Trouble
3 Capítulo 3 - Egoísta
Notas iniciais
Uma grande. Não. Grande não. Uma mega ironia se estende a minha frente, chamar de grande seria mero eufemismo.
É tão estranho apenas observar a vida passar e perceber que nada se foi feito dela. Horas. Minutos. Segundos foram perdidos com objetivos e pessoas que não valiam a pena e finalmente vejo o quão patética tenho sido.
Encontros e palavras não ditas, tudo isso acabou por me iludir e pensar que talvez você não me deixaria partir. Doce ilusão!
Hoje fazem exatos seis meses que lhe escrevi pela primeira vez e aqui estou eu novamente sem saber ao certo o que devo ou não fazer.
Não deveria, mas todas as noites adormeço pensando em tudo o que perdi, e você sempre aparece em meus sonhos, como lembranças de meus erros.
Mas, em meio a toda essa dor que me castiga constantemente — você — de uma estranha maneira me deu algo para continuar e esse algo não nega a herança genética da sua família como os finos cabelos castanho-escuro.
Kai, meu pequeno príncipe nasceu a apenas três meses e com isso consegui dar um novo rumo a minha vida. Sei que isso pode não lhe interessar, afinal, não tem dado notícias, mas saiba que estou com minha consciência limpa. Não pretendo esconder nada de ninguém.
Meu filho saberá quem é seu pai, mesmo que Renji insista em assumir nosso filho. Sim, decidi dar uma chance a ele. Me casarei em menos de um mês. Sinta-se convidado para a cerimônia.
Até logo.
P.S: Dizer adeus seria hipocrisia demais.
Kuchiki Rukia
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Estava sufocado!
Sim. Sufocado em meio a todas aquelas cartas e fotos, que Rukia havia me mandado.
Os primeiros passos. O primeiro dente. O primeiro aniversário de meu filho. Estava tudo ali registrado naquelas velhas folhas amareladas pelo tempo.
Cartas que eu nunca recebi, por minha própria culpa.
A culpa era toda minha — não havia como negar — e agora Rukia e Kai já não pareciam mais estar ao meu alcance.
Kuchiki Rukia agora era uma mulher casada e eu um fiasco de homem, que divide o apartamento com a prima desmiolada.
Sempre soube que nunca me apaixonaria por outra mulher que não fosse a pequena Kuchiki e isso sempre me frustava por pensar que o sentimento não era reciproco.
O quão idiota Kurosaki Ichigo poderia ser?
Nem mesmo eu sabia.
Podia ver os raios alaranjados do sol iluminar o ambiente, havia passada a noite toda lendo as incontáveis cartas de Rukia e agora já se passavam das oito da manhã.
— Kurosaki-kun? — a voz manhosa de Inoue corta o silêncio ambiente seguida de uma batida na porta. O que ela queria tão cedo? — Kurosaki-kun, tem alguém ao telefone querendo falar com você — completa ela ao não receber nenhuma resposta minha.
— Já estou indo — respondi apresado.
Estava curioso, afinal, normalmente as pessoas ligavam direto para meu celular quando o assunto era realmente serio.
— Obrigado por avisar, Inoue — agradecia pegando o aparelho das mãos dela, sem nem olha-la. Estava irritado demais para ser amigável com ela, uma das responsáveis pelo que sou hoje.
"Vejo que não perdeu tempo. Não é mesmo, Ichigo? Mande um olá a Inoue por mim" — Meu corpo tremeu ao ouvir aquela voz. Sim. Só podia ser ela.
"Rukia" — sussurrei sentindo meu coração acelerar. Sabia que estava sendo fraco, mas algo se acendeu dentro de mim ao ouvi-la novamente e nem mesmo suas provocações me tirariam isso.
"Yo" — respondeu ela. Era estranho sentir toda a frieza em seu tom de voz outrora tão caloroso. — "Nii-sama me contou de sua patética visita e eu me pergunto o porque disso tudo agora. Já se passaram três anos" — completou cinicamente, fazendo-me apertar o aparelho entre meus dedos.
"Não quero falar sobre isso assim, por telefone" — declarei ouvindo uma risada debochado soar do outro lado.
"Pra quê? Por que quer conversar agora, sendo que seu silencio foi tudo o que tive durante esses anos?" — atacou ela, ferindo-me novamente.
"Eu tenho direitos e você sabe disso. Não é a toa que me mandava aquelas cartas ou vai me dizer que tudo aquilo eram palavras falsas?" — rebati sem ouvir resposta alguma por longos — ou não tão longos — minutos.
"Certo. Me encontre ao meio-dia no lugar de sempre" — respondeu simplesmente desligando sem nem se despedir.
Meu coração retumbava em meu peito e eu já não via mais nada a minha frente.
"... no lugar de sempre"
Ela ainda se lembrava do nosso lugar e eu finalmente a encontraria.
O que eu diria? Pedir desculpas não parecia ser o bastante.
— Era a Kuchiki-san, não era? — pergunta Inoue, tirando-me de meus pensamentos.
— O que?! — indaguei ainda meio desnorteado.
— Era a Rukia ao telefone, não era? — repetiu ela com uma tristeza bem visível em seus olhos acinzentados.
— Sim — respondi dando-lhe as costas.
— Você ainda a ama — afirmou ela com a voz embargada. — Sempre soube que não havia como competir com ela, mas continue aqui esperando, te esperando. Mas...
— Inoue — a corte secamente.
— Não, Kurosaki-kun. Me deixe terminar — declarou segurando o choro, fazendo-me encara-la por cima do ombro. — Já aceitei minha derrota, só peço que tenha cuidado para não se machucar de novo, por favor — completou correndo em direção de seu quarto.
Minha vida não poderia ser melhor.
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"Kon"
Você acredita que "Kon" foi a primeira palavra dita por Kai?
Nunca pensei que aquele leão de pelúcia velho — que você me deu — iria ser o brinquedo preferido de nosso filho e isso me faz rir.
Isso é hilário!
Renji vivia tentando se livrar do bichinho — acho que talvez ele ainda tenha um tipo doído de ciúmes de você por eu ter guardado aquilo —, mas Kai sempre rejeitava todos os novos, até mesmo um Chappy ele não quis, o que me deixou frustrada.
Bom, Ichigo. Nosso filho tem quase um ano de idade e já esta falando. Acho que talvez ele seja um prodígio como o Nii-sama e escrevo essa carta apenas para te contar de maravilho fato, não sei se ainda continuarei escrevendo-as, mas por enquanto é só.
Espero que esteja bem.
Até logo.
Kuchiki Rukia
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O sol quente do meio-dia estava alto no céu enquanto eu estava ali — na lanchonete em frente a nossa ainda universidade — relendo uma das cartas de Rukia.
Senti-me calmo apesar de tudo.
Rukia sempre seria Rukia afinal de contas. Ela nunca me negaria o direito de me aproximar de Kai.
— Pontual como sempre, Ichigo — ouvi sua voz soar atras de mim.
— Rukia — seu nome escapou por entre meus lábios uma segunda vez naquele dia.
— Vamos direto ao assunto — declarou sentando-se a minha frente sem desgrudar os olhos dos meus. — Aceito que conheça Kai e que lhe conte a verdade, desde que a guarda ainda pertença a mim — completou objetiva.
— Sim. Claro — respondi apressado. — Nunca pensei em tira-lo de você.
— Ótimo!
Um indesejoso silencio se instalou entre nos, tanto que a conversa da mesa ao lado podia ser ouvida claramente.
Era incrível o quanto ela estava ainda mais bonita do que me lembrava.
Dizem que a maternidade muda as mulheres, as deixa com uma beleza radiante e era exatamente isso o que devia ter acontecido com Rukia.
Sua face pálida me fazia querer toca-la para sentir sua macies. Seus cabelos negros emolduravam seu rosto, dando-a um ar de mulher. Mulher forte e sensual que já não pertencia a mim, fato mostrado pelo anel dourado em seu dedo.
— Bom. Acho que já está tudo resolvido entre nós — declarou ela cortando meus pensamentos.
— Ah sim — respondi levantando-me junto dela. Queria gritar meus sentimentos, mas o remorso em dentro de mim não deixava.
— Pode passar a tarde com Kai hoje se quiser. Tenho que resolver algumas coisas com Renji e com isso vocês teriam um tempo só para se conhecerem direito.
— Ótima ideia — concordei. Concordar era tudo o que eu estava fazendo ali.
— Certo. Até mais tarde — disse sumindo rapidamente de meu campo de vista.
Eu a havia deixado partir uma segunda vez, mas isso parecia o certo a se fazer naquele momento. Precisava resolver a situação com Kai, só assim poderia me focar em Rukia e no que sentia por ela, mesmo que isso me machucasse depois.
Lutar por ela talvez fosse algo egoísta de minha parte, mas quem nunca teve desejos egoístas pelo qual lutar?
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