Notas iniciais
Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro.
Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você. (NIETZSCHE, F. - 1997)

- Sem pontas soltas. — Ouvi, cego pelas lanternas voltadas propositalmente para mim. Tentei me fazer o mais pequeno possível, é instintivo, sabe, pensar que se ficar bem quietinho talvez você saia dessa. Pela primeira mas não única vez naquela noite, me perguntei o que teria acontecido se eu não tivesse ficado para terminar o artigo na editora, se eu tivesse deixado para outro dia ou terminado em casa. Imagino que agora não importa.

Nada aconteceu por um tempo — segundos, minutos ou horas, eu não saberia dizer, só sabia que um gatilho não leva tanto para ser puxado. Senti a esperança borbulhar em meu peito. Houve uma rápida discussão numa língua rápida entre quem estava em minha frente e alguém externo à situação, enquanto seu companheiro vasculhava meu cubículo. E depois, nada.

- Levanta ele. Vamos. — E o outro levantou-me pelos braços, forçando-me a ficar em pé e caminhar. A lanterna agora mirava o chão enquanto nos movíamos, rápidos e quietos, saindo do prédio. Meu coração martelando minhas costelas, tão forte que doía, tão pesado que era difícil respirar. Não podia ser uma mudança boa, e as bolhas de esperança estouraram rápido: eu não me sentia muito a fim de tomar um ar com meu possível assassino.

Não lembro como saímos do prédio, mas sei que não vi ninguém até estarmos longe dele, quando o rosto de um de meus acompanhantes foi brevemente iluminado pelo luar. Cachos castanhos, boné, casaco muito grande. E então um saco preto na minha cabeça, algemas de plástico e um porta-malas onde tive de me encolher.

Não ouvi outros carros, não ouvi conversas entre os dois, apenas o rádio tocando clássicos dos anos 60 e o asfalto mal feito sob os pneus. Quando paramos era o meio da noite, no meio do nada.

O porta-malas foi aberto e a mesma pessoa de antes tirou-me o capuz. Logo depois, foi se escorar no lado esquerdo do carro, enquanto sua dupla fazia o mesmo do lado direito. O silêncio daquele momento foi a pior parte da noite, como se fosse a deixa para um alguém sair do escuro gritando surpresa, uma pegadinha de mal gosto, talvez um programa de TV.

Mais o tempo de uma respiração, e me sentei na borda. Estávamos nos arredores de alguma cidade — sem marcas para poder me localizar, iluminados apenas pela luz das estrelas de uma noite linda de lua crescente.

Então houve movimento. De um carro estacionado ao lado, saiu uma terceira pessoa. Essa pessoa, teve uma curta conversa na mesma língua desconhecida para mim com os outros. Acenderam cigarros, e então ela veio até mim.

E, de repente, eu fiquei muito consciente do quão suado estava e do sangue no canto da boca, onde me mordi em nervosismo. Era mais alta que eu e emitia uma aura de liderança, de confiança, mesmo com seu rosto encoberto por um lenço. Falei muito devagar para não gaguejar.

- Então, você vai me matar?

Seguiu-se um riso suave, reconfortante.

- Não, Fernando, não tenho pretensão de causar-lhe mal algum. Você não me conhece, mas eu te conheço. Me chame de Maria. Não temos muito tempo, então vou direto ao ponto, acho que você também só quer ir pra casa e dormir.

Estendeu-me o maço de cigarros, que recusei com um aceno. Guardou-o enquanto tragava, e soltou a fumaça devagar.

- Você é um jornalista mal pago num emprego sem futuro com um chefe sem visão. Eu gostaria de recrutar o senhor para escrever a história do nosso ponto de vista, da Resistência. Eu gostaria que você nos mostrasse heróis, pois com certeza o outro lado não vai. Não garanto pagamentos, não somos muito bons nisso. Também não prometo nem glória ou fama, mas creio que entende que se alcançá-las, não serão pequenas.

Uma pausa, mas o sentimento de que Maria não havia terminado de falar me manteve quieto — não que eu tivesse muito à dizer. Acenei com a cabeça novamente, para mostrar que prestava atenção. Ela mexeu em alguns bolsos do sobretudo e tirou de um deles um celular e um cartão. Pegou minha mão direita nas suas, enluvadas, e os colocou sobre ela.

- Isso não é uma ameaça, é um convite. Para ver a história sob outra perspectiva. Para fazer história.

E soltou minha mão com delicadeza. Havia um certo pesar em sua voz, gentileza em como se portava. Eu devia parecer miserável, realmente.

- Tem um celular pré-pago e um cartão de táxi aqui. Caminhe por uns 10 minutos naquela direção. — E apontou os morros à sua direita. — E estará na rodovia. Caso se interesse, venha ao endereço que lhe deixei escrito atrás do cartão.

Houve uma pausa educada, como se ela esperasse alguma reação minha. Imagino que eu devia ter dito algo, não só ter ficado ali, quieto. Maria suspirou e disse algo para os outros rebeldes, que começaram a se movimentar metodicamente, cortando as algemas dos meus pulsos e tornozelos.

- Lamento pelo modo como tivemos de fazer isso, Semper. Você deve entender que para nós, segurança se tornou prioridade. Ah, por favor, não chame a polícia. Isso é uma ameaça.

E saiu em passos largos, entrando no assento do motorista do sedã escuro ao lado. Um dos rebeldes me puxou pelo braço, me fazendo ficar em pé novamente, e fechou o porta malas. Carros foram ligados e partiram. Sem placas.

Quando escrevia notícias de acidentes e crimes e as vítimas diziam que "tudo aconteceu muito rápido" eu costumava balançar a cabeça e pensar que era apenas uma desculpa para não reviver o medo, ou que escondiam algo.

Meu nome é Fernando Semper. Foi nessa noite de agosto que fui arrancado da minha rotina confortável por rebeldes, sequestrado da editora do jornal local para ter um encontro privado com uma das líderes dos rebeldes, facção que se opunha ao governo atual, que já havia perdido em sua primeira insurreição, e que agora me convidava a escrever sobre eles.

Naquele momento, observando as luzes dos carros se afastarem para o desconhecido, percebi que, de fato, tudo acontecia muito rápido. Fiquei alguns minutos encarando o celular e o cartão em minhas mãos. Tudo parecia muito surreal. Segurei-os com força. Com frio e grudento de suor, comecei a caminhar em direção à rodovia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.