Tudo Começou em Letras

26 Capítulo 26 — Situações Inesperadas


Adam voltou para o quarto algum tempo depois.

O corredor ainda estava silencioso, com o mesmo cheiro limpo de hospital e o eco distante de passos e carrinhos metálicos passando de vez em quando. Ele parou diante da porta por um segundo, a mão suspensa na maçaneta, respirando fundo como se precisasse se preparar para entrar novamente naquele pequeno mundo que, nas últimas semanas, tinha se tornado quase toda a sua vida.

Quando abriu a porta, Victor não estava mais lá.

Adam suspirou e puxou a poltrona de volta para perto da cama e se sentou ao lado de Vincent.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Apenas se olharam. Como se ainda estivessem se acostumando com o fato simples, quase milagroso, de que Vincent estava acordado.

— Então… — Vincent disse por fim, a voz rouca — você veio aqui todo dia?

Adam deu um meio sorriso, desviando o olhar para o livro no colo.

— Todo dia.

Vincent o observou por um momento longo demais.

Havia algo diferente naquele olhar agora. Algo mais calmo, mais profundo. Como se duas semanas de ausência tivessem reorganizado certas certezas dentro dele.

— Obrigado — ele disse, baixo.

Adam deu de ombros novamente, como se não soubesse onde encaixar aquela palavra.

— Eu lia pra você.

Vincent inclinou um pouco a cabeça e soltou uma pequena risada fraca, que fez uma pontada de dor atravessar suas costelas.

— Eu lembro de coisas… meio soltas. — Ele respirou com cuidado. — Uma voz falando alguma coisa, páginas virando.

Adam ficou imóvel.

— Sério?

— Uhum.

Por um momento, Adam não disse nada. Então ele estendeu a mão devagar sobre o lençol, como se o gesto precisasse atravessar algum tipo de timidez invisível, e segurou a mão de Vincent.

Os dedos de Vincent estavam quentes. Fracos, mas presentes.

Adam entrelaçou os dedos com os dele e, sem perceber, um sorriso pequeno apareceu no canto da boca.


***


Os dias seguintes passaram devagar, mas não mais com a mesma angústia.

Vincent melhorava um pouco a cada dia.

Primeiro foram os exames constantes, depois os curativos sendo trocados com menos urgência, depois os médicos falando em tom mais tranquilo. O corpo ainda estava fraco, algumas costelas machucadas, cortes profundos nos braços, músculos rígidos depois de tanto tempo imóvel, mas a recuperação vinha.

E Adam continuava aparecendo.

Às vezes depois das aulas. Às vezes antes.

Às vezes com café. Às vezes com livros.

Eles conversavam pouco no começo. Vincent se cansava rápido, mas a presença de Adam parecia funcionar como uma espécie de âncora silenciosa.

No terceiro dia, Vincent já conseguia sentar na cama por mais tempo.

No quinto, começou a caminhar pelo quarto com ajuda.

E numa manhã fria, com a luz pálida de inverno entrando pelas janelas do hospital, o médico finalmente entrou no quarto com um sorriso discreto.

— Acho que podemos te liberar hoje.

Vincent piscou, surpreso.

— Hoje?

— Se continuar se sentindo bem, sim — respondeu o médico. — Mas sem heroísmos. Nada de esforço por enquanto.

Vincent assentiu.

Mas quando o médico saiu, ele virou o rosto lentamente para Adam e sorriu.


***


Algumas horas depois, eles estavam deixando o hospital.

Vincent caminhava devagar, ainda um pouco rígido. Adam caminhava ao lado dele, atento demais a cada pequeno movimento, como se esperasse que Vincent desmoronasse a qualquer momento.

— Você não precisa me escoltar assim — Vincent murmurou.

Adam fingiu não ouvir.

Quando chegaram ao campus, o vento frio passou entre os prédios de pedra da universidade, carregando o cheiro distante de café e folhas molhadas.

Entraram em um dos prédios com os dormitórios estudantis e Vincent parou diante de uma das portas.

Adam franziu a testa.

— Aqui?

Vincent abriu a porta.

— Eu mudei de quarto.

Adam piscou, surpreso e repetiu:

— Você mudou de quarto?

— Naquele dia… — ele disse, sem olhar para trás — eu briguei com o Marcel.

Adam parou por um instante, sem saber o que dizer, tentando imaginar tudo aquilo.

O quarto era simples. Pequeno. Mas silencioso.

— Eu não queria mais ficar lá. Não depois daquele desrespeito. Eu me senti muito mal com o que aconteceu.

Adam assentiu, ainda segurando a mão de Vincent, e entrou devagar no quarto, olhando ao redor como se estivesse tentando reconhecer aquele novo pedaço da vida dele.

A cama arrumada, a mesa quase vazia, a janela aberta deixando o vento frio entrar. Algo dentro dele apertou ao perceber que, enquanto Vincent brigava com um amigo por causa do que tinha sido dito sobre ele, ele próprio estava fazendo exatamente o oposto: se afastando, ignorando-o, se escondendo atrás da própria insegurança como se a única forma de não se machucar fosse fingir que aquilo tudo não importava. A constatação caiu silenciosa dentro dele, pesada e incômoda.

Vincent largou a mochila no chão e se sentou na cama com cuidado. O cansaço apareceu imediatamente no rosto.

Adam hesitou por um segundo, depois se aproximou.

— Você devia deitar — disse.

Vincent olhou para ele.

— Vem comigo.

Adam não discutiu.

Ele tirou os sapatos e se deitou ao lado de Vincent com cuidado, o corpo rígido no começo, como se ainda não tivesse certeza de que aquilo era permitido. O silêncio se instalou no quarto.

Vincent virou o rosto devagar.

Adam estava tão perto que ele podia sentir a respiração dele.

— Você parece exausto — Vincent murmurou.

Adam soltou uma pequena risada cansada.

— Engraçado. Eu ia dizer a mesma coisa.

Por um momento, eles apenas se olharam.

Mais de duas semanas de medo. De silêncio. De palavras engolidas.

Tudo parecia ali, entre eles.

Foi Vincent quem se inclinou primeiro.

O beijo foi lento. Cauteloso. Como se nenhum dos dois quisesse assustar aquele momento frágil.

Adam sentiu o coração disparar.

O beijo não tinha pressa. Não tinha urgência. Era apenas… real. Quando se afastaram, ficaram ainda próximos, as testas quase encostadas.

Adam fechou os olhos por um segundo.

— Eu preciso ir trabalhar no sebo daqui a pouco — ele murmurou. A frase saiu com relutância evidente.

Vincent percebeu.

— Então vai.

Adam abriu os olhos.

— Eu não quero te deixar sozinho.

— Eu sobrevivi a um acidente de carro. Acho que consigo sobreviver a algumas horas sozinho. — Sorriu de leve.

Adam hesitou. Vincent empurrou de leve o ombro dele.

— Vai.

Adam suspirou, mas acabou se levantando.

Quando chegou à porta, olhou para trás uma última vez. Vincent estava deitado na cama, cansado, mas olhando para ele com aquele mesmo olhar calmo.

Ele saiu. E enquanto caminhava pelo corredor, sentiu algo estranho crescer dentro do peito.

Não era medo.

Não era culpa.

Era algo mais quieto.

Algo que, pela primeira vez em muito tempo, parecia perigosamente parecido com esperança.


***


A porta se fechou atrás de Adam com um clique suave.

Por alguns segundos, Vincent ficou olhando para o espaço vazio onde ele estivera parado um instante antes. O quarto ainda parecia carregado da presença dele.

Ele soltou o ar devagar e se ajeitou melhor na cama. O corpo ainda protestava a cada movimento. As costelas machucadas lembravam da própria existência com pontadas incômodas sempre que ele respirava fundo demais. Os braços estavam pesados, os músculos enferrujados depois de tanto tempo parado. Mas, apesar de tudo, havia algo diferente naquele cansaço.

Era um cansaço vivo.

Ele apoiou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos por um instante.

A lembrança do beijo voltou quase imediatamente, breve, cauteloso. O toque ainda parecia presente na boca dele, como uma memória recente demais para se dissipar.

Estava prestes a adormecer quando ouviu batidas na porta.

Três batidas rápidas.

Ele franziu a testa.

— Pode entrar — disse, a voz ainda rouca.

A porta se abriu com cuidado.

Miles apareceu primeiro, espiando o quarto como se não tivesse certeza do que encontraria ali. Laurent surgiu logo atrás, mais sério, os braços cruzados.

Quando viram Vincent sentado na cama, os dois congelaram por um segundo.

— Puta merda — Miles soltou, os olhos arregalados. — Você tá vivo mesmo.

Vincent soltou uma risada fraca, que terminou em uma pequena careta quando as costelas reclamaram.

— Na medida do possível.

Laurent entrou primeiro, aproximando-se da cama com passos mais contidos. O olhar dele percorreu Vincent inteiro, os curativos visíveis, o cansaço no rosto, a postura ainda rígida.

— Como você tá? — perguntou.

Vincent deu de ombros com cuidado.

— Bem. Na medida do possível — repetiu. — Os médicos dizem que eu tive muita sorte.

Miles puxou a cadeira da mesa e se sentou de qualquer jeito, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Sorte é uma palavra otimista pra um carro capotado num penhasco.

Vincent fez uma pequena careta.

— Obrigado pela imagem.

Laurent permaneceu em pé por um momento antes de falar novamente.

— A gente ficou sabendo do acidente pelo Marcel.

Vincent franziu o cenho imediatamente. O nome caiu no quarto com um peso estranho.

Ele e Marcel não se falavam desde aquela manhã. Desde o momento em que Marcel tinha soltado aquelas palavras sujas sobre Adam, como se fosse apenas mais uma provocação barata. Vincent lembrava da própria voz alta, da raiva que subira rápido demais, do silêncio pesado que se seguiu.

Desde então, nenhum dos dois tinha procurado um ao outro.

— Marcel? Como?

Laurent apenas assentiu.

— Ele que contou. Ele também estava no bar naquela noite.

Vincent desviou o olhar por um instante, claramente incomodado.

— No bar?

— É — continuou Miles. — No mesmo que você estava. Só que você não viu ele.

O silêncio se instalou no quarto.

Vincent tentou puxar a memória, mas tudo que encontrava eram fragmentos soltos. Luzes difusas. Música alta. O peso do álcool no corpo.

— Ele falou que você estava beijando um garoto no bar. — Laurent disse, simplesmente.

O estômago de Vincent se contraiu levemente.

A lembrança veio em flashes irregulares. Luzes amarelas. O cheiro forte de álcool. A sensação de vazio esmagando o peito de um jeito que nem a bebida conseguia anestesiar.

Um rosto.

Cabelo ruivo.

Seus dedos apertando a camisa dele.

O beijo tinha sido rápido, desajeitado, quase automático.

Vincent fechou os olhos por um segundo, tentando puxar mais detalhes.

Nada.

Nenhum nome.

Só aquela sensação pesada de estar tentando preencher um espaço que não queria ser preenchido.

— Eu nem lembro o nome dele — disse Vincent, mais para si mesmo do que para eles.

Laurent cruzou os braços.

— Marcel disse que logo depois disso você saiu do bar como se estivesse sendo perseguido.

Vincent respirou fundo. Agora a memória começava a ganhar forma.

A sensação de sufocamento.

A música ficando alta demais.

A constatação repentina de que aquilo, aquele beijo vazio, aquele gesto impulsivo, não tinha resolvido nada. Na verdade, tinha piorado.

— É. Eu saí pra dirigir — murmurou.

Miles assentiu lentamente.

— Marcel viu você saindo transtornado e achou estranho. Ele disse que você parecia… fora de si. Entrou no carro e saiu muito rápido.

Vincent sentiu a mandíbula apertar.

Agora as imagens vinham mais claras.

A estrada escura.

O volante firme nas mãos.

O velocímetro subindo.

— Marcel pegou o carro dele e foi atrás — disse Miles.

Vincent virou o rosto devagar para ele.

— Atrás de mim?

— É.

O quarto ficou silencioso. Miles apoiou os braços nas pernas.

— Só que você estava rápido demais. Muito rápido.

Vincent sentiu um arrepio percorrer a espinha.

— Marcel disse que perdeu você de vista por um tempo — continuou Miles. — Até chegar perto dos penhascos.

Vincent já sabia o que vinha depois. Mesmo assim, ouviu.

— Foi aí que ele viu o carro. Capotado — disse Laurent. — Fora da estrada.

Vincent engoliu em seco.

Miles respirou fundo antes de terminar:

— Ele parou na hora. E te tirou do carro.

Vincent sentiu os dedos apertarem o lençol inconscientemente. A frase caiu devagar. Pesada. Por um momento, ele apenas encarou o chão, tentando reorganizar aquela informação dentro da cabeça.

Depois soltou o ar devagar.

— Então… — murmurou, a voz saindo mais baixa do que ele pretendia. — Foi isso.

Laurent passou a mão pelo cabelo, soltando o ar devagar, como se estivesse segurando aquilo havia tempo demais.

— Eu fiquei muito preocupado quando soube — disse, finalmente. A voz dele estava mais baixa agora, menos controlada. — A universidade ligou para o seu parente mais próximo, que foi seu irmão.

O nome não precisou ser dito.

Victor.

— A administração entrou em contato com ele logo depois que ficou sabendo que você foi levado pro hospital — continuou Laurent. — Disseram que era protocolo em casos graves.

Vincent encostou a cabeça na parede atrás da cama, absorvendo aquilo.

Fazia sentido. Victor sempre foi listado como contato de emergência, mesmo que os dois quase nunca se falassem de verdade.

— Ele veio me ver — disse Vincent, depois de um momento.

Miles ergueu as sobrancelhas.

— Veio?

Vincent assentiu.

— Alguns dias atrás no hospital. — Fez uma pausa curta.

Laurent pareceu um pouco surpreso, mas não comentou nada. Apenas assentiu devagar, como se estivesse registrando a informação.

Miles, por outro lado, relaxou um pouco na cadeira.

— Bom… ainda bem que você está melhor — disse ele, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Porque, cara… quando a gente ouviu falar do acidente, foi horrível.

Vincent soltou uma pequena risada pelo nariz.

— Eu imagino.

Miles balançou a cabeça.

— Não, sério. Carro capotado, hospital, duas semanas desacordado… isso não costuma terminar com a pessoa voltando pro dormitório quase sem sequelas.

Vincent ficou em silêncio por um segundo, sentindo o peso simples daquela verdade.

Depois, quase sem perceber, um sorriso pequeno apareceu no rosto dele.

— Pois é — murmurou.

Era um sorriso tranquilo, ainda cansado, mas sincero. Porque, apesar das costelas machucadas, dos pontos nos braços e do cansaço que ainda parecia morar nos músculos, Vincent estava ali.

Vivo.

E, pela primeira vez desde que abriu os olhos naquele quarto de hospital, aquilo começava a parecer real.


***


O sino preso à porta do sebo tilintou quando Adam entrou.

O lugar estava quente em comparação com o frio da rua. O cheiro familiar de papel antigo e madeira encerada o envolveu imediatamente, como acontecia sempre que ele atravessava aquela porta. Era um cheiro que ele já associava a algo seguro, quase reconfortante.

Laura estava atrás do balcão, sentada em um banco alto, organizando uma pequena pilha de livros que alguém tinha deixado ali mais cedo. Ela levantou os olhos assim que ouviu o sino.

— Oi, Adam — disse, com um pequeno sorriso.

Adam devolveu o sorriso, ainda tirando o cachecol do pescoço. Apoiou a mochila perto do balcão, passando a mão pelo cabelo de forma distraída. O cansaço ainda estava ali, escondido nos ombros e no jeito um pouco lento de se mover, mas havia algo diferente agora. Algo mais leve.

Laura observou isso.

— E então? — perguntou ela, fechando o último livro da pilha. — Ele finalmente está bem?

Adam assentiu.

— Está. — A palavra saiu simples, mas carregada de alívio — Ele recebeu alta hoje de manhã.

O sorriso de Laura se abriu um pouco mais.

— Finalmente.

Houve um pequeno silêncio confortável entre os dois. Laura continuava olhando para ele com aquela expressão calma de quem já tinha percebido mais coisas do que ele tinha dito em voz alta.

Adam respirou fundo antes de falar de novo.

— Aliás… eu queria agradecer.

Laura inclinou a cabeça.

— Pelo quê?

— Por esses dias — respondeu. — Por deixar eu sair mais cedo… ou chegar mais tarde… quando as coisas estavam meio caóticas.

Laura soltou uma pequena risada suave.

— Adam.

Ele levantou os olhos para ela.

— Você praticamente estava morando naquele hospital — continuou ela, apoiando os braços no balcão. — Se eu não tivesse deixado você sair mais cedo, você teria ido mesmo assim.

Adam abriu a boca para responder, mas acabou apenas soltando um pequeno sorriso sem jeito.

— Talvez.

Ela o observou por um segundo a mais.

— Além disso — disse ela, com naturalidade — eu gosto de pensar que o sebo não é uma prisão.

Adam riu baixo.

Ela pegou outro livro da pilha e começou a folheá-lo distraidamente.


***


Quando Adam voltou para o dormitório naquela noite, o corpo parecia finalmente perceber o quanto estava cansado.

O dia tinha sido longo. Entre o trabalho no sebo, o frio do lado de fora e a tensão que só agora começava a se dissipar dentro dele, tudo parecia pesar um pouco mais do que o normal. Assim que entrou no quarto, largou a mochila perto da mesa e ficou parado por um momento, respirando fundo no silêncio familiar do lugar.

Depois seguiu direto para o banheiro.

A água quente do chuveiro caiu sobre os ombros dele como um pequeno alívio tardio. Adam fechou os olhos por alguns segundos, deixando o calor aliviar a tensão acumulada nas costas, no pescoço, nos pensamentos. Era estranho perceber como, nas últimas semanas, até gestos simples como tomar um banho tinham se tornado automáticos demais, feitos às pressas entre uma visita ao hospital e outra.

Agora havia tempo.

Quando saiu do banheiro, o quarto parecia ainda mais silencioso. Ele vestiu uma camiseta larga, se jogou na cama e ficou olhando para o teto por alguns instantes, sentindo o corpo finalmente relaxar contra o colchão.

Foi nesse momento que bateram na porta.

Adam franziu levemente a testa.

— Pode entrar — disse, a voz um pouco mais rouca por causa do cansaço.

A porta se abriu.

Tyler apareceu primeiro, como se estivesse liderando uma pequena expedição. Isabelle entrou logo atrás dele, e Min-su veio por último, segurando alguma coisa com cuidado nas mãos.

Adam se sentou na cama imediatamente, surpreso.

— Oi…

Tyler levantou a mão em um gesto casual.

— Oi.

Isabelle sorriu de leve.

— A gente pode entrar ou estamos interrompendo algum momento filosófico profundo?

Adam soltou uma pequena risada.

— Não. Só tava deitado.

Eles entraram no quarto.

Tyler se encostou na mesa, Isabelle ficou perto da janela e Min-su permaneceu por um segundo perto da porta antes de se aproximar.

Tyler foi o primeiro a falar.

— Você tá bem?

Adam assentiu.

— Tô sim.

Houve um pequeno silêncio, como se todos ainda estivessem tentando se ajustar àquela conversa depois de tantos dias de distância.

Foi Isabelle quem finalmente disse o nome que ninguém tinha mencionado ainda.

— E o Vincent? Como ele está?

Adam levantou os olhos para ela. A pergunta veio suave, sem julgamento, apenas curiosidade genuína.

— Ele está bem — respondeu Adam. — Recebeu alta hoje de manhã.

Ela soltou um pequeno suspiro de alívio.

— Sério?

— Uhum. — Adam assentiu. — Tá se recuperando agora. Ainda meio dolorido… mas bem.

Tyler fez um pequeno gesto de aprovação com a cabeça.

— Bom saber.

Foi então que Min-su deu um passo à frente.

Adam percebeu que ele estava segurando um pequeno bolo de chocolate em um prato improvisado, com um pacote de guardanapos por baixo.

Min-su levantou o prato um pouco, meio sem jeito.

— Eu… trouxe isso.

Adam piscou, surpreso.

— Um bolo?

Min-su assentiu.

— Não é nada muito elaborado. — Ele deu de ombros. — Só achei que… talvez fosse uma forma de dizer alguma coisa.

Adam inclinou a cabeça.

— Dizer o quê?

Min-su hesitou um pouco antes de responder.

— Que eu sinto muito por ter sido tão distante.

O quarto ficou quieto por um momento.

Min-su respirou fundo.

— Eu não sabia muito bem como lidar com tudo que estava acontecendo… e acho que acabei me afastando mais do que devia. — Ele olhou diretamente para Adam. — Mas eu me senti muito mal com isso. Então, me desculpe.

Adam ficou olhando para ele por alguns segundos.

Então se levantou da cama e o abraçou. O gesto pegou Min-su de surpresa por um segundo, mas ele retribuiu quase imediatamente.

— Tá tudo bem — murmurou Adam.

Quando se afastaram, o clima no quarto parecia um pouco mais leve. Tyler bateu palmas uma vez, quebrando a tensão.

— Ok, momento emocional concluído. Agora… o bolo.

Isabelle riu baixo.

— Concordo.

Min-su colocou o prato sobre a mesa, enquanto Tyler procurava alguma coisa que pudesse servir de faca improvisada.

Adam observava aquilo com um pequeno sorriso no rosto. Por um momento, parecia que alguma parte antiga da rotina estava voltando ao lugar.

Quando o bolo finalmente foi cortado, Adam pegou o celular quase por reflexo.

Ele tirou uma foto. O bolo simples sobre a mesa, os três amigos ao redor, o quarto bagunçado atrás deles.

Sem pensar muito, enviou a foto para Vincent.

A resposta veio poucos segundos depois. Um coração e logo em seguida outra mensagem.


Phantom: Parece muito bom. :) Aproveite!!!


Adam não conseguiu evitar o sorriso que apareceu no rosto dele. Tyler, que estava ao lado, olhou para o celular de relance.

Ele levantou uma sobrancelha devagar.

— Phantom, hein?

Adam ergueu os olhos. Tyler cruzou os braços, claramente divertido.

— Olha, Adam… eu nunca te vi assim.

— Assim como?

Tyler fez um pequeno gesto em direção ao celular.

— Todo… caidinho.

O rosto de Adam esquentou imediatamente.

— Eu não estou caidinho.

Isabelle soltou uma risada.

— Você tá sorrindo para o celular.

Min-su, que estava dividindo o bolo, também levantou os olhos com um pequeno sorriso discreto. Adam tentou parecer indiferente, mas não conseguiu esconder completamente o rubor nas bochechas.

— Vocês estão exagerando.

Tyler apenas riu.

E, enquanto o quarto se enchia de conversas, pedaços de bolo e provocações leves, Adam percebeu algo que não sentia fazia tempo.

Algumas coisas, devagar, estavam voltando ao normal.

O quarto estava cheio de vozes, o cheiro doce do bolo ainda pairando no ar enquanto Min-su distribuía os pedaços com um cuidado quase cerimonial. Isabelle ria de algo que Tyler dizia, encostada na escrivaninha de Adam, e por alguns instantes aquilo parecia exatamente como antes.

Quase.

Adam segurava o garfo, olhando o pedaço de bolo no prato, quando a ausência finalmente se impôs na mente dele.

— Ei… — ele disse, erguendo os olhos. — E o Finn? Como ele tá?

O silêncio foi curto, mas perceptível.

Tyler coçou a nuca, olhando rapidamente para o próprio celular antes de responder.

— Ah… ele tá bem.

A resposta veio rápida demais.

Adam franziu um pouco o cenho, mas não falou nada imediatamente.

Isabelle, que estava ao lado da cama, endireitou a postura e bateu palmas de leve, forçando um sorriso.

— Min-su, esse bolo tá muito bom. Você que fez mesmo?

Min-su piscou, surpreso com a mudança repentina, mas entrou no assunto.

— Eu… bom, quase. A senhora da padaria ajudou um pouco.

— Então metade do crédito é dela! — Tyler disse, rindo.

A conversa mudou de trilho como um trem que troca de linha. Adam percebeu, mas não insistiu.

Em vez disso, deu outra garfada no bolo e deixou o novo assunto seguir.

— Tá bom mesmo — ele comentou. — Min-su, você devia trazer mais vezes.

A tensão diminuiu outra vez, dissolvendo-se entre piadas e conversas bobas sobre aula e trabalho.

Adam encostou a cabeça na parede por um momento, observando os três ali.

Algumas coisas realmente estavam voltando ao normal. Mesmo que… nem todas ainda estivessem.


***


A quarta-feira à noite no Space, bar onde Min-su trabalhava, tinha um ritmo diferente.

O bar ainda estava iluminado pelas luzes roxas e azuladas de sempre, mas o movimento era bem menor do que nos finais de semana. Algumas mesas ocupadas aqui e ali, um casal perto da janela, dois caras jogando conversa fora perto da jukebox. Nada da multidão barulhenta de sexta.

Atrás do balcão, Min-su organizava algumas garrafas quando sentiu um braço o puxar de surpresa por cima do balcão.

— Boa noite, bartender favorito — disse Tyler, com um sorriso largo. — Viemos animar essa sua noite deprimente.

Min-su levou um susto tão grande que quase derrubou um copo.

— Tyler! — ele reclamou, levando a mão ao peito. — Eu quase deixei cair tudo.

Tyler riu.

Finn, encostado no balcão ao lado, levantou a mão em cumprimento.

— A gente veio fazer companhia. Ou atrapalhar. Depende do ponto de vista.

Min-su suspirou, mas havia um sorriso pequeno no rosto.

— Eu já devia esperar isso de vocês dois.

— Claro que devia — Tyler disse, puxando um banco alto e se sentando. — Então, bartender… surpreenda a gente.

Finn bateu os dedos no balcão.

— Eu quero um drink.

— Alguma preferência?

— Algo forte o suficiente pra me fazer esquecer que amanhã eu tenho aula às oito.

Min-su pensou por um segundo, pegou um copo logo abaixo e começou a trabalhar. O som do gelo batendo no metal do shaker se misturou à música baixa do bar.

Tyler observava tudo com aquele ar relaxado de sempre, enquanto Finn apoiava os cotovelos no balcão.

Logo os três estavam conversando amenidades, histórias do campus, clientes estranhos que apareceram no bar nos últimos dias, professores insuportáveis.

Min-su colocou o drink na frente de Finn.

— Pronto.

Finn tomou um gole.

— Caralho, isso tá muito bom.

— Eu sei — Min-su respondeu, fingindo arrogância.

Tyler riu.

O silêncio confortável durou alguns segundos, até Finn franzir o cenho de repente, como se tivesse lembrado de algo.

— Ei… — ele disse, virando para Tyler. — Falando nisso… e o Charles?

Tyler piscou.

— O que tem o Charles?

— O Charles, ué. — Finn deu outro gole no drink. — Aquele cara que você tava saindo. Faz tempo que você não fala dele. Ele nunca mais apareceu também.

Tyler soltou um sorriso meio torto.

— Ah… isso.

Ele pegou o copo que Min-su tinha colocado na frente dele e girou o líquido ali dentro antes de beber.

— Terminamos o que nem começou.

Finn levantou uma sobrancelha.

— Como assim?

Tyler deu de ombros.

— A gente nunca teve nada sério. E agora… não temos nada.

Min-su inclinou um pouco a cabeça.

— Mas por quê?

Tyler ficou em silêncio por um instante, olhando o balcão.

— Eu não senti aquela faísca, sabe? — disse por fim. — Ele é uma ótima pessoa. De verdade. Mas… simplesmente não rolou.

Ele deu um gole maior na bebida.

— Acontece.

Havia um tom meio triste na voz dele que não passou despercebido. Finn deu um tapinha nas costas dele.

— Relaxa. Você é o fucking Tyler.

Tyler bufou uma risada curta.

— Isso lá é argumento?

— Claro que é — Finn continuou. — Logo aparece outra pessoa que desperte alguma coisa.

Tyler balançou a cabeça.

— Eu acho que você me supervaloriza.

Finn revirou os olhos.

— Não supervalorizo nada. Só sou realista.

Min-su, que estava limpando um copo, falou calmamente:

— O que o Finn disse é verdade.

Tyler levantou os olhos.

— Ah, é?

— Alguém como você não fica sozinho por muito tempo.

Tyler arqueou uma sobrancelha, um sorriso aparecendo de leve. Ele se inclinou um pouco para frente.

— E vocês?

Finn olhou para ele.

— O que tem a gente?

— Vocês estão falando de mim, mas… — Tyler apontou para Finn com o copo. — E você?

Finn deu de ombros.

— Tô conversando com alguns caras de aplicativo.

— “Alguns”? — Tyler provocou.

— Nada muito sério — Finn continuou, ignorando. — Até agora ninguém chamou muito a atenção.

Tyler assentiu devagar.

— Justo.

Então ele virou a cabeça para Min-su.

— E você, senhor bartender misterioso?

Min-su soltou uma pequena risada nasal.

— Eu?

— Sim, você.

Min-su apoiou as mãos no balcão.

— Eu… fico com alguém aqui e ali.

Finn levantou a sobrancelha.

— “Aqui e ali”?

— Eu não tenho muito tempo pra isso — Min-su continuou. — Trabalho, aula… essas coisas.

Tyler fez um som de compreensão.

Finn olhou o celular de repente, se levantando do banco.

— Falando nisso… eu tenho um encontro em… — olhou o relógio — vinte minutos.

Tyler abriu um sorriso largo.

— Olha só. Boa sorte.

Finn pegou a jaqueta.

— Valeu.

Ele apontou para Tyler.

— Não bebe demais.

— Sem promessas.

Finn saiu do bar empurrando a porta de vidro, desaparecendo na noite. Tyler o observou ir, depois voltou a atenção para o copo.

A noite continuou devagar.

Alguns clientes foram embora, outros chegaram e saíram. Tyler ficou ali conversando com Min-su entre um pedido e outro, fazendo piadas, contando histórias, às vezes só observando o movimento.

Quando Tyler percebeu, já era bem mais tarde.

Ele olhou ao redor.

As mesas estavam vazias. As cadeiras já começavam a ser viradas sobre algumas delas. A jukebox tocava uma música lenta e quase melancólica que parecia grande demais para aquele espaço agora vazio.

Ele soltou um pequeno assobio.

— Caramba… — ele disse. — Eu virei o último cliente?

Min-su estava atrás do balcão organizando algumas garrafas. Ele olhou ao redor também.

— Parece que sim.

Tyler apoiou o queixo na mão, observando o amigo trabalhar.

Min-su estava mais quieto que o normal. Não era só cansaço, Tyler já tinha visto ele cansado várias vezes. Era outra coisa. O jeito como ele evitava olhar muito tempo para qualquer lugar, o movimento automático das mãos limpando copos que já estavam limpos.

Tyler estreitou um pouco os olhos.

— Ei.

Min-su levantou o olhar.

— Hm?

— Por que você tá com essa cara?

Min-su franziu a testa, fingindo não entender.

— Que cara?

— Essa cara meio… — Tyler fez um gesto vago com a mão. — triste.

Min-su ficou em silêncio por um segundo. Então voltou a limpar o copo.

Tyler observou ele por mais um instante antes de perguntar, mais cuidadoso:

— Sua mãe… ela está melhor?

Min-su assentiu devagar.

— Sim.

Ele apoiou o copo no balcão e passou o pano dentro dele de forma metódica.

— Eu continuo mandando dinheiro pra ajudar na recuperação.

Tyler fez um pequeno aceno de cabeça.

Ele já tinha ouvido aquela história antes. Mais de uma vez.

Às vezes Tyler ficava ali até o bar fechar, fazendo companhia enquanto Min-su limpava tudo. Nessas noites mais quietas, entre uma cadeira virada e outra, Min-su acabava contando pedaços da vida dele.

Da família na Coreia do Sul.

Do pai que tinha trabalhado até adoecer e posteriormente falecer.

Da mãe que agora lutava para se recuperar de uma doença

Das contas médicas.

Do dinheiro que ele mandava todo mês, mesmo quando mal sobrava para ele.

Tyler lembrava de como Min-su falava da mãe com um carinho quase dolorido.

Ele apoiou os braços no balcão.

— Eu espero que ela melhore logo.

Min-su levantou os olhos.

Um sorriso pequeno apareceu no rosto dele. Por um momento, os dois ficaram em silêncio.

A música continuava tocando baixo no fundo do bar.

Tyler girou o copo outra vez.

— Sabe… — ele disse de repente.

Min-su ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

Tyler olhou para ele com um meio sorriso.

— Você trabalha demais. Tipo… absurdamente demais.

— Eu sei disso.

Tyler inclinou a cabeça.

— Você devia tirar uma noite pra sair. De verdade. Pra conhecer gente, falar com pessoas.

Min-su apoiou os cotovelos no balcão.

— Eu estou fazendo isso. — ele apontou para Tyler. — Estou aqui falando com você.

Tyler riu.

— Eu não conto.

— Como não? Você não é uma pessoa?

— Eu não quis dizer isso.

Os dois sorriram por um momento. Mas quando o silêncio voltou, Tyler percebeu que aquela tristeza ainda estava ali.

Quietinha. Guardada atrás dos olhos de Min-su.

Tyler ficou em silêncio por alguns segundos, girando o copo entre os dedos, como se estivesse procurando alguma coisa para dizer que quebrasse aquele clima pesado.

De repente, ele se levantou.

— Espera aí.

Min-su ergueu os olhos, confuso.

Tyler caminhou até a jukebox no canto do bar. Mexeu nos botões por alguns segundos e, logo depois, uma música animada começou a preencher o espaço vazio do bar.

Min-su arqueou uma sobrancelha.

— Sério?

Tyler virou para ele com um sorriso travesso.

— Muito sério.

Ele estendeu a mão por cima do balcão.

— Vem dançar.

Min-su soltou uma pequena risada incrédula.

— Tyler…

— Vem — insistiu ele, puxando a mão dele. — O bar já fechou. Ninguém vai ver.

Min-su hesitou por um momento, mas acabou cedendo. Deu a volta no balcão e foi até o centro do bar.

Tyler imediatamente começou a dançar.

Ou pelo menos… algo que lembrava vagamente uma dança.

Ele se mexia de propósito de forma desajeitada, exagerando nos passos, girando os ombros de maneira absurda, como se estivesse tentando imitar algum tipo de coreografia terrível.

Min-su ficou olhando por dois segundos.

Então começou a rir.

— Meu Deus, isso é horrível.

— Invejoso! — Tyler respondeu, irônico.

Ele fez um giro ridiculamente dramático.

Min-su estava rindo de verdade agora, aquela tristeza de antes começando a desaparecer do rosto.

— Você não tem vergonha nenhuma.

— Nenhuma — Tyler confirmou.

Min-su acabou entrando na brincadeira.

Primeiro com passos tímidos, depois acompanhando o ritmo da música. Logo os dois estavam dançando no meio do bar vazio, rindo como dois idiotas.

Tyler tentou imitar algum passo que claramente não sabia fazer e quase perdeu o equilíbrio. Min-su segurou o braço dele.

— Cuidado!

— Eu estou perfeitamente no controle — Tyler disse, já rindo.

Eles continuaram girando pelo espaço, a música ecoando no bar vazio.

Em um momento, Min-su segurou a mão de Tyler e o puxou para um giro improvisado.

Tyler rodou, rindo ainda da própria falta de coordenação.

Quando parou novamente de frente para Min-su, os dois estavam ofegantes, o ar entrando rápido demais depois da dança improvisada. A música continuava alta na jukebox, mas por um instante parecia distante.

Eles estavam perto. Perto demais.

Tyler ainda tinha um sorriso nos lábios, mas ele foi diminuindo quando percebeu que Min-su não estava mais rindo. Os olhos dele estavam fixos, intensos, como se alguma decisão silenciosa tivesse acabado de ser tomada.

O sorriso de Min-su desapareceu devagar.

Por um segundo que pareceu mais longo do que deveria, nenhum dos dois se mexeu.

Então Min-su levantou as mãos e segurou o rosto de Tyler.

O gesto foi firme, quente, como se ele tivesse esperado tempo demais para fazer aquilo. Antes que Tyler pudesse reagir ou perguntar qualquer coisa, Min-su o puxou para um beijo.

Não foi hesitante.

Foi imediato.

A boca de Min-su encontrou a dele com urgência, como se algo dentro dele tivesse finalmente rompido uma barreira. O beijo era quente, intenso, cheio de uma vontade que não parecia improvisada, mas guardada.

Tyler soltou um pequeno som surpreso contra os lábios dele, mas o choque durou apenas um instante.

Logo ele correspondeu.

O beijo se aprofundou, menos abrupto, mais consciente agora. mas ainda carregado de eletricidade.

Min-su inclinou levemente a cabeça, apertando os dedos na lateral do rosto de Tyler como se tivesse medo de que ele se afastasse.

O gosto da bebida ainda estava nos lábios de Tyler.

A respiração dos dois começou a misturar-se entre um movimento e outro do beijo, quebrada, irregular. Por alguns segundos o mundo parecia reduzido àquele pequeno espaço entre eles, ao calor, ao toque, ao ritmo inesperado que tinham encontrado.

O bar inteiro parecia desaparecer.

Quando finalmente se afastaram, não foi de uma vez, foi devagar, como se ambos precisassem de um momento para lembrar onde estavam.

As mãos de Min-su ainda estavam no rosto de Tyler.

Tyler o encarava, o olhar mais sério agora, ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

Min-su soltou o rosto dele devagar, como se tivesse percebido o que tinha acabado de fazer.

— Eu… — ele murmurou. — Me desculpa.

Tyler passou a mão pela nuca.

— Não… — ele disse, um pouco hesitante. — Tá tudo bem.

Mas a verdade era que ele ainda estava tentando digerir tudo aquilo.

E, principalmente… tentando entender o que aquilo significava.

Min-su balançou a cabeça imediatamente.

— Não, sério. — Ele soltou uma pequena risada nervosa, desviando o olhar. — Me desculpa mesmo. Eu não devia ter feito isso.

Tyler abriu a boca para responder, mas Min-su continuou, atropelando as próprias palavras.

— Eu só… — ele suspirou. — Foi impulsivo. Eu… não pensei direito.

Ele passou a mão pelo cabelo, claramente constrangido.

Tyler o observava em silêncio.

Min-su parecia mais agitado do que Tyler esperava. Os ombros tensos, o olhar fugindo, como se já estivesse se preparando para algum tipo de rejeição.

— Min-su — Tyler disse finalmente. Min-su ergueu os olhos. — Tá tudo bem. De verdade.

Min-su ficou em silêncio por um momento, como se estivesse tentando decidir se acreditava ou não.

— Tem certeza?

Tyler deu um pequeno sorriso de lado.

— Tenho. — Ele apoiou o cotovelo no balcão, olhando para Min-su com um ar mais leve agora. — Eu sobrevivi a coisa pior do que um beijo.

Isso arrancou um sopro de riso de Min-su, embora ainda meio nervoso.

A tensão diminuiu um pouco.

Mas ainda havia algo no ar, algo novo, estranho, que não estava ali antes.