Trevo de Quatro Folhas

6 As Dores do Passado


Notas iniciais
E aí, aurietas! Como vocês estão? Então, deixa eu avisar um negocio bem rapidinho: não sei dizer quando saíra os próximos capítulos porque vou ter o mês inteiro de provas e preciso me dedicar a faculdade esse mês (sim, estou bem triste que isso esteja acontecendo logo no último mês da novela), enfim, me desculpem pessoal ♥ Agora, esse capítulo foi difícil de escrever porque mexeu com o meu emocional, e devo confessar a vocês que meus olhos ficaram marejados e minha garganta arranhada enquanto eu escrevia algumas cenas deste capítulo. Espero que gostem! Agora, sentem que lá vem história! Consideração: 1) Helena é representada pela Carolina Kasting nessa novela. 2) Helena é poucos anos mais velha que Julieta. 3) Comentários são SEMPRE bem vindos. 4) Não consegui responder os últimos comentários, mas agradece de coração a todos que me falaram aqui, no twitter ou no curious, valeu gente! ♥ Continua a escrever porque vocês são meu incentivo.

Aurélio estava em estado de choque. Ele podia ver a boca de Julieta se movimentar, mas não escutava uma palavra sequer do que a mulher dizia. Tudo parecia não ser real a sua volta, a sua vida nesse momento parecia não ser real. Sentia dificuldade para respirar, o tórax estava pesado, como se alguém estivesse o pressionando, o oxigênio parecia não chegar até as suas narinas e podia escutar dentro da sua cabeça as batidas do próprio coração, descompassadas.

Escutou uma voz ao fundo da sua mente o chamar, e por mais que queria, ele não conseguia responder. Não conseguia falar, não conseguia se mexer, estava completamente paralisado. A mente trabalhava incansavelmente dizendo que aquilo não era verdade, que nada disso estava acontecendo e ao mesmo tempo fazia vários questionamentos dos quais não era capaz de responder.

— Aurélio... Aurélio, por favor, fale comigo. — Julieta estava preocupada, desde que havia revelado a verdade o homem não havia dito nada. Apenas ficou parado, em silêncio, com uma expressão assustada e lágrimas nos olhos. Entendia que ele estava em choque, mas precisava desesperadamente de alguma reação dele, nem que fosse para gritar com ela, para xingá-la.

— Isso não é verdade. — Aurélio sussurrou, fazendo com que uma lágrima escorresse dos olhos de Julieta. — Isso não pode ser verdade, Julieta. Por favor, me diga que não é verdade. — Pela primeira vez desde a revelação, os olhos azuis dele se encontraram com os castanhos. Ambos estavam cheios de dor, cheios de mágoa e carregados das lembranças do passado. A empresária negou com a cabeça, não era capaz de respondê-lo com palavras, de novamente enchê-lo de dor. — Isso é mentira! — Aurélio exclamou com revolta e indignação e ela pode ver um lado daquele homem que não conhecia.

Nada daquilo fazia sentindo para o pai de Ema. Não era verdade, não podia ser verdade. Ele acompanhou a gravidez de Helena, viu a barriga dela crescendo, viu os enjoos matinais, os desejos, as alterações repentinas de humor, tudo aquilo foi real. Ele viu perante os seus olhos, acompanhou cada momento, e sabia que aquilo existiu. Só não entendia por que Julieta estava dizendo essas sandices ou o porquê dela estar fazendo isso com ele. Ela queria machucá-lo? Magoá-lo? Existiam outras formas de fazer isso que não envolvessem a imagem da sua falecida mulher, e muito menos a sua filha.

— Aurélio, não é mentira, por favor, acredite em mim. Eu estou dizendo a verdade. — Julieta falou entre as lágrimas e aproximou-se mais do corpo do botânico, que imediatamente deu um passo para trás, impedindo que ela chegasse e o tocasse. Isso causou uma dor imensa nela e pode imaginar como ele se sentia em todas as vezes que ela se afastou e não permitiu o mesmo se aproximar, a tocar, a beijar.

— Eu não acredito em uma palavra do que diz. — Aurélio estava com os dentes semicerrados, em uma tentativa de manter todos os sentimentos dentro de si. Sentia raiva, dor, mágoa, decepção. Sentia-os todos juntos, ao mesmo tempo e sabia que isso não era bom, nunca uma explosão de sentimentos podia surtir coisas boas. — E eu não sei porque está dizendo isso, porque está tentando manchar a imagem da minha falecida mulher e envolvendo a minha filha em uma história dessas, mas não ficarei aqui nenhum minuto a mais para ouvi-la. — As palavras foram pronunciadas com determinação, até mesmo com raiva e logo após dizê-las ele se virou e começou a caminhar em direção a porta.

— Aurélio, por favor, não vá! Aurélio! Me escute, Aurélio! — A Rainha do Café seguiu os passos do homem com agonia, tentando o impedir de ir embora, mas isso não funcionou, pois o mesmo continuou com a trilha em direção a porta. — Helena jamais o deixou tocar na barriga dela, não é mesmo? Você nunca pode sentir Ema chutar, estou certa? — Julieta falou as palavras com rapidez e desespero, em uma tentativa de fazer com que ele não fosse embora, com que ficasse ali e escutasse tudo que tinha para dizer. Queria expurgar o passado, precisava fazê-lo. Dessa vez funcionou, porque mesmo com a mão já no trinco da porta do escritório, o homem parou. Continuou de costas para ela, mas com os ouvidos atentos para o que diria. — Isso porque não havia nenhum bebê lá dentro. Era uma barriga falsa.

— Chega! — Aurélio gritou, virando-se imediatamente para encara-la. Ela arregalou os olhos com o susto da atitude repentina dele, mas não baixou a guarda e nem a postura.

— Em quantas consultas ao médico você entrou com Helena na sala, Aurélio? — Julieta o questionou, com as sobrancelhas levantadas e recebeu o silêncio em troca. — Me diga Aurélio, em quantas?! — A voz dela era dura, implacável, cheia de dor e mágoa, mas novamente o silêncio foi a sua resposta. — Eu posso responder para você: Nenhuma! — Agora era ela quem gritava. As emoções tomaram conta da mulher, a dor de ser desacreditada, a dor de escutar novamente que Ema não era a sua filha a consumiam, a dominavam. — E quando Ema nasceu, você estava junto?! Não, você não estava! Sequer estava na mesma cidade que sua esposa!

— Chega, Julieta! Pare! — Aurélio gritou quando ela ainda terminava de completar a sua frase e por um momento as vozes, os gritos dos dois se misturaram e ecoaram raivosamente naquele escritório.

— Não! Eu não vou parar! Você foi que me pediu a verdade, foi você quem insistiu em descobri-la e agora vai escutá-la! — Julieta berrou as palavras de forma estridente. Suspirou profundamente, imediatamente se arrependo quando viu o filho do Barão levando as mãos a cabeça, as alisando de maneira desesperada e uma lágrima escorrendo pela face dele. Não deveria ter dito aquelas coisas daquela maneira, tão bruta, tão fria, o machucando ainda mais. Mas isso era um defeito dela, não media as palavras quando os sentimentos a tomavam, apenas permitia-se ser dominada por eles e com isso, machucava todos a sua volta. — Você não precisa acreditar em mim, mas se o que eu falei te deixou em dúvida, nem que seja apenas um pouquinho, eu peço que sente e me escute. — Julieta falou mais calma, praticamente em um sussurro. Com olhos aflitos fitou o loiro a sua frente.

Aurélio suspirou pesadamente e esfregou as mãos sobre o rosto, decidindo o que faria. Todas aquelas coisas que a empresária havia dito eram verdades, ele nunca sentiu Ema se mexer na barriga da esposa, porque esta nunca permitiu que o mesmo a tocasse, assim como não o deixava entrar na sala para as consultas com o médico, e é bem verdade que não estava presente no dia em que Helena deu a luz, porque estava no Vale do Café, enquanto a esposa estava em São Paulo. Ele não poderia dizer como Julieta sabia daqueles detalhes, porque sequer a própria filha sabia de tudo isso, não queria que a menina achasse que não foi um pai presente durante a gravidez, sendo assim, a jovem não poderia ter contado estes detalhes durante o seu encontro com a Rainha do Café. Decidiu escutá-la, por mais incabível que achava aquela história.

Novamente esfregou as mãos no rosto, limpando violentamente algumas lágrimas que ali tinham caído. Caminhou silenciosamente até um pequeno sofá vermelho que tinha no escritório e se sentou, esperando que a mulher começasse a despejar aquilo que ela alegava ser verdade. Observou que a mesmo ficou em pé e andou lentamente de um lado para o outro, de maneira inquieta, como se estivesse pensando por onde começaria a contar.

— Eu tinha dezenove anos quando Osório faleceu, ele me deixou Camilo com dois anos de idade e um bebê no meu ventre. — Julieta começou a relatar com a voz embargada. Parou de falar e suspirou novamente, tentando manter o controle sobre as emoções. Precisava ser firme ao relatar aquilo, mesmo que fosse tão doloroso. — Mas isso não foi tudo que ele me deixou. Aquele... homem me deixou dívidas, deixou agiotas batendo em minha porta, me deixou na pobreza. Eu estava na miséria, na sarjeta. — Falou tais palavras com os dentes cerrados, lembrando-se de tudo que tinha passado por conta daquele crápula, daquele homem nojento, que além de violentá-la a deixou sem ter com o que sustentar os próprios filhos. — Eu não tinha sequer o que comer, Aurélio. Camilo chorava muitas vezes de fome, porque sem me alimentar direito eu não tinha leite para amamentá-lo. — Mais uma vez a voz dela foi tomada pela emoção e uma lágrima escorreu pelas bochechas agora pálidas, sem demora, com as costas da mão ela a secou.

— Julieta... — Aurélio sentiu o coração partir ao vê-la naquele estado, revirando as memórias. Por mais que não acreditasse nas barbaridades que a mesma havia dito anteriormente, agora, ao relatar isso ele podia ver a dor dela, ele sabia que pelo menos isso era verdade.

— Eu conheci Helena em uma consulta ao médico. — Julieta continuou a contar antes que Aurélio a interrompesse, antes que começasse a falar. Ela precisava despejar toda a verdade que ficou entalada em sua garganta por todos esses anos. — Esse médico era amigo de Osório e conhecia a minha situação financeira, por isso não cobrava as consultas. Um dia quando cheguei a uma das consultas, encontrei Helena sentada, esperando para que o médico a atendesse. Ela era uma mulher muito simpática, muito encantadora. — Julieta exibiu um sorriso ao lembrar-se da conhecida, e Aurélio, mesmo sem perceber também esboçou um pequeno sorriso. Realmente, Helena era uma das pessoas mais comunicativas que já conheceu. — E ela começou a conversar, por mais que eu não exibisse a mesma simpatia e disponibilidade em iniciar um diálogo, ela insistiu, até que conseguiu me envolver no assunto.

— Quando Helena simpatizava com alguém e queria ser próxima daquela pessoa, não desistia, era mesmo incansável. — Aurélio recordou-se em voz alta. Lembra-se que a falecida mulher era o tipo de pessoa que quando batia os olhos em alguém e simpatizava com tal pessoa, ela não desistia até se tornar amiga desta. A mulher tinha um sexto sentido muito aguçado, quando olhava para alguém e dizia que aquela não era uma boa pessoa, normalmente estava certa. A mãe de Ema pode ver além de Julieta e pode ver que a mesma era uma boa pessoa, apesar da máscara que usava.

— Ao contrário de mim, ela estava radiante com a gravidez. Estava apenas no inicio da gestação, a barriga dela mal dava pra ver, enquanto a minha gravidez já era notória, pela pretuberância na minha barriga, ainda que pequena. — Julieta inconscientemente tocou o ventre e permitiu que um sorriso, ainda que tímido, aparecesse em seus lábios. — O destino tratou de fazer com que nos encontrássemos em todas as consultas, enquanto esperávamos para sermos atendidas. Helena me dizia sempre o quanto esse bebê era um milagre, um presente na vida dela e do marido. — Ela olhou diretamente nos olhos de Aurélio, como ela poderia imaginar que anos depois encontraria o marido daquela mulher, e principalmente, que estaria apaixonada por ele. O futuro Barão também a olhou e respirou fundo, sabia exatamente o significado daquelas palavras e a conquista que tinha sido aquele bebê na vida dele e da esposa. — Já eu, ao contrário dela, compartilhava a minha preocupação em como criaria uma criança de dois anos de idade e um bebê recém-nascido, sem ao menos ter o que comer. Helena sempre me dizia que Deus proveria ajuda, e as minhas necessidades seriam supridas.

Flash-back on.

Julieta suspirou profundamente e segurou as lágrimas que estavam nos olhos, pensava nas dificuldades que estava enfrentando e que piorariam assim que esse bebê nascesse. Camilo e essa criança não mereciam passar por isso, não mereciam ter que enfrentar a fúria da vida ainda assim, tão pequenos, tão indefesos e ingênuos. Ela precisava achar uma solução, precisava proteger os seus filhos a todo custo, precisava dar o que comer a eles, dar uma boa educação. Agora não era mais tempo para sofrer, para se lamentar, para chorar, precisava ser forte e achar uma solução, porque agora duas crianças dependiam dela. Uma voz a tirou dos pensamentos angustiantes que a cercavam.

— Não se preocupe. — A voz de Helena era suave. A mulher lentamente arrastou a mão dela e colocou sobre a de Julieta, que descansava em cima da pequena barriga. — Deus proverá o seu sustento e o dos seus filhos. Talvez seja de uma maneira que você não imagina ainda, mas o seu socorro virá.

A jovem olhou para a mulher ao seu lado, ela exibia um sorriso doce, cheio de esperanças e luz. Apesar de conhecê-la a pouco tempo, Helena era capaz de transmitir um certo conforto para a sua dor, ela sempre estava disposta a ajudá-la e a falar palavras de fé e que renovavam as forças de Julieta. Um dia, esperava compartilhar da mesma fé que aquela mulher em sua frente.

— Obrigada. — Julieta sussurrou e exibiu um sorriso. Virou a palma da mão e apertou levemente a do mulher, agradecendo silenciosamente pelo apoio de Helena.

Flash-back off.

Aurélio observou a Rainha do Café e as coisas que a mesma dizia até agora condiziam com a personalidade da falecida esposa. A companheira era muito religiosa e sempre procurava em Deus as palavras para confortar aqueles que sofriam a sua volta. Era também uma mulher muito carinhosa e bondosa, fazendo questão de fazer com que todos ao seu redor se sentissem protegidos e amados por ela, mesmo que conhecesse a pessoa a pouco tempo.

— Mas um dia, quando eu cheguei a uma das consultas, Helena não estava sorridente, não estava radiante e muito menos tinha aquele olhar de esperança nos olhos. — Continuou a mãe de Camilo, e novamente suspirou profundamente antes de continuar, pois sabia que isso partiria o coração do botânico. — Ela tinha perdido o bebê, Aurélio. — Julieta fitou o homem a sua frente e viu a pontada de tristeza que o atingiu, o mesmo balançou a cabeça fortemente, negando que aquilo fosse verdade, mas antes que ele pudesse dizer alguma coisa, a morena continuou. — Ela me contou que naquele dia havia tido um sangramento e que então, ao encontrar com o médico, o mesmo disse que ela havia perdido o bebê.

Flash-back on.

A jovem grávida caminhou pesadamente pelo corredor do grande hospital. De longe Julieta podia avistar a sua mais nova amiga, na verdade, a única amiga, a única pessoa em que ela se sentia confortável para contar a suas aflições, mesmo com pouquíssimas conversas e sem saber nada daquela mulher, ela sabia que nela podia confiar.

Helena estava sentada sozinha no lugar habitual, mas a postura dela estava diferente. A mulher não mantinha a mesma elegância, não tinha a postura ereta e com classe que sempre mantinha. Estava com o rosto voltado para baixo e as mãos em cima do ventre. Ao se aproximar pode perceber que a mesma chorava. Todo o brilho e a alegria dela não estavam presentes, o que a jovem podia ver era tristeza, dor e amargura, é como se estivesse olhando para o espelho e vendo a si mesma.

— Helena? — Julieta questionou ao se aproximar da morena em sua frente. — O que aconteceu? — Ela não ousou se aproximar mais, continuou em pé parada na frente da amiga, esperando respostas, esperando saber o motivo de tanta dor e aflição.

— Eu perdi... mais uma vez. — A moça então ergueu o rosto. A face dela estava inchada, as lágrimas escorriam livremente e incansavelmente pelo rosto branco e suave dela, os olhos estavam também inchados e demasiadamente vermelhos, indicando que a mesma já poderia estar chorando assim por muito tempo. — Eu pedi o meu bebê.

Julieta se chocou com a resposta. Sua boca se entreabriu involuntariamente e os olhos se arregalaram. Sabia o quanto aquela criança significava para ela, o quanto a amiga sentia-se alegre em tê-la, em alguém estar crescendo dentro do seu ventre e não podia imaginar a dor que agora a mesma estava sentindo ao saber que não teria mais aquele filho. Apesar de não esbanjar a mesma alegria e estar radiante como Helena, ela sequer podia imaginar perder o seu bebê, apesar dos pesares, a dor a afligiria da mesma maneira que estava afligindo Helena se perdesse essa criança.

Ficou apenas olhando-a, não sabia o que fazer, não sabia como reagir a esse tipo de situação. Os olhos pretos chorosos a encaravam em um pedido de ajuda, mas ela nada podia fazer porque não sabia como ajudá-la. E sem esperar, viu Helena levantando-se e rapidamente a abraçando com força, como ninguém nunca a havia abraçado. A mulher procurava o conforto na jovem, um conforto que ela não sabia como dar.

— Eu não posso continuar fazendo isso! Eu não posso mais! Eu estou tão cansada! — Helena falava em meio a soluços. Escondeu o rosto no ombro da amiga e ali molhou o vestido preto com lágrimas de dor e desespero.

Julieta não entendeu o que a mulher queria dizer sobre isso. Apesar de ser mais velha que ela, a mesma ainda era muito jovem e poderia engravidar, poderia tentar mais vezes. Entretanto, preferiu não fazer questionamentos nesse momento e com um pouco de incerteza enrolou os seus braços envolta da moça, em um abraço inicialmente desconfortável e atrapalhado.

— Não se preocupe, Helena. — Julieta apertou mais os braços em volta da mulher que agora não conseguia mais controlar o choro. — Deus proverá e o seu socorro virá. — Ela utilizou-se das mesmas palavras que a mulher usava para confortá-la. E então, ficaram as duas ali, em meio ao corredor, abraçados, uma buscando o conforto na amizade na outra. E minutos mais tarde Helena contou tudo sobre o sangramento, a consulta com o médico e ainda mais, contou o porque não conseguia mais fazer isso.

Flash-back off.

— Ela me disse que tinha apenas vinte e três anos e já havia passado por quatro gestações, não tinha conseguido segurar nenhum bebê em seu ventre. — Ao dizer tais palavras viu Aurélio levantar-se de forma abrupta e isso a assustou, fazendo com que desse pequenos passos para trás.

O filho do Barão ao levantar-se levou as mãos na cabeça, alisando os cabelos de forma violenta. Tudo o que a Rainha do Café lhe fazia até agora era verdade. Ele e Helena casaram-se muito jovens, com dezessete anos e desde o inicio era o desejo de ambos ter um filho, uma criança que representaria o fruto desse amor. Entretanto, durante algum tempo tentaram, mas todas as vezes que a esposa engravidava perdia os bebês, não conseguia segurá-los, era assim que os médicos diziam, mas nenhum sabia explicar. Em três anos a esposa perdeu quatro bebês e isso os destruiu, mas principalmente a destruía.

A cada perca a mulher ficava dias deitada na cama, chorando e se lamentando, até mesmo se culpando. Dizia até mesmo não ser uma mulher de verdade, porque não era capaz de manter um neném em seu ventre. Aurélio sempre ficava ao lado da esposa e dizia que tentariam e não descansariam até o dia em que seriam abençoados e teriam uma criança. E então, toda vez que ela descobria estar grávida novamente, a esperança renascia. E no caso de Ema a esperança se tornou realidade, a gravidez vingou e eles tiveram uma filha, o fruto daquele amor, pelo menos era isso que o botânico acreditou até o dia de hoje.

— Ela estava cansada, Aurélio. Estava cansada de tentar, estava cansada de passar pela mesma dor toda vez que a gravidez não vingava. — Julieta gesticulava e de uma maneira tentava proteger a amiga, mas o homem sequer a olhava, estava parado na frente da janela com o rosto voltado para o jardim, que ali ficava de paisagem. — Ela não podia mais continuar tentando, passando por isso de novo e de novo. Se ela o fizesse seria o seu fim, isso a destruiria.

— E então o que?! — Aurélio gritou virando-se de frente para a Rainha do Café de maneira brusca e a encarando. — Resolveu dar a sua própria filha praticamente para uma desconhecida por piedade?! — Os olhos dele exibiam dor e raiva, sentimentos que jamais estiveram presentes ali antes. Aquelas palavras atravessaram o coração de Julieta e a atingiu com toda a força, como uma espada sendo enfiada diretamente em seu coração.

— Como você ousa?! Eu jamais daria a minha filha por piedade e muito menos por dó! — Essa foi a vez dela gritar. Entendia a dor dele, entedia a mágoa e o sentimento de traição, mas jamais permitiria que a acusassem de tamanha frieza. Ela amava a sua filha, a sua menininha, e fez tudo o que fez para protegê-la. — Eu a dei por necessidade, algo que você nunca saberá o que é passar! Eu a dei por amor, para protegê-la! Eu a dei porque Helena seria uma mãe muito melhor do que eu, como já provamos que foi! Porque minha filha teria o que comer, teria o que vestir, teria amor! Porque minha filha teria uma família! Teria um pai e uma mãe que a amassem incondicionalmente, como de fato teve! — Julieta expeliu em gritos todas essas palavras, fazendo com que Aurélio a olhasse com os olhos cheios de lágrimas.

Ele não falou nada, apenas a fitava assustado com todas aquelas coisas que foram ditas. E agora foi a vez dela novamente suspirar e recuperar a calma que havia a deixado, precisava terminar de contar essa história, precisava retirar esse peso de suas costas. Levou as mãos ao lado do corpo e o esfregou, suspirou pesadamente e novamente retomou a posse de suas faculdades mentais.

— Dias se passaram e eu não vi mais Helena, afinal, ela não precisava mais se consultar. — Julieta continuou a história que contava anteriormente, a voz voltou a ser calma, mas ainda firme. — Mas um dia, quando saí de uma das minhas consultas ela estava lá, me aguardando. Disse que precisava conversar, me chamou para tomar um chá, e eu aceitei. Quando nos sentamos ela propôs que eu desse meu bebê, assim que nascesse para ela, e ela criaria essa criança junto do esposo como se sua fosse.

Flash-back on.

— Eu não farei isso. — Julieta colocou indignada a xícara em cima da mesa. Não podia acreditar que a amiga estava fazendo aquela proposta, era irracional e inadmissível. — Eu sinto muito que você tenha perdido o seu bebê, Helena, de verdade, mas não darei o meu filho para você.

— Eu sei que parece loucura. — A mulher tentou segurar a mão da mais jovem que estava em cima da mesa, entretanto, a mesma retirou, não permitindo ser tocada. — Mas eu posso dar o melhor para essa criança, eu posso dar coisas que você jamais será capaz. — As palavras ditas pela morena fizeram Julieta borbulhar de raiva, de indignação e até mesmo de dor, pois a mesma sabia que as palavras que ela dizia era verdade. Não seria capaz de dar emocionalmente e financeiramente o que esse neném precisaria e merecia.

— Como se atreve?! — Julieta bateu as mãos na mesa, exasperando toda a sua revolta. Inclinou o corpo para frente, enquanto a face exibia uma carranca. Isso chamou a atenção de todos que estavam em volta delas, mas elas sequer se importaram. — É meu bebê! Meu, somente meu! — A jovem falou com os dentes serrados, empurrou a cadeira e levantou-se.

Julieta caminhou com passos fortes para fora do estabelecimento. A respiração estava rápida e pesada, os olhos estavam marejados fazendo com que ela utilizasse toda a sua força para não deixá-las escorrer pelo rosto. Aquelas palavras tinham entrado em seu coração e atingido com toda a furor possível, pois sabia que jamais seria capaz de dar ao seu bebê o que aquela mulher poderia dar, e aquilo doía em cada parte do seu ser.

Já estava quase atravessando a rua quando sentiu o seu braço ser puxado. Ao virar-se encontrou Helena. Os olhos negros dela estavam profundos, obscuros, e Julieta viu nela algo que jamais tinha visto antes, algo que a assustava.

— Você sabe que não será capaz de amar adequadamente essa criança, igual não é capaz de amar adequadamente o seu outro filho. — As mãos da morena apertaram fortemente em volta do braço da mais jovem, mas isso não era capaz de machucá-la tanto quanto as coisas que lhe eram ditas.

— Solte-me! — Julieta ordenou, apesar do tom de voz sair baixo, estava determinada e firme, ordenando que lhe soltasse com autoridade. — Solte-me ou eu gritarei!

— Você será capaz de negar a esse bebê educação? Alimentos? Roupas boas? — Os dedos se apertaram ainda mais envolta do braço e Helena aproximou o corpo ainda mais perto do da menina grávida, encarando-a com olhos ferozes. — Será capaz de negar-lhe dois pais que vão amar essa criança incondicionalmente? De negar-lhe um amor que você nunca será capaz de dar?!

Julieta nada falou e sem ao menos perceber lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Sentia-se culpada, sentia-se suja por não poder amar os seus filhos da maneira que deveria, e doía ainda mais saber que jamais poderia amá-los porque ela era uma mulher quebrada, era marcada em seu corpo e em seu coração. Sentiu os dedos afrouxarem em volta do sem braço.

— Se você se importa mesmo com esse bebê, se o ama, saberá que isso é o melhor para ele. — Helena soltou definitivamente o braço de Julieta, a liberando após ver que tinha atingido-a exatamente onde querida, que tinha tocado na ferida aberta. — Me procure neste endereço quando mudar de ideia. — A morena retirou um pequeno papel da bolsa e entregou para a moça em sua frente. Tinha certeza que a mesma mudaria de ideia, que a procuraria.

Julieta pegou o papel com as mãos trêmulas e observou a mais velha sair caminhando pela rua, a deixando ali sozinha, com lágrimas correndo pelo olhos enquanto as pessoas que passavam por ali a olhavam estranhamente.

Flash-back off.

— Aquele dia eu cheguei em casa, e Judite, a mãe de Mercedes, disse que mais um cobrador tinha batido a nossa porta e levado muitos dos nossos móveis para cobrir uma parte da dívida. Camilo chorava incessantemente porque estava com fome e eu não tinha como alimentá-lo. Ele erguia os bracinhos para mim porque queria colo e eu não conseguia pegá-lo, o abraçar, não conseguia tocá-lo, não consiga amá-lo! — As lágrimas escorriam livremente pelo rosto da Rainha do Café enquanto as lembranças invadiam a sua mente e o sofrimento tomava conta do seu coração. — Ela estava certa, eu jamais seria capaz de sustentar esse bebê, eu não conseguia sequer sustentar Camilo. Eu jamais seria capaz de amar adequadamente esse bebê, amá-lo da maneira que merecia, porque eu não era capaz nem de amar adequadamente Camilo, nunca o amei como ele merecia. Eu nunca seria e nunca fui a mãe que meus filhos merecem.

Aurélio não podia acreditar que Helena, sua amável e doce esposa tinha dito aquelas coisas duras, desumanas para Julieta e muito menos que tivesse a capacidade de mentir para ele por toda a sua vida, de fingir que tinham tido um filho quando na verdade não era deles. Também não conseguia entender porque Julieta dizia não ser capaz de amar Camilo e aquele suposto bebê, não entendia porque tais defesas para sentimentos, para o afeto.

— Três dias depois, após pensar muito, eu a procurei e aceitei. — Julieta secou novamente as lágrimas e respirou fundo, procurando forças para continuar, para cavoucar toda aquela dor. — Eu precisava fazer isso pelo meu bebê, era o melhor para ele. Tudo o que eu fiz foi por amor.

— Por amor?! — Aurélio a questionou indignado, estava cansado dessas desculpas, estava cansado de escutá-la dizer que tudo o que fazia era por amor. — Você acha que isso é amar?! Você não sabe como amar, Julieta!

— Você está certo, eu não sei como amar. — Disse em um sussurro aflito, arrancando um olhar confuso do botânico, que não imaginou que esta seria a resposta dela. — Por isso eu dei o meu bebê, porque Helena sabia amar, e para a minha sorte o marido dela também sabia. — Ela pronunciou as palavras olhando diretamente para os olhos do futuro Barão. — Você soube amar Ema com excelência, de uma maneira que eu nunca saberia. — As palavras ditas por Julieta mexeram com os sentimentos dele, mas mesmo assim o loiro continuou a olhor com incredulidade. — O tempo foi passando e eu e Helena criamos um vínculo muito forte. Mesmo que eu não quisesse, ela trazia mantimentos, deixava a casa farta de alimentos. Trazia brinquedos para Camilo e roupas para mim, já que minha barriga estava crescendo cada vez mais. Mas além de tudo isso, ela trazia conforto, amizade, trazia um pouco de paz para os meus dias de aflição.

Flash-back on.

Os dias, as semanas e os meses se passaram, e sempre que Helena estava em São Paulo e o marido não estava junto, ela ficava na casa de Julieta. Os laços delas ficaram mais fortes e apesar dos pesares, a gestante sentia que ali poderia encontrar uma amiga. A mulher trazia mantimentos para a casa, sempre deixando comidas saborosas e deliciosas, nunca permitindo que nenhum deles ali passassem fome, principalmente Julieta e Camilo. Também dava carinho para Camilo quando estava ali, cuidava do menino, o colocava para dormir, o acariciava, dava o amor para o menino que a própria mãe não conseguia dar. Cuidava também de Julieta, garantia que a mesma estava se alimentando corretamente e vivia alisando a barriga da menina, dizendo o quanto já amava aquela criança e esperava ansiosamente pela vinda dela. Helena havia contratado uma parteira para ficar com a jovem grávida quando ela não estava ali, já que não morava em São Paulo.

A verdade é que Julieta sabia pouquíssimo sobre aquela mulher, sabia que ela não morava ali, mas não sabia em qual cidade residia, sequer sabia o nome de família dela. Ela havia dito que não poderia dar informações dela, já que a mesma poderia procurá-la e tirar o bebê depois, era um pacto que ambas haviam feito, mesmo que a jovem se sentisse contrariada com isso.

— Camilo já está na cama e dormindo tranquilamente. — Helena falou enquanto descia as escadas. Ela tinha chegado a pouco tempo e encontrado o pequenino precisando de atenção, sendo assim, o aconchegou em seu colo, acariciou os cabelos loiros dele e logo o viu adormecer. Então, o levou para cama e lá ficou com ele uns minutos, apreciando aquela visão. Queria poder levá-lo também, já havia se afeiçoado a ele, mas já era crescido, já tinha dois anos e não teria como explicar isso para Aurélio. — Como você está se sentindo? — A mulher perguntou enquanto sentou-se ao lado de Julieta no sofá e levou as mãos até a barriga dela, a acariciando levemente. — Como está o nosso bebê?

Julieta suspirou pesadamente. Sentir alguém a tocando ainda era difícil, extremamente difícil. Seu corpo ainda ficava tenso e ela sempre encontrava-se prendendo a respiração, mas sabia que não podia impedir a amiga de fazer aquilo, a mesma precisava de alguma maneira tentar sentir aquele bebê como se realmente fosse dela, como se realmente viesse do ventre dela. Entretanto, Helena sempre a tocava com cuidado, com leveza, com o cuidado máximo para não assustá-la, pois sabia dos traumas e historias que a menina havia passado.

— Como é o seu nome? — A jovem grávida a questionou, fazendo com que a mesma retirasse os olhos do ventre e voltasse para o seu rosto.

— Ora, meu nome é Helena! — A mulher falou com um sorriso nos olhos, mas deparou-se com um olhar de reprovação pela resposta e rapidamente o sorriso se desfez de seus lábios avermelhados. — Você sabe que não posso lhe dizer.

— Não entregarei o meu bebê a alguém que eu sequer sei o nome de família. — Ela disse determinada e ambas ficaram alguns segundos se encarando. As duas estavam decididas a vencer essa pequena guerra.

— Tudo bem. — Helena falou em suspiro pesado e retirou as mãos do ventre da amiga. Sabia que não venceria e que se não dissesse, a menina se negaria a entregar aquela criança que ela já amava tanto. — Me chamo Helena Ribeiro, mas isso é tudo que saberá sobre mim. — A mulher afirmou e Julieta imediatamente concordou, sabendo que não conseguiria mais informações sobre ela, que isso era tudo o que saberia daquela que ficaria com o seu bebê.

O que a jovem não sabia era que aquilo era mentira, o nome de família dela não era mais Ribeiro, agora utilizava o nome de casada, era conhecido por Helena Cavalcante. Disse o nome de solteira, porque sabia que Julieta seria incapaz de encontrá-la por esse sobrenome, já que os seus pais haviam falecido a alguns anos atrás e o restante dos parentes moravam fora do Brasil.

— Só um minuto, eu já volto. — Helena interrompeu o silencio desconfortável que se fez na sala. Levantou-se e desapareceu na cozinha.

A gestante levou as mãos no ventre e as acariciou de maneira desajeitada, como se estivesse com medo de tocá-la e contaminar essa criança com a sua podridão. Quando a amiga voltou ela imediatamente tirou as mãos da barriga e observou a morena. Franziu a testa quando viu que a mesma carregava um bolo nas mãos e um sorriso aberto nos lábios. Judite, carregava alguns pratos e talhes atrás dela e ambas deixaram as coisas em cima da mesa de centro.

Julieta observou o bolo, era enfeitado, elegante, parecia saboroso. Lembrou-se de ver bolos assim nas casas de chá e confeitarias que tinha pelas ruas de São Paulo, mas nunca os tinha experimentado, nunca tivera dinheiro para desfrutar tal luxo.

— O que é isso? — Ela questionou com as sobrancelhas erguidas e a testa enrugada. Lhe era estranha tal atitude, a amiga parecia querer comemorar algo, mas ela não fazia ideia do que poderia ser.

— Um passarinho me contou que semana passada a senhora completou vinte anos. Devemos comemorá-lo! — A mulher falou animadamente e imediatamente começou a cortar o bolo, sem que desse tempo de protestar.

Apesar de Julieta ter dito inúmeras vezes que não precisava, a mulher insistiu e não se aquietou até que a jovem se desfrutou nos sabores doces daquele bolo. Ambas passaram a tarde desfrutando da comida deliciosa e conversando sobre assuntos diversos, os quais não envolvia os problemas que as cercavam. Pela primeira vez em anos, Julieta se sentiu leve, se sentiu cuidada e protegida, sentiu que tinha um ombro amigo para lhe confortar.

Flash-back off.

— Por que está dizendo isso, Julieta? — Aurélio se aproximou, com as mãos na cintura. A respiração estava forte, com a dor e indignação que sentia. — Helena tinha barriga, que crescia gradualmente. — Ele relatou. Apesar de não poder tocar, a esposa tinha a barriga de grávida que cada vez ficava maior, indicando o crescimento de Ema.

— Era uma barriga falsa. — Ao dizer tais palavras, o homem virou-se novamente para a janela, exasperado pelas sandices que a Rainha do Café falava. — Ela contratou uma costureira que fazia essas barrigas em cada quinze dias. Usava-as todos os dias, até mesmo no momento de dormir. Por isso que você não podia tocá-la, não podia amá-la e sequer vê-la sem os seus trajes.

Flash-back on.

Julieta estava com os braços esticados ao lado do seu corpo de maneira vertical, enquanto a costureira tirava as medidas da sua barriga. Isso servia para que a modista fizesse uma barriga de grávida para Helena, a qual usaria dois meses depois, para a família pensar que a gravidez seguia normal.

Após ter dito que aceitava a proposta da mulher, a mesma explicou que a família não sabia de nada, que o marido não tinha conhecimento de que a mesma havia perdido o bebê. Sendo assim fingiria que tudo seguia normal, fazendo o mesmo pensar que o neném que seria dado a ela, tinha mesmo nascido do seu ventre. Julieta não se importava como a amiga faria isso, tudo o que importava era que o seu bebê fosse amado incondicionalmente. Apesar de não conhecer o marido de Helena, sabia que ele era um bom homem, pois nunca ouvira a mulher falar uma palavra sequer negativa do homem, pelo contrário, sempre falava coisa positivas, amorosas e afetuosas. Sabia que essa criança seria amada e protegida.

— Julieta. — Helena disse com a voz suave, ficando na frente da mais jovem quando a costureira terminou de tirar as medidas. — Aquelas coisas que eu te disse aquele dia, depois que saímos da casa de chá, eu...

— Você estava certa. — Interrompeu duramente. A menina desviou o olhar, não queria encará-la, não por raiva, mas por vergonha. Sim, vergonha de não conseguir ser a mãe que seus filhos mereciam. — Isso não importa mais, Helena. Tudo o que importa é o bem dos meus filhos, a felicidade deles, custe o que custar. — Julieta sentiu os olhos ficarem marejados e tentou afastar-se, mas sentiu as mãos da mulher pegar as suas e impedi-la de se distanciar.

— Deus mandou o nosso socorro. — Ela disse, apertando as mãos da jovem delicadamente. — De uma maneira que não imaginávamos, mas Deus escreve certo por linhas tortas, não é mesmo? — Um sorriso amoroso se fez presentes nos lábios de Helena. — Você é o socorro para a minha dor, e eu sou o seu provimento. — A mulher aproximou-se de Julieta e a surpreendeu, a abraçando com amor, com compaixão, com carinho. — Nossas vidas estarão para sempre entrelaçadas. — A jovem grávida colocou vagarosamente os braços em volta do corpo magro da mulher e permitiu que algumas lágrimas escorressem dos seus olhos.

Flash-back off

— Hoje eu sei que ela morava aqui no Vale do Café, mas estava todo mês em São Paulo. Ela lhe dizia que apenas os médicos de lá eram capacitados, não é? — A Rainha do Café questionou e Aurélio imediatamente se virou, a olhando com os olhos assustados. — E também não permitia que você fosse junto, estou certa? Dizia que precisava auxiliar o seu pai, ficar junto dele, e você ficava. Helena era muito amável e dócil, mas sabia ser manipuladora quando queria, principalmente com você.

— Não fale assim de Helena! — O filho do Barão exaltou-se novamente, e aproximou-se da empresária, exibindo um olhar irado e magoado. — Você não tem esse direito!

— Você sabe que estou falando a verdade. Por isso que mesmo sendo um pai tão dedicado você não esteve presente no nascimento da sua filha. — Julieta pronunciou as palavras calmamente, de uma forma suave, em uma tentativa de que suas palavras não o ferissem tanto.

Aurélio sentou-se no sofá, apoiou os cotovelos no joelhos e colocou a cabeça entre as mãos. Cada palavra que ela lhe dizia doía no fundo da sua alma, a mulher que admirava parecia saber cada detalhe daquela fase da sua vida, detalhes esses que nunca dividira com ninguém. Somente ele, seu pai e sua mãe sabiam que o mesmo não tinha presenciado o nascimento de Ema, e quando isso aconteceu ele sentiu-se despedaçado por não ter estado presente no momento mais importante da sua vida: o nascimento da sua menininha.

— Ela lhe disse que foi para uma consulta regular e o impediu de ir junto, fazendo-o ficar. E então, quando você foi para São Paulo, após receber uma carta dela dizendo que o bebê de vocês havia nascido.... — Julieta continuou, explicando toda aquela farsa, encaixando cuidadosamente as peças do quebra cabeça. Sabia de todos esse detalhes porque a amiga compartilhou com ela que este seria o plano. — ... Ela lhe disse que Ema nasceu antes do tempo, mas não é verdade, Ema nasceu exatamente no tempo adequado. Helena precisou te dizer isso porque eu havia ficado grávida antes do que ela, e isso foi até bom, já que assim, com supostamente o bebê nascendo antes do tempo, você não estaria presente no parto.

O filho do Barão permitiu que as lágrimas escorressem livremente pelos seus olhos, molhando todo o seu rosto. Ouvir a Rainha do Café lhe dizendo tais coisas, coisas das quais ele desconhecia sobre sua falecida esposa e sobre a filha faziam o seu coração sangrar, mas doía-lhe mais ainda ouvir ela falando de Ema como se fosse sua filha, com tanta convicção, com tanta certeza.

— Quando o meu bebê nasceu eu o entreguei para Helena, eu entreguei a minha menininha para outra pessoa. — As lágrimas molhavam cada parte da bochecha delicada dela, e a voz saía rouca e chorosa, cheia de angústia. O arrependimento era nítido, bem como a dor que a mesma sentia. — E nunca mais vi Helena, também nunca mais vi a minha bebê, pelo menos era isso o que eu pensava.

Flash-back on.

A parteira a mandava empurrar e assim Julieta o fazia. Os gritos de dor enquanto empurrava saiam aflitos pela garganta, o corpo todo estava suado e os cabelos grudavam em sua testa. Sentia a mão de Helena apertar a sua e incentivar que a mesma continuasse empurrando, que não desistisse. Depois de muito esforço e um tempo do qual não sabe determinar, escutou o choro do bebê finalmente ecoar pelo quarto.

— É uma menina! — A senhora que fez o parto anunciou, fazendo com que o sorriso de Helena crescesse de maneira encantadora.

A jovem suspirou aliviada e tentou relaxar contra o colchão, enquanto tentava recuperar a respiração. Entretanto o seu coração estava apertado, pois sabia o que aconteceria em seguida. Seus olhos foram até a mulher de cabelos brancos e viu que a mesma segurava o bebê em seus braços enquanto a recém nascida chorava incessantemente. A senhora aproximou-se de Julieta e tentou colocar a criança em seu colo, mas a mesma não aceitou, negando com a cabeça e afastando levemente o corpo. Não poderia pegar aquele bebê em seu colo, seria muita dor pegá-la e depois a deixar ir, não sabia se podia suportar.

— É o momento, Julieta. — A voz de Helena falou suavemente ao lado, enquanto a mesma retirou em forma de carícia algumas cabelos grudados pelo suor na testa da jovem. — É o momento de se despedir. Você precisa fazer isso por ti e por essa criança. — A mulher deu um aceno para a parteira e a mesma colocou a recém-nascida no colo da mãe biológica.

Julieta segurou firmemente o bebê em seus braços, e imediatamente a recém-nascida diminuiu o choro ao sentir o calor da genitora, até que definitivamente parou de chorar. Entretanto, agora era a sua mãe que chorava. As lágrimas da jovem escorriam incontrolavelmente pela face enquanto ela observava a sua menininha ainda suja de sangue em seus braços.

— Por favor, me desculpe, minha menina. Perdão, minha filha... — Julieta falou entre as lágrimas para o bebê, por mais que a pequenina não podia entender ela queria que a mesma soubesse o quanto sentia por ter que deixá-la ir. — Eu só estou fazendo isso porque te amo, porque quero te proteger do furor da vida, quero te proteger do monstro que eu sou. — Ela delicadamente levou os lábios até a testa da recém-nascida e a beijou, demorando-se ali um pouco. — Eu te levarei para sempre no meu coração, e espero, que mesmo inconscientemente você me leve também no seu. — Apertou delicadamente a pequenina em seus braços, querendo gravar a sensação de segurá-la. Depositou mais um beijo na testa dela. — Nunca se esqueça que eu te amo, te amarei para todo o sempre. — Julieta sussurrou e então sentiu a parteira retirar a bebê dos seus braços, deixando apenas o frio do vazio, a dor, a solidão.

Ela chorou como nunca antes ao ver o bebê ser retirado dos seu colo e em seguida do quarto, pois sabia que nunca mais a veria, não estaria presente nos primeiros passos dela, nem na primeira palavra, não veria qual seriam a cor dos seus olhos, dos cabelos. Sabia que nunca mais veria a sua menininha, que tinha perdido a sua filha, e a dor era devastadora. Nem as violências mais sórdidas de Osório, nem as surras que levou tinham lhe causado tanta dor quanto ter a sua filha retirada dos seus braços.

— Eu lamento que as coisas estejam acontecendo assim. Que a vida seja tão traiçoeira contigo. — Helena falou e assim como Julieta, ela chorava, doía-lhe tirar o filho de uma mulher apenas para que ela fosse feliz e assustava-a saber o quão egoísta era. — Mas eu vou rezar até os fins dos meus dias para que você supere as suas adversidades e para que você sinta o amor, mas principalmente, saiba amar. — A mulher falava as palavras com a voz embargada enquanto segurava firmemente a mão da amiga. Levou os lábios até a bochecha da mais nova e ali depositou um beijo, um beijo de despida daquela jovem, daquela que lhe concedeu a mais pura alegria de todas: uma filha. — Eu prometo que lhe darei notícias da criança. — Ela sussurrou, ainda perto de Julieta. As lágrimas corriam livremente e molhavam o rosto de ambas, pois agora as duas sabiam a dor de perder um filho. — E por favor, não chores mais Julieta. A vida é para ser bonita. — Helena olhou novamente no fundo dos olhos da moça e com a mão livre limpou uma lágrima que corria pelos olhos dela. — Adeus, minha amiga. Eu jamais lhe esquecerei.

Helena suspirou fundo e soltou as mãos de Julieta. Por mais que lhe doesse fazer isso, ela precisava fazê-lo, sendo assim, virou as costas e caminhou para fora do quarto. As lágrimas escorriam pelo olhos, por mais que ela as limpasse, elas voltavam sendo insistentes em mostrar a sua aflição. Estava feliz por ter o seu bebê, o filho que tanto desejou, mas dói-lhe estar machucando outra pessoa e principalmente, estar ferindo alguém que tanto amava, que tinha como amiga. Ela afastou os pensamentos e desceu as escadas para encontrar a parteira e sair dali para iniciar uma nova vida com sua família.

Julieta por sua vez, chorava incessantemente dentro do quarto e quando se viu sozinha ela se permitiu gritar. Foi um grito alto, estridente e cheio de dor. Da dor de uma mãe que acabara de perder o seu bebê, da dor de uma mãe que jamais veria a sua filha.

Flash-back off.

— Eu melhorei de vida, consegui me reerguer, consegui construir um império. E então eu comecei a procurar Helena e minha filha incansavelmente. Não tinha mais motivos para não a ter comigo, eu tinha condições de sustentá-la. Mas eu não consegui, eu nunca consegui encontrá-las. — Novamente, a Rainha do Café limpou as lágrimas nos olhos e tentou manter-se firme, mesmo com as emoções a invadindo de todas as maneiras possíveis. — E agora, quando eu já estava desacreditada, quando achei que jamais veria a minha menina, o destino tratou de nos unir.

Tal comentário fez com que Aurélio levantasse a cabeça e olhasse diretamente para ela. A face dele estava avermelhada e o rosto encontrava-se banhado pelo pranto. Ouvi-la chamar Ema de sua menina fazia com que ele se sentisse fraco, como se todas as suas forças fossem retiradas do seu corpo, sentia como se aquilo que era mais precioso em sua vida fosse arrancado de suas mãos.

— Eu não acredito em uma palavra do que me disse. — O filho do Barão reafirmou. As coisas que Julieta havia lhe dito se encaixavam em algumas partes de sua história que antes pareciam não ter uma explicação lógica, bem como ela sabia detalhes que ninguém nunca soube. Mas ele não podia acreditar, não queria acreditar que a sua filha, que a sua doce e amada Ema não era de fato sua.

— Você não precisa acreditar em minhas palavras. — Julieta falou duramente, o fitando com um olhar ofendido. — Eu disse que eu podia provar e eu vou. — Ela se direcionou até a estante de livros e de trás de uma da obras literárias retirou uma chave, que parecia lá ficar escondida. Caminhou até um armário e o abriu, retirando uma caixa antiga.

Era uma caixa pequena de madeira, sem muitos detalhes, continha nela um cadeado grande. A Rainha do Café encaixou a chave no cadeado e o abriu, retirando de dentro um punhado de cartas que se encontravam juntas, envoltas por uma pequena fita dourada, tirou também o que parecia ser um livro, de capa marrom. Com os objetos na mão, ela caminhou e sentou-se ao lado de Aurélio, que a olhou com a testa franzida.

— Helena cumpriu a promessa que me fez, constantemente me enviava notícias da minha filha. — Julieta colocou o punhado de envelopes na mão do homem, que após relutar um pouco, finalmente as segurou. Segurava-as como se as mãos pegassem fogo, como se o machucassem. — As cartas não tinham selos, por isso eu não conseguia identificar de qual cidade vinham e consequentemente não conseguia descobrir onde Helena morava. Ela também não citava o nome que dera para a minha filha, nem falava sobre a família, dava apenas informações de como a minha bebê estava. Mas, apesar de sucintas, as palavras escritas por Helena confortavam o meu coração de alguma forma. Até o dia em que não as recebi mais. — Ambos sabiam porque as cartas não foram mais enviadas, porque a esposa do botânico havia falecido. — E este... — A Rainha do Café colocou o livro da capa marrom nas mãos de Aurélio. — É o meu diário, onde relatei essa fase dolorosa da minha vida. Ninguém nunca os leu, além de mim, mas eu quero, eu preciso que você o faça. — Os olhos dela suplicavam que o homem atendesse o seu pedido, que lesse aqueles papéis dedicadamente, porque só assim ele acreditaria e constataria que era verdade tudo o que ela contou.

— Eu as lerei. — O futuro Barão declarou e os olhos azuis se encontraram com os castanhos em um misto de emoções de ambas as partes. — Mas não agora, não aqui, porque no momento eu não posso sequer olhá-la sem sentir como se uma espada estivesse atravessando o meu coração. — As palavras dele saíram sérias, dolorosas, atingindo da mesma maneira a mulher que o fitava apreensivamente.

— Leve-as consigo, tome o seu tempo. — Julieta disse e viu imediatamente o loiro se levantar e ir em direção a porta. — Aurélio, você não precisa nunca mais me ver se não quiser. — Ela disse antes que ele saísse do escritório e o mesmo se virou e a fitou com certa amargura. — Mas não me peça para ficar longe da minha filha, e nem me impeça de vê-la, de me aproximar dela, porque eu não farei isso. — As palavras saíram determinadas, e mais uma vez ela vestiu a atitude e a máscara de Rainha do Café.

— Ema é minha filha. — A voz dele eram como o de um leão, decidido a cuidar e defender o seu filhote a todo custo, com todas as garras. — E a protegerei de tudo e de todos, se necessário for.

Aurélio abriu a porta do escritório, com a mente perturbada e o coração aflito deixou aquela fazenda. Não saberia o que faria, como reagiria ou sequer se leria aqueles papéis e diário que lhe foram entregues, tinha medo do que encontraria lá, tinha medo de que o seu pior pesadelo se tornasse realidade. Ele se foi, e deixou para trás Julieta, que na privacidade do seu escritório se permitiu chorar da mesma maneira que chorou quando a sua filha, sua menina, sua Ema foi tirada dos seus braços.

Notas finais
E então? Por favor, me digam o que acharam desse capítulo! O que acham que Aurélio vai encontrar nessas cartas e diários? Será mesmo que ele terá coragem de lê-las? Quero saber a opinião de vocês ein, é muito importante pra mim! Beijokas ;**
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.