Sempre tive muitas dificuldades em lidar com a minha autoestima, afinal, ela sempre foi muito baixa e em apenas poucos picos ela se mantém em alta.

Mas a poucos meses, eu descobri algumas formas de preencher essa baixa autoestima. Comecei a me arrumar mais, comecei a me sentir tão bonito, apenas de me olhar no espelho, com essas roupas.

Eu apenas escondo minha tristeza embaixo da jaqueta da Vlone. Buscando algum par de Nike que me anime, nesse dia frio de julho. Vivendo de baixo dessa cidade cinza. Onde a chuva esconde minhas lágrimas.

Lágrimas que não fazem sentido, eu tenho tudo, mas este vazio imenso, nunca se vai. Sempre pensei que o dinheiro podia me ajudar, pensei que esses tênis iriam me alegrar, mas não importa o quanto eu gastei, estou apenas pisando na dor. O dinheiro só ajuda a me afundar.

As pessoas me invejam e secam minha felicidade, mas ter tudo ainda não preenche o vazio. Amigos, jordans, dinheiro, carro, ter atenção da família ou um bom emprego. O tudo ainda parece mais nada do que nunca.

Quanto mais roupas eu visto, quanto mais tênis eu compro, me sinto animado, mas é tão breve, alguns resquícios de sensações que fazem isso se tornar um vício. Ninguém pode amar um buraco negro, não pode.

Estes são apenas um dos meus traumas, nunca ser amado, e descontar toda essa raiva em street wear. Mas ninguém reconhece os meus medos, nunca irão entender meus gostos.

Podem me invejar, continuarei seguindo e gastando dinheiro neste Air Force One, enquanto caminho nessas ruas escuras, debaixo deste céu cinza, triste e sombrio, como eu. Olhando meu reflexo nesta vitrine. Pensando que eu irei comprar mais algumas peças de Vlone, Versace ou Palace.

Desculpa bebê, quando estou triste eu gasto notas.

E essa garota é diferente, ela é design de moda. Ela é uma mulher gato, até a forma que me arranha, diz isso. Quero estar cada vez mais bonito pra receber os elogios dela.

Roupas de marca são apenas um fetiche, o que importa de verdade são os sentimentos, e o conforto de ser você mesmo. Mesmo que eu tenha todas esses panos, é tão superficial, uma felicidade momentânea.

Mas os elogios dessa garota, são tão sinceros e profundos, a forma que ela me trata…

Desculpa bebê, estou triste hoje, mas não vou gastar notas.

Eu vou abraçar essa designer de moda e voar pra longe daqui com o meu Jordan One, e o que vocês falam de mim, não me interessa, porque as coisas que essa garota me fala não são apenas momentâneas.

Frases atemporais, mais do que roupas, escutar ela falar sobre seus gostos com tanta empolgação, ver ela desenhar neste belo parque, até me deixa indeciso sobre qual beleza se sobressai.

Natureza x Ela.

Natural como a natureza. Do jeito que eu sempre quis. Ela levanta da minha cama com a minha camisa larga da Vlone, e vem em minha direção para me conceder a graça do seu beijo.

Roupas e tênis nenhum, me traria a felicidade que essa garota me trás.

Em decadência diária, a autoestima despenca de seu lugar primordialmente fresco e empata com a ordem do consumismo. Sentir-me bonita, de corpo e alma, é a última, se não a mais vaga, sensação que já presenciei em minha vida. Arrumando-me com vestes ousadas, vestidos que chegam a me acinturar ao ponto de danificar meu elástico, vejo neste espelho outra pessoa. Não mereço aquela beleza, mesmo que pague por ela diariamente. Igualmente aos gananciosos, não passo da dependência perpétua. Vivo noites como se fossem dias, troco vidas por músicas e um rebolar do quadril, tudo em um momento só, como se fosse infinita a farsa.

"Parece uma boneca de tão linda"

"Deus tem seus preferidos", disseram. Assim como também me encheram de:

"Você poderia ser modelo se não fosse tão gorda."

"Um lado é menor que o outro, fica feio."

"Seu sorriso é bonito, mas tuas bochechas são enormes."

Me fizeram acreditar em todos os vocábulos recolhidos. Me permiti isso depois de alguns anos. Quando tanto se escuta, dificulta acreditar além do que lhe magoa. "Uma luz ao seu interior te ajudará nesse acaso", mentiram. Nada me ajudou quando um parasita devorou meu cérebro para que distorcesse meu espelho. Como se não bastasse o superficial, por dentro não existia nada contraditório. Eu sempre fui feia, horrenda, um monstro de sete cabeças. Sou pobre, pobre emocionalmente. Confusa, burra, estúpida. Não tenho o equilíbrio essencial para comandar o que faço.

Não mereço elogios. Sou uma pecadora, sou eu quem deveria manter distância de almas tão belas. Confusa, sirvo apenas de aparência. Não quero mais me envolver com emoções, nunca. Usem meu corpóreo, eu prometo trabalhar essa carcaça para que fique perfeita, eu juro. Vou emagrecer, vou sair da mesa com toda a fome requisitada para isso. Não terá uma mulher, terá um objeto. Não aguento ser humana.

É tudo voltado para o superficial, sempre julguei a capa antes de ler o livro. Esse, por vez, é repugnante, sentirá nojo dele. Não precisa ler, compre-o por decoração. Seja um colecionador habilidoso, um objeto não tem vida e nem valor para retrucar tuas escolhas. Só a opinião vale, me aprecie. Eu sou perfeita ao teu paladar, não sou? Você me tem na palma de tua mão, uma marionete deslocada a partir de teus gestos.

"Só não esqueça de mim, tudo bem?"

"Eu quero ser perfeita para ti."

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!