora… — murmurou — toda vez que eu volto pra casa… parece que a gente ainda tá preso naquela época.
O silêncio ficou ali por alguns segundos depois que Vincent terminou de falar. Não era desconfortável, era mais como se as palavras ainda estivessem assentando no ar, encontrando lugar.
Adam continuava com a mão apoiada no braço dele, fazendo um carinho distraído com o polegar, sem nem perceber.
Depois de um tempo, ele perguntou, com cuidado:
— E… como você veio parar em Dublin?
Vincent não respondeu na hora.
Ele levantou a cabeça devagar do ombro de Adam e ficou olhando para o teto outra vez, mas dessa vez com uma expressão diferente, menos pesada, quase pensativa.
Um canto da boca dele se curvou.
— Eu sempre fui meio perturbado da cabeça.
Adam soltou um riso baixo.
— Isso eu já percebi.
Vincent sorriu de leve, de verdade dessa vez.
— Talvez seja por isso que eu gostava tanto de música.
— Talvez seja por isso? — Adam repetiu, divertido.
— Uhum. — Vincent deu de ombros. — Ou talvez eu gostasse de música antes de ficar perturbado… nunca vou saber a ordem certa das coisas.
Adam riu baixo, balançando a cabeça.
Vincent continuou, agora com a voz mais leve, mas ainda carregando alguma nostalgia.
— Meu pai tinha instrumentos em casa. Um violão velho, um piano… e um violino que ninguém tocava direito.
Ele olhou para a própria mão, como se estivesse lembrando da sensação. A voz dele ficou um pouco mais suave.
— Eu passava horas mexendo naquilo. Aprendendo sozinho, tentando tirar música de ouvido… era a única coisa que eu fazia sem alguém mandar, sem alguém reclamar. Era o único momento que eu não tava pensando em mais nada.
Adam ficou ouvindo, quieto. Vincent olhou para o teto por um instante, pensativo.
— Acho que eu tomei gosto por aquilo porque… era a única coisa que era minha. De verdade. E talvez… porque eu sempre fui meio perturbado mesmo.
Adam riu pelo nariz.
— Faz sentido. Artista normalmente é.
Vincent sorriu de leve, mas logo o sorriso perdeu força.
— O Victor odiava a ideia.
Adam inclinou a cabeça.
— De você seguir música?
— Sim. Hoje eu entendo por quê.
Ele respirou fundo antes de continuar.
— O Victor queria ser astrônomo... Ele era obcecado por isso quando era mais novo. Tinha livro, revista, aquelas coisas de telescópio… vivia falando que ia estudar fora, que ia trabalhar com pesquisa… essas coisas.
Ele soltou um sorriso triste.
— Aí meus pais morreram.
O silêncio voltou por um instante. Vincent continuou, mais baixo:
— E ele teve que virar adulto com dezesseis anos.
Vincent deu de ombros, pensativo.
— Ele parou de estudar por um tempo, depois voltou, mas nunca foi a mesma coisa. Sempre trabalhando, sempre cansado, sempre correndo atrás de dinheiro… nunca deu pra ele fazer o que queria de verdade.
Ele ficou olhando para o lençol enquanto falava.
— Então quando eu comecei a dizer que queria viver de música… que queria estudar isso… que queria tentar… ele ficava furioso. Ele dizia que eu tinha que fazer alguma coisa que desse dinheiro. Alguma coisa que garantisse um futuro. Que a gente já tinha passado por coisa demais pra eu ficar correndo atrás de “sonho”.
Ele soltou um ar pelo nariz.
— Na época eu achava que era só ele querendo mandar em mim de novo.
O olhar dele ficou distante.
— Hoje eu acho que tinha ressentimento também.
Adam repetiu baixo:
— Ressentimento?
Vincent assentiu.
— Ele largou tudo que queria para nossa sobrevivência. E eu… tava ali, insistindo em fazer exatamente o que ele não pôde fazer.
O quarto ficou quieto de novo. Vincent continuou, mais firme:
— Mas dessa vez eu não tava sendo aquele adolescente idiota de antes.
Ele olhou para Adam.
— Eu não tava saindo, não tava me metendo em confusão, tinha me cansado disso… eu só queria estudar. Só queria tocar. Fazer uma coisa que eu gostava.
A voz dele ficou mais calma, mais honesta.
— E quanto mais ele dizia que era errado… mais eu tinha certeza que era isso que eu queria.
Adam sorriu de leve.
— Teimoso.
— Muito.
Vincent deu um meio sorriso.
— Quando apareceu a oportunidade de vir pra Dublin… pra Trinity… eu nem pensei duas vezes.
Ele soltou o ar devagar, como se ainda lembrasse da sensação.
— Era longe. Era outro país. Era… tudo diferente.
O olhar dele se perdeu por um segundo, depois voltou para Adam.
— E também era uma forma de… sair de lá.
Adam entendeu na hora.
— Sair de casa.
Vincent assentiu.
— Sair daquela dinâmica. Das brigas. Da culpa. Da sensação de estar sempre devendo algo a ele.
Ele deu um sorriso pequeno, cansado, mas sincero.
— Então eu vim. E… aqui estou.
O quarto ficou em silêncio depois daquilo. Como se, depois de falar tanto, os dois precisassem de alguns segundos para deixar tudo se assentar. O vento continuava batendo de leve na janela, e o aquecedor fazia aquele barulho baixo de sempre.
Adam ainda estava sentado, olhando para Vincent com uma expressão pensativa.
Vincent percebeu.
— O que foi? — perguntou, com um meio sorriso cansado.
Adam hesitou um pouco antes de falar.
— Eu tava pensando numa coisa… eu posso ir com você.
Vincent franziu a testa.
— Ir… comigo?
— Para Clermont-Ferrand.
O silêncio voltou na mesma hora.
Vincent ficou olhando para ele como se não tivesse certeza de que tinha ouvido direito.
— Adam… — ele soltou um riso curto. — Você vai pra Ennistymon. Você acabou de dizer. Sua família, Natal, tradição, comida demais…
— Eles sobrevivem a um Natal sem mim — Adam respondeu, simples.
Vincent soltou um sopro pelo nariz. Adam se ajeitou na cama, ficando mais perto, apoiando a mão no colchão entre eles.
A voz dele ficou mais séria, mas ainda suave.
— É sério. Se for pra te ajudar… eu quero ir.
Vincent ficou em silêncio, olhando para ele. Adam continuou:
— Você acabou de me contar que toda vez que volta pra casa parece que tá voltando pra uma guerra que nunca terminou.
Uma pequena pausa.
— Eu não tô dizendo que eu vou resolver nada. Mas… se eu puder estar lá com você… eu quero.
Vincent desviou o olhar por um instante, claramente tocado, mas tentando disfarçar.
— Você não precisa fazer isso.
Adam respondeu na mesma hora:
— Eu sei. Mas eu quero.
Silêncio.
Vincent voltou a olhar para ele, dessa vez sem tentar esconder o sorriso que começava a aparecer.
Um sorriso pequeno, mas diferente dos de antes.
Mais leve.
Mais verdadeiro.
— Você é estranho — ele murmurou.
Adam levantou uma sobrancelha.
— Por quê?
— Porque qualquer pessoa normal teria ouvido essa história toda e pensado “ok, melhor ficar longe desse cara”.
Adam riu baixo.
— Tarde demais.
Vincent balançou a cabeça, ainda sorrindo.
Por um momento, ele só ficou olhando para Adam, como se estivesse tentando guardar aquela cena na memória. Depois se aproximou devagar, apoiou a mão na nuca dele, o puxou para perto e o beijou.
O beijo foi calmo, sem pressa, mas cheio de coisa não dita.
Gratidão.
Alívio.
Afeto.
Quando se afastou, a testa ainda ficou encostada na dele.
Vincent falou baixo:
— Obrigado.
Adam não respondeu, só ficou olhando.
Vincent continuou, quase num sussurro:
— Por ouvir tudo isso… e não sair correndo.
Adam sorriu de leve.
— Eu não vou a lugar nenhum.
Vincent fechou os olhos por um segundo, ainda com a testa encostada na dele.
— Ainda bem.
Fale com o autor