Trunfo

4 Boas Vindas


Ela levantou assustada, numa sala vazia com cara de enfermaria. Procurou detalhadamente algo que a lembrasse do que houve depois da luta, mas sua resposta foi uma grande porção de nada. Sua memória era trocada pelo sonho que tivera.

Anna se viu num terreno aberto, grama verde, chuva. Ao seu redor bichos estranhos não reconhecidos. O menino loiro corria em direção à floresta, de onde uma estranha luz roxa se projetava.

De volta ao presente, Anna teve a súbita sensação de ter seu coração esvaziado, e obrigou-se a se lembrar de que era apenas um sonho.

–Did she wake up? – A voz era doce e continuava a soar em inglês, mas parecia preocupada. Seu dono possuía um leve sotaque londrino.

O garoto loiro entrou na sala; tinha alguns arranhões na face, mas nenhum rastro do machucado anterior.

–Você... Bem? – Ele tentou falar português, e Anna agradeceu seus pais por mandá-la para o curso de inglês.

Anna assentiu cautelosamente.

–Fine. – Disse, tentando fazê-lo entender que poderia continuar no inglês.

–Great! – Antes que ela pudesse perguntar, o menino explicou. -Você derrotou todas as empousa, mas desmaiou logo depois.

Anna perguntou-se por que ela sabia o que eram Empousa.

–Enfim, onde eu estou? – Questionou-lhe.

–Você está no Acampamento Meio-Sangue... Em... Hã... Long Island, Manhattan.

–O que?! – Sua cabeça doeu, seus olhos se arregalando com raiva.

–Se acalme!

–Não! – Trovejou. – Quer dizer, isso não é normal! O que você fez?!

O garoto pareceu se magoar.

–Espera um pouco. – Ele correu para fora do quarto, e logo Anna ouviu trotes de um cavalo.

Seus pés calçavam seus tênis freneticamente e ela se dirigia à porta, quando um cadeirante botou a cabeça para dentro do cômodo. Pulou assustada para trás e levantou o queixo levemente, em posição de combate.

–Boa tarde... – Ele disse, normalmente. Com um indicar de cabeça, convidou-a a se sentar, o que ela não fez, teimosamente.

Passos apressados ecoaram por trás da porta, até que um homem baixo vestindo camiseta havaiana entrou na enfermaria. Examinou-a de baixo a cima (nesta ordem) e grunhiu.

–Vai ser uma das complicadas... – Resmungou, abrindo espaço para se sentar na maca.

–Eu exijo saber o que está acontecendo. – Anna ordenou.

–Já ouviu falar de semideuses? – O velho cadeirante mudou de assunto.

–Para que isso importa?

–Já aprendeu sobre Império Grego na escola?

–Já. – Rendeu-se a pergunta.

–É católica? – Ele perguntou.

–Não acha mal educado questionar uma pessoa sobre religião quando nem sabe seu nome? – Ela replicou. O velho pareceu concordar.

–Você é uma semideusa. Metade deusa, metade humana. – Disse o pequeno homem, na lata. E então recitou um discurso decorado. – Seja bem-vindo ao acampamento, o único lugar onde você está salva, blah.

–O que? Olha, deve haver algum engano. Eu... Eu tenho pais. – Ela contestou. – E além do mais, é tudo só mitologia! Não existe.

–Eu falei! – Reclamou o baixo, levando as mãos ao ar.

–Cala a boca, anão. – Anna rebateu brava, reprimindo os olhos. Ele fez o mesmo.

–Não acredita nos gregos, mas acredita na Branca de Neve? – Ele rosnou. Ela começou a debater que anões existiam de verdade, além dos contos de fada, e que eles eram pessoas reais, ao contrário dos...

–Está bem! – Exclamou o cadeirante, botando um fim à discussão. – Senhor Dionísio, peço que pare de se meter em brigas com os campistas.

Por dentro, Anna riu do Senhor Dion...

–Dionísio?! — Ela realizou. Então chacoalhou a cabeça: não, não. Aquilo não era real. Não podia ser. – Vocês levam essa coisa mesmo a sério, não?

O suposto Deus do vinho se irritou, e a atacou com uma lata de coca cola que materializara.

–Ai! – Ela protestou.

O cadeirante visivelmente desaprovou a atitude dos dois.

–Escuta moço, a minha mãe deve estar pensando que eu morri a essa altura. Preciso mesmo que vocês parem a loucura e me mandem de volta para casa.

–Aqui é a sua casa! – Pela primeira vez o loiro abriu a boca.

–Claro que não! O que vocês têm na cabeça? – Anna reclamou. – Cocô de cavalo?

O deficiente pareceu ofendido, e decidiu se levantar da cadeira de rodas, para a surpresa de Anna.

–Tá de brincadeira!

O aparentemente cadeirante então se erguia um corcel, elegante, alto e principalmente poderoso.

–Acredita agora? – Ele perguntou meio ressentido.

Ela analisou todos os fatos: os Monstros que a perseguiram no dia anterior e em todos os outros dias antes daquele; como ninguém além de sua amiga se aproximava dela na escola ou em nenhum outro lugar, já que ela era muito... Diferente; as vozes estranhas em sua mente; como as pessoas não notavam a presença dos monstros logo ao lado delas; o machucado rapidamente curado do garoto loiro; a lata que surgiu do nada; o cavalo humano – centauro.

Mas e seus pais? Não era possível que algum deles houvesse traído, e as fotos comprovavam que ela não era adotada.

Anna não respondeu à pergunta, indecisa. O centauro respirou fundo.

–Tente passar uma semana no acampamento. – Ele ofereceu. – Eu sei que o tempo no Brasil é bem diferente e a essa altura vocês estão tendo aulas, mas a névoa dará conta disso por enquanto.

Sem querer mais explicações esquisitas, ela esqueceu a tal névoa e assentiu.

–Está bem, eu tento. – Ela disse. – Uma semana.

–Perfeito. – Então se vira para o garoto loiro. — Se importa de apresentar o Acampamento a ela?

–Pode deixar Quíron. – Ele responde animado.

O centauro Quíron e o Deus do vinho Dionísio se retiram; o segundo reclamando com o primeiro sobre os modos de Anna para com uma divindade. Capitão América (cujo nome Anna ainda não sabia) sorriu e abriu caminho para ela passar, começando sua palestra sobre a suposta nova casa de Anna – por uma semana.