Três Alternativas.

3 Capítulo 3 — Chuva.


Notas iniciais
Gente, desculpem a demora (muita fic pra administrar). Obrigada aos que estão lendo, aos novos leitores e aos acompanhamentos.

A tarde de Mike fora muito agradável. Sentia-se muito feliz de ter Elle junto dele, ela estava de volta, novamente! Os sorrisos largos de Michael poderiam ser vistos até de costas. Passou muito tempo conversando com a amiga, e aquela chama incompatível de exclusão e diferença brilhou com mais força perto dela.Era como se a garota aproximasse um ímã no peito de Mike. Ele queria estar colado com ela, ser parte dela, para sempre. Mas contentava-se com os breves momentos em que Elle Kingsley deitava a cabeça sobre seu peito e dizia algo no qual se identificava.

Era natural sentir isso por uma garota qualquer, mas era a Elle. Só a Elle. Aos poucos, o chocolate quente e os cookies foram acabando, mas os assuntos dos dois, não. Relembravam coisas de muito tempo atrás, e riam. Mike até conseguia se sentir normal.

Já sentiu como se o mundo finalmente fizesse sentido: Ou melhor, como se ele te desse um sentido para continuar? Mike sabia que essa vozinha em seu interior era o mundo, dizendo para ele continuar. Para ele seguir firme, afinal, se você quer o arco-íris, deve aguentar a chuva, não é? Mike continuaria. Por Elle.

***

A troca de cenários foi ridícula.

Elle se despediu e andou até seu carro (que comprara com o dinheiro dos tios) e ligou o motor. Não tinha muito tempo que fizera 16 anos, mas sua habilidade com o carro fez Mike duvidar se ela não andava antes, sem habilitação nem carteira. O carro vermelho deu uma ré graciosa e, antes de ir embora, Elle deu um aceno rápido. Ela acenou para ele! As coisas começavam a ficar sérias, por aqui.

Entrou em casa novamente, com aquele ar etéreo e andou até seu quarto. Pescou o violão rapidamente e passou o dedo pela Prima. A primeira corda fez um som melodioso, e o garoto deu um sorrisinho. Logo, tocava cada corda, uma de cada vez, para sentir o gosto das melodias singulares correrem por seus ouvidos. Fez uma junção magnífica, as cordas fizeram o som reverberar pelo quarto. Elle apareceu, Elle sorrira pra ele, Elle beijou sua bochecha, Elle acenara para ele. Outra vez, Mike tocava por instinto. Olhava para qualquer parte da parede lisa do quarto à sua frente, os sons do instrumento em seu colo saindo com mais continuidade até estar tocando sem parar. Não fazia ideia de que música era aquela, até a porta abrir e sua mãe entrar.

— Hora dos seus remédios, filho.

Mike fitou desesperadamente todos aqueles remédios na mão da mãe a acabou dando um sorriso de escárnio.

— Uhum, esse aqui é pra quê? Deve ser alegria. E esse, normalidade. Ah, ah, esse aqui é pra gentileza, só pode ser. — o jeito infantil de Mike apontar as coisas logo desapareceu e ele a encarava, extremamente sério. — Tá querendo me drogar? Ou me fazer ter uma overdose de sentimentos bons?

"Eles me deixam entorpecido..." sussurrou Mike.

Janet deu um pequeno sorriso constrangido. Levou a mão aos cabelos cacheados e cor de chocolate de Mike.

— Ora, Mike, sabe que precisa tomar seus remédios.

Não precisa, não.

Precisa, sim.

Não.

Sim.

Não, não, não.

Sim, sim, sim.

CHEGA!

— Não vou tomar, mãe.

Eu disse.

Não faça isso!

VOU FAZER E PONTO, CALEM A BOCA.

— Mike. Tome seus remédios. Quer cair no chão e quase morrer, de novo?

Michael pensou. As vozes continuavam quietas.

Três alternativas.

a) QUERO, QUAL É A DIFERENÇA? EU JÁ DOU TRABALHO, MESMO.

b) Aff, não quero tomar, lalalalalalalá.

c) Corre, Mike, corre!

Resposta arquivada. Sem resposta, agora. Ele pegou os nove remédios, analisando-os. Observou um comprido, em forma de pílula, com uma cor alaranjada. Nele, se formaram as letras P-E-R-F-E-I-Ç-Ã-O. O outro, achatado e redondo, branco, a palavra ESPERANÇA. E o resto. ALÍVIO, ALEGRIA, BELEZA, SANIDADE, VERDADE, SONHOS, AMOR. Tudo o que Mike precisava. Tentador. Mas não tomaria.

Colocou um por um dos remédios na boca, sentindo o gosto amargo em contato com suas pupilas gustativas e bebeu a água. Janet deu um sorriso aliviado, orgulhoso, e saiu do quarto. Com cuidado, Michael levantou a língua e tirou de lá todos os comprimidos.

— Assim que se faz. — disse uma voz feminina abafada. Assustado, Mike olhou a janela, onde o rosto extremamente infantil e cômico de Claire McCoy estava colado ao vidro.

— Claire! — o garoto correu para trancar a porta e abriu a janela, por onde a garota pulou.

— Heeeey. Que quarto caidinho!

— Fale baixo, o que está fazendo aqui?

***

— Você o quê?!

Claire olhou espantada para Mike. Abraçava o travesseiro, os olhos castanhos brilhando a espera de resposta. Sua cabeça pendia levemente para o lado, como um gato, fazendo seus cabelos ondulados brilharem contra a luz, balançando.

— Eu sou virgem.

— Você deve ter problemas! — resmungou a garota, uma ponta de sorriso nos cantos dos lábios. — Fora, é claro, a esquizofrenia.

Michael suspirou, deitando a cabeça no travesseiro que a menina abraçava. Deveria ter uns 14 anos, à beira dos 15, mas ainda tinha aquele sorriso e o olhar infantis. O ar alegre deixava claro que nada a abalava. Era isso que Mike queria para ele. Que nada o abalasse.

— Não enche, Claire. — resmungou.

— "Não enche, Claire." — imitou ela. — Fala sério!

Ouviram passos no corredor. Michael levantou-se em um pulo, escancarando a janela, enquanto Claire pulava para fora. A porta se abriu e, de impulso, o garoto apoiou seus braços no parapeito da janela. Sua mãe se apoiou na porta.

— Mike! O que está fazendo? Pensei ter ouvido sua voz.

— É que eu pensei que tinha ouvido barulho de chuva. Sabe, chuva. — ele apontou os indicadores para os ouvidos, desfocando o olhar, tremendo levemente a cabeça; em termos de imitação de doença mental, Mike era ótimo.

Janet suspirou, preocupada.

— Deite-se, Mike, deixe os remédios fazerem efeito!

— M-mas a chuva... Acho a chuva tão bonita, os pingos caindo na janela, fiiiiiiiu... — o garoto levantou as mãos e fez seu indicador traçar um trajeto como se caísse até a palma da outra mão.

— O.k. O.k., depois você vê a chuva. Descanse. — a mãe o obrigou a deitar-se, Mike obedeceu, continuando a encenação.

Não vou dormir, não posso, não quero.

Um carneirinho, dois carneirinhos, três Elles, quatro Claires...

Notas finais
Então? Espero que tenham gostado. Críticas, dúvidas, elogios e qualquer outra coisa são aceitos. ;D