Tudo Começou em Letras
15 Capítulo 15 — Encontros Furtivos
Na manhã seguinte, Adam entrou na sala de aula com a sensação incômoda de que ainda estava ligeiramente fora do próprio corpo. Não era cansaço, tinha dormido o suficiente, porém, era uma espécie de atraso interno, como se os pensamentos demorassem a acompanhar os gestos. Sentou-se na carteira de sempre, organizou os livros com cuidado excessivo e tentou se convencer de que aquele era só mais um dia comum.
Isabelle se virou para ele antes mesmo do professor chegar. Havia um brilho curioso no olhar.
— Então… — começou, tentando ser casual demais. — O tal cara do Tinder foi até o sebo?
Adam piscou, genuinamente confuso.
— O quê?
Ela arqueou uma sobrancelha, divertindo-se com a reação.
— A Laura comentou ontem à noite comigo — explicou. — Disse que um cara apareceu lá no meio do expediente e te chamou pra um date.
O estômago de Adam deu um pequeno solavanco. Ele sentiu o calor subir pelo pescoço antes mesmo de conseguir organizar uma resposta.
— Não foi bem assim — disse, rápido demais. — A Laura tá exagerando.
Isabelle inclinou a cabeça, avaliando-o.
— Ela tá exagerando mesmo?
Adam abriu a boca, fechou de novo. O som da sala enchendo, cadeiras arrastando, conversas paralelas, tudo parecia alto demais.
— Ele… só passou lá — explicou, escolhendo as palavras com cuidado. — Foi coincidência. Não foi… um date.
— Mas vocês saíram juntos depois, não foi? — ela insistiu, sem malícia, apenas curiosidade.
Adam desviou o olhar para a janela.
— Não exatamente.
Isabelle sorriu de canto.
— Uhum.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Finn apareceu, jogando a mochila na carteira ao lado e se intrometendo na conversa com a naturalidade de quem nunca pediu licença.
— O que foi que eu perdi?
Isabelle não hesitou nem por um segundo.
— O Adam foi chamado pra um date no meio do expediente ontem.
Adam fechou os olhos por um instante.
— Não foi um date — repetiu, já sem muita convicção.
Finn arregalou os olhos, depois abriu um sorriso lento, carregado de provocação.
— Olha só — disse. — O bardo finalmente vivendo experiências românticas e querendo guardar segredo.
— Não é isso — Adam rebateu, sentindo o rosto queimar. — Vocês estão distorcendo tudo.
Isabelle inclinou-se um pouco mais para a frente, os olhos brilhando.
— A Laura comentou outra coisa também — disse, como quem não quer nada. — Disse que ele era bonito e charmoso.
O efeito foi imediato. Adam sentiu o calor subir pelo rosto, passando pelo pescoço, impossível de conter. Desviou o olhar, fingindo mexer em algo na mochila que não precisava de ajuste nenhum.
— Ela fala demais — murmurou.
Finn não perdeu o detalhe. A risada veio curta, surpresa, quase satisfeita.
— Olha isso — disse, apontando para ele. — Ficou vermelho. Definitivamente bonito, então.
— Me conta como foi o encontro — Isabelle pediu, animada, olhando nos olhos dele.
— Eu já falei que não foi um encontro — Adam disse, a voz um pouco mais firme do que se sentia por dentro.
Isabelle abriu a boca para retrucar, mas a voz que surgiu foi outra.
— O que não foi um encontro?
Tyler tinha acabado de se aproximar, mochila pendurada em um ombro só, o olhar curioso passeando entre os três.
Adam fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro longo, daqueles que vinham carregados de resignação.
— Nada — respondeu, antes que alguém pudesse se adiantar. — Não foi nada.
Isabelle, porém, não perdeu a deixa. Virou-se para Tyler com naturalidade demais.
— Um cara apareceu no sebo ontem e chamou o Adam pra sair. Eles saíram. — explicou. — Segundo ele, não foi um encontro.
Tyler arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Ah, é? É o misterioso cara do Tinder? — perguntou, olhando diretamente para Adam. — E foi o quê, então?
Adam sentiu o peso de todos os olhares sobre si. Apertou os lábios, buscando uma resposta que não entregasse mais do que já tinha entregue.
— É, foi só… uma coincidência. Ele passou lá no sebo. — disse, sem muita convicção.
Finn soltou um riso baixo.
— Uma coincidência com beijo — acrescentou, sem pudor.
— Finn — Adam advertiu, em tom baixo, o coração disparando.
Tyler abriu um sorriso lento, divertido.
— Espera — disse. — Teve beijo então?
Adam passou a mão pelo rosto, sentindo o constrangimento se instalar de vez. Ele respirou fundo. Pensou em Vincent encostado no balcão do sebo, no jeito tranquilo dele, como se tudo aquilo fosse a coisa mais simples do mundo. Pensou no beijo, rápido, silencioso, impossível de desfazer.
— Vocês estão tornando isso maior do que é — murmurou.
Finn cruzou os braços, inclinando-se levemente para mais perto dele, o sorriso ainda carregado de diversão.
— Depois você vai ter que dar mais detalhes, viu?
Adam lançou-lhe um olhar cansado.
— Detalhes completos — continuou Finn. — Nome… e, obviamente, foto do cara misterioso.
Isabelle riu baixo.
— Foto é essencial — concordou.
Adam bufou, balançando a cabeça.
— Vocês são impossíveis.
O sinal tocou naquele momento, interrompendo a conversa. Tyler se afastou rindo, Finn ainda balançava a cabeça, se divertindo com a situação.
Adam afundou um pouco mais na cadeira, encarando a mesa à sua frente.
***
Quando Adam chegou ao sebo para o turno da tarde, encontrou Laura atrás do balcão, organizando uma pilha de livros recém-chegados. O sino da porta tilintou, e ela ergueu o olhar imediatamente.
— Oi — disse. — E aí, tudo bem?
Adam largou a mochila no canto e respirou fundo antes de responder.
— Mais ou menos. — Aproximou-se do balcão. — Você comentou com a Isabelle sobre… ontem.
Laura fez uma pausa, depois riu de leve.
— Comentei.
— Isso virou um interrogatório na aula mais cedo — ele continuou. — Todo mundo querendo saber detalhes.
Ela apoiou os cotovelos no balcão, divertida.
— Ué, achei que você não ia se importar. É segredo?
Adam balançou a cabeça.
— Não é que seja segredo... Eu só não gosto de ser o centro das atenções, sabe?
O sorriso dela diminuiu um pouco.
— Entendi. Foi mal — disse, sincera.
— Só… não comenta mais, tá? — pediu.
— Prometo — respondeu, assentindo. — Boca fechada.
Ela fez menção de voltar aos livros, mas parou de repente.
— Ah, aliás — acrescentou. — O seu “crush” deixou um guarda-chuva aqui ontem.
Adam franziu a testa.
— Deixou?
— Esqueceu ali no canto — disse, apontando.
Ele seguiu o olhar dela e só então reparou no guarda-chuva encostado perto da estante.
— Eu nem tinha percebido — murmurou.
— Quer que eu guarde?
— Não — respondeu, após um breve instante. — Eu vou mandar uma mensagem pra ele.
Laura abriu um sorriso lento, claramente malicioso.
Adam revirou os olhos, mas não conseguiu impedir um leve sorriso de surgir também.
Ele esperou o movimento no sebo diminuir antes de pegar o celular. Laura estava ocupada no fundo da loja, e o silêncio confortável entre as estantes parecia um bom momento para resolver aquilo rápido, sem pensar demais.
Abriu o Instagram e encontrou a conversa com Vincent com mais facilidade do que gostaria.
Adam: Oi. Você deixou um guarda-chuva no sebo ontem. Tá aqui comigo.
Ele ficou alguns segundos olhando para a tela antes de enviar, como se ainda pudesse desistir.
A resposta veio mais rápido do que esperava.
Vincent: Eita, sério?
Vincent: Obrigado por avisar
Vincent: Posso passar aí pra buscar
O estômago de Adam se contraiu no mesmo instante.
Ele ergueu o olhar instintivamente, como se Laura pudesse materializar-se atrás do balcão naquele exato segundo, pronta para comentar alguma coisa. Além disso, a qualquer momento Isabelle, Finn ou Tyler poderiam aparecer por ali, algo que não era incomum.
Digitou com cuidado.
Adam: Melhor não
Adam: Eu tô trabalhando agora
Vincent respondeu quase de imediato.
Vincent: Sem problemas. Eu vou mais tarde
Adam respirou fundo, sentindo o constrangimento se instalar antes mesmo de qualquer encontro acontecer. Ele escreveu depois de alguns segundos.
Adam: Melhor evitar
Adam: Posso te entregar em outro lugar. Se você quiser, me passa um endereço
Houve uma pausa maior dessa vez. Adam chegou a bloquear a tela, mas o celular vibrou logo em seguida.
Vincent: Que tal sábado de manhã?
Vincent: Tem um lugar aqui perto onde às vezes dou aula particular de violão
Vincent: Você passa lá rapidinho e me entrega o guarda-chuva
Adam leu a mensagem duas vezes.
As palavras pareciam simples demais para o peso que carregavam. Ele sabia que era uma solução prática. Neutra. Segura. Ainda assim, sentiu aquela familiar hesitação se instalar. Por fim, digitou.
Adam: Pode ser
Adam: Me manda o endereço
Vincent respondeu com um emoji discreto e o endereço logo abaixo.
Nada demais, dizia a lógica.
Só devolver um guarda-chuva.
Adam bloqueou o celular e o colocou de volta no bolso do casaco, tentando ignorar o fato de que já estava organizando mentalmente o sábado inteiro em torno daquele encontro que sua mente insistia em não chamar de encontro.
***
Mais tarde, quando o movimento no sebo já tinha aumentado e Adam estava concentrado em organizar uma prateleira de literatura estrangeira, o celular vibrou no bolso da calça. Ele tentou ignorar no primeiro instante, mas a vibração insistiu.
Era uma mensagem do Finn.
Finn: Ideia rápida antes que eu esqueça:
Finn: a gente tá planejando uma festinha surpresa pro aniversário do Tyler no sábado. Vai ser no nosso quarto
Finn: Nada grande. Só a galera
Finn: Você topa?
Adam parou por um segundo, o livro ainda aberto nas mãos. Sábado.
A palavra acendeu imediatamente a sequência de pensamentos que ele vinha tentando manter sob controle desde mais cedo. O endereço enviado por Vincent. A aula de violão. O guarda-chuva.
Mas aquilo seria de manhã.
Ele fez as contas rápido, quase automaticamente. Não havia sobreposição. Não havia conflito. Respondeu depois de alguns segundos.
Adam: Eu topo!
Adam: Que horas?
A resposta veio logo.
Finn: À noite
Finn: Depois das sete. A gente resolve os detalhes depois
Adam soltou o ar devagar, como se estivesse confirmando algo para si mesmo. Escreveu:
Adam: Tranquilo então
Adam: Conta comigo
Guardou o celular no bolso e voltou a atenção para os livros, sentindo uma sensação estranha, quase injustificada, se espalhar pelo peito.
***
O sábado amanheceu claro demais para o humor de Adam. Ele conferiu o endereço no celular mais uma vez antes de sair de casa, o guarda-chuva dobrado cuidadosamente sob o braço.
Chegou alguns minutos antes do horário combinado. O lugar era discreto, uma rua tranquila, sem muito movimento. Encostou perto do número indicado e ficou parado, observando o entorno sem realmente ver nada. Cinco minutos passaram rápido demais e, ao mesmo tempo, longos o suficiente para que ele começasse a repensar tudo.
Talvez fosse melhor deixar o guarda-chuva em algum lugar e ir embora. Mandar uma mensagem depois. Inventar qualquer coisa.
Já estava quase fazendo isso quando ouviu a voz atrás de si.
— Adam!
Ele se virou. Vincent vinha caminhando na direção dele com passos largos, um sorriso aberto no rosto.
— Oi — Adam respondeu, um pouco sem jeito.
— Bom dia. — Vincent disse, parando à sua frente. — Tá um dia bonito, né?
Adam olhou em volta, o céu limpo, o sol ainda baixo.
— Tá — concordou. — Sim.
Ele estendeu o guarda-chuva para Vincent, dando um meio sorriso.
— Seu guarda chuva.
Vincent sorriu ao pegar o objeto.
— Valeu.
Por um instante, nenhum dos dois disse nada. O silêncio não era desconfortável, mas Adam quase sentiu o impulso conhecido de preenchê-lo rápido demais.
— Você vai fazer o quê hoje? — Vincent perguntou, casual, apoiando o guarda-chuva no chão.
— Vou ajudar a organizar uma festa surpresa mais tarde — Adam respondeu. — Aniversário de um amigo.
— Ah, legal — Vincent disse. — Mas ainda tá cedo.
Ele olhou para o relógio no pulso, depois voltou o olhar para Adam.
— Quer dar uma volta?
Adam franziu a testa.
— Não… eu—
— É sábado de manhã. O que você vai fazer agora? — Vincent perguntou, interrompendo-o, sem pressa.
Adam abriu a boca para responder, mas nenhuma resposta parecia suficiente. Ele não trabalhava aos fins de semana. Dizer que iria para a biblioteca ou qualquer outra coisa soava pequeno demais dito em voz alta. Ele fechou a boca de novo.
Vincent já estava caminhando em direção ao carro estacionado logo à frente.
— Vem — disse, abrindo a porta do motorista.
Adam hesitou por um segundo que pareceu longo demais para alguém que já estava ali.
Depois suspirou, deu alguns passos e entrou no banco do passageiro.
A porta se fechou com um som seco.
E, enquanto Vincent dava a partida, Adam teve a incômoda certeza de que aquele sábado estava oficialmente fora de qualquer planejamento que ele tivesse feito.
***
— Dessa vez eu quero saber pra onde a gente tá indo — Adam disse, quebrando o silêncio enquanto o carro já se afastava da rua tranquila.
Vincent lançou-lhe um olhar rápido, divertido, antes de voltar a atenção para a estrada.
— Justo — respondeu. — Você já foi pra Howth?
Adam pensou por um instante, o nome ecoando com algo distante, quase turístico demais para a rotina dele.
— Não — disse. — Nunca fui.
— Então tá na hora — Vincent comentou, simples, como se aquilo encerrasse qualquer discussão. — Adam… você precisa viver um pouco mais.
Adam abriu a boca para retrucar, mas desistiu antes mesmo de tentar. A frase não tinha soado como um julgamento, era quase um convite dito com naturalidade.
O carro ganhou velocidade na estrada, deixando a cidade para trás aos poucos. Adam apoiou o braço na janela aberta e deixou o vento bagunçar seus cabelos sem tentar ajeitá-los. O ar fresco bateu no rosto, despertando uma sensação de leveza.
Ele fechou os olhos por um instante.
Pela primeira vez em dias, não estava organizando mentalmente seu próximo passo. Apenas estava ali.
E, enquanto o carro seguia em direção ao litoral, Adam percebeu que fazia um tempinho desde a última vez que tinha se sentido tão perigosamente vivo.
***
O carro desacelerou até parar em um pequeno estacionamento irregular, cercado por pedras e vegetação baixa. Quando Vincent desligou o motor e abriu a porta, o vento entrou com força, trazendo o cheiro salgado do mar e um frio que parecia mais vivo do que incômodo.
Adam desceu logo em seguida.
À frente deles, os penhascos de Howth se estendiam como uma pintura em movimento. O farol se destacava ao longe, firme contra o céu aberto, enquanto o mar lá embaixo se quebrava em ondas inquietas, de um azul profundo pontilhado de branco. O vento agitava tudo, o casaco, o cabelo, os pensamentos.
Adam ficou parado por alguns segundos, simplesmente olhando.
— É bonito, né? — Vincent perguntou, a voz quase engolida pelo vento.
Adam assentiu devagar, ainda sem conseguir desviar os olhos da paisagem.
— É lindo — respondeu, sincero.
E, sem querer, o pensamento veio inteiro, inesperado: como eu nunca vim a um lugar desses antes? Estava ali o tempo todo, tão perto, e ainda assim completamente fora do alcance da rotina que ele havia aceitado como suficiente.
Vincent começou a caminhar pela trilha estreita que acompanhava as falésias, as mãos nos bolsos, o passo tranquilo, como se aquele lugar fosse uma extensão natural dele. Adam o seguiu, mantendo certa distância no começo, mas logo diminuindo, atraído não só pela vista, mas pela sensação estranha de estar descobrindo algo que sempre existiu.
Cada passo revelava um novo ângulo do mar, um novo recorte do horizonte. Adam respirou fundo, deixando o vento atravessar o peito, e sentiu algo se ajeitar por dentro, uma mistura de admiração e um vazio bom, daquele tipo que pede para ser preenchido com experiências, não com explicações.
Ele caminhava ao lado de Vincent, silencioso, os olhos atentos à paisagem.
Vincent diminuiu o passo, parando por um instante perto da borda segura da trilha. Olhou para o horizonte como quem conversa mais com o lugar do que com a pessoa ao lado.
— A Irlanda tem uma beleza natural absurda — comentou. — É muito bonita de apreciar.
Adam concordou em silêncio, seguindo o movimento do olhar dele para o mar aberto.
— Tem um lugar que eu ainda quero muito conhecer — Vincent continuou, quase casual. — Os Cliffs of Moher. Todo mundo fala, posta foto, faz parecer obrigatório… e eu nunca fui.
Adam virou o rosto para ele, surpreso.
— Sério? — perguntou. — Eu também nunca fui.
— Adam, você é um irlandês que está falhando no básico.
Adam deixou escapar um riso curto
Houve uma pequena pausa entre eles, preenchida apenas pelo vento e pelo som distante das ondas. Vincent sorriu de leve.
Eles acabaram se sentando em um dos banquinhos de madeira voltados para o mar, o vento batendo forte, trazendo cheiro de sal e frio suficiente para deixar a pele sensível. Adam apoiou os cotovelos nos joelhos, o olhar perdido na linha do horizonte, sentindo o coração estranhamente calmo.
Vincent, ao lado dele, não olhava para o mar.
Observava Adam.
O vento tinha deixado o rosto dele levemente corado, o cabelo ruivo bagunçado de um jeito descuidado, bonito demais para parecer real. Havia algo aberto, vulnerável, quase cru naquela expressão.
— Você fica bonito assim — Vincent disse, sem rodeios.
Adam virou o rosto, confuso.
— Assim como?
— Corado — respondeu Vincent, com um meio sorriso.
O comentário atingiu em cheio. O calor subiu ainda mais rápido dessa vez, espalhando-se pelas bochechas, pelo pescoço. Adam desviou o olhar, sem saber onde colocar as mãos, o corpo inteiro denunciando o efeito das palavras.
Vincent se inclinou um pouco mais, a proximidade eliminando qualquer espaço seguro para fuga. Com cuidado, levou a mão até o queixo de Adam, erguendo seu rosto devagar, como se pedisse permissão mesmo sem perguntar.
Os olhos se encontraram por um segundo, o vento, o mar, o mundo inteiro suspenso naquele instante.
Então Vincent o beijou.
Não foi apressado, nem tímido. Foi intenso, firme, carregado de tudo o que vinha sentindo. Adam correspondeu sem hesitar, a mão encontrando o casaco de Vincent, o corpo inteiro se inclinando para mais perto, como se aquele beijo fosse exatamente o que ele precisava.
Ali, nas falésias de Howth, com o vento cortando e o mar assistindo, Adam teve a certeza rara de estar vivendo o momento certo, no lugar certo, com a pessoa certa.
***
Eles passaram o resto do dia quase sem perceber o tempo passar.
Andaram sem rumo definido pelas ruas de Howth, entraram em lojinhas pequenas perto do porto, observaram os barcos balançando na água cinzenta e acabaram comprando fish and chips embrulhados em papel grosso, quentes demais para segurar direito. Sentaram-se em um muro baixo, de frente para o mar, comendo devagar, rindo de comentários soltos, de histórias que não precisavam ser profundas para serem íntimas.
Adam se sentia leve. Presente. Pela primeira vez em muito tempo, não estava contando horas, nem pensando no depois. O mundo parecia caber naquele espaço entre uma mordida e outra, entre o vento e a voz de Vincent ao seu lado.
Quando o céu começou a escurecer aos poucos, tingido de tons frios e alaranjados, eles voltaram para o carro.
Adam abriu a porta e sentou-se, sentindo o vento frio bater no rosto, e foi então que percebeu: seu celular estava no modo “não perturbe” desde cedo. Um frio correu por sua espinha quando viu a tela cheia de notificações não lidas. Isabelle, Finn, Min-su… todas com mensagens perguntando onde ele estava, pois estavam cuidando dos preparativos para o aniversário de Tyler. Já passava das seis da tarde.
Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.
O estacionamento estava quase deserto. O vento batia de forma irregular, balançando os cabelos dos dois e levantando folhas secas pelo chão. Adam tentava acalmar a adrenalina que ainda percorria seu corpo. Pensou nas mensagens acumuladas no celular, no aniversário que precisava organizar, nas pessoas que o esperavam. E, ainda assim, algo dentro dele insistia em não deixá-lo pensar no mundo lá fora.
Ele olhou para Vincent, sentado ao lado, relaxado, com aquele sorriso tranquilo que parecia fazer o tempo parar. O coração de Adam disparou, uma mistura de desejo e medo percorrendo cada nervo. Tentou afastar o pensamento, tentar racionalizar, mas não conseguiu. Cada gesto de Vincent, o jeito como o vento bagunçava seus cabelos, o brilho no olhar, parecia puxá-lo para mais perto.
Adam fechou os olhos por um instante. Lutou contra si mesmo, lembrando-se das regras, do autocontrole, dos amigos, mas tudo isso parecia pequeno diante do que sentia. Respirou fundo e, com uma hesitação quase imperceptível, inclinou-se. Por um segundo, pensou em parar, recuar, se proteger. Mas não. O impulso foi mais forte.
Aproximou o rosto do de Vincent.
Quando seus lábios se tocaram, foi um choque silencioso, quente e urgente. Vincent correspondeu imediatamente, envolvendo Adam em seus braços com intensidade, sem hesitação. Desta vez, o beijo não era apenas um toque tímido: havia pressa, havia exploração, havia curiosidade e desejo.
As mãos de Adam, inicialmente trêmulas, encontraram o corpo de Vincent. O toque era bobo, desajeitado, mas carregado de tensão; os corpos se encostavam, se adaptavam, buscando calor. Vincent não hesitou: suas mãos exploraram com suavidade, percorrendo as costas de Adam, os ombros, até chegar nas nádegas dele, apertando de leve, provocando um arrepio que subiu pela espinha de Adam.
O choque da ousadia o fez hesitar por um segundo, o coração disparado, a respiração presa. Mas havia algo em Vincent, no jeito firme e seguro como correspondia, que deixava Adam derreter. O beijo se intensificou, mais urgente, mais profundo; as mãos de Adam encontraram o quadril de Vincent, segurando-o, sem saber direito o que fazer, apenas seguindo a corrente de desejo que o puxava para mais perto.
O corpo de Adam se moldava ao de Vincent, sentindo o calor e a pressão do toque, cada gesto carregado de uma intimidade que ele mal podia acreditar que estava acontecendo ali. O amasso era longo, intenso, desordenado e inevitável; um turbilhão de sensações que Adam não sabia como controlar.
Então, de repente, a consciência voltou com força. O choque da realidade fez Adam se afastar, respirando rápido, ainda com as mãos no colo, sentindo o rosto queimar e o coração bater loucamente.
— A gente… precisa voltar — disse, sério, tentando recuperar o fôlego e a compostura.
Vincent sorriu, recuando e deixando espaço para Adam, ainda com os olhos brilhando de malícia e compreensão. Não havia pressa, apenas um respeito silencioso que fez Adam respirar mais aliviado. Mas a lembrança do toque, do calor, do beijo intenso permaneceu, gravada na pele e na mente, deixando um arrepio que se recusava a desaparecer.
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