Trunfo
16 O passado de Jason
-Sinceramente, as camas no Chalé de Apolo não podem ser tão ruins assim!
Piscando para se acostumar com o Sol da manhã, Anna se levantou e notou estranhamente um lençol sobre seu corpo. Encarou uma silhueta na frente dos raios de luz e sorriu, arrumando os cabelos.
-Leo? – Perguntou Jason, acordando também. Anna se surpreendeu ao constatar que a silhueta realmente pertencia ao filho de Hefesto.
-Estou interrompendo algo? – Brincou o menino, porém seu tom de voz não parecia tão animado.
-Cala a boca. – Riu Anna, apesar disso. Jason levou uma leve pontada no peito, mas se preocupou em fingir um riso.
Leo estendeu a mão para Anna, que aceitou a ajuda, e logo em seguida se lembrou da existência de Jason, ajudando-o também. Anna pareceu notar a expressão carrancuda de Jason, mas não fez nada além de olhá-lo, preocupada.
-Quíron me mandou procurar vocês. – Avisou Leo.
-Ele quer falar comigo? – Perguntou Anna, ressentida.
-Pelo jeito não. – Disse ele. – Só parecia preocupado com a possibilidade de você ter fugido.
-Não parece má ideia. – Engraçou-se ela, olhando de relance para Jason e sua esquisitice repentina. Leo riu e seguiu o olhar de Anna, encontrando Jason olhando-o bravo.
-Eu vou tomar banho. – Informou Anna, batendo uma palma. – Encontro vocês no Pavilhão?
-Fechado. – Resmungou Jason, fixando seu olhar bravo em Leo.
-Okay... – Respondeu Anna, hesitando em deixar os dois sozinhos.
-Tchau, Leo! – Despediu-se sorrindo.
Jason esperou Anna sumir de vista para falar qualquer coisa, e quando abriu sua boca, Leo o interrompeu.
-Antes que diga qualquer coisa... – Disse Leo, então tirando do bolso da calça um colar fino de ouro, com um pingente bem detalhado de um símbolo musical em preto. – Aqui está sua encomenda. Melany estava cheia de pedidos, então eu mesmo fiz.
-Valeu. – Respondeu Jason, meio de mau gosto. – Posso mandar o pagamento depois?
Leo assentiu; feliz por saber que havia se livrado de uma briga desnecessária com Jason, porém preocupado com sua expressão irritada e nervosa.
Desde que Leo chegara ao Acampamento, Jason sempre fora um menino amigável e bondoso... Mas não era aquela a história que repercutia sobre o antigo Jason.
Ninguém nunca sabia a verdade ou qualquer fato além de confusas deduções e, mesmo juntando-se as informações quase confiáveis, formava-se um passado misterioso, embaçado e cheio de incertezas. A única certeza era de que aquilo o perturbava tão ruidosamente que quando ativado fazia Jason parecer outra pessoa.
Os dois seguiram caminhos diferentes sem dizer muitas palavras...
Jason seguiu para os banheiros. Encontrou as pias vazias, ele sendo o único no lugar.
-Droga. – Ele resmungou para o nada.
Fechou os punhos com raiva e socou a parede com força, gritando e fechando os olhos com convicção. Luzes vermelhas e laranjas piscaram em sua mente, logo então substituídas por luzes roxas escurecidas contornadas por uma fina linha branca. Essas luzes formavam um círculo em sua mente, e mesmo abrindo os olhos Jason já se sentia tonto e continuava vendo-as. Dentro da circunferência havia um buraco negro, sugando tudo menos as luzes que o contornavam.
Dessa vez ele gritou de dor, e se contorceu até cair no chão, sentido uma poça d’água tocar suas roupas. Foi pinicado quando tentou apertar o punho novamente, lembrando-se dolorosamente de que ainda segurava o colar.
Ele não entendia o que estava acontecendo: Jason nunca tivera nada contra Leo Valdez, e mesmo se tivesse, não seria motivo para se irritar tanto àquele ponto.
-Ugh! – Gemeu, fazendo força para deter os tumultos.
-Alô? – Chamou a voz de Anna, chegando cada vez mais próxima. – Tem alguém aí?
Ela aprendera que podia controlar a água e retirá-la de sua pele e cabelos, e assim fez para sair correndo do banho e ajudar o dono dos gritos atordoados.
Guiou-se pelo som e descobriu sua origem nas pias. Correu o máximo que pôde, chamando pela pessoa em desespero. Entrou exasperada na área das pias, mas nada havia ali, e os gritos haviam parado.
Uma poça formada sobre o piso ainda tremia — mostrando-se recentemente tocada — no entanto aquela era a única pista.
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