Existem coisas na vida que são para serem vividas e não compreendidas. O tempo que passei servindo ao exército me fez perceber que a vida é curta demais para ficar encrencando com algo que ainda não aconteceu e que ao menos sabemos se acontecerá. Passar parte dos seus dias trancafiados em um quartel, com comida regrada, acordando cedo demais e dormindo pouquíssimas horas no dia mesmo seu corpo pedindo para deixá-lo vegetar naquela cama dura demais por pelo menos 7 dias, me fez realmente perceber que eu vivia de uma maneira totalmente errada.

Para muitos, o que penso são sandices, coisas de jovem inexperiente que acredita que morrerá amanhã, mas para mim, ex-soldado do exército coreano, ator bem-sucedido na maior parte do tempo e um rapaz normal nas horas vagas, isso quer dizer muita coisa, coisas demais.

Por isso, a única explicação que encontro para segurar essa carteira de identificação depois de uma trombada daquela e não a entregar imediatamente ao seu dono, é que estou ficando louco ou perdi um pouco do juízo que sempre foi o meu ponto alto. Minha mãe sempre disse que eu era o filho mais confiável, o mais responsável, o que dava menos dor de cabeça. Percebe-se que minha mãe não conhecia seu filho tão bem assim, além de todo menino ter seus altos e baixos em suas travessuras, agora parece que ele está disposto a arriscar algumas coisas novamente. Sorrio, ao perceber que é exatamente isso que farei.

— Tae yang? Vamos?

Volto a realidade e aceno para Hada, meu assistente em tempo integral. Nós nos direcionamos para a saída do aeroporto, onde provavelmente nosso carro está nos esperando e onde a dona dessa carteira em minhas mãos está parada procurando o que perdeu. Sorrio internamente ao perceber seu nervosismo e me sinto ainda mais travesso por saber que posso acabar com isso, mas não quero. Loucura? Já cogitei essa ideia, mas prefiro acreditar que seja apenas o espetáculo de seus longos cabelos preto balançando furiosamente com a ventania que estava na entrada do aeroporto.

— Já volto.

Afasto-me de Hada e sei que ele deve estar tão confuso quanto eu nesse momento, mas a única coisa que quero ver é quem era a dona daquela cabeleira furiosa e de um corpo escultural, diga-se de passagem. E como se ela ouvisse meus pensamentos, virou em minha direção e olhando diretamente para mim, ou melhor, para a minha mão. E foi no momento que encarei seus olhos que eu soube, que iria cair em perdição.