Perdi-me nos olhos dele, porque eles são o meu caminho para casa.

Houve um tempo em que eu soube que as palavras não chegavam e os momentos acabavam com a lembrança, porém eu preferi esperar. Ela não esperou.

Mas existem coisas mais importantes, porque eu fui perdendo o mundo que me pôs aqui e eu fui voando sem asas como se lá em cima houvesse um lugar melhor para mim. Eu preferi o calor da imaginação ao gelo da realidade, eu preferi não dizer um olá, para não ter de dizer um adeus. Eu preferi mal.

E os olhos dele são o universo a colidir com outro universo, são o verão e o inverno ao mesmo tempo, são a profundidade do oceano e a palidez do céu e eu não sei onde me encontrar neles, mas eu vejo-os a todo o tempo. Eu penso nos momentos que acabaram em lembranças e ouço a noite debaixo do dia como se estivesse contigo outra vez. Eu sei que não percebes nada de mim, mas compreendes-me como se percebesses. Eu escrevo-te porque eu sei que não aguentarei muito mais sem falar contigo, eu escrevo-te porque as palavras são bonitas quando são ditas na perspetiva do amor. Eu espero que esteja presente em ti o meu sorriso, porque assim alguém pode guardá-lo para sempre e espero que a solidão não te assuste tanto como me assusta a mim. Se não tiveres medo eu não tenho medo, certo? Certo.

Achas que o mundo vai ficar muito melhor do que isto, há quem diga que sim. Eu digo que não.

E tu? Espero que aches que sim.

Eu passei demasiado tempo a ter fazer o tempo voltar atrás, a tentar encontrar-me em quem eu era, mas nunca me encontrei. O tempo encontrou-me, o tempo encontra toda a gente e eu pensei que nunca iria ficar melhor do que isto, mas fiquei. Eu sorri até me doer a boca, eu gargalhei até me doer a voz, eu dancei até a pernas me falharem e eu aproveitei cada segundo, porque o que o tempo dá, o tempo tira.

E o tempo tirou.

Rasgou as fotografias e cortou-me as asas feitas de papel que me levavam no vento. Deixou-me ter um último suspiro até me levar o vento também.

E eu sinto-me a descer e isso tira-me o folgo à noite. E ninguém percebe.

Alguns sonhos não voltam, foram atirados para longe demais. Alguma parte de mim nunca vai voltar, foi-me tirada cedo demais.

Eu tento colar as asas de volta, elas parecem perfeitas, apenas com uma rachadura aqui e ali, porém não há vento, nem um movimento no ar que me envolve. Não há vento.