Trem de Pensamentos

1 Trem de Pensamentos [Capítulo Único]


- Trem com destino à XXX. Partindo na plataforma YY.

Era só aquela voz feminina anunciar da onde o trem sairia que a guerra pela sobrevivência começava. Todo santo dia era a mesma coisa. Quando o relógio batia cinco horas da tarde, a maioria dos empregados e consumidores que estavam no centro da cidade corriam em direção à estação de trem mais próxima. Se alguém se perdesse entre as ruas que, para quem visitasse pela primeira vez, pareciam ser todas iguais, era só seguir o maior grupo de pessoas que visse. Pois todos iriam para o mesmo lugar. Eram centenas de pessoas andando o mais rápido possível para pegar um lugar no vagão que chegava vazio e partia insuportavelmente cheio.

E entre essas pessoas estava Rodrigo. Um trabalhador que exercia o emprego em um escritório no centro da cidade. Todo dia ele saía ás cinco e meia da manhã para estar no trabalho ás nove. De onde só sairia para um almoço ao meio dia e depois estaria livre ás cinco da tarde. Não aguentava ter de pegar o trem tanto na ida quando na vinda lotado. Era um inferno diário. Mas fazer o quê, se esse era o único jeito de chegar ao trabalho? Tudo bem que poderia ir de ônibus, porém o tempo de locomoção seria maior.

E nessas viagens sempre tinha algo que acontecia. Hora era um vendedor berrando vendendo um kit de enxaguante bocal e pasta de dentes onde ele prometia que deixaria os dentes brancos em uma semana, a sessões de culto dentro do vagão com direito á pandeiro. Claro, sem falar no mau cheiro, conversas altas, música alta de algum celular e o empurra-empurra. Todo o dia de manhã quando via o vagão se aproximar da estação perto de casa, Rodrigo fechava os olhos e dizia para si mesmo “Um dia eu terei um carro e não vou precisar disso”. Em seguida, esperava a porta abrir e depois se unia a um grupo de vinte pessoas que queriam ao mesmo tempo passar por ela. Rodrigo já havia perdido as contas de quantas vezes havia se machucado nessas brigas diárias por um lugar em pé, porque sentado só se pegasse o trem na última estação. Em sua opinião, era humilhante viajar nessas condições. Mas fazer o quê se não tinha outra escolha.

Certo dia, Rodrigo teve que ficar quase duas horas a mais no escritório, pois estavam arrumando uma grande quantidade de documentos, já que em poucos meses iriam trocar de prédio. Cansado e com a rinite atacando, caminhou pelas ruas noturnas do centro da cidade com os seus olhos dormentes demais para ver, enquanto desejava profundamente chegar o mais rápido possível em casa. Por sorte, ainda tinha movimento na região que naquela hora era considerada perigosa pela quantidade de usuários de droga e bandidos que se escondiam nos cantos escuros dos prédios antigos.

Ao chegar á plataforma se surpreendeu com a quantidade baixa de pessoas. Se tudo desse certo o vagão sairia com todos sentados e com menos de vinte pessoas em pé. Haviam mulheres, homens engravatados que falavam ao celular, alguns idosos e jovens vindo dos cursos e faculdades. Mas dentre todos, uma pessoa chamou atenção. O rapaz deveria ter mais ou menos a sua idade. Era bonito à sua visão e parecia ser uma pessoa interessante. Ele usava uma mochila preta e parecia ter vindo da faculdade já que carregava alguns livros nas mãos. Mas olhando para ele, Rodrigo percebeu que tinha algo errado. Ele estava muito próximo do limite da plataforma. Estava olhando para os trilhos como se procurasse por algo que tinha perdido entre as pedras depositadas ali. Mas então aquela voz feminina anunciou a chegada do trem — “Trem com destino à XXX. Partindo na plataforma YY” — o que fez o rapaz voltar á realidade. Ele respirou fundo, olhou para o trem e para os trilhos. Fechou os olhos e suspirou. Seja lá o que ele tinha na cabeça, Rodrigo percebeu que ele tinha desistido de seguir em frente. Aquilo fez o interesse pelo rapaz aumentar. Agora além de querer falar com ele, Rodrigo queria o conhecer. Queria de alguma forma descobrir no que ele estava pensando.

- Será que ele estava pensando em pular?

Minutos depois as portas se abriram e eles entraram em vagões separados. Como imaginado, ele pode se sentar confortavelmente e apreciar o ar condicionado que dessa vez estava dando vazão. Mas que por outro lado iria fazer mal á sua rinite. Rodrigo tentou esquecer o rapaz que tinha visto e ficou observando o trem se afastar da estação. Mas ao olhar para frente percebeu que podia ver o rapaz no outro vagão através da porta de conexão. Ele estava sentado na parte esquerda do vagão, com a mochila e os livros no colo. Sua expressão era um misto de tristeza e preocupação percebida pela testa franzida. Rodrigo imaginou que talvez ele tenha falhado em alguma prova e estivesse chateado. O rapaz olhou todo o caminho pela janela de onde só desviou o olhar quando o trem se aproximou de uma estação de transferência, onde era possível pegar outro trem que ia em direção à outra zona da cidade. Ele se levantou, pôs a mochila nas costas, esperou a porta abrir e andou para outra plataforma. Rodrigo o acompanhou olhando seus passos de dentro do trem e se sentiu seu coração pular quando seus olhos se encontraram. Foi rápido, mas aquilo mexeu com seus sentimentos. Em seguida o trem partiu levando Rodrigo para casa junto com seus pensamentos.

Por algum motivo, o rosto daquele rapaz não saia de sua cabeça e no dia seguinte, no segundo dia de arrumação do escritório Rodrigo sai no mesmo horário e para sua surpresa lá estavam eles de novo na mesma plataforma. Rodrigo que não tinha coragem de se aproximar do rapaz e o rapaz que continuava triste. Dessa vez iriam embarcar no mesmo vagão. Rodrigo sentia seu coração bater forte com a ideia de ir falar com ele.

- Mas que droga estou fazendo? — pensou – Por que estou fazendo isso? Ele é um rapaz. Se eu me aproximar talvez ele não goste. Pensará que estou com segundas intenções. Mas ele parece precisar de ajuda. E de alguma forma eu quero ajudar.

Ambos entram no vagão, mas se sentam em lados opostos do vagão. A vontade de ir falar com ele só aumentava, mas a coragem lhe faltava. Tinha tudo para dar errado. Seus olhos se cruzaram algumas vezes e cada vez era um salto que o coração dava. Dessa vez ele atendeu ao celular. Rodrigo não podia escutar a conversa, mas parecia algo sério. Quase uma discussão que não durou muito, pois a estação que ele sairia estava chegando. E como da outra vez, ele saiu e caminhou pela plataforma. Porém dessa vez, quando seus olhos se cruzaram Rodrigo teve a leve impressão de que ele sorriu. Mas a dúvida era: Ele estava sorrindo para Rodrigo ou para o celular que ele iria atender em seguida?

No dia seguinte Rodrigo tomou a decisão de ir falar com ele de alguma forma. E pelo terceiro dia seguido estava saindo tarde do trabalho. Mas dessa vez era de propósito. Por mais que não desse em nada, ele queria pelo menos ser amigo do rapaz sem nome. Ele parecia ser uma pessoa inteligente, tranquila e sensível que estava passando por algum problema em sua vida. Rodrigo no momento estava solteiro e gostaria de conhecer alguém interessante, e sentia que o desconhecido poderia ser um começo para um romance, e caso ele não estivesse a fim disso, somente uma amizade já valeria a pena. O importante era que Rodrigo o queria de qualquer forma. Ele não queria sexo. Tinha algo naquele rapaz que despertava a vontade de cuidar dele.

Quando chegou a plataforma, com o coração palpitando, a primeira coisa que fez foi procurar pelo rapaz, Mas não o encontrou. No seu lugar as pessoas olhavam na direção dos trilhos onde estava acontecendo alguma coisa. Rodrigo imaginou que, enfim, o rapaz tivesse recolhido coragem e feito o que estava pensando há dias atrás. Talvez seus problemas fossem tão graves que aquilo tenha sido sua última saída. Rodrigo correu com o coração na boca para onde as pessoas olhavam e pôde respirar aliviado quando viu que nos trilhos estavam os seguranças da estação recolhendo produtos jogados por ambulantes que fugiram da fiscalização. O trem chegou um pouco atrasado e nada do rapaz aparecer. As portas se abriram e a mulher anunciou que o trem sairia em poucos minutos.

- Será que aconteceu alguma coisa? — pensou enquanto olhava o relógio – Droga logo hoje que iria falar com ele... Vamos apareça!

Mas no horário marcado o trem partiu e o rapaz não apareceu. Rodrigo sentiu um misto de vazio e decepção.

- Será que ele está namorando? Deve estar. Afinal ele não é de se jogar fora. Será que ele resolveu os problemas? Tomara que ele esteja bem.

No dia seguinte Rodrigo foi pensando no rapaz e percebeu que talvez fosse melhor parar com essa estranha obsessão. Era hora de cair na real e ir descansar em vez de se aventurar em algo que nunca daria certo. Estava parecendo um stalker. Mas quando ia voltar para a rotina normal de viagem para casa, sua gerente lhe pediu para ficar mais um pouco, pois enfim iriam terminar a arrumação, pois iriam trocar de prédio na próxima semana.

Rodrigo chegou á estação e para sua surpresa o rapaz desconhecido estava lá. Eles se olharam por segundos, e dessa vez teve a certeza que iriam conversar. Mas a plataforma estava cheia e ele acabou se perdendo do rapaz. Rodrigo não perdeu as esperanças já que era sexta-feira e no dia seguinte estaria de folga. Logo poderia ir atrás dele e tentar conversar. Talvez ele aceitasse parar numa lanchonete e comerem juntos, onde poderiam falar sobre seus problemas. Assustado com seus próprios pensamentos, Rodrigo resolveu fazer algo que nem ele estava acreditando. Quando o trem parou na plataforma de transferência, ele tomou coragem e saiu do trem. Ao olhar ao redor, percebeu que o rapaz estava mais a frente, porém era difícil de alcançá-lo com tanta gente.

- Só posso ter perdido o juízo. Se eu continuar vou ser preso!

O movimento de pessoas que iam para a outra região era grande e quando o trem chegou conseguiu apressar os passos e se aproximar do rapaz, mas quando ia lhe chamar foi lançado pela massa de pessoas que o empurrou para dentro do trem que rapidamente encheu. Ao ver que as coisas só estavam piorando, começou a se arrepender e quando pensou em desistir viu pelo reflexo da janela o rapaz que ele não estava muito longe.

- Será que isso vale mesmo a pena?

Rodrigo começou a se perguntar se deveria fazer mesmo aquilo. Não sentia que aquilo poderia ser considerado amor e as dúvidas continuaram perturbando lhe a mente. Afinal aquilo só passava de curiosidade. Ele o atraía de uma forma diferente, não era sexual era pessoal.

Quando a última estação chegou, Rodrigo seguiu as pessoas e procurou a plataforma de onde poderia pegar o trem e voltar para casa. Já havia decidido que aquilo que estava sentindo poderia ser reflexo da pressão no trabalho, solidão e tristeza que ele mesmo estava sentindo. Ao refletir sobre isso, e perceber que rapaz havia sumido no meio da multidão, sua vontade era só de ir embora.

Um pouco chateado, Rodrigo seguiu pela plataforma e quando ia subir as escadas para a outra plataforma, viu que o rapaz vinha na sua direção. Ele seguia o fluxo de pessoas que ia pelo corredor a diante em direção á saída para a rua principal. Ele vinha sorrindo. Um sorriso bonito que fazia sua aparência ainda mais bela. Rodrigo sentiu o coração bater forte, enquanto um misto de emoções lhe envolveu. O rapaz se aproximava como se estivesse em câmera lenta. Num momento ele levantou a mão e acenou na direção de Rodrigo, deixando-o levemente paralisado.

- Ele tá acenando para mim? Isso tá realmente acontecendo?

Rodrigo pensou em acenar de volta, mas sua mão não se levantou. O rapaz estava muito próximo. Estava se aproximando a cada passo e a cada passo Rodrigo sentia o coração disparar. E quando ia falar um “oi” pela primeira vez, tudo mudou. O rapaz passou do seu lado seguindo o fluxo de pessoas para a saída, deixando para trás o cheiro de seu perfume, mas nos lábios o sorriso continuava o mesmo. Rodrigo se sentiu bobo e tentou descobrir quem tinha feito o rapaz sorrir. E não demorou muito para ver que no outro lado da porta giratória o provável motivo de sua tristeza estava o esperando.

O rapaz sem nome correu e abraçou seu provável amor que exibia um sorriso lindo e parecia estar esperando pelo seu amado por um bom tempo. Ambos conversaram por alguns segundos e em seguida andaram juntos. Depois, um beijo rápido na boca, seguido de passos apressados de mãos dadas enquanto atravessavam a rua, denunciavam que sim. O rapaz estava namorando. Talvez o problema de dias atrás fosse algum desentendimento amoroso que agora haviam superado. Ele estava realmente feliz. Rodrigo os vê caminhar juntos até logo depois sumirem no meio da multidão.

Rodrigo sorriu, balançou a cabeça e subiu as escadas para a outra plataforma de onde sairia o trem para a estação onde ele voltaria para o caminho normal em direção á sua casa.

- Acho que vai ficar tudo bem. Não foi dessa vez que peguei o trem em direção á felicidade. Talvez eu estivesse no trem errado ou na linha errada – sorriu entrando no vagão e se sentando num vagão vazio – A única certeza é que nunca mais o verei novamente.

FIM

(^_^)v

By Hikari-Ouji

Notas finais
Olá!!
Sou Hikari-Ouji, como vai?
Esse é minha primeira fanfic One Shot aqui no site. Finalmente consegui fazer um capítulo único, pois toda vez que tento acaba escrevendo três, quatro, cinco capítulos. (não sei dizer se isso é bom ou não).

Toda fanfic que eu terminar vou reservar esse espaço para lhe contar um pouco mais sobre a fanfic em questão, então vamos lá:
A inspiração por trás de Trem de Pensamentos surgiu rápida durante uma viagem de trem até o centro da cidade. Pensei em fazer algo relacionado á trens, mas não queria algo relacionado á morte, então percebi que os trens carregam pessoas cheias de sentimentos e segredos. Felizmente o trem estava vazio e a ideia de ser um romance surgiu quando vi um rapaz sentado no outro vagão. Eu não sei andar de trem e me disseram que se eu precisasse ir para tal região, tinha de soltar em uma estação de transferência (ou baldeação, como dizem por aqui), onde poderia pegar outro trem em outra direção.

Na volta para casa foi o inferno. O vagão veio lotado e eu já estava nervoso por que tenho um pouco de claustrofobia. Então procurei ocupar minha mente com a fanfic. Eu sempre escrevo a sinopse no bloco de notas do celular, mas como estava com medo de pegar o celular, me esforcei para guardar as informações na cabeça. Durante a viagem pensei em como seria os personagens, então vi um homem sentado na minha frente e o usei como modelo. (Obrigado rapaz). E para a imagem do rapaz lembrei que no centro da cidade existem vários jovens que saem de seus trabalhos e faculdades naquela hora (Obrigado pessoal! continuem se esforçando!). Quando saí do trem a história já estava 98% pronta.

O título é uma inspiração do nome de música chamado Train Of Thought de um grupo que gosto muito e sempre me inspira.

Quanto ao final não queria algo muito clichê então decidi seguir a linha de pensamento de que nem sempre estamos viajando no caminho certo e que no meio desse caminho existem várias paradas e diversos caminhos. Quanto á quem seria o amor que esperava pelo rapaz sem nome, deixo novamente que você decida.
Será que era uma garota ou seria um rapaz? Por que será que ele estava triste? Qual era seu nome? Onde se passa a história? Algumas perguntas não podem ser respondidas, assim como nunca iremos saber o que está se passando na cabeça e para onde vão as pessoas que estão dentro do trem.

Obrigado por lerem. Espero que tenham gostado. (Ah! Deixem seus comentários. Gostaria de ver) Fico muito feliz por escrever.

Até logo, Hikari-Ouji.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!