Transcendentais

2 Capítulo 2 - Han


Entrei em estado de choque, meus músculos não cooperaram com os meus comandos, queria sair correndo, mas não conseguia. Meus olhos ficaram vidrados naquela "coisa" que dizia ser a minha amiga.

Eu tenho que sair daqui, senão serei a próxima refeição.

Virei de costas e corri de volta para o hall, deixando a cozinha sem olhar para traz. Estava pasmo e meu sangue fervia adrenalina que sem querer, ao chegar no hall, cai no chão com um baque de joelhos. Se fosse em outra situação, teria ligado para esse tombo, mas apenas olho pra traz e nada vejo, nem sons, parecia que eu era o único nessa casa. Voltei a levantar e vi que meus tênis estavam desamarrados, motivo pelo qual eu cai.

Estava a passos de chegar a porta e rodar a maçaneta, quando esta se abriu e Etrom estava la, esperando por mim. Sua boca e camisa ensopados de sangue. Ela olha em meus olhos e sorriu com desdém.

Empurrei a porta contra ela, burrice, pois ela impediu esticando o braço e jogando a porta de volta com força, que só parou quando atingiu a parede. Meu joelho tremendo enquanto eu tentava subir correndo as escadas, mas acabei caindo nos primeiros degraus, algo segurou minha perna.

Etrom estava agachada segurando o meu pé com as duas mãos firmes. Estava apertado demais. Tentei me soltar, mas a força de seus dedos em meu tornozelo me impedia de conseguir o ato.

Soltei um grito, mais pela fúria que sentia do que pela dor. Estava sentado quando empurrei o meu pé para frente e acertou o nariz de Etrom, sentido o osso do mesmo quebrar. Ela me soltou e perdeu o equilíbrio entre os degraus e caiu acertando a cabeça em uma mesinha de vidro perto da escada, penetrando cacos em seu crânio.

Morta?

Sai da Mansão Foster, sem querer relar em Etrom. Quando abri a porta da minha casa, Elisa estava sentada em sua poltrona na sala e me observou enquanto eu subia as escadas para o meu quarto.

Sentei na cama e a primeira coisa que fiz é chorar, pensando em uma solução de como sair dessa casa, dessa cidade, mas nada, apenas lágrimas. Precisarei fugir, me esconder, pois quando acharem o corpo de Etrom vão me acusar, pois Eddy sabe que eu estava com ela pouco antes do acontecimento.

Elisa apareceu na porta. Maldita hora em que eu deixei a porta aberta. Me virei de costas para poder mexer no guarda-roupas escondendo minha cara de choro. Procurei algo de útil para colocar em minha mochila e fechei.

– Onde você pensa que vai? Preciso conversar com você.

– Por favor, Elisa, preciso sair logo daqui. Não tenho tempo. E o que você tivesse para me falar devia ter me falado antes. Não tenho mais tempo para você. — falei, colocando a mochila nas costas.

– Eu sabia. Você quer me deixar como o seu pai fez? — vociferou ela com total nojo.

Olho em seus caídos olhos, vejo que ela está preocupada e decepcionada, algo que ela nunca sentiu em relação a mim. Enquanto passei por ela, senti a vontade de abraçá-la, mesmo ela talvez não gostasse do abraço. Essa poderia ser nossa última vez junto, lado a lado, caso algo de ruim acontecer comigo. Mas o que fiz foi apenas sorrir incorrespondentemente.

– Antes que vá, preciso mostrar algo a você. — diz Elisa. Não consegui decifrar suas expressões e as suas intenções. Ela pegou minha mão esquerda e me puxou até as escadas, descemos e Elisa nos conduziu até a cozinha.

Elisa procura algo em seu bolso da calça e tira uma chavinha que entra na fechadura da porta misteriosa, que pensei que ali seria a despensa de comidas.
Quando a porta se abre, consigo ver uma escada que desçe até a escuridão. Nunca fiquei tão curioso como agora, porque ela escondia esse lugar de mim?
Elisa desçe as escadas sem problema e lá embaixo acende velas em castiçais, não consigo ver direito o que tinha por la, parecia, a luz fraca, correntes e cordas.
Desço as escadas e ao pisar no piso de pedra, observo o local boquiaberto. Sinto uma dor na nuca, enquanto sou empurrado para o chão e dessabo com muita dor.

– Acorda, acorda... — diz uma voz que reconheci rapidamente, a mesma voz que me acorda todo santo dia para ir para a escola, abro os olhos com força e vejo que Elisa está batendo em meu rosto, dando tapinhas para me acordar.
Minha cabeça latejava e a visão ficou embaçada. Sinto a mão de Elisa em minhas bochechas e em meu cabelo, algum sentimento relacionado a afeto, que não reconheci. Quando tento expulsá-la, minhas mãos não se movem, apesar de obrigá-las a fazer e não consigo chegar até a mão de Elisa.
Olho em volta, estou de joelhos, com os pés presos por correntes e as mãos amarradas por uma corda. Estou preso, indefeso.
Agachada à minha frente está Elisa, paranoicamente fazendo carinhos e afetos em mim. Grito, mas percebo que minha boca está tampada por uma fita adesiva.
– Shhh... Acalme-se, está tudo bem, você não vai me deixar... — diz Elisa com um longo sorriso de felicidade. Com certeza ela indoidou. — Estamos todos juntos agora, vai ser só você e eu, pelo resto da vida!
Me debato o maximo que posso, mas quanto mais movimento, mais dor eu começo a sentir. A mão de Elisa segura as correntes que prendem os pés e puxa com força. A dor é tanta que começo a chorar enquanto grito loucamente.
– Se você não parar de se mexer vai acabar se matando! — gritou Elisa.
– Você tambem!
O sorriso que estampava o rosto de Elisa se esvai enquanto ela vira de costas para ver quem estava falando e uma faca perfura seu estômago atravessando-o, espirrando sangue em tudo, inclusive na minha cara.
Grito ao reconhecer o novo membro do recinto. Etrom larga a faca e deixa o corpo se espatifar no chao, ela abre um sorriso. Seu nariz tinha assumido outra forma depois do meu chute, torto e escorria muito sangue, ja nos seus cabelos embaraçados estavao os restos da mesa de vidro. Ela parecia nao sentir dor e nem sequer ligar para isso.
– Sentiu saudades? — ri Etrom, enquanto beija minhas bochechas e arranca a fita adesiva com os dentes. Isso é sensualmente medonho.
– Me solta... — replico.
– Tão fácil assim? — pergunta Etrom. — Você não quer entender tudo que está acontecendo?
– Por favor... apenas me solte!
– Não — diz ela brava, essa não era a resposta que esperava. Etrom cariciava meus cabelos com suas unhas pontiaguadas — Estive procurando por você, e não foi díficil, sabendo seu nome a busca foi moleza, além disso você não está longe de onde eu vim...
– Porque eu?
– Não interrompa, Joe. Bem, estou aquilo por pedido da Rainha Morte! — começa ela — Vim de um lugar chamado Transcendental onde pertenço, estou comprindo a missão dada por ela.
– Que missão seria? — digo, sem emoção. Preciso de tempo, vou ter que enrolar para que a ajuda chegue, se caso ela chegar.
– Matar você é claro. Venho lhe observando e esperando o momento certo. Sei de sua rotina, seus costumes e pensamentos, por isso eu sabia do chiclete de morango! — disse Etrom. — Para falar a verdade, ri das suas caretas ao comer o cereal. Se tem uma coisa que adoro é dar boas gargalhadas, mas não vem ao caso.
"Esperei o momento certo, não podia arriscar ser descoberta na missão, entao me fiz de menininha solitária e deprimente, até que conheci você, a minha interpretação estava tão convincente que você caiu nessa e se tornou "meu amigo" — cuspiu as últimas palavras com nojo e arrogância — Meu plano estava funcionando e precisava de um momento as sós com você, então contei sobre a sua infeliz vida para Bryan, sabia que ele não deixaria isso em segredo e tinha que jogar na sua cara!"
– Então foi você que contou isso?
– Claro, eu sabia que ele não relaria a mão em você, porque ele só tem tamanho e não tentaria nada por ser filho do diretor. Então deixei que você partisse para a briga. Pensei que seria expulso por isso, mas não, você foi suspenso por um dia. Esse dia chegou e aqui estamos, você terá uma morte digna e prometo levar a sua cabeça para a Rainha Morte. — disse Etrom, se sentando na minha frente e podendo olhar nos meus olhos.
– Mas, quem é você? E quem é essa Rainha de que tanto fala?
– Sou uma Hunssin, caçadora assassina, e fui contratada para efetuar um serviço digno de prestígio, se eu voltar com a sua cabeça em mãos serei agradeçido infinitamente. Mas estando nesse mundo, tenho que satisfazer outras necessidades para sobreviver, preciso tomar sangue humano para que minha energia, minha mente e meu corpo funcione. Em Transcendental, há outras leis da natureza e o pouco que convivi nesse mundo, notei que fora os monstros e a forma de governo, somos totalmente iguais. Nesse mundo também matam para sobreviver, só que animais. — começou Etrom — Nunca ninguém sai de onde eu vim, talvez por ter medo do que encontrar por aqui, mas eu gostei, esse mundo está em ruínas assim como o meu.
– Você é louca! Como isso tudo pode ser verdade?
– Sim, todos temos um pouco de loucura em nossas mentes e você tem uma mente muito atrofiada, seja mais esperto, você nunca pensou se existiria outra vida fora essa que você vive? Sim, existe. Mas não preciso lhe dar muitas explicações, já que eu vou te matar — disse Etrom, com um sorriso escancarado.
– Mas porque me matar, sou tão especial assim? — pergunto curioso, se minhas contas estiverem certas ja devem ter se passado uma hora aqui embaixo e com certeza mais tempo enquanto estava desmaiado. Preciso enrolar ainda mais, pois tenho que mater a confiança de que alguém irá abrir a porta do porão e matar essa coisa parada na minha frente.
– Você é o único que pode matar a Rainha Morte, a mais poderosa das Rainhas de Transcendetal. Ela governa o nosso mundo, com suas próprias decissões e escolhas, ninguém se opõe a ela. Nem mesmo as suas irmãs, a Rainha Guerra, a Rainha Peste e a Rainha Fome, todas tem o seu valor. Você é o único que pode matá-la e acabar salvar todos de seu poder. Por isso tenho que mata-lo!
– Mas juro, nunca vou por os pés nesse lugar aí... Transcen... alguma coisa. Eu juro, me solte por favor! — digo, talvez a ajuda não venha e vou ter que me virar, não posso desistir, mas a hora de agir está quase chegando.
Olho em volta a procura de alguma forma de escapar ou de matá-la. Mas não tem nada, apenas o corpo de minha mãe com a faca cravada. Isso, a faca!
Etrom se levanta e diz: "Vamos acabar com isso" e se empulera atráz de mim e começa a desfazer o nó da corda que prendia meus pés. Posso senti-los livres.
– Não faça nenhuma graçinha, senão vou matá-lo mais rápido. — diz Etrom pegando pelo colarinho da camisa e me pondo de pé. Ela puxou a gola liberando um espaço para morder e assim fez.
Sinto minha pele se rasgando e uma dor me consumiu, mas a intensidade da dor foi diminuindo enquanto ela chupava. Preciso agir, antes que não de tempo e eu acabo sendo esgotado.
Levanto um dos pés com cuidado e esfreguo na outra perna conseguindo arrancar um dos tênis. Cada movimento que fazia, eu gemia, pois minha perna latejava e os nervos do ombro repulxavam. Com um pé livre, puxo a faca do estômago de Elisa, precisou de varia puxadas mas conseguo.
A única maneira de me livrar da mordida de Etrom seria se ajoelhar e assim conseguir pegar a faca com as mãos. Então, me ajoelho e sinto o alívio da saída dos dentes de Etrom. Ela bufa por eu ter interrompido a sua alimentação.
– Preciso acabar logo, você nem está conseguindo ficar de pé!
Suas palavras me proporcionou mais tempo e não precisei de muito para agir, apesar da dor que voltara. Levo a faca que está entre os dedos do pé para a mão direita, não foi díficil e Etrom nem percebeu o que eu estava fazendo. Ela me puxou denovo e voltou a me morder com mais força que nunca.
Grito.
Seguro forte a faca em minha mão direita mesmo estando amarrada. Levanto a faca e faço um movimento, em direção a meu ombro esquerdo, como se fosse me enforcar e acerto os olhos de Etrom, deixando a faca enfiada. Ela grita e cambaleia, esbarra nas minhas costas e dou um passo torto para o lado, meu pé torce e bato a cabeça em uma das paredes e a escuridão me toma.

Ouço sirenes ao longe, será que esse é o paraíso? Mas as sirenes me despertaram e percebo que estou vivo, estou deitado no chão frio de pedra, mas nenhuma corrente ou corda me prendendo e nenhuma dor de meu ombro.
O corpo de Etrom havia sumido e Elisa estava deitada morta ao chão, com a faca no mesmo lugar de antes. Puxo o colarinho da camisa e vejo apenas sangue, mas nada de mordida. Os furos das presas desapareceram ou será que nunca existiram? Estaria contente se tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Mas não era.
Mas onde está o corpo de Etrom e onde está a sua mordida em meu ombro. Parece como se ela nunca estivesse passado por aqui, mas quem teria tirado seu corpo, não é possível alguém ter entrado aqui embaixo, só se a Etrom estivesse viva, mas muito improvável.
Com um estrondo, a porta se abre e das escadas desçe dois policias armados apontando seus revolveres para mim e olham o perímetro, petrificados ao ver o corpo de Elisa no chão.
– Joe, você está preso!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.