Trauma
1 Vazio Prematuro
Minhas mãos nunca soaram agradáveis ao escrever fora do papel. Sem um caderno e uma caneta parece haver uma desconfiança nessa troca de palavras, uma espécie de insegurança. Não sei como descrever essa sensação estranha, e nem pretendo perder meu tempo tentando.
A única coisa que quero declarar agora é como eu me odeio. Cada dia mais pensativa, cada dia mais solitária. Me afogo nas próprias mágoas de memórias que mal recordo.
Memorável mesmo são os traumas, partículas pungentes de uma lâmina invisível. Não só uma, como várias. Elas penetram em seu corpo, indo tão fundo que se aproximam dos mais belos e preciosos órgãos. E, sem que alertem o neurotransmissor, sua aparência também se contorce.
Cada dia mais triste, cada dia mais distante da sua antiga vida. Não é como se fizesse tanta falta, já que, para que entrasse numa fria, já se encontrava com o nome anotado na pior das listas. 'Você se colocou lá, aceitou a proposta suicida', podem pensar. Mas, acredite, ninguém implora por um vazio tão grande no próprio peito.
Um que você pode sentir a brisa atravessá-lo, como se o buraco crescesse cada dia mais sem a tua permissão. Seu corpo é seu. Mente, alma, espírito.Tudo isso te pertence. Mas você consegue controlar tudo que é seu? Lentamente, agressivo ou pacífico, o conjunto inteiro se entrega à falta da própria consciência.
Você não se sente mais. Não quer se sentir. Se o fizesse para agradar alguém seria mais fácil do que uma convicção própria.
Mas você terá alguém para agradar a essa altura?
A essa altura acredito que nada aqui vai me agradar. Tudo aqui vem caminhando tão bem, mas já nem sei se eu ando bem.
O olho baixo é preguiça, eu juro, não repara se eu chorar mais. Está tudo bem, eu juro, e se não estiver… Vai ficar.
Todas as coisas que eu quero, nunca dão certo. Eu destruo todas as coisas que eu toco, todas as pessoas que me aproximo. Não consigo me sentir bem com as minhas escolhas, durante toda a jornada sempre me senti dessa forma.
Não importa o quanto eu me esforce, tudo aqui é tão vazio, solitário e escuro. Esse sentimento de derrota é tão constante que me faz crer fazer parte de mim. Imagina só como todo esse inferno que jaz aqui dentro da minha mente parece reconfortante em meio a solidão.
Aceitando uma proposta suicida, e mesmo que todos pensem que nós nos colocamos lá, nunca entenderam que:
Sentir esse vazio, é desesperador.
Não é como se pudéssemos ver algum feixe de luz para nos guiar.
Não temos controle sobre nada.
Sentimos como se não conseguíssemos nem ver nosso reflexo no espelho, pois temos vergonha do que vemos.
Somos patéticos.
O vazio é imensurável, me pergunto se há formas de contê-lo.
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