Trevas de Sangue

4 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒆 𝑪𝒂𝒃𝒓𝒂, 𝒔𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒆 𝒂𝒓𝒆𝒏𝒂


CARMINE

A luz da manhã entrava fraca pelas frestas da janela, cobrindo o quarto pequeno em tons acinzentados.

Carmine acordou sem pressa, o corpo pesado como sempre, os membros formigando de um jeito que ela já conhecia bem demais aquela fome de sempre, chata e constante, um lembrete diário do que ela era.

Desceu até a cozinha, onde sua mãe, Adelina, já mexia alguma coisa numa panela sobre o fogo, o cheiro de pão e ervas se misturando ao ambiente.

Adelina — Bom dia, meu sol – disse, sem tirar os olhos da panela.

Carmine — Bom dia, mainha –respondeu, a voz ainda arrastada de sono, indo direto ao armário de baixo, onde guardava, num pote de barro fechado, o que precisava.

Sangue de cabra, colhido no açougue da vila em troca de uns remendos de roupa feitos de graça pelo açougueiro.



Ela bebeu em silêncio, sem cerimônia, o gosto metálico já familiar demais para causar qualquer reação no rosto.

Terminou, limpou a boca com as costas da mão, e sentiu o mesmo de sempre um alívio pequeno, suficiente para se manter de pé.

A fraqueza não sumia, nunca sumia de verdade, só ficava tolerável.

Adelina —Você tá pálida hoje – finalmente olhando pra filha, a preocupação de mãe entalada atrás de um tom leve de propósito.

Carmine — Eu sempre tô pálida, mainha. Faz parte do charme.

Carmine sorriu, o mesmo sorriso largo de sempre, o mesmo que ela usava no palco, o mesmo que ela usava para qualquer pessoa que perguntasse como ela estava.

Adelina não pareceu convencida, mas também não insistiu sabia, depois de anos, que insistir só fazia a filha sorrir mais forte ainda, como se o sorriso fosse escudo.

Adelina — Come um pão antes de irmos pra barraca, pelo menos.

Carmine — Isso eu como com prazer.



A barraca de Adelina e Carmine ficava numa esquina movimentada perto da praça principal, rolos de tecido coloridos empilhados em prateleiras de madeira, fitas e linhas penduradas em ganchos, um manequim de palha vestindo o último vestido que tinham feito pra encomenda da prefeita local.

Carmine ajudava a organizar os rolos quando um homem grande, de barba rala e um machado pendurado nas costas, se aproximou, o rosto já conhecido das duas.

Homem —Adelina! – ele chamou, animado.

Homem — E a Carmine, minha atriz favorita.

Adelina —Tobias! vai lutar hoje à tarde?

Tobias —Vou, vou. E preciso de um favor.

Tobias coçou a nuca, meio sem jeito.

Tobias— Meu forro de gibão rasgou de novo, aquele mesmo lugar de sempre, embaixo do braço. Preciso de um tecido reforçado, mas que não pese, sabe? Não posso lutar com o braço travado.

Carmine — Aquele linho encerado que eu trouxe mês passado ainda tem? –perguntou pra mãe, já puxando um rolo específico da prateleira de trás.

Adelina —Esse mesmo, reforçado, leve, e ainda segura bem uma facada de raspão, se for o caso.

Tobias —Perfeito. –Bateu ás mãos aliviado

Tobias — Vocês duas sempre me salvam antes das lutas, um dia desses eu pago vocês em dobro, prometo.

Carmine —Você promete isso toda temporada, Tobias

Carmine provocou, já cortando o tecido na medida certa com tesoura afiada, os movimentos rápidos e precisos apesar do cansaço que carregava por dentro.

Carmine — E toda temporada eu deixo passar porque gosto de você.

Tobias riu, pagou o que devia em moedas dessa vez, sem enrolação e se despediu acenando, já se afastando em direção à tenda de inscrições, o tecido novo debaixo do braço.

Foi nesse instante, enquanto guardava as tesouras de volta no lugar, que Carmine sentiu.

Um arrepio na nuca, que gelou ainda mais seu corpo

Ela virou a cabeça e viu pousado no beiral do telhado da barraca vizinha, imóvel, olhando diretamente para ela

um corvo

Grande, penas muito escuras, e os olhos... os olhos eram violetas, brilhando de um jeito que nenhum olho de pássaro deveria brilhar.

Carmine franziu a testa, encarando o bicho por um segundo mais longo do que pretendia.

—Estranho — ela murmurou baixinho, mais para si mesma.

—O que foi? — Adelina perguntou, sem levantar os olhos do tecido que dobrava.

Carmine olhou de novo pro telhado. O corvo continuava lá, parado, os olhos ainda fixos nela, como se estivesse esperando alguma coisa.

Carmine — Nada, só... um corvo esquisito.

Adelina — Corvo é sempre esquisito, minha filha, bicho de mau agouro

Adelina deu de ombros, sem se abalar.

Adelina — Ignora.

Carmine sorriu, balançou a cabeça, e voltou a atenção pro próximo rolo de tecido que precisava organizar, deixando o pensamento sobre o pássaro se dissolver rápido no meio da manhã cheia de clientes e trabalho do jeito que ela fazia com quase tudo que a incomodava.



Lyzza estava ajoelhada no chão do quarto, uma pequena caixa de linha e agulha ao lado, o número de tecido que Lydianna recebera na inscrição já cortado nas medidas certas, pronto para ser costurado na armadura de couro reforçado que a irmã vestia.

Lydianna ficava parada, os braços um pouco afastados do corpo, permitindo o trabalho, os olhos fixos num ponto qualquer da parede, a mente longe dali, ela terminava de colocar seu tapa olho no olho direito.

Lyzza costurava com precisão, os pontos rápidos e firmes, aprendidos de anos ajudando a mãe com os trabalhos de costura da casa. De vez em quando, olhava pra cima, checando o rosto da irmã, que continuava tenso, distante.

Terminou o último ponto, e cortou a linha com os dentes, e deu um leve tapinha no peito da armadura, indicando que estava pronto.

Lydianna baixou os olhos, olhando o número costurado sobre o peito um lembrete simples e burocrático de que, em poucas horas, ela ia subir numa arena e fazer o que tinha vindo fazer.

Lyzza colocou a sua mão frente ao peito e a balançou,e depois apontou para irmã

"Cuidado."

Lydianna assentiu, uma vez, sem palavras, e pegou a espada apoiada na parede.




O sol já subia forte quando Lydianna e Lyzza chegaram aos portões da arena uma estrutura de madeira e pedra erguida nos arredores da cidade, gradeada, com arquibancadas de tábuas já lotadas de gente gritando, apostando, comendo coisas fritas compradas de vendedores ambulantes.

Lydianna parou junto à entrada reservada aos lutadores, ajustando a bainha da espada nas costas.

—Eu volto — ela disse, simplesmente, olhando pra irmã.

Lyzza tocou com 3 dedos nas suas bochechas, depois nariz e fez um gesto com a mão como se jogasse algo no ar em direção a Lydia.

Eu te amo



Lydianna deu um leve sorriso e repetiu o gesto, e em seguida foi em direção a arena pelo portão dos competidores, sumindo entre as outras figuras armadas.

Lyzza ficou parada por um instante, olhando o movimento da multidão, sem saber muito bem para onde ir, até sentir uma mão leve tocar seu ombro por trás.

Carmine —Ei! Você! A quieta!

Carmine já estava ali, um chapéu ridículo de abas largas na cabeça, provavelmente roubado de algum vendedor de bugigangas.

Carmine — Vim procurar vocês, mas só encontrei metade do pacote. A guerreira sumiu?

Lyzza apontou pro portão dos lutadores, depois fez um gesto de espada cortando o ar.

Carmine —Ah, ela já entrou. Certo, certo. A loira assentiu, satisfeita consigo mesma por ter decifrado o mímico.

Carmine — Então parece que sobrou eu e você. Combina! Duas que ninguém entende direito, ótima dupla.

Lyzza revirou os olhos, mas o canto da boca se ergueu de leve.

Carmine —Vem, eu conheço um lugar bom na arquibancada, perto o suficiente pra gente ver tudo e longe o suficiente do cara que sempre vomita depois da terceira caneca.

Elas subiram até um canto mais afastado, sentando-se lado a lado.

Carmine, incapaz de ficar quieta por mais de dez segundos, se virou para Lyzza outra vez.

Carmine —Então, me conta uma coisa – ela começou, ajeitando o chapéu.

Carmine — Você gosta de doce ou salgado?

Lyzza ergueu uma sobrancelha, confusa com a pergunta aleatória, e fez um gesto vago com a mão, indicando "os dois", ou talvez "nenhum", ou talvez apenas "não sei do que você tá falando".

Carmine — Isso foi um sim para doce ou um sim pra salgado?

Lyzza suspirou, e tentou de novo

Apontou pra boca, depois fez o gesto de mastigar, depois ergueu os dois polegares.

Carmine — Ah! Você gosta de comer. Ótimo, isso é universal, todo mundo gosta de comer. Progresso.

Lyzza balançou a cabeça, meio rindo, meio frustrada, e tentou uma abordagem diferente desenhou no ar, com o dedo, a forma de um doce qualquer, um bolo talvez.

Carmine —Bolo! Você quer bolo? Eu também quero bolo, mas isso não responde minha pergunta original.

Lyzza fechou os olhos por um segundo, e então simplesmente ergueu as duas mãos, palmas pra cima, em rendição.

Carmine —Tá, entendi, você desistiu de se comunicar comigo. Sábia decisão, honestamente.

Carmine riu, sem nenhum traço de ofensa.

Carmine — Mas oh, olha, tá começando!

Um homem gordo de bigode farto, o mesmo escrivão da tenda de inscrições, subiu numa plataforma de madeira no centro da arena, erguendo os braços para a plateia.

Homem —UMBRIANOS e VIAJANTES – ele gritou, a voz ecoando pelo espaço aberto.

Homem — Chegou a hora da Tarde de Lutas!

A multidão rugiu.




Seis guerreiros entraram pela grade principal, cada um em silêncio, avaliando os adversários com olhares calculistas.

Armaduras de couro e metal, espadas, machados, um homem magro carregando um arco às costas, escudos de madeira reforçada.

Lydianna entrou por último, o número costurado no peito, o cabelo branco preso num rabo apertado apenas com sua franja escapando, o tapa-olho firme no lugar.

Alguns cochichos escaparam da plateia

Um dos guerreiros, um sujeito alto, de queixo quadrado cuspiu no chão perto dela.

Este era Marvin, um guerreiro famoso de Umbriana, vencedor de vários destes torneios, muitos apostam nele. Ele parecia ter um 1,80, tinha cabelos cacheados que escapavam de seu elmo, e uma barba bem feita.

Marvin — Cuidado com essa aí, deve ter vindo achando que é festa de dança

ele disse aos outros, e dois deles riram.

Lydianna não respondeu. Apenas ajustou a pegada na espada.

O sino tocou, e a batalha começou, o primeiro nome da sua lista seria riscado…