Júlia

SSGuesthouse Hostel

— Burra, burra, burra, burra...

Toda vez que eu me lembrava do ocorrido no aeroporto era essa a minha reação. Já faziam 24h que eu cheguei na Coréia e não conseguia parar de pensar na oportunidade que perdi e no modo como agi. Eu sou uma idiota. Quem, me diz quem, fica frente a frente com So Tae Yang e não faz absolutamente nada? Eu. Claro, tinha que ser eu. Qual a probabilidade de você pisar na Coréia e imediatamente encontrar um dos atores mais cobiçados dessa geração? Eu diria que é quase nula, mas eu encontrei e não fiz nada. Ao menos uma foto, um autógrafo.

Quando eu vi aquele homem vindo em minha direção apenas para me entregar a carteira que eu perdi, não soube o que fazer. Pela primeira vez na minha vida eu fiquei sem reação. Apenas respondia suas perguntas, tentando ser o mais racional possível. Quando tirei os óculos para poder olhar diretamente para ele e cair na real que eu realmente não estava sonhando, vi seu cenho franzi e fiquei me perguntando o motivo. Logo veio em minha cabeça se eu estava com alguma coisa nos olhos, no rosto e não sabia. Afinal, quase não dormir dentro do avião por conta da ansiedade, então provavelmente eu deveria estar parecida com um panda.

Assim que cheguei ao Hostel a única coisa em que pensava, era descansar. Eu estava completamente acabada, não sabia que ficar tantas horas dentro de um avião seria tão maçante. E como eu vim na cara e na coragem para Coréia, eu procurei na internet pelo menos 10 lugares que eu não poderia deixar de visitar e hoje foi minha primeira saída, sozinha, diga-se de passagem, por essa capital que até agora só me surpreendeu. Escolhi visitar primeiro o palácio Changdeokgung, dizem ser o mais bonito dos quatro palácios principais, mas resolvi visitá-lo primeiro, pois eles disponibilizam um tour gratuito em inglês para poder conhecer melhor.

Eu fiquei impressionada com cada detalhe em torno do palácio, como foi trabalhado e como resistiu a vários bombardeios e incêndios. Visitei a sala de coroações e cerimonias, fiquei impressionada com a decoração do lugar, uma mistura de oriental e ocidental que faz você ficar horas apenas admirando cada detalhe, porém o que mais me chamou a atenção e que se eu puder voltar nesse tempo que estarei aqui, eu voltarei, é o jardim secretos dos fundos que todos chamam de “Huwon”. Foi ali que eu percebi o porquê do palácio ter sido considerado patrimônio da humanidade. Eu fiquei impressionada, apaixonada! As árvores, os lagos, flores, gramados, tudo era tão perfeito a meu ver que eu tinha vontade de chorar. Lembrou-me os vários dramas de época que me aventurei. Sorri. Ganhei meu dia apenas naquele local.

Suspiro deitada na cama e olhando para o teto apenas por lembrar da beleza daquele lugar. Eu realmente gostaria de voltar. Sorrio por isso, mas meu sorriso logo desaparece, pois mais uma vez vem em minha mente a história do aeroporto.

— O que eu poderia fazer? Todos agiam normalmente perto dele. Não é possível que ninguém o reconheceu ali, então por que eu deveria dar uma de fã maluca e fazer ao contrário? — Falei comigo mesma. Levantei exasperada. — Quer saber de uma coisa? Vou sair para comprar alguma coisa para comer.

O gerente do hostel disse que aqui perto tem uma loja de conveniência e que como o bairro é tranquilo, não tem problema eu andar por aí a essa hora. Eu esqueço que aqui não é o Brasil. Amo meu país, tem tantos lugares bonitos como aqui, mas a violência está ultrapassando os limites do que poderíamos dizer que é “aceitável” no tempo atual. Peguei um casaco e saí. A noite estava gelada ou eu que não sou acostumada com esse tipo de temperatura. De qualquer forma, fui caminhando em direção ao local que o gerente me explicara e observando as coisas ao meu redor. Tudo tão limpo, tão tranquilo, que dificulta minha volta para casa. Sorrio mais uma vez com o pensamento. Seria realmente bom morar ali como estou pensando?

Depois de uns cinco minutos caminhando, chego à lojinha que ainda está aberta e de acordo com a placa do lado de fora é 24h. Isso é bom! Quando eu assisto aos dramas coreanos, sempre tem uma cena dos protagonistas comendo lámen em uma lojinha como essa. E eu sempre me perguntei se isso seria saboroso apesar da aparência aguada do macarrão. Mas como estou aqui para ter novas experiências, apesar de não ser fã de macarrão, vou provar um pote desses.

Entro na lojinha e um menino está no balcão vidrado no seu celular. Pergunto-me se ele me viu entrando. Eu tentei dizer um boa noite, no entanto foi mais um muxoxo do que um cumprimento. Balancei a cabeça me sentindo mais uma vez uma idiota e tentei procurar o que eu queria. Entrei em um corredor de produtos instantâneos e não me abstive de analisar, achei engraçada cada embalagem. Umas eram fofas, outras faziam você ter medo de comer o que estava ali. Mas no conjunto, achei tudo interessante. Fui procurando e nada de encontrar o que eu queria.

— Será que acabou? — Perguntei enquanto tentava olhar por cima das prateleiras que eram centímetros mais altas que eu. E foi nessa de tentar olhar o outro lado que eu trombei em alguém.

— Por acaso precisa de ajuda?

A pessoa em quem eu bati, me perguntou em inglês e eu me espantei na hora. Mas o meu espanto não foi maior do que quando eu levantei a cabeça e vi quem estava falando comigo.

— Minha Nossa Senhora... — Soltei em português e ele me olhou como se eu fosse um alienígena.

— Não entendi.

— Digo... Gostaria si-sim. — Sorri, sentindo-me envergonhada. Ele continuava olhando diretamente para mim e eu para ele, até perceber que ele queria que eu prosseguisse. Controle-se, Júlia! — Bem, eu estou procurando lámen.

— Hoje não foi seu dia de sorte. Pelo visto não temos lámen aqui.

Eu apenas assenti insatisfeita. Teria que me contentar com o saco de batatas que tinha dentro do quarto. Eu permaneci no mesmo lugar sem saber o que fazer. Seria Deus tão bom assim comigo para colocar So Tae Yang na minha frente pela segunda vez em um pouco mais de 24 horas nessa terra? E ainda por cima me ajudando em todas essas vezes?

— Você precisa que eu te ajude em algo mais? — Tae Yang perguntou, despertando-me dos meus devaneios.

— Não, era só isso mesmo. Obrigada por me ajudar nas duas vezes em que nos encontramos e desculpe o trabalho por isso. — Fui sincera e vi um sorriso começar a se formar em seus lábios.

— Não foi problema nenhum. Percebi que você estava um pouco perdida.

— Na realidade, eu estou muito perdida. Estou tentando me aventurar sozinha por essa cidade, mas sei que logo me acostumo.

— Acredito que sim, você parece bem esperta, apesar de parecer bem perdida. — Agora não era só um vestígio, seu sorriso estava lá e zombando de mim. Meu estômago gelou diante disso.

— Eu não vou tomar mais seu tempo, sr. Tae Yang, muito o...

— Então quer dizer que você me conhece? Interessante.

— Como não conheceria. — Falei baixo demais, porém sei que ele escutou. Seu sorriso continuava lá.

— Vamos, eu te acompanho até o local onde você está hospedada.

Arregalei os olhos diante da proposta. Bem, não parecia que ele havia proposto nada, parecia apenas um “vou te levar e pronto” e aquilo me deixou confusa, muito confusa.

— Não quero incomodar. É perto daqui eu consigo me achar ainda. – ri totalmente sem graça.

— Não será incomodo algum...

Ele apontou para a porta de saída e apenas assenti. O menino do balcão continuava concentrado no seu jogo no celular e eu franzi o cenho para isso enquanto eu saia da loja. Quando colocamos o pé na calçada, eu não pude deixar de comentar.

— Se fosse no Rio de Janeiro, duvido que ele estaria tão tranquilo a essa hora e sozinho naquela loja.

— Ah, então você é brasileira. — Comentou como se esse fato explicasse tudo.

— Sou sim, algum problema? — Perguntei assustada.

— Não, absolutamente nenhum. Tem muitos coreanos que são apaixonados pelo Brasil. — Apenas assenti e deixei que ele continuasse — Eu, particularmente, nunca busquei saber sobre, mas tenho muitos amigos que gostam, estudam o idioma e que tem planos para ir ao Brasil em breve. Eles me contam maravilhas do país, mas você não parece tão satisfeita assim...

Tae Yang constatou esse fato em um único momento comigo. Comecei a caminhar de volta para o Hostel e ele me acompanhou. Eu permaneci em silêncio por alguns instantes tentando assimilar tudo aquilo. Se eu contasse ninguém acreditaria.

— O Brasil tem locais lindos e muito bons de se viver, eu só não gosto de onde eu moro. E tenho planos de procurar outro local, de preferência que eu possa andar tranquilamente na rua e sozinha como estou andando agora, sem ter medo de me assaltarem na própria porta de casa.

— Então onde você mora é tão ruim assim?

— Não era, mas acabou se tornando. – Suspirei com tristeza.

Acredito que ele percebeu e por isso não tocou mais no assunto. Eu coloquei as mãos nos bolsos do casaco porque além de estar com frio, estava nervosa. O que esse homem fazia ali? Passamos o restante do caminho sem falar uma única palavra, até que chegamos à porta do hostel e ele abriu a boca para me deixar sem jeito.

— Algo me deixou curioso, por que você veio para a Coreia do Sul?

Como eu iria responder para ele que eu era fissurada em dramas e principalmente nele?

— Bem, eu sou apaixonada pelos dramas coreanos e... — Achei melhor parar por ali.

— Entendi. — Sorriu novamente — Os dramas coreanos abriram novas portas para o turismo no país, muitos se sentem motivados pelo que veem nas produções. Se você sabe quem eu sou, por que fingiu não saber?

— Na realidade, não fingi. — Ele franziu o cenho como se não compreendesse. — Eu só fiquei sem reação mesmo. Achei que estava com muita sorte para ser verdade. Um dos atores mais queridos da Coréia vem na minha direção assim que chego no país? Só podia ser pegadinha.

Ele gargalhou. Aquela gargalhada era exatamente como eu assistia nos vídeos. Os olhinhos que se fecham quando sorriem e o olhar gentil logo em seguida. Se eu ficar aqui, vou pirar.

— Mas eu não podia surtar na sua frente, não é mesmo? Você diria que eu era louca, principalmente porque todos agiam normalmente ao seu redor e eu não seria diferente.

— Acho que foi o certo a se fazer. — Ficamos em silêncio de novo. Aquilo era constrangedor e ele sentiu isso também — Bom, você sabe meu nome e eu não sei o seu...

— Júlia.

— Como?

— Júlia. — Ele tentou repetir baixinho, mas eu ouvi — Quase isso.

Dessa vez quem riu, foi eu. Ele havia ficado desconcertado. Mais uma vez eu agradeci a ele pela ajuda. Sabia que um homem como ele não precisava fazer o que ele estava fazendo e eu agradeci mais ainda por isso. Não porque ele não pode ser gentil, mas alguém como ele, eu sequer sonhava em encontrar. Tae Yang assentiu em concordância e ficou parado esperando enquanto eu seguia para a entrada do hostel. Meu coração se apertou por saber que mais uma chance seria desperdiçada ali, pois eu era covarde o suficiente para pedir ao menos uma foto. Só que Deus é bom e não é à toa, quando pensei que tudo estava perdido, eu escuto o meu nome ser pronunciado do modo mais estranho e mais lindo que já ouvi em toda minha vida. Virei-me para olhar diretamente para aquele homem que sempre vislumbrei pela tela do computador.

— “Rúlia”, você gostaria de conhecer o estúdio de gravação do meu novo drama? — Meu coração parecia querer sair pela garganta. Meu Deus, isso só pode ser sonho. — E então?

— Claro! Mas é claro que sim.

— Então eu passo aqui amanhã, as sete horas da manhã. — Assenti rápido demais e ele riu — Só um pedido, não conte a ninguém, tudo bem?

— Ok.

Dessa vez não relutei, sorri mais abertamente ainda e entrei no hostel. Sei que ele apenas me esperou entrar para poder ir embora e eu, depois que entrei, corri feito criança para o meu quarto, tentei realocar minha saída de amanhã em algum outro dia dessa minha agenda e soltei toda a felicidade que estava em meu peito pelo convite inesperado.