Trevo de Quatro Folhas
4 Capítulo 3
Tae Yang
— Eu não acredito que você me fez esperar todo esse tempo dentro desse carro depois de um dia exaustivo de gravação por causa daquela menina do aeroporto. Qual foi a sua, Tae?
— Não exagere, Hada. — Sentei no carona e me recostei no banco.
— Exagerar? Eu? Só pode estar de brincadeira comigo. Você parece louco e o exagero é meu.
— Não enche, Hada. Vamos para casa, hoje o dia foi cheio.
— Há minutos você não queria saber disso. — Resmungou e vi seu olhar me fuzilar.
— É, mas agora eu quero. Tudo bem para você? Se estivesse tão cansado, não estaria aqui discutindo comigo.
— Foge mesmo, seu covarde. — Falou baixinho.
— O quê?
Hada deu partida no carro e me ignorou, eu podia sentir sua aura maligna a distância. Eu também não sei o que deu em mim e até agora não sei como explicar tudo que fiz nesse meio tempo. Apenas sei que quando a vi caminhando sozinha enquanto eu seguia o rumo de casa, eu quis ir até ela. Eu queria saber mais sobre a mocinha do aeroporto. Por esse motivo obriguei Hada a segui-la e parar na loja de conveniências que ela entrou. Sinto que foi a coisa certa a se fazer, independente se para muitos, como o Hada, isso seja apenas loucura.
Agora estou aqui procurando meios de explicar ao meu assistente muito revoltado com a vida que convidei a tal menina para ir à gravação amanhã. Como não estou em clima para mais uma discussão em que eu não vou ter resposta para nenhuma das perguntas que me forem feitas, é melhor ele saber amanhã. Por enquanto eu só gostaria de apreciar o gostinho de satisfação que estava naquele momento. Quem diria que uma estrangeira do outro lado do mundo poderia chamar tanto a minha atenção? Tem coisas na vida que não podemos explicar e essa é uma dessas coisas.
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Acordo antes do relógio despertar e desarmo o alarme. Não tive uma noite muito boa e não me sinto bem. Talvez seja por ansiedade ou apenas por cansaço demais. Fico imaginando como a tal “Rúlia” vai se portar diante de tudo que verá amanhã. Será que vai achar interessante? Tedioso? Cansativo, com certeza. Mas ela pode deixar o lugar a hora que quiser também. Olho mais uma vez para o relógio e vejo que já são seis da manhã e me levanto da cama para tentar arrumar as coisas. Olho meu celular e vejo que Sunny respondeu minha mensagem com um “não se preocupe, estou bem” e isso por si só já mostrou que não é bem assim. Sunny é muito mais expressiva do que isso. Se não tivesse tantos compromissos hoje, tentaria dar um jeito de ir até ela. Além de tudo, ando cansado, estressado e desanimado. Mi Cha é uma das coisas que me faz querer não aparecer naquele set. É uma tremenda merda ter que atuar com a sua ex e fingir que ela não ferrou com seu psicológico. Ainda me lembro de como há dois anos meu coração bateu freneticamente ao ler a notícia de que Mi Cha tomara um pé na bunda de um magnata francês. E esse mesmo coração sentiu esperanças de que ela poderia voltar aos meus braços. Tolo, um grande tolo. Ela nunca o quis, nunca se importou e esperar por dois anos a sua volta, foi o suficiente para me deixar com qualquer outro sentimento que não seja no mínimo mágoa.
Hoje, eu vou esquecer que ela estará por perto, pois tenho algo mais interessante para focar. A tal mulher que chamou minha atenção desde que pisou no país e vamos concordar que eu me senti atraído. Por seu modo deslocado e seu jeito sexy de andar. Seus olhos expressivos que tentam de todas as formas me enganar. Se a tal “Rúlia” soubesse o que pode causar, ela não olharia daquela forma despreocupada para ninguém. Ainda não encontrei nada naquele ser que eu pudesse dizer que fosse ruim. Boa parte disso é por só termos nos vistos duas rápidas vezes, mas isso não será nenhum problema se nesse tempo em que ela estiver aqui, eu possa descobrir um pouco mais sobre ela. Com esse pensamento, entrei determinado embaixo do chuveiro. Teria que me aprontar rápido, afinal, além de Hada, tinha alguém mais me esperando.
Peguei minha mochila e as chaves de casa. Hada, como sempre, me esperava a frente de casa. Acredito que ninguém tenha um assistente melhor que o meu. Apesar do seu humor sempre azedo, não há pessoa mais eficiente que Hada e eu o admiro por isso. Sento-me no banco ao seu lado e já solto um sorriso sarcástico para aquela cara emburrada em plena manhã. Não queria deixar o dia dele pior, mas eu não tinha muitas opções, afinal “Rúlia” estava me aguardando.
— Bom dia, Hada. – Sorri para ele, dessa vez de forma sincera.
— Bom dia. Alguém parece bem-disposto hoje.
— As aparências enganam, mas estamos aqui para isso não é mesmo?
— Nem sempre, também podemos ser sinceros uma vez na vida. — Debochou.
— Pois é, concordo contigo. Por isso vamos passar nesse exato momento naquele hostel de ontem à noite.
— Hã? O que isso tem a ver com ser sincero uma vez na vida. Pirou?
— Vamos buscar aquela menina para ir ao estúdio conosco hoje. — Sorri mais uma vez e vi sua feição se fechar.
— Você realmente pirou. – Hada balançou a cabeça e deu partida no carro.
— Não, Hada. Essa é a parte que eu estou sendo sincero. Nós vamos buscá-la porque eu quero que ela assista as filmagens...
— Ah-rá! Conta outra que é somente isso.
— Não, a outra parte é que eu quero conheça-la também.
Dessa vez eu não estava sorrindo e também me assustei com o quanto aquilo foi sincero. Hada, olhou bem nos meus olhos e se calou. Talvez ele tenha percebido que não havia brincadeira alguma naquelas palavras. Ele focou a estrada, mesmo assim, não deixou de comentar.
— Sabe que isso pode dar merda, não sabe?
— Sei, mas ultimamente estou pouco me importando com isso.
Ele apenas assentiu e seguimos nosso caminho. Hada era mais que meu assistente e por ser a pessoa que mais passava tempo comigo, acabou se tornando meu amigo. Ele sabia de tudo referente a minha vida e estava em cada momento dela. E por isso, eu era muito agradecido.
Passaram-se dez minutos até que paramos em frente ao Hostel e ela estava lá. Com seus cabelos pretos longos, um casaco vermelho e uma calça jeans que parecia marcar bem as suas curvas para a minha desgraça. E em seus pés, ela foi inteligente o suficiente para colocar um sapato mais confortável. Ela não conhecia o meu carro e por isso pude observá-la enquanto estava com o vidro fechado. “Rúlia” parecia nervosa. Olhava em seu relógio de pulso e segurava uma pequena bolsa em suas mãos. Observei demais que esqueci que poderia estar sendo observado também. Quando olho para o lado, vejo Hada me olhando estranho, como se eu fosse alguém com chifres.
— Vai ficar só olhando ou vai chamar logo a garota? Estamos nos atrasando.
— Não enche. — Dei de ombros.
— Idiota mesmo. – Ouvi ele resmungar, mas ignorei.
Abaixei o vidro do carro e ela logo me viu. Um sorriso se formou em seus lábios e foi crescendo de acordo com que vinha em minha direção. Meu coração acelerou e eu fiquei desconfortável. Meu sorriso desapareceu e ela percebeu, pois o dela logo sumiu também. Quando se aproximou, senti seu receio.
— Bom dia, tudo bem? — Perguntou meio evasiva.
— Bom dia, tudo sim. Pode entrar no carro, precisamos ir depressa, a gravação começa as sete horas em ponto. — Ela assentiu e fez o que eu disse. — Esse aqui é Hada, meu assistente. E essa aqui é “Rúlia”, Hada. A menina que eu lhe falei.
— Prazer em conhecê-la, “Rúlia” — Hada olhou para ela através do retrovisor e ao pronunciar seu nome fez uma careta que fez com que ela sorrisse.
— O prazer é meu, Hada. Apesar de achar bonitinho o modo como ele me chama de “Rúlia”, o meu nome correto é Júlia.
Hada assentiu e voltou sua atenção para frente, mas eu pude perceber que ele ficava sussurrando o nome dela para tentar pronunciar corretamente. E eu? Se ela achava bonitinho o modo como eu a chamo por que mudar a forma então? Notei que Júlia ficou quieta. Talvez esperando que alguém se manifestasse e como eu era o anfitrião da história, provavelmente o alguém seria eu.
— Espero que goste das gravações de hoje, mas se achar muito cansativo, pode me dizer que peço alguém para lhe trazer de volta.
— Tudo bem. Se não houver problema, pretendo ficar até o final. — Olhei para ela e ela sorriu para mim — Oportunidade única.
Assenti e sorri do mesmo jeito que Júlia. Segui o restante do caminho compreendendo o mal humor de Hada aquela hora da manhã. Sorte tinha Júlia, que não compreendia as lamurias do meu assistente. E eu só queria silêncio, àquela hora da manhã não tinha momento mais perfeito para tal, por isso me recostei no banco e deletei da mente a vontade de tirar um cochilo, pois eu sabia que Hada só pararia de falar quando eu não estivesse mais ali.
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Hoje gravaríamos ao ar livre. Era uma cena em que eu teria uma conversa sincera com a protagonista sobre o meu sentimento ser direcionado a outra pessoa. E para meu desgosto, mais um dia gravando apenas com Mi Cha. Suspirei enquanto descia do carro e abria a porta para Júlia. Quando mostro para ela o caminho, percebo que uma boa parte das pessoas estão nos olhando e principalmente Mi Cha que nos perfura com o olhar.
— Eu avisei que poderia dar merda. — Hada sussurra em meu ouvido antes de passar por mim e ir a frente.
Eu apenas sorrio para ela e mostro qual caminho devemos seguir. Júlia parece estar mais nervosa que antes e compreendo. As pessoas não param de olhá-la. Quando estamos chegando ao local onde eu deveria me arrumar para o início das gravações, somos parados por Eddy, o diretor do drama. Eddy é um homem engraçado que foi adotado por americanos quando criança, porém o sangue falou mais alto e quando ele se tornou dono do próprio nariz, voltou para sua terra natal onde conseguiu sucesso dirigindo vários outros dramas e filmes. Seus pais? Dizem que vez ou outra aparecem por aqui, uma vez que eles são aposentados e Eddy está sempre ocupado demais.
— Bom dia, Tae.
— Bom dia, Eddy. O que deseja? — Tanto eu quanto ele já sabemos o motivo do cumprimento logo cedo. Eddy é do tipo que só começa a falar depois que as gravações começam.
— Trouxe visita?
— Sim, uma amiga. Trouxe para conhecer o set e como você está fazendo um ótimo trabalho dirigindo esse drama. — Sorri de forma educada e vi que ele desistiu de soltar qualquer veneno que fosse.
— Ah que bom! Espero que você goste do que vê... Hã...?
— Júlia. Meu nome é Júlia. Prazer em conhecer.
— Então você só fala em inglês, “Rúlia”?
— Sim, senhor.
— Não me chame de senhor, “Rúlia”, ainda sou novo o suficiente para ter esse tipo de tratamento.
Ele sorriu para ela de uma forma que me deixou um pouco desconfortável, mas apenas tentei ignorar. Ele se voltou para mim e chegou um pouco mais perto.
— Devemos tomar cuidado com amigas assim, elas podem causar uma bagunça nas nossas vidas. – Sussurrou em coreano para que somente eu escutasse. E se virou mais uma vez para Júlia que não compreendeu a cena. — Mais uma vez, prazer em conhecê-la, “Rúlia”. Divirta-se.
E se foi começando a dar as milhares de ordens de sempre. Sentei-me em frente a penteadeira e logo a maquiadora veio até mim.
— É tão difícil pronunciar meu nome assim? — Ela perguntou sorrindo.
— É, é sim. É muito. Mas prometo que um dia aprendo.
— Não tenha pressa.
Quando nos olhamos através do espelho, apenas sorrimos um para o outro. A Maquiadora soltou um sorriso singelo como se ela apenas compreendesse algo e achei estranho. Apesar de saber que deveríamos sim ter um pouco de pressa, naquele momento parecia estar bom para os dois. Tem pessoas que aparecem em nossas vidas que sabemos o que esperar, tem outras, como Júlia, que não temos a mínima noção. Apenas esperamos para ver no que vai dar. Se há dois dias me dissessem que eu conheceria alguém que mesmo sem saber de onde ou como veio parar aqui me deixaria tão hipnotizado, eu diria que essa pessoa tinha um parafuso a menos. Hoje, com essa menina a minha frente, eu percebo que todo louco tem seu momento de sanidade.
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Quando eu terminei de me arrumar, olhei por entre as pessoas em busca de Júlia. A vi um pouco distante sentada em um dos bancos do parque em que iríamos gravar a tal cena com Mi Cha. Parecia estar comendo algo que a produção disponibilizou para ela e de longe parecia mais serena do que o normal. Toda vez que eu a olhava, sempre parecia estar nervosa, deslocada, dessa vez ela só parecia em paz enquanto comia o que parecia ser um sanduiche.
— Parece que você está se divertindo. — Mi Cha falou enquanto se aproximava.
— Como?
— Não é verdade? Pelo visto arrumou alguém para passar o tempo.
— Não fale do que não sabe, Mi Cha. Júlia é apenas minha amiga e eu não sou como você que usa as pessoas como se fossem descartáveis.
— Então você ainda tem mágoa? Interessante. – Se aproximou mais para que pudesse falar bem próximo ao meu ouvido — Quando ainda nos importamos com o que aconteceu no passado é porque ele não foi tão esquecido assim.
Cerrei os punhos na lateral do corpo e tentei ao máximo me segurar para não explodir ali naquele momento. Por esse motivo não percebi que Júlia estava próxima a nós. Vi o momento em que ela olhou minhas mãos e franziu o cenho, para logo em seguida estampar um sorriso no rosto e me surpreender mais uma vez.
— Tae, poderia me dar um minutinho a sós? — Enquanto se aproximava ela perguntou, mas perguntou em coreano. Espera! coreano? Ela parecia chateada e eu mais surpreso do que poderia imaginar, porém apenas franzi o cenho para não demonstrar o quanto aquilo me afetou.
— Claro! Vamos.
— Quem é você que nunca vi por aqui? — Mi Cha perguntou de forma venenosa, sem esconder seu desagrado, mas Júlia não deixou por menos.
— Poderia fazer essa mesma pergunta para você, mas por estar aqui, deve ser alguma coisa. – Olhei para Júlia e ela tinha o sorriso mais cínico que eu já vi em alguém. Não me controlei e sorri também ao ver que ela conseguira tirar a compostura de Mi Cha.
— Ora, ora. Não se faça de ingênua. Deve saber muito bem que sou Mi Cha, uma das grandes estrelas da Coreia e que estou contracenando com Tae.
— Normalmente eu sei sobre aquilo que me interessa e esse não é o caso.
Ela continuou sorrindo de forma cínica para a mulher a nossa frente e eu não pude deixar de ficar encantado. Mi Cha parecia que entraria em combustão a qualquer momento e eu não pude negar que fiquei satisfeito com isso.
— Podem se passar anos que você continua andando com gente desse nível, Tae.
— Não sei por que, mas vindo de você é um elogio.
E sorri da mesma maneira que a menina ao meu lado. Mi Cha saiu pisando forte e bufando. Enquanto Júlia e eu caímos na risada. Quando paramos, Júlia percebeu que estava próxima demais a mim. Vi seu rosto corar e ela ficou linda dessa maneira. Parecia insanidade, mas a vontade de beijá-la foi forte e me obriguei apenas a morder meu lábio inferior para ver se a dor faria com que eu voltasse a realidade. Coloquei as mãos nos bolsos e balancei a cabeça após um minuto constrangedor de silêncio.
— Acho que você tem algo a me dizer – disse estreitando os olhos para ela e a vi corar mais uma vez. Provavelmente por ter sido descoberta.
— Me desculpe se causei algum transtorno. — Júlia falou tão baixo que quase não ouvi. – E por não dizer que entendo o idioma de vocês.
— Não causou, eu que te agradeço por isso. — Falei para que somente ela ouvisse — Você pareceu perceber a situação. Sobre você falar coreano, isso facilitaria muitas coisas desde o início...
— Na verdade, eu sei quem ela é. – Júlia me interrompeu — E já vi algumas matérias sobre vocês. Só não sabia que ela era desse jeito.
— Há alguns anos eu também não sabia.
Não precisei falar mais nada para que ela compreendesse que eu não queria mais entrar nesse assunto e para melhorar a situação dos dois, eu fui chamado para iniciar as gravações. Júlia se instalou em um canto que não fosse atrapalhar ninguém e que ela poderia visualizar toda a cena. E eu? Eu apenas pensei que hoje seria um dia muito difícil.
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