Trouble
2 Capítulo 2 - Meu lugar
Notas iniciais
Por quê? Por que só agora? Por que somente depois de três malditos anos? Aquela carta sempre esteve ali e eu — covarde que sou — nunca a abri.
Maldição!
Tudo estava tão confuso e o que mais queria era que o tempo pudesse voltar.
Porra! Eu tenho um filho, um filho que já deve ter mais ou menos três anos de idade, um filho que eu não vi aprender a andar e muito menos falar.
Rukia.
Aquele nome ecoava em minha mente enquanto aquela folha amarela tremia entre meus dedos sem parar.
— Kurosaki-kun, você esta pálido — a voz de Inoue soa fazendo uma grande onda nauseante tomar-me. — O que tem na carta? — questionou com sua falsa inocência.
— Nada. Preciso sair — declarei levantando-me apressado. Minha mente estava nublada e já não sabia nem para onde ir.
— Sair?! Mas eu estou fazendo sua comida preferida — choramingou ela com seu irritante tom meloso.
— Me desculpe, Inoue — falei saindo porta a fora, deixando-a a resmungar sozinha para trás. Ficar ali estava me sufocando.
Sentindo o ar da noite bater em minha face, corri. Corri como nunca havia corrido antes. Corri sem rumo como se minha vida dependesse disso.
Eu estava perdido!
Nada do que havia tomado como verdade, de fato o era.
Rukia ainda me amava? Na época que aquela carta fora escrita, sim, mas e agora? Ela ainda se sentiria da mesma forma? Essa pergunta fazia meu coração doer por não saber a resposta.
Meus joelhos fraquejavam e sem conseguir me segurar, fui ao chão.
O que estava acontecendo comigo? Por que eu não conseguia pensar em nada? Pensar em uma saída onde tudo acabasse bem?
Ainda me lembrava do dia onde tudo acabou, de seu olhar frio sobre mim e de sua mudança repentina. Tentei não pensar e me camuflar com todas as palavras venenosas ditas por minha prima, mas agora vejo que fui um verdadeiro covarde.
Se eu tivesse dito tudo, gritado e pedido a verdade nada disso teria acontecido, mas agora três anos foram perdidos.
E foi ali — sob o céu sem estrelas — que percebi que já não havia como recuperar esse tempo.
Fraco, eu estava sendo fraco. Ficar me lamentando não iria ajudar em nada. Era preciso agir, mesmo que minha mente estivesse embaralhada com tudo aquilo.
Ainda me sentindo meio desnorteado, levantei. Precisava achar um modo de encontrar Rukia e somente uma pessoa ainda poderia me ligar a ela.
Sem pensar, voltei a correr sob o escuro céu da noite em direção a casa da unica amiga da Kuchiki que me lembrava, rezando para que ela ainda morasse no mesmo endereço.
As ruas estavam iluminadas apenas pelas incontáveis luzes dos postes e não foi difícil encontrar o caminho que me levasse para a pequena casa de portões brancos, onde Hinamore Momo morava na época da faculdade.
O lugar parecia não ter mudado praticamente nada — exceto pela nova mão de tinta que as paredes pareciam ter recebido — fora isso tudo ainda estava igual.
Respirei fundo algumas vezes e finalmente toquei a campainha, não sabia o que esperar, mas não tinha escolha.
— Pois não? — a inconfundível voz suave de Momo soa como musica em meus ouvidos.
— Hinamore-san — falei ao ver seus olhos sobre mim fazendo uma mistura de adrenalina e medo correr em minha circulação.
— O que faz aqui, Kurosaki? — pergunta ela em um tom que eu nunca imaginei que a doce Hinamore Momo pudesse usar. — Suponho que peso na consciência seja um dos motivos, certo? — completou.
— Eu.. Eu li a carta e sei que já perdi muito tempo, mas preciso do numero, endereço ou qualquer coisa que me ajude a entrar em contato com a Rukia. Por favor — peço vendo sua expressão ficar cada vez mais dura. Pudia sentir toda raiva contida em seu olhar e sabia ser merecedor dela.
— Ah sim, a carta! E o que te faz pensar que lhe ajudarei? Rukia-chan esta bem feliz com a vida que tem agora. Ela não precisa de você — esbravejou ela deixando a raiva tomar conta de si.
— Eu sei que errei, mas também sei que mereço uma segunda chance. Rukia não vai me negar a chance de conhecer meu filho — rebati na defensiva, afinal, eu estava nas mãos dela.
— Seu filho?! Já se passaram três anos! Não me venha com essa agora...
— Hinamore! — Uma voz grave a interrompe. — Creio que essa decisão não seja sua.
— Shiro-chan?! — indagou Hinamore virando-se para um rapaz de exóticos cabelos brancos.
— Então você deve ser Kurosaki Ichigo, certo? — disparou ele ignorando a jovem mulher a seu lado.
— Sim — respondi rapidamente com a esperança de que ele pudesse me ajudar.
— Sinto muito, mas acho que veio no lugar errado — declarou seriamente. — Mas sei alguem que possa lhe ajudar — completou entregando-me um pequeno papel que tinha em mãos.
— Obrigado — falei apertando a mão do rapaz com firmeza.
— Não me agradeça — disparou ao soltar minha mão. — Não estou fazendo isso por você — rebateu puxando a morena pela mão. — Boa sorte, você vai precisar — completou o rapaz me deixando confuso.
Com um aceno de cabeça ele fecha a porta deixando-me sozinho e foi só então que consegui ler o endereço de Kuchiki Byakuya escrito entre aquelas linhas pretas.
Agora sim eu entendia o porque de precisar de sorte. O Kuchiki nunca fora um homem fácil, ainda mais quando o assunto envolvia sua irmã casula.
Novamente caminhando sob a luz da lua, coloquei-me em direção a casa de Byakuya — que não ficava muito longe dali. Refletia sobre tudo o que estava por vir. Sabia que poderia estar sendo precipitado, mas já havia perdido três anos e não queria continuar com isso. Cada minuto se tornara precioso a partir de agora.
Era engraçado o quanto uma simples carta — que não fora nem escrita a mão — poderia mudar completamente a vida de uma pessoa. Palavras não ditas em voz alta, sentimentos oprimidos, tudo aquilo acabou por me levar aonde estava agora. Rukia poderia não me amar mais e isso fazia aquele grande vazio de anos atrás voltar e me consumir quase que por completo.
Já passavam das oito da noite e minhas pernas doíam, mas estava decidido a não parar. Precisava saber pelo menos o telefone de Rukia para só então tentar por as coisas no lugar. Sempre sobe o quão cabeça dura ela era, mas desistir já não era uma opção aceitável quando se tinha um filho no meio disso tudo.
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Sentia os músculos de minhas pernas doerem, mas aquilo já não tinha mais importância, pois já me encontrava perante ao grande portão preto da grande casa de Kuchiki Byakuya.
Reunindo toda a coragem dentro de mim, toquei o interfone e logo fui atendido por um empregado da casa, que ao ouvir meu nome logo foi chamar pelo Kuchiki e sem demora já me encontrava na varanda da casa.
— Kurosaki Ichigo — a voz fria do Kuchiki cortou o silencio ambiente me causando um grande desconforto. O que ele diria a seguir?
— Byakuya — saudei tentando disfarçar toda a ansiedade em minha voz.
— Sabia que viria em algum momento — falou ele ignorando minha saudação. — Só não esperava que fosse depois de tanto tempo — completou serio.
— Eu fui um covarde — declarei sentindo a culpa me tomar mais uma vez.
— Isso não importa mais — rebateu ele. — O tempo não vai voltar — sentenciou o moreno.
— Eu sei, mas preciso falar com Rukia. Me acertar com ela. Quero assumir todas as minhas responsabilidades como pai — disparei desesperado.
— Kurosaki...
— Titio! Titio! — um voz alegre interrompe a fala de Byakuya. — A mamãe e o papai vão chegar amanhã! — exclama um pequeno menino abraçando as pernas do Kuchiki.
— Kai! — repreende o mesmo pegando o garotinho no colo e foi só então que pude ver.
Aquele menino era meu filho. Seus traços não me deixam em duvida, os curtos fios castanhos — mais puxados para o preto — lembravam o tom dos cabelos de minha mãe.
Uma ternura sem igual apoderou-se de meu coração e tudo o que eu queria era envolve-lo em meus braços, mas me contive para não assustar a criança.
— Desculpa, tio — falou o pequenino voltando seus olhos azuis — que lembravam os de Rukia — para mim. — Boa noite, senhor — saudou ele educadamente fazendo pensar em como foi a educação que a Kuchiki o dera.
— Boa noite — respondi.
— Seu cabelo tem uma cor engraçada — riu-se ele pulando do colo do tio. — Mamãe iria achar legal — completou olhando para Byakuya que mantinha-se indiferente a aquela situação.
— Você acha? — indaguei incentivando-o a continuar com suas palavras inocentes.
— Sim. Ela gosta de cabelos coloridos. Pelo menos eu acho, já que o cabelo de meu papai é colorido igual ao seu, só que o dele é vermelho — respondeu ele fazendo meu coração doer.
— Papai? — perguntei tristemente.
— Acho que já esta na hora de ir se deitar Kai — intrometeu-se Byakuya.
— Mas já, titio?! — disse o menino fazendo bico.
— Sim. Sua mãe chega amanhã e não quero que ela pense que te deixei mal acostumado — respondeu sem dar espaço para ser contraria pelo garoto.
— Okay. Boa noite, titio, senhor — despediu-se ele entrando pela porta da qual saiu.
Um silencio tenso se instalou na pequena varanda e eu já não sabia o que pensar.Havia acabado de conhecer meu filho e de saber que a mulher de minha vida estava casada com outro.
— Pelo visto já deve ter entendido a situação, Kurosaki Ichigo — disparou o moreno me assustando.
— Com quem? — murmurei ferido.
— Abarai Renji — respondeu simplesmente fazendo-me lembrar da palavras de Rukia na carta. Pelo visto ela realmente tinha da uma chance ao maldito ruivo tatuado.
— Estou indo — falei. Precisava ficar sozinho para pensar em como as coisas seriam daqui para frente. — Diga a Rukia que voltarei amanhã. Por favor — pedi dando as costas para ele.
— Kurosaki, não pensei que estou de seu lado. Tudo que tenho para te dizer é para que pensei em que lugar você realmente gostaria de estar — disparou ele. — Rukia é uma mulher casada e Kai já tem um pai. Não sei se ainda há espaço para você na vida de ambos — completou.
— Eu sei o que quero, Byakuya — rebati voltando pelo mesmo caminho o qual tinha entrado.
Sentia-me desnorteado, mas não me daria por vencido. Definitivamente eu encontraria um jeito de ficar ao lado de Rukia e Kai, ninguém me impediria.
— Espere, Kurosaki-san! — exclama uma voz feminina logo atrás de mim.
— Hisana-san?! — indago assustado. O que ela queria de mim?
— Eu sei de toda a sua historia com Rukia-chan e ela sempre me mandava essas cartas para te entregar no dia que você viesse atrás dela e Kai-kun — disparou ela me estendendo um volumoso pacote cheio de envelopes amarelados. Ver tudo aquilo fez me coração se apertar. Ela nunca se esquecera de mim, mesmo depois de anos Rukia pensava em me manter informado sobre tudo e eu não era merecedor de tal consideração. — Espero que tudo se acerte entre vocês e não desista, Kurosaki-san. Amo Rukia-chan e Abarai-kun como se fossem meus filhos e quero que sejam felizes, mas não podemos deixar a verdade de lado. Kai-kun merece saber a identidade de seu verdadeiro pai — completou ao me ver pegar o pacote.
— Obrigado, Hisana-san — agradeci desejando que realmente tudo acabasse bem no final.
— Boa noite — despediu-se ela.
— Boa noite — respondi passando de vez pelos grandes portões negros.
Meu peito estava pesado assim como o pacote em meus braços e a tudo o que mais precisava no momento era saber meu verdadeiro lugar, pois mesmo que negasse, eu estava perdido e sedento de um amor que já não sabia se ainda pertencia a mim. As coisas já não eram mais as mesma.
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