Troca De Olhares

1 Troca de Olhares


Era um seminário como tantos outros. A platéia, formada em grande parte por acadêmicos desesperados, sejam eles calouros ansiosos para fazerem uma boa imagem para os professores (os nerds baba-ovo) ou veteranos relaxados, ansiosos por completar sua carga horária exigida pela universidade (nossos futuros profissionais, graças a Deus!). Havia uma palestrante muito habilidosa capaz de lidar perfeitamente com uma platéia tão... distinta, com um bom humor contagiante que interessava a todos.

Todos menos um.

Roderich é um aluno entre tantos outros, mas havia diferenças contratantes entre ele e os outros jovens. Sua educação impecável, seu olhar superior, (principalmente seu olhar superior!), que costumava amedrontar seus colegas, os estagiários e assistentes os professores, alguns professores até, por isso raramente encarava alguém, quando o fazia normalmente a pessoa travava, gaguejava, desviava o olhar e dava qualquer desculpa para desaparecer de sua vista, ele encarava apenas as pessoas que lhe incomodavam.

Mas aquele homem não lhe incomodava.

Aconteceu por um simples acaso, estava assistindo a palestra como assistira tantas outras, escrevendo tópicos importantes do assunto ministrado, obsevando os slides, quando enfim abrira-se o momento de perguntar. Todos que não possuíam perguntas a fazer ao seu redor (uns 5 ou 6) davam-lhe os papeis para escrever as dele e ele usou todos, queria fazer mais perguntas, no entanto sua educação não lhe permitiu, esperou ansiosamente as respostas enquanto passeava os olhos pelo pequeno palco do auditório, observou o chão, as bandeiras, o quadro que exibia os slides, observou as mesas de madeira nobre, os microfines: um apontado para o palestrante e outro mirado para os lábios de um completo desconhecido da plateia, este possua a tez era clara, os olhos estranhamente vermelhos, os cabelos brancos. Não era necessário ser um PHD em medicina para saber que ele sofria de albinismo.

A plaquinha dizia que seu nome era Gilbert, mas Roderich não podia lê-la, ele apenas olhava o jovem da mesa, olhava seus lábios moverem-se e ouvia a voz alta e clara dele, era uma voz muito bonita... concentrando no rosto do albino não percebeu o fim das perguntas, nem tão pouco o início da outra palestra bem menos interessante que a primeira, o moreno só notou o novo palestrante quando o albino ergueu o rosto e ambos trocaram olhares... inicialmente o moreno desviou o olhar tomado por uma súbita timidez e vergonha, no entanto no segundo seguinte voltou a encara-lo todo seu orgulho, inflamando no peito ele não desviava o olhar, os outros é que o faziam!?

Mas Gilbert lhe sorria, “belo sorriso”, Roderich pensou enquanto instintivamente desviava o olhar, “o que há comigo hoje!?” ,perguntou-se revoltado, voltando seu olhar para o albino. Por toda a palestra essa brincadeirinha manteve-se, o moreno recusava-se a perder, já não se lembrava do assunto, não tomara nota alguma, nem escrevera duvidas, apenas trocava olhares com o outro, já no momento de responder os questionamentos o jovem albino foi forçado a romper temporariamente o contato visual, mas Roderich podia ouvir sua voz e isso lhe apaziguava.

_tudo bem Roderich-san? Você não escreveu nenhuma pergunta e também não tomou nota, isso não é do seu feitio – Kiku Honda, seu colega e amigo, que sentava apenas olhou o confuso, ”então a palestra já havia terminado?”, fazendo um calculo rápido só havia tempo para mais uma palestra, apenas mais 40 minutos para olhar naqueles olhos de um vermelho vivo, que o tragavam, pensou tristemente suspirando. E então parou: isso por acaso era comum? A troca de olhares, sim, afinal era a curiosidade que o envolvia, o interesse também, visto que o albino não evitava encará-lo e ainda sorria, mas aquela tristeza? O súbito desejo de ficar ao lado dele... isso definitivamente não é comum. Seu olhar baixou no mesmo momento em que o albino mirou seu rosto, Roderich entendera: estava interessado no albino (estava interessado naquele sentido) e em sua inocência não percebera, ficou amuado justamente porque só veria naquela noite, é claro que se seu interesse fosse grande poderia ir atrás dele, mas ele era um homem e o outro também, já estudara sobre homossexualismo, antes para um debate a favor da adoção de crianças por casais homoafetivos. Ele vencera, era pessoalmente a favor sobre a adoção e não possuía preconceitos com relação essas pessoas, mas apoiar era um a coisa, passar por isso era algo completamente diferente.

“Que devo fazer ao se interessar por um homem?”

Pensou amuado com a ideia de não saber o que fazer, seu orgulho estava ferido, sua harmonia, normalmente estável, abalado ele percebeu que havia escrito tal questionamento no caderno e mais surpreso ainda ficou ao notar que uma mão tomara sua lapiseira e escrevera uma resposta.” Que pergunta tola! Basta mostrar seu interesse para o homem e ver a resposta que o mesmo dá mon petit!” era a resposta de Roderich, após ler virou-se mirando os límpidos olhos azuis de Francis o primeiro homem com quem fez amizade ao entrar na academia e também a cortejá-lo. Tão descaradamente, no inicio pensou ser apenas uma brincadeirinha, depois que ele passou a mão em suas nadegas teve certeza de que era um grave distúrbio psicológico mas foi quando o outro aproveitou-se de seu estado de embriagado para arrancar-lhe a roupa e joga-lo na cama que o austríaco o levou a sério, o empurrou com tal força que o jogou da cama e bateu-lhe tantos e tantas vezes que impressionou-se com sua força e com a resistência dos Francis, depois disso passaram a semanas sem se encontrarem, no inicio quando um vinha o outro ia, sempre arranjavam modos para não se encontrarem nem por acidente, mas com o passar o tempo Francis voltou a procurá-lo primeiro para pedi-lhe desculpa mas o moreno não perdoava, ele insistiu e com sua insistência conseguiu o perdão, mas a amizade parecia ter sido perdida para sempre.

O austríaco já era amigo de Kiku quando o jovem canadense puxou o até um canto da biblioteca para conversar

“ eu vim aqui porque o senhor Francis não consegui lhe falar...”

“ não quero nada que venha daquele homem” Roderich cortou- o

“ as senhor, por favor, é apenas uma carta! Ele está muito arrependido pelo que lhe fez e quer ser apenas seu amigo, ele me garantiu isso senhor Roderich!” O jovenzinho lhe dizia contando afinco que o moreno se sentiu tentado a aceitar o pequeno envelope que lhe oferecia, conteve-se:

“você sabe o que ele tentou fazer comigo?” perguntou de olhos fechado, o jovem canadense acenou positivamente. “ e você ainda fica o lado dele”?” explodiu “o que te garante que ele não tentará fazer o mesmo com você? Afinal, o tipo inocente faz o tipo dele...” destilou seu veneno, vendo o garoto encolher-se com logo voltar ao seu normal.

“Ele me garante e eu confio Nele! O senhor Francis é um bom homem, acidente acontecem e as pessoas comentem erros o Francis não é exceção! Não devera evita-lo quando ele já está arrependido! Por favor pegue a carta e eu não o incomodarei mais” Mathews havia dito aquelas palavras de forma tão bela e seus olhos brilhavam determinação e uma fogo intenso, incessante e quente. Está apaixonado constatou o moreno logo após receber a carta, ao Ler soube que o próprio Francis também o estava, era um sentimento recíproco.

Sorriu nostálgico ao lembrar-se daquela cena durante a ultima palestra, encarava Francis ainda sorrindo enquanto o mesmo segurava sua mão “se tem algum desejo nesse mundo Roderich siga-o. O que os outros vão dizer não vai afetá-lo. Eu mão deixarei que lhe afetem meu amigo”. Ambos sorriram e discretamente olharam para o canadense que palestrava. Mathews era jovem mas praticamente um prodígio e por isso palestrava naquela noite. Roderich voltou-se algumas vezes para seu recém descoberto interesse mas ele não mais lhe encarava e isso o deixou apreensivo e se ele lhe rejeitasse? E se o desprezasse por seu interesse? E se fugisse o mesmo que fizera com o Francis ? será que ele seria capaz de aguentar?

Não.

Ele percebera isso com amargor, Roderich possuía uma alma sensível como se fosse porcelana, qualquer coisa o faz rachar e só de olha-lo(e ser olhado por ele) já conseguia varias rachaduras imagina se fosse conviver com ele, se tivessem um romance? Roderich não aguentaria.

Voltou a mirar seu interesse, seu albino ( ao menos no momento em que se olhavam) mas ele parecia ignora-lo propositalmente. Sua alma pareceu-se quebrar com a ideia, o sorriso sumiu de seus lados , seus olhares voltaram a baixar, a mão de Francis aumentou a pressão na sua tentando passar alguma confiança. O moreno sorriu amargo focando o palestrante.

A palestra enfim terminara todos já estavam em pé se retirando em fila única para a porta ao lado oposto ao pequeno palco Francis levantou-se em um pulo esquecendo-se momentaneamente do amigo passou por todos como atropelando os insensível mente pulou no palco e agarrou o pequeno canadense que mal teve tempo de dizer um “ F-Francis!? O que está fazendo?” quando foi calado por um beijo Frances “ eu te amo, mon petiti mateu...” o louro murmurou no ouvido do canadense fazendo o corar. Beijaram-se novamente, que se dane os professores super conservadores que os olhavam horrorizados, que se dane os acadêmicos que lutavam pela liberdade, dane-se também o albino que os separou e pegou Francis pelo colarinho prensando o .

Gilbert era um homem incrível ( ao menos de seu ponto de vista) e por isso necessitava de uma pessoa tão incrível quanto ele para lhe fazer companhia, tendo consciência de que tal pessoa não existia decidiu contentar-se com o curioso moreno que o observava, inicialmente pensou que toda a insistência do moreno fosse por que ele era o mais incrível ser que o jovem acadêmico já vira depois de notar suas roupas e postura percebei que se tratava de um nobre, um nobre muito bonito de olhos violetas lábios pequenos e volumosos que ele adoraria beijar, um rosto fino, sorriu pensando em como acabaria a noite. Após a leitura no fim da segunda palestra o albino mirou ansiosamente o moreno mas este não mais o encarava, viu o de cabeça baixa rabiscando algo no caderno e pela primeira vez notou o jovem que sentava ao seu lado, era louro de olhos azuis, instintivamente franziu o cenho conhecia muito bem a fama de Francis “ aquele francesinho de merda” xingou mentalmente. Logo uma ideia fixou em sua cabeça o moreno não tinha aquele interesse em si era namorado do moreno e estava brincando consigo deduziu irritado. Ignorou( não antes de vê-los trocar um sorriso cúmplice e darem as mãos) por toda aquela maldita palestra, daquele maldito canadense, sabendo que aquele maldito Frances esta com aquele moreno , seu moreno ( pois ele tornara-se seu enquanto trocavam olhares). Mas com o fim do seminário ele acabou por surpreender-se com as ações do Frances, instintivamente mirou o rosto do moreno atrás de alguma reação como raiva,revolta... no entanto o que vira foi algo que feriu seu incrível coração: a face de Roderich transparecia uma grande magoa, seu sorriso era triste e seus olhos estavam tão brilhantes que o albino achava impressionante que não escorressem lágrimas de suas orbes. Ele estava ferido ia embora cabisbaixo enfrentando corajosamente o congestionamento da porta “como esse maldito pode pensar em ficar com outros tendo-o consigo !?” pensou o albino revoltado. Agindo por instinto agarrou o Frances pela gola, ia lhe dizer umas poças e boas mas o mesmo não lhe permitiu “Roderich não é um homem de uma noite apenas, acredite eu tentei e não deu certo, se você o quer é melhor está preparado, ele é sensível demais, muito arrogante e cheio e manias quando esta triste se senta naquele piano e só sai horas mais tarde. Ele nunca irá dizer o que sente, que lhe incomoda, ele nunca fala claramente sobre seu sentimentos, mas sua face é tão transparente que dava para perceber, se você não enxergar só seu próprio umbigo seus olhos são límpidos e arem como fogo sempre fortes, sempre intenso, isso assusta até você se acostumar... mas você já se acostumou então por não vai a te ele e dá o primeiro passo? Ele não fará acredite eu o conheço.” O Frances disse em um só fôlego e sorriu no fim sentindo o aperto relaxar, o albino olho o confuso mirou as costas do moreno bem próximo a porta e voltou a olhar o frances que apenas acenou positivamente.

Roderich mal atravessara a porta quando desviou-se do caminho mais comum, o da saída, se apoiou em uma das paredes externas do auditório. Sentia-se mal, não fisicamente, sua saúde era praticamente perfeita, mas sentia-se fraco por não ter ido em frente, por ter medo de encarar aquele albino. Odiou-se por ISS! Revoltou-se contra sua personalidade tão distorcida decido a ir atrás daquele jovem, mas ao dar o primeiro passo:” ei! Espere” uma voz familiar o chamou a mesma voz que fazia as perguntas “ você ainda está aqui, que bom! Meu nome é Gilbert! É um prazer conhece-lo Rod, o que acha de uma pizza? Eu pago!” o albino perguntou sorrindo.

Com um belo sorriso com aquele como recusar?

Notas finais
Poisé gente... agradeçam a Haruka Ren, que me obrigou a postar essa...
Aos que leram e comentaram, obrigada.
Comentem, ou o Rússia será um com vocês!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!