Truque de Ladrões
2 01. O roubo havia começado
Notas iniciais
As enormes engrenagens demarcavam no horloge exatamente cinco e meia da tarde.
Fonte do orgulho nacionalista de Karp, a geringonça mecânica embutida na torre mais alta da capital exercia a ilustre função de indicar as horas aos habitantes que já possuíam horloges de bolso, pulso ou até mesmo oculares, apitando e lançando baforadas de vapor a cada vez que os ponteiros se juntavam ou indicavam o horário exato. O estridente som que emitia ecoava por toda cidade como o rugido de um gigante automático, anunciando a troca de turno dos trabalhadores e o dinheiro passado de mão em mão. Apesar do simbolismo, a engenhoca não passava de uma cópia espalhafatosa do conhecido Big Ben antecessor a Guerra dos Nove Sóis.
Klaos Kriger considerava-o uma engrenagem fundamental para seus planos, apreciando da estabilidade que as horas proporcionavam, imutáveis a despeito da guerra ou intempérie dos homens.
Faltavam trinta minutos para que o centro tornasse um aglomerado de pessoas e máquinas, deixando-o com pouco tempo para analisar os minuciosos detalhes ocultos aos olhos adeptos a industrialização e progresso. Seu alvo dessa vez era um discreto banco conhecido mundialmente por seus clientes Loadrianos. Segundo investigara, lá continha uma quantia considerável de Óleo Negro exclusivo ao Chanceler...
Acenou distraidamente com a cartola para uma mulher que passara e o reconhecera. Seu nome possivelmente era Katherin, filha de um secretário de pouca influencia política que ansiava por um matrimônio lucrativo. O cheiro do seu perfume era tão enjoativo que Klaos considerava o odor do Sangue Inflamável menos nocivo, apesar disso, sorriu com cavalheirismo mesmo depois de contorna-la.
Suas poucas identidades falsas lhe davam cobertura suficiente para que não confundisse qual personagem seria necessário em cada ocasião. Nos bailes da alta sociedade interpretava William, um lorde de Loadrian inapto aos costumes e excentricidades Karpnianas, tímido e recatado, tão cortês que fazia os maiores bajuladores sentir inveja. Naquela tarde considerou-o perfeito para a ocasião.
Afinal, ninguém suspeitaria que um cavalheiro imigrante coberto de veludo estivesse arquitetando um dos maiores roubos da Nação. Esse tipo de conduta era geralmente característico aos garotos de rua e arrombadores dos Curtumes.
Sua contemplativa caminhada no centro levou-o até uma peculiar loja de espelhos, refletindo os arredores ostentosos nos mais diversificados tamanhos, ângulos e molduras; através deles pôde admirar sua imagem pela segunda vez desde que saíra da Lapa, sorrindo em satisfação.
O casaco macio amarronzado realçava seus olhos e cabelos castanhos, dando-lhe a jovialidade necessária junto à seriedade de sua posição, por baixo, o colete vinho aveludado adornado por botões de ouro completavam o estilo acompanhado pela calça social e uma cartola negra. Horloges de bolso pendiam de seu peito por elegantes correntes douradas.
Faltavam alguns meses para Klaos completar os seus vinte anos, mas uma barba rala já despontava de seu queixo, auxiliando ainda mais sua moda Loadriana. Atrás de si, um esplêndido dirigível cruzou as nuvens densas do centro Karpniano.
— G-Gostaria de avaliar outros modelos, meu Lorde? –Sugeriu a vendedora, tímida. –Meu pai também aceita encomendas, se quiser...
O jovem nobre saudou-a com seu melhor sorriso cortês, desconfortando a moça antes de responder:
— De grande valia seria para mim os esforços de seu pai, senhorita, contudo hoje procuro algo deveras simples. Ao bem da verdade, sinto afrontar um trabalho desta maestria ao solicitar um comum espelho de bolso.
A bajulação desnecessária de William sempre acarretava dois efeitos dependendo da classe social ao qual se referia: Para os nobres, o rapaz não passava de um tolo em busca de ascensão política, enquanto que para a classe baixa era a própria personificação da inocência e bondade. A garota não teve nem tempo de esconder o acanhamento diante da graça de seu ilusório príncipe encantado.
— S-Sim, meu Lorde... –Retribuiu o sorriso, envergonhada. –N-Não se preocupe com o pedido, não há ofensa alguma nisso! E-Entre, irei buscar as amostras para que você as escolha conforme deseja.
— Antes que ocupe demais seu tempo, gostaria de averiguar os modelos de vidros ampliados. Não me importo com a decoração das molduras, visto que vivo os perdendo constantemente. –Impediu o cavalheiresco William visivelmente constrangido por sua falta de cuidado. –Também estou com um pouquinho de pressa, embora compreenda o zelo necessário neste tipo de profissão.
O fato de tê-la enxotado pouco pareceu relevante em meio a tantos floreios e olhares deslumbrados, logo a mulher voltara com uma variedade de opções e modelos. Klaos absorvia os detalhes da loja sem interesse, embora encenasse a típica curiosidade de William com maestria.
Optou por escolher um espelho sutilmente emoldurado junto a um conjunto de vidros reserva; a primeira opção parecia familiarizar com a personalidade do aristocrata enquanto a outra se encaixava aos padrões do ladrão.
Antes de retirar-se do estabelecimento, fez questão de encerrar a incessante conversa com a vendedora da melhor maneira Loadriana, retirando sua cartola e abaixando a cabeça em sinal afirmativo. Pode ouvir, mesmo a distancia, os suspiros apaixonados da mulher.
Retomando a caminhada, Klaos cruzou a Estação Petroleum permitindo-se pela primeira vez relaxar a postura de diplomata. O odor pungente do Sangue Inflamável que abastecia os Carrega Céus açoitava suas narinas, e ao contrário da calmaria visível do centro, Petroleum já começava a aglomerar uma quantidade considerável de passageiros. Dirigiu-se para o núcleo de uma das engenhocas voadoras de classe média, pagando o motorista para que ele o concedesse um lugar descente.
Acomodado a sua frente, um garoto dormia desleixadamente, babando no estofado de couro curtido do veículo. Seus cabelos vermelhos naturalmente espetados lhe davam a aparência de ter sido eletrocutado, e a roupa rasgada tampouco colaborava para diminuir essa impressão.
— Chapéu roubado. –Sussurou Klaos, cutucando o banco em que o rapaz jazia estirado.
O solavanco que o maior exibira ao despertar assustara um velho sentado à frente, fazendo com que este exibisse uma expressão insatisfeita ao encarar a figura agitada atrás de si.
— Pelos Nove Sóis fodidos! –Exclamou bocejando conforme se espreguiçava. –Odeio transporte público.
— Tudo seria muito mais confortável se o mundo não dispusesse de indivíduos como você. –Retrucou o idoso ainda visivelmente ofendido.
— Como é? –O ruivo aproximou-se apoiando os cotovelos arranhados no banco. –Não se esqueça de que é a minha geração que luta para você comprar suas fraldas, Arrendado da Nação escroto!
A algazarra atraíra atenção de todos os passageiros, e logo outros também manifestaram suas opiniões sobre o distúrbio. Questões que envolviam a Classe Economicamente Ativa contra a antiquada Passiva rendiam longas discussões entre os mais jovens e os aposentados, pois a Era do Progresso não beneficiava de maneira adequada os seus antecessores, rendendo-lhes a dependência dos esforços da Classe Ativa.
— O-Oras! –Levantou-se indignado o homem, seu rosto enrugado exibia o desagrado de um avô conservador. –Quanta insolência! Anarquistas é isso que são! Prefiro passar fome a ter que conviver subalterno desse tipo de corja!
A declaração fora à gota d’água para ambos os lados. Prontamente um tumulto generalizado de pessoas levantou-se dos assentos para apontar os dedos uma para as outras, com a onda de palavrões substituindo qualquer chance de conversa pacífica até que os pontapés começassem, extinguindo a nobreza.
Durante a infância os adultos que conhecera haviam lhe dito que o caos era uma coisa ruim, obrigando-o a acreditar nessa afirmação como se fosse à única verdade que conheciam. Ao crescer percebeu o quanto estavam errados... O caos era algo maravilhoso, cujo poder comparava-se as explosões do Sangue Inflamável em contato ao fogo. Sua fagulha dessa vez fora as provocações de Volts, o estrago resultaria na crise de uma Nação.
Retirou do bolso do casaco o espelho que comprara, percebendo só então o nome da vendedora carinhosamente esculpido no verso de madeira: Alexi. Sorriu diante da ingenuidade da mulher, mas considerou o apelido digno a seu novo mecanismo de roubo. Posicionou-o disfarçadamente entre os vãos de seu assento, permitindo-lhe a visão necessária da situação atrás de si. Um de seus alvos havia se levantado como previsto, se acotovelando para interromper a confusão que seguia.
Quando notara que o homenzarrão estava a poucos passos de distância, Klaos deixou com que o reflexo do espelho levasse uma réstia de luz em direção a Volts, alertando-o de que sua parte estava concluída. Escorregou o objeto em seu bolso novamente, reassumindo a postura aristocrática de Lorde William e levantando-se em desgosto.
— Pela destruição dos Nove Sóis! –Gritou em meio à algazarra, pondo-se entre o caminho do alvo com suas costas barrando a passagem. Dirigiu-se ao idoso e o jovem que iniciara a briga, embora nenhum dos dois prestasse atenção. –Será que os senhores não poderiam resolver isso de maneira que ambos os lados se entendam?! Para que tanta anarquia! Todos vocês são cavalheiros, por favor...
O impacto costumeiro de dois corpos se colidindo lembrou Klaos à razão por escolher sempre uma abordagem delicada com suas possíveis vítimas. O simples encontrão junto ao musculoso guarda fez com que seu corpo ossudo fosse lançado para frente sem a menor piedade, quase caindo entre o epicentro do tumulto. Felizmente, equilíbrio é o que não lhe faltava.
— P-Perdoe-me Senhor... –O homenzarrão estacou visivelmente perplexo por seu descuido diante alguém tão bem vestido. –Me certificarei de livrar esse veículo dos males políticos ultrajantes a sua posição...
A distração fora suficiente para que lorde William exibisse o seu semblante assustado enquanto aceitava a ajuda do guarda para se estabilizar, assim, Klaos surrupiou os diminutos bolsos do casaco carmesim típicos da Guarita, sabendo que sua localização jazia do lado direito. Lembrou-se de quando era criança e se agarrara aos mesmos bolsos quando fora conduzido por um soldado após sua suposta captura.
— Haverá uma Era em que a verdade será cravada em suas almas embutidas cegas pela mídia! –Esgoelou Volts, deixando-se ouvir por toda multidão. –E então se lembrarão deste dia e de tudo aquilo que eles chamam de caos! Nós somos a ordem, nós somos a Nação!
A declaração fora tão voraz que Klaos observou o seu efeito cair sobre ao grupo; a esperança e o ódio disseminados em uma única pancada de emoções que abafara consideravelmente o burburinho anterior. O soldado avermelhava-se de ira, deixando com que as veias de seu grosso pescoço saltassem; estava claro que embora conseguisse conter o rebelde, sua influência já havia dominado boa parte do aglomerado. Largou lorde William em um solavanco, abrindo caminho entre a multidão na tentativa de agarrar o anarquista.
Ninguém sabia, entretanto, que o incitador discurso de ódio continha uma mensagem secreta enviada exclusivamente para o falsário lorde aristocrata: Almas Embutidas. O aviso, naquela circunstancia, expressava que tudo estava saindo como planejado.
Klaos observou com falsa perplexidade quando o guarda avançou sobre o jovem ruivo, de espada em punho. O grupo que se dispersara desesperadamente entre o veiculo por medo de saírem machucados no conflito empurra-o em direção as cabines de segurança do transporte, obrigando-o a se equilibrar entre a agitação e as manobras flutuantes da engenhoca. Presumiu que estavam pegando altitude e que a grande quantidade de pessoas centradas em um único ponto prejudicava a capacidade da pequena aeronave.
Lançou uma última olhadela sobre os ombros na tentativa de encontrar Volts, notando entre o movimento a silhueta de seus cabelos espetados dependurados na vidraça.
Quando virara para localiza-lo novamente, já não estava mais lá. O apito agudo do horloge central demarcava exatamente seis horas da tarde.
O roubo havia começado.
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