Tae yang

Seoul, Coréia do Sul. Setembro, 2018.

— Obrigada!

Foi o que ela disse com seu inglês não tão bom assim quando eu lhe entreguei o seu documento. Notei que ela ficou um pouco nervosa a minha frente, não sabia dizer se era por causa de mim, por eu não ter tirado meus óculos e continuar encarando-a ou se ela estava tentando decidir o que fazer em seguida.

— Gostaria que eu chamasse um táxi para a senhorita? — Perguntei, tentando ajudá-la de alguma maneira.

— Por favor! Ficarei imensamente agradecida.

Vi seus olhos se iluminarem com a minha ajuda. Achei interessante ver o desespero sair de sua feição e senti satisfação em ser o responsável por isso. Estranho? Eu sei, mas ajudar a uma pessoa que parece ter caído de paraquedas em um local totalmente desconhecido, possa contar pontos para alguma coisa.

Ela pegou um folheto dentro de sua mochila e me mostrou o local onde deveria se hospedar. SSGuesthouse era um Hostel localizado no centro da cidade. Há maioria dos turistas preferiam esse tipo de serviço por ser mais barato do que os hotéis tradicionais. Sorri para ela por algum motivo desconhecido e fui até a beira da calçada sinalizar para o primeiro táxi que passasse. Não demorou muito e um logo encostou. Abri a porta da frente e pedi ao motorista que a deixasse no local onde ela informara. Sinalizei para que ela entrasse no taxi e a ajudei com a bagagem. — Obrigada mais uma vez. Foi a última coisa que ouvi antes de fechar a porta e ver o táxi partir. Fiquei observando o carro ir embora por alguns segundos e instantes antes de eu seguir o meu destino, a vi colocar a cabeça para fora da janela, sorrir e acenar de forma que fez meu coração pular por alguém que eu não sabia sequer o nome. Franzi o cenho diante de tal acontecimento e balancei a cabeça para voltar a realidade. Sigo até Hada que me olha especulativo, mas não diz coisa alguma e eu não me importo de explicar. Entramos no carro que já estava me aguardando há um tempo e seguimos adiante. Não contente com a minha não explicação, Hada não se absteve e virou-se na minha direção perguntando/acusando sobre o que aconteceu.— O que deu em você? — Sua fisionomia estava tão incrédula que não consegui não ri.— Não sei sobre o que está falando.— Não se faça de idiota, Taeyang. – Ergui a sobrancelha para o idiota na mesma frase que meu nome e ele engoliu a seco — O que aconteceu lá no aeroporto. O que foi aquilo? Agora estamos atrasados.— Qual o problema em ajudar alguém?— Problema nenhum. Só que, só que...— “Só que” o quê? — Perguntei olhando pela janela a vista da cidade.— Não sei explicar, só sei dizer que foi estranho.

— Estranho é você com esse tipo de conversa.

E assim seguimos o caminho repassando as falas da próxima gravação. Foi assim que lembrei de como essa vida também era cansativa.

*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.

São exatamente onze da noite e eu não sinto mais os meus pés, meus braços e acredito que muito menos o cérebro. Estou fora de cogitação para qualquer coisa que não seja um banho quente e minha cama. Como saí recentemente do quartel, os amigos querem comemorar, o problema que essas comemorações já duram há um mês. Voltei ao meu ritmo “normal” de trabalho e não estou conseguindo lidar. Fui obrigado a desligar o celular e fingir que a bateria acabou somente para não responder mais um “não, deixa para outro dia”.

Sinto-me tão anestesiado pelo cansaço que agradeço minha mãe por ter levado Kkoma para sua casa esses dias. Não sei se conseguiria cuidar dela da maneira que deveria nesse momento. Joguei a cabeça para trás encostando no banco do carro e fechei os olhos. Havia pedido que me deixassem em casa, estava cansado demais até para dirigir. Meus pensamentos me levaram para aquela manhã em que eu conheci uma estrangeira de longos cabelos negros, de estatura mediana, corpo mais curvilíneo do que estou acostumado e um inglês com sotaque esquisito que só me deixou mais curioso de onde aquele ser veio. Hada realmente tinha razão, estranho, foi estranho, mas eu nunca admitiria isso para ele.

Enquanto seguíamos na direção do meu apartamento, passamos em frente ao tal hostel e eu não pude evitar não olhar e caçar aquele ser que não sei o nome. Fiquei decepcionado por não a ver ao redor, notei uma única janela com a luz acesa, e fiquei pensando se não poderia ser ela. Voltei a me recostar no banco e aquietar a mente, porém infelizmente foi impossível e cada vez mais eu dava razão a Hada, mesmo sem ele precisar saber desse fato. E com a mente naquele bendito hostel, tentei descansar o restante da viagem para casa.

— Chegamos. — Assustei-me com os tapinhas de Hada na minha perna e percebi ter cochilado por instantes. — Amanhã passarei aqui as seis horas.

Acenei descendo do carro, como resposta que eu entendi e um boa noite. Fui me arrastando para dentro do elevador e pelos corredores até meu apartamento. No final de tudo, eu olhei para cama e a cama olhou para mim e o meu destino era certo, tirei os sapatos, me joguei e a única coisa que eu lembrei foi colocar o despertador para funcionar antes de apagar.

.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.

Seis da manhã e meu humor parece de uma morsa. Mesmo dormindo a noite inteira e está mais que acostumado a acordar cedo, meu corpo ainda precisa de um tempo para hibernar. E para melhorar o dia, Hada parece estar no mesmo nível de humor que eu e grita aos quatro ventos para que eu agilizasse o passo. Fechei a cara e lembrei de quantas vezes no dia eu queria arrancar o pescoço dele fora. O que tinha de competente, tinha de chato e desesperado. Talvez esses defeitos completassem a qualidade, mas em momentos como esse eu só queria que ele fosse para o quinto dos infernos.

— Bom dia. — Ele falou comigo enquanto eu me sentava no banco do carona.

— O dia mal começou e você já acabou com ele. Qual foi, Hada, são seis horas da manhã ainda e você já está aos berros? — Reclamei apoiando a minha cabeça no vidro da janela.

— São seis e quinze para ser mais exato e eu estou te esperando por tempo demais. Se seu dia não está sendo bom, imagina o meu?

Olhei de soslaio e vi seu bico quase encostando no volante. Dei de ombros e voltei a fechar os olhos. Não queria conversar, só queria dormir até o estúdio, eu poderia dormir mais meia hora.

— E outra coisa... — Ele ouviu meu resmungo baixo e me olhou de forma séria, fazendo com que eu ficasse em alerta — Não adianta resmungar não, senhor. É melhor você saber agora do que ser surpreendido depois. Aquela tua história mal resolvida foi incluída no drama. Você vai contracenar com ela. Para sua infelicidade o papel de protagonista boazinha, companheira e amiga para todas as horas foi transferido para ela porque a Sunny entregou o papel por motivos que ainda não se sabe.

— Puta merda! — Foi a única coisa que consegui esboçar ainda de olhos fechados.

— Exatamente. Então, mesmo que seu dia esteja uma bosta, tente se controlar e faça com que ele fique maravilhoso a partir de agora. Não estou a fim de tapar buraco de novo.

— Você é pago para isso, Hada.

— Mas tudo tem limite, Tae.

— Sim, eu sei. Me desculpe! Ainda não sei como vou lidar com isso, Hada. Você mais do que ninguém sabe o que isso significa para mim. Que maldita hora para essa mulher reaparecer por aqui.

— Tae, faça o que você faz de melhor. – Olhei diretamente para Hada e vi a convicção em todas as suas palavras – Seja profissional! Ela não merece saber que ainda te afeta e muito menos o quanto você sofreu. Por isso, você vai colocar um sorriso nesse rosto e ser o galã que aprendeu a ser.

— Mais tarde enviarei uma mensagem a Sunny. Muito estranho essa desistência dela, assim, do nada. – Falei inconformado – Bem que eu achei que algo estava errado com ela. Eu percebi, Hada.

— Não discordo de você, Tae. Sunny não tomaria essa atitude se algo não estivesse fora dos eixos.

Apenas permaneci calado. Ele deu partida no carro e assim, passamos o restante do caminho em completo silencio, apenas absorvendo a notícia e tentando buscar maneiras de fazer aquele dia que mal começou, ficar bom de alguma maneira. Mi-cha foi meu sucesso e minha decadência. Ainda me lembro de como sofri por alguém que me deixou por eu não ser famoso o suficiente. Alguém que pisou em meu ego de todas as maneiras possíveis e impossíveis que alguém poderia pisar por eu mais uma vez “não ser famoso o suficiente”. Mi Cha, a atriz de sucesso internacional que foi ao auge aproveitando as oportunidades e usando quem pudesse como escada. E durante muito tempo doeu saber que, ao menos um degrau eu consegui ser. Não é drama, entenda. São palavras que saíram daquela própria boca ferina para acabar com o pouco de dignidade que ainda restava em mim.

E que grande merda de ironia do destino, eu bater de frente novamente e ainda por cima contracenar. Não basta incorporar personagem em drama, os céus também querem que eu incorpore personagens na vida real. Só posso dizer que isso tudo é uma grande bosta, tremenda por sinal.

Chegamos para mais um dia trabalhoso e pelo visto estressante. Todos correndo de um lado para outro e teremos que regravar algumas cenas de ontem por conta da troca de atrizes e deve ser por isso que todos passam por mim como jato ou como leões prestes a atacar quem atrevesse a dizer um oi. Meu pensamento foi novamente para minha amiga. Essa atitude foi extremamente estranha. Sunny e eu debutamos juntos, éramos colegas de longa data e um dos motivos de aceitar esse papel é por ter alguém como ela, conhecida e querida por mim, para poder trabalhar junto. Eu nutria um respeito grande por Sunny.

.*.*.*.*.*.*.*.*.*.

E lá estava ela, linda como sempre. Com seu olhar inocente e sedutor. Quem não conhece, acredita ser a mais doce das mulheres, mal sabem que aquilo é cobra peçonhenta e criada. Mi-cha, nunca um nome combinou tão bem como uma pessoa. Significado? Bela. Eu seria hipócrita em negar que mesmo depois de tanto tempo, vê-la assim tão perto outra vez faz meu coração apertar. E eu me odeio por isso, entenda. Nosso gostar deveria ser proporcional as merdas que a outra parte faz. Resumindo, seria mais ou menos assim, eu gosto? Sim. Fez merda? Não gosto mais.

Alguns ficariam com aqueles discursos clichês de, “mas qual seria a graça da vida se todos fossem felizes, tem que ter algo para abalar as estruturas”. Uma ova! Sofrer porque bateu o dedinho na quina de um móvel é o suficiente. Amar uma pessoa é passagem direto para o inferno. Sua vida se torna tão dependente daquele outro ser que você sofre, enlouquece e se ferra como eu me ferrei.

Porém, Mi Cha parece não querer saber do que eu sinto ou não, ela simplesmente cai de paraquedas mais uma vez na minha vida, me olha com aquele olhar que antes era considerado por mim como inocente, mas hoje eu sei que é predatório e vem em minha direção com a graça e leveza que sempre teve. Eu realmente estou ferrado, muito ferrado!

— Quanto tempo, Tae? – Mi Cha pergunta ainda se aproximando de mim.

— Pois é. – não consigo responder nada mais que isso e não quero responder nada mais que isso.

— Foi uma surpresa quando me enviaram o papel. Apenas aceitei porque contracenaria com você. Queria rever velhos amigos. – Ela sorriu.

Cretina! Como pode fingir que há tempos não me abandonou como um saco de lixo? Se ela quer fazer esse jogo, então vamos deixar ela acreditar que estamos seguindo o mesmo ritmo.

— Que bom, não é mesmo? Espero que a equipe tenha a recebido bem. – Sorri da melhor forma que consegui e vi por um momento seu olhar vacilar. Ela realmente acreditou que eu ainda estaria na fossa? — Bom, eu cheguei um pouco atrasado e tenho que me arrumar para a gravação. Então depois nos falamos, ok?

— Gostaria que eu te acompanhasse? Podemos ir passando o texto...

— Não, obrigada. Prefiro ir sozinho.

Sorri e dei as costas para Mi-cha. Senti seu olhar sobre mim, porém não fiz questão de confirmar, se eu teria que fingir estar tranquilo com essa situação, que ela ficasse pelo menos a uma distância considerável de mim. No canto, pude perceber Hada me fazendo um sinal de “ok” e pela primeira vez desde que eu acordei, eu quis sorrir de verdade.