Trunfo

20 Achei que deveria saber


Quíron entrara em seu quarto de enfermaria com uma face tensa, e não precisou dizer nada para que Leo entendesse que deveria voltar a cumprir suas atividades. Despediu-se de Anna, tentando claramente não expressar preocupação, e andou para fora do quarto.

-O que foi? – Perguntou ela, assim que o garoto se afastou, olhando para Quíron com ressentimento.

-Achei que deveria saber de uma coisa.

Sem dizer mais nada, Quíron se virou e galopou para fora do quarto. Desconfiada, Anna terminou de engolir seu café da manhã e o seguiu. Passando na frente de vários quartos de enfermaria vazios e semelhantes ao seu, os dois se encaminharam por um longo caminho até o que se parecia o final da Casa Grande.

A parede limitava o espaço e deixava o ar gelado, quando Quíron abriu a porta do último quarto. Aquele não estava vazio.

Deitada na maca num sono profundo e aparentemente sereno estava a menina de cabelos cor de sangue. Seus braços estavam perfurados por alguns fios, que injetavam algo em sua corrente sanguínea.

-Ela ainda não acordou. – O centauro a informou, mas Anna não respondeu.

Observava a menina com certa aflição, tentando assimilar algum detalhe em seu rosto adormecido que indicasse crueldade ou ódio.

“Acha que ela vai te salvar quando tiver a chance?”

No entanto, apesar de procurar com convicção, Anna nada encontrou além de uma boca curvada em sorriso e olhos fechados em sono profundo. Sentiu que o olhar de Quíron repousava sobre si.

-Por que eu deveria saber disso? – Perguntou, sem deixar de encarar a garota.

-Ela está em coma. – Disse Quíron.

-Acha que fui eu quem a deixou assim?

-Acho que você a salvou sua vida... – Respondeu ele. – Mas ela não deveria ter sido salva.

-O que pretende fazer? – Virou-se finalmente para Quíron.

-Desligar o aparelho.

Anna reparou que a garota estava circundada por vários aparelhos hospitalares, e perguntou-se a razão de nenhum Deus a ajudar. Foi o que questionou a Quíron.

-Os Deuses não podem salvar a todos, Anna. Eles não interferem nos assuntos mortais mais do que devem. – Disse ele, examinando o estado da garota. – Queria sua permissão para desligar o aparelho...

-Por que isso? – Lágrimas começavam a brotar nos olhos de Anna, e ela foi obrigada a olhar para longe da garota em coma. – Você é o chefe daqui.

-Eu posso fazê-lo sem sua permissão, na verdade. Apenas pensei que você deveria decidir. – Quíron contou. – Essa garota foi resgatada no Brasil, mas machucada no caminho para cá.

Anna soltou um longo suspiro, desejando jogar toda a responsabilidade sobre Quíron, porém aceitou a proposta e ordenou que deixassem os aparelhos ligados.