Trapped in Nightmares
6 ''Eu sou um fantasma''
Notas iniciais
06
É natal. Percebo isso por causa das luzinhas espalhadas por toda a cidade e as canções natalinas sendo entoadas por um coral de crianças achando que estão afinadas (mas não estão) de uns nove anos na porta da casa de dois velhinhos que assistem a apresentação. Emocionados.
Ando cambaleando por um ou dois quarteirões estou ferida e trêmula de frio, as pessoas passam por mim assustadas, uma garotinha perguntou para a mãe: ‘‘Mamãe, por que aquela mendiga está toda machucada?’’. A mãe repreendeu a menina e as duas saíram andando. Sem condições de continuar andando, sento-me num banco cheio de neve, continuo tremendo, sinto meus dedos dormentes endurecendo e congelando. Consigo ver meu reflexo da janela de uma casa. Estou com a boca roxa. Depois de algum tempo, um garotinho que andava com três grandes cobertores de lã em seus braços (tão grandes que quase tampavam seu rostinho) passa por mim e diz:
— Toma moça. — Ele pega um dos cobertores e me cobre. Não estou em condições nem de me mexer.
— Filho! Esses cobertores são para necessitados! — A mãe fala.
— E ela por acaso é rica? — Isso fez com que a mãe calasse a boca e os dois continuaram andando. Por sorte, o menino me deu o cobertor mais grosso. Consigo a andar por mais algum tempo. Chego até em casa. Abro a porta e entro. A casa está quente. Um peru sendo assado no forno. As luzes de natal na árvore e espalhadas por toda a casa. O cheiro do peru me deixa com a boca cheia de saliva. Olho para o relógio e fico surpresa com a data. Vinte e quatro de dezembro de 1994. Oito horas e quatro minutos. Eu nem tinha nascido nessa data. Então como estou aqui?
Meus pensamentos são interrompidos quando a porta se abre, o ponteiro muda para 20:05. Quem entra pela porta é um homem ansioso e relativamente bonito. Ele faz a mesma coisa que eu, sente o cheiro do peru, observa a árvore e depois sobe a escada. Percebo que não posso ser observada. Ele não olha para mim. Acho que sou algum fantasma, mas depois estudarei mais sobre isso. Subo as escadas junto a ele e escuto o barulho do chuveiro e uma música.
Ele entra no quarto e eu continuo seguindo-o ele tira sua jaqueta e eu me viro para o lado para não vê-lo se trocando, alguns segundos depois eu vejo que ele tira os seus sapatos e joga em minha direção. O sapato atravessa o meu corpo. Assustei no começo, mas depois percebi que ele não me vê e jogou os sapatos porque é ali que fica a sapateira.
Ele abre a porta do banheiro, não vou até ele, mas espero ele entrar até escutar alguns gritos de desespero. Corro até lá e vejo a cena mais frustrante de todas. O homem apanhando é o meu pai, Phillip, ele está nu, com a cabeça sangrando. Minha mãe também está nua, chorando no canto do banheiro, ela corre até o quarto e pega o sapato do homem volta ao banheiro depressa e joga o sapato em sua cabeça. O homem, furioso, vira para minha mãe e começa a esmurrá-la, bate tanto nela. Eu tento impedir, mas sou apenas um fantasma. Minhas lágrimas jorram dos meus olhos como a água sai da mangueira do carro dos bombeiros. Ele bate nela por mais alguns segundos e para. Agora os observa, ela ao lado do meu pai chorando diz:
— Me desculpe, Larry.
— Sua vadia. Eu te odeio. — Ele chora incontrolavelmente e, em seguida, sai de casa. Correndo. Ela continua observando meu pai inconsciente. Vai cambaleando até seu quarto, onde chama a ambulância. Depois de alguns minutos, o socorro chega, ela é atendida na porta de casa mesmo, só teve alguns cortes e arranhões, nada grave. Já o meu pai, teve que ir até o hospital, mas mamãe não foi com ele, permaneceu em casa. Ela senta na cama e chora. Chora de um jeito que nunca tinha chorado antes. Ela está tão nova, e bonita, mas seu rosto está vermelho por causa do choro compulsivo. Ela tira de dentro do guarda roupa um caderno, e lá escreve muitas coisas, chora e derrama lágrimas nas folhas. Volta e guarda no mesmo lugar. O cara, que se chama Larry volta meia-noite.
Ela chora arrependida olhando para sua aliança. Também choro. Larry chora como nós. O banheiro ainda está sujo com o sangue do papai. Larry olha para mamãe.
— Não, você não o matou, Larry. — Ela responde sem mesmo que ele pergunte.
— Por que fez isso, Jeen?
— Me desculpe, estou arrependida. Vamos recomeçar, eu imploro Larry. — Ela soluça.
— Não, eu não amo mais você. — Tenho certeza de que ele a ama. Não conseguimos esquecer alguém tão instantaneamente.
— Vamos continuar vivendo juntos então. Pelo menos isso Larry.
— Você vai dormir no sofá. — Ele responde friamente sem olhar para seu rosto.
— Obrigada, Larry. Eu ainda amo você. — Ele não responde.
Agora toda a sala fica escura. Preta. Eles desaparecem. Caio na sala de estar e olho para o relógio. Três meses se passaram desde tudo o que aconteceu. Minha mãe está na pia lavando a louça. Tudo está calmo. Escuto então gritos.
— Positivo! —Alguém está berrando. A pessoa grita palavra positivo mais algumas vezes e ouço o começo de um choro.
— O que houve Larry? — Minha mãe bate na porta do banheiro e ele abre a porta, grita positivo mais uma vez, da um tapa eu seu rosto e ela cai no chão. Joga um teste de gravidez nela e sai correndo de casa. Corro até o teste de gravidez e lá está escrito positivo. Em seguida sigo Larry, ele corre demais e não cansa. Mas eu também não, acho que é porque eu sou um fantasma, mas mesmo sendo um fantasma, quando tropeço e caio, meus dois joelhos ralam e meu pijama rasga (sim, eu estou de pijama). Ele corre por toda a cidade e vai até o prédio grande que as pessoas chamam de arranha-céu mas não tem nada a ver com um arranha céu (é pequeno demais) e ele olha por lá. Joga a sua aliança e grita:
— A vida é uma merda. Te odeio Jeena! — Pula do prédio. E morre. Algo me empurra de lá e eu também caio mas pareço estar flutuando alguma força me deixou lá, parada no meio do prédio. Parece até que estou na lua, sem gravidade.
— Você acha certo o que a sua mãe fez? — Alguma voz me pergunta.
— Quem é você?
— Eu faço as perguntas por aqui.
— Não. Não acho. — Me rendo e respondo.
— Você foi o resultado daquela traição. Foi o resultado da minha morte.— Ele aparece na minha frente.
— Mas...— Ele desaparece como pó.
Então é isso! Só estou sonhando, tudo ficará bem quando eu acordar. É só mais um dos meus sonhos malucos. Apenas.
Eu volto a cair e no último segundo, o asfalto vira mar e eu caio em um oceano. Nado até chegar em terra firme. Meu joelho está latejando. O sal do mar faz com que eles queimem. Deito na areia exausta. O sol seca minha roupa encharcada. Gaivotas gritam. Durmo ao som das ondas do mar se quebrando nas pedras perto da areia.
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