Trib0s - Interativa
5 4. "Odeio Segundas-Feiras"
Notas iniciais
Um ano atrás...
Dahila correu até o banheiro mais próximo, vomitando todos aqueles litros de vodka na privada, caindo sentada ao lado desta assim que terminou de o fazer. Enxugou as lágrimas na metade de seu rosto, que faziam com que sua maquiagem negra escorresse pelas bochechas.
Tudo rodava, tudo parecia tão cinza. Até mesmo o rock que tocava ao máximo na festa parecia tão melancólico e distante... Como ela o odiava. Odiava cada milímetro daquele ser.
Primeiro teve o pai que parecia nunca estar satisfeito com a própria filha, sempre a tratando como um nada. Na última vez que discutiram, ele a bateu e muito. E então teve aquele cretino do Gabes. Maldito filha da puta...
Dahila achava que pelo menos com ele seria diferente! Mas o desgraçado do seu namorado a traía todas as segundas feiras.
Cansou de tentar estancar as lágrimas que escapuliam contra sua vontade e as deixou pingar em seus jeans rasgados. Deu uma fungada e tirou do bolso de sua jaqueta de couro uma lâmina, daquelas de barbear. Tinha roubado de seu irmão mais cedo.
Levantou a manga da jaqueta e observou seu pulso esquerdo ainda liso, sem nenhuma cicatriz. Era sua primeira vez. Tudo estava uma merda! Ninguém poderia arrumar aquela droga de vida. Nem sequer encontrava motivo para viver naquele mundo se tudo o que conseguia eram decepções e dores. Talvez, só talvez, se algo a lembrasse da dor física, a ajudaria a se esquecer do peso no coração.
Assim que encostou o objeto frio sobre sua pele, ouviu a porta do banheiro ser aberta. Alguns passos caminharam até a cabine onde ela estava.
— Vai mesmo fazer isso?
Dante estava ali, parado na porta de trinco quebrado, observando-a de cima.
— Vai me impedir? — Indagou Dahila, em tom de desafio. Ela não chorava escandalosamente, nem sequer mudava de expressão. A única coisa de diferente ali eram as lágrimas e os rastros negros descendo como véus sob seus olhos verdes.
O rapaz se sentou ao lado dela ali, passando o braço por suas costas. Dahila acomodou sua cabeça em seu ombro, entregando a lâmina nas mãos de Dante quando o mesmo a pediu. Ele a analisou.
— Sabe que não estou aqui para te impedir das coisas. Só quero que esteja consciente das cagadas que vai fazer. — Respondeu ele — Roubou de mim?
— Tanto faz — Ela escondeu o rosto no peito dele. Aquela camiseta cheirava irritantemente a amaciante.
Dante jogou o pequeno objeto na privada.
— Eu sei como é — Suspirou ele — Também odeio segundas-feiras.
Levantou o rosto de Dahila e deixou com que um sorriso aquecedor tomasse sua face. Ele observou cada detalhe da aparência dela naquele instante. Os cabelos negros com mechas brancas, os olhos como duas esmeraldas atrás de uma cascata brilhante e os lábios inchados.
— Você é tão linda, sabia? Mesmo bêbada e chorosa desse jeito.
— E você é um idiota, mesmo tendo essa vibe de conquistador alfa.
— Olha, esquece o babaca do Gabes, okay? Dou um jeito no cretino depois, te garanto. Ninguém pode machucar minha maninha desse jeito.
— Cabeças irão rolar?
— Cabeças irão rolar.
Ficaram em silêncio por um tempo, se encarando.
Os olhos – daquela vez violeta e amarelo – de Dante desceram até os lábios de Dahila. Ela era tão tentadora e tão errada... E isso o atraía tanto. Sempre foram íntimos, unidos como dois irmãos deveriam ser. Contudo Dante sabia que a amava mais do que apenas uma irmã.
Não dava mais para aguentar. Num movimento rápido, ele colou seus lábios nos dela, selando um beijo profundo que foi retribuído.
Ao se separarem, Dahila deu um sorriso de canto, jogando a cabeça para trás até que batesse na divisa da cabine.
— Só fiz isso porque estou bêbada. Não espere que a gente volte a se beijar novamente.
— Olha, tenho umas sugestões para isso — Replicou ele — Ou te embebedo de novo, ou aproveito muito bem esta noite.
— Haha, sonha.
Dante voltou a beijá-la, desta vez por mais tempo. Porém se conteve; realmente, ela estava bêbada. Não queria aproveitar da situação, queria ouvir da boca da Dahila sóbria seus verdadeiros sentimentos.
Puxou um maço de Malboro do bolso da calça e depositou um cigarro na boca da irmã, o acendendo em seguida.
— Tudo vai melhorar, minha baixinha — Encorajou ele — E mesmo que não melhore, estarei aqui por você.
Dias atuais...
Dahila passara reto pelos pais na sala de estar após as aulas e subiu as escadas para seu quarto, batendo a porta. Veronyca, sua mãe, não pôde fazer nada a não ser suspirar perante o aborrecimento da filha. Afinal, o que mais poderia fazer se a garota mal sequer se esforçava para se dar bem com eles?
Dahila era o reflexo da mãe. Ambas tão parecidas com seus cabelos negros e faces bem-moldadas. A diferença só estava em todo o restante.
John nem tirou os olhos do livro que lia, também não tinha interesse nenhum em interagir com Dahila. Ele, homem que chegava aos cinquenta, sempre estava carrancudo e cheirava a café recém passado. Os cabelos grisalhos pareciam em guerra para ver quem dominaria: os fios brancos ou os fios castanhos. Contudo, no fundo, todos sabiam que nenhum dos dois permaneceria por muito tempo na cabeça do homem.
Logo atrás, pela porta, chegara Dante, com o costumeiro sorriso calmo. Este cumprimentou a mãe.
— Como foram? — Indagou Veronyca.
— Dahila parece gostar mais do outro. Tenho medo dos professores de lá.
— Faça aquela menina se contentar com o que tem. — Disse secamente John — Ou a mando para um interno. Aí sim poderá fazer bico.
— Sim, senhor — Sorriu obediente o garoto.
Ao virar as costas para se dirigir ao quarto, a expressão se desfez por completo para dar lugar a puro desgosto. Dante não culpava Dahila por não gostar do pai. Alexander realmente era mil vezes melhor do que aquele homem.
Ela estava em sua cama com Kyu quando Dante abriu a porta. Acariciava os pelos do gato com os olhos distantes.
— Você está bem? — Ele quis saber.
— Preferia que não me fizesse essa pergunta.
Com isso, ela se levantou, assaltou cem dólares do criado-mudo do irmão e saiu sem dizer mais nada. Dante só pôde ouvir a porta da frente abrir e fechar com força.
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